A gente luta porque a comunidade LGBT já foi muito marginalizada ao longo da história. Por mais que a gente já tenha conseguido bastante coisa, tem muita coisa pra conquistar. E não podemos ser discriminados, cerceados ou violentados no nosso dia a dia.
A gente tem caminhado, a gente ainda tem muito a construir, muito ainda a . . .
muitos passos a ser dado nessa caminhada. É uma trilha. A gente não quer mais e não quer menos.
A gente quer simplesmente ser igual. Eu acho que as pessoas tinha que ter a mente mais aberta. O mais importante é a gente poder respeitar o nosso próprio sentimento e ter a libertadade de viver da forma que a gente achar melhor.
A partir dos 10 anos eu já me percebia diferente na questão da sexualidade, mas não entendia o que era. Sempre brinquei de boneca, sempre brinquei com coisas relacionadas à menina. Nunca me identifiquei enquanto menino.
Quer dizer, às vezes eu virei travesti? Acho que eu nasci travesti, porque quando eu era criança as pessoas me confundiam com menina. E na minha adolescência a mesma coisa.
Então não teve essa coisa de . . .
ninguém se espantou quando meu cabelo tava lá na cintura, que eu tava de peito. Meu irmão não me quis por entender que eu era gay. Me deixou debaixo de uma árvore, com a mala, porque disse que não poderia ficar perto da família porque eu envergonhava a família.
Houve momentos difíceis, assim, de separação de família por essa questão. Mas quando eu olho hoje elas foram muito importantes pra mim. Eu vivi na Alemanha, vivi na Itália, vivi na França.
Viajei muito, conheci o mundo. Se eu tivesse ali, apegada à minha família, eu não teria tido essa experiência. Nunca quis fazer a cirurgia de readequação.
Eu nasci mulher num corpo masculino e eu fui adequando enquanto dava. Meu nome é Renata e pra mim basta. Pra mim basta.
Eu respeito e jamais vou falar contra quem quer fazer, que não se sente bem vendo seu peito e seu pênis. Se sente mal vendo os dois. Eu não sou infeliz com meu sexo.
As pessoas é que às vezes são, querem me transformar numa coisa que elas seriam felizes. Eu não sou mulher, eu não sou homem. Eu sou transexual.
Eu vim tentando justamente mostrar pra sociedade que você pode ser uma trans, mas você pode ter várias profissões, você pode ser uma pessoa digna enquanto qualquer outra. Não é a sexualidade que determina o seu caráter. É a sociedade que impõe isso.
As pessoas precisam parar de olhar pra mim enquanto sexo. E olhar pra mim enquanto ser. O que é que eu posso dar?
Em 2007 eu sofri uma agressão, aqui em São Paulo, violentíssima por nove pessoas, na praça da República. Eu tomei um chute e eu perdi um rim. Sou representante da Associação, da CAIS.
E ela justamente, a Associação surgiu depois dessa minha agressão. Olha, sem medo de errar eu falo pra você: eu não conheço ninguém que não tenha sido agredido. Você morre porque você é gay.
Você morre porque você é travesti. Você morre porque você é gay. Você morre porque você é transexual.
É por isso que você morre. O CRD, que é o Centro de Referência e Defesa da Diversidade, é um braço social do Grupo Pela Vida. E eu trabalho acolhendo essas pessoas.
A gente faz mil situações ali de esclarecimento. Eu como falo muito, trago muito texto, a gente discute muito. Ninguém respondeu pra eles nem explicou pra eles por quê.
Porque eu tô com 66 anos e eu não sei por que que eu sou travesti. Eu não sei por que que eu sou homossexual. Eu trabalho inclusão social com excluídos.
Por que que eles são excluídos? Simplesmente porque eles não são heterossexuais. E aí como é que você trabalha?
Por exemplo, eu tenho uma travesti que é inteligentíssima Aí eu vou incluir essa travesti aonde, em qual sociedade? Se vou pras empresas, as empresas não querem. Então o CRD ensina ela a falar francês, inglês, italiano.
Ensina ela a costurar, ensina ela a fazer yoga, ensina ela a fazer DJ, ensina ela a bordar, a costurar, a fazer artesanato, que a gente tem sempre essas coisas no CRD, e. . .
depois ela, com todas essas qualidades, ela vai pra onde? Ah, eu tenho um emprego de faxineira lá no metrô, qualquer coisa. Então aí, ela com 18 anos ela descobre que ela só vai ser faxineira.
Tem que ser uma reviravolta no mundo, na humanidade, na sociedade, pras coisas darem certo. Não há elemento na sociedade a ser rejeitado. Aquilo que espanta, aquilo que dá asco é gerado por nós, né?
Toda sorte de violência é gerado por nós. Então por que que a gente gera espinhos se a gente pode gerar flores, né? É tão mais simples.
Seria tão mais fácil.