Eu, Letícia, filha de pais separados, fui criada pela minha mãe, Lorena, uma mulher de sorrisos contidos, como se tivesse aprendido a sorrir apenas nos momentos em que ninguém estava olhando. Ela trabalhava como recepcionista num posto de saúde, levantava cedo e nunca me deixou faltar nada, mesmo quando o dinheiro apertava. Mas nos bastidores daquela vida modesta havia um vazio que ela tentava preencher, tentando encontrar algum companheiro.
Cada um deles passou como um vento de outono. Uns traziam flores, outros promessas, alguns até ajudavam em casa com dinheiro, mas nenhum deles me olhou como se eu fosse parte do lar. Sempre houve um silêncio entre nós, [música] uma distância que eu mesma construí com olhares frios, portas fechadas, respostas monossílabas.
Eles não entendiam que eu era uma pessoa que aprendeu a não acreditar em tudo tão facilmente. Até que veio Rodrigo. Ele apareceu numa tarde de chuva fina com um guarda-chuva preto esquecido na porta da nossa casa.
Mamãe tinha ido buscar um remédio para mim, uma gripe insistente que me deixou febril por três dias. E ele, farmacêutico, [música] se mostrou verdadeiramente preocupado comigo. E foi assim, aos pouquinhos, que ele foi entrando em nossas vidas.
Ele voltou no dia seguinte e no outro, sem pressa, sem exigências, [música] aprendia sobre nossas preferências e nunca, nunca tentou substituir meu pai, nunca disse: "Eu te trato como se fosse minha filha". Ele só estava. E aos poucos isso começou a fazer mais sentido do que todas as palavras dos outros.
Mamãe sorria mais. Não aquela risada forçada que ela usava para disfarçar cansaço, mas uma risada verdadeira, a que vinha do peito, que fazia os olhos se encherem de leveza. Aos sábados, passava à tarde no sofá da sala, lendo enquanto ele assistia a documentário sobre o mar.
E ele não reclamava quando eu pegava o controle e trocava para um filme de princesas que eu amava mesmo depois de grande. E pela primeira vez na vida, eu não me senti como uma intrusa. E o amor dele por minha mãe parecia tão verdadeiro.
E o tempo foi passando, lento, como o mel escorrendo de uma colher doce e inevitável. As paredes da nossa casa, antes tão silenciosas, passaram a ecuar risadas. As de Rodrigo, profundas e calmas, as de mamãe, leves, como o som de um sino distante, e as minhas às vezes [música] até eu me surpreendia com elas.
Não eram mais aquelas risadas contidas, [música] engolidas no fundo da garganta, mas sim as de alguém que finalmente se permitiu existir sem medo de ocupar espaço. Rodrigo e mamãe se casaram num sábado de outono. Nada de festa extravagante, nem vestido branco.
O casamento foi no pequeno cartório da cidade, mas foi o mais real que já vi. Quando ele a beijou, ela chorou, não de tristeza, mas de alívio, como se finalmente tivesse sido reconhecida. Como se, depois de tantos anos de luta, alguém tivesse dito: "Você merece ser feliz [música] e eu vou te ajudar a ser".
Na semana seguinte, ele nos pegou pela mão, literalmente. Nós duas, em silêncio, o seguimos até a sala, sentamos na mesa e ele disse: "Vamos viajar sem rodeios, Rio de Janeiro, três dias, só nós três. " Fiquei parada.
O coração bateu mais rápido por emoção, mas também por medo. Medo de ser a terceira roda no carrinho. Medo de que mesmo depois de tudo, eu ainda fosse um incômodo.
Eu que nunca tinha saído de Minas, que só tinha visto o Rio nas telas de TV, nas postagens do Instagram de amigas que iam para Copacabana com os namorados. Eu que nunca tinha pisado na areia, nunca tinha ouvido o som das ondas quebrando na pedra da gávia, nunca tinha sentido o cheiro de pão de queijo com azeite de dendê nas feiras da Lapa. "Eu não preciso ir", eu disse baixo, olhando para os pés.
"Já tenho 19 anos. Posso ficar aqui? [música] A casa está em ordem.
Posso cuidar dos gatos, da planta, da fachina. E vocês dois merecem um tempo só de vocês. Rodrigo respondeu logo.
Letícia, ele disse e seu tom era tão suave que quase me fez desmoronar. Você acha que eu casei com sua mãe para ter um casal de férias? Ele sorriu.
Eu casei com ela porque ela é a mulher que me ensinou a ser melhor. E você? Você é parte da família.
Ele pegou o envelope e abriu. Dentro havia três passagens aéreas, dois quartos no mesmo apartamento, na barra da Tijuca, com vista para o mar. "Você não é uma convidada na nossa vida, Letícia, e não vamos viajar sem você".
Mamãe, que estava ao lado dele, com as mãos no ombro, sussurrou: "Quero que você veja o mar. Eu não quero ir sem você, filha. " Então, aceitei.
Na semana seguinte, estávamos dentro do avião. Eu me mantive perto da janela, com o casaco apertado no peito, como se ainda pudesse me esconder dentro dele. O avião decolou quando olhei para baixo Minas.
Minha terra de montanhas cinzentas e estradas que pareciam cicatrizes na terra foi se desfazendo em nuvens. Mais tarde, finalmente chegamos ao apartamento na Barra da Tijuca. O apartamento era grande, claro, cortinas brancas que dançavam com o vento e uma varanda que parecia flutuar sobre o oceano.
Naquela noite, comemos frutos do mar na varanda com limão e pimenta. Mamãe ria alto, desabotoava a blusa até o terceiro botão e dizia que nunca havia comido camarão tão fresco. Rodrigo me contou histórias de quando era garoto em Santos e como aprendeu a nadar com o tio que era pescador.
E eu eu também falei e eles me ouviram como se eu fosse importante. Minha voz, minhas memórias, tudo tivesse peso. No segundo dia, fomos à praia de Copacabana.
Eu me descalcei na areia e fiquei parada, como se o chão fosse me queimar. A areia era quente, fina, quase como pó de ouro. E quando a onda veio, me pegou nos tornozelos, eu gritei: "Não de medo, mas de surpresa.
Foi como se o mar me beijasse pela primeira vez. Algum tempo depois, Rodrigo e minha mãe foram dar uma caminhada. Eu preferi ficar ali na areia, em meu biquíni vermelho, tomando sol.
Quando me sentei para ficar observando o mar, foi ali que eu vi ele, [música] Diego. Ele veio em minha direção, como se o mar tivesse o empurrado, [música] suave, sem pressa, como se o tempo soubesse que aquele momento já estava escrito antes mesmo de ele dar o primeiro passo. Estava de bermuda clara, descalço e o sol dova seus ombros.
Seu cabelo, um pouco desalinhado pela brisa, tinha mechas mais claras onde o sol havia tocado, como se o próprio céu o tivesse pintado. Ele não sorria com os lábios, sorria com os olhos e isso me desarmou. Já que chegou até aqui, like no vídeo, inscrição no canal e comenta aí de onde você tá me assistindo.
Leio tudo e adoro saber quem tá aí do outro lado. "Posso te pedir um favor? ", perguntou.
E sua voz era como um violão tocado longe, sem pressa, sem medo de ser ouvido. Eu ainda com os pés enterrados na areia e olhei para ele sem entender. Você pode tirar uma foto minha?
Eu assenti e ele me entregou o celular. Estou sozinho aqui ele disse. E quero uma lembrança completou.
Eu segurei o aparelho. A tela estava quente. Eu não sabia como segurar o celular para tirar uma foto bonita.
Não precisa sorrir", eu disse baixo. Ele me encarou surpreso. Por quê?
Porque você já fica bonito mesmo sem sorrir, surpresa comigo mesma. Afinal, eu não era assim, tão espontânea normalmente, mas eu estava tão feliz naquele dia que tudo parecia mais simples e natural. A partir dali, eu notei que ele começou a me olhar diferente, com mais atenção.
Talvez. Ele não [música] respondeu, só sorriu e havia algo mais profundo, uma esperança silenciosa. Eu apertei o botão, uma foto, outra e outra.
Quando terminei, devolvi o celular. [música] Ele não olhou para a tela, olhou para mim. Ele se sentou ao meu lado sem pedir permissão.
A areia entre nós estava quente, mas não incômoda. A brisa levava o cheiro de coco e sal, e o som das ondas parecia uma música que só nós dois podíamos ouvir. O que você faz aqui?
Perguntei sem pensar. "Eu trabalho com TI", ele disse. E o sorriso voltou, mais suave agora, como se tivesse acabado de soltar um peso.
Sou do Paraná. vim para uma reunião, só que a reunião acabou antes do previsto e eu não tive coragem de voltar. Eu me virei para ele, curiosa, [música] por quê?
Ele pegou um grão de areia entre os dedos e o deixou cair lentamente, como se fosse um segredo que não queria perder. Porque quando você passa a vida inteira sentado em frente à telas tentando consertar sistemas que nunca param, às vezes você esquece que o mundo não é só código. Às vezes você precisa lembrar que o sol também existe, que o mar também respira e que às vezes o mais difícil não é programar uma máquina.
Eu não respondi, só olhei para ele de [música] verdade. E você? Ele perguntou depois de um tempo.
O que te trouxe aqui? Eu olhei para o mar longe. Fui trazida por quem?
Por minha nova família. Disse e sorri. Ele não disse nada, só assentiu.
Ficamos ali por mais um tempo, como se o tempo tivesse esquecido que existia. Quando ele se levantou para ir, ele me seguiu com os olhos. "Vai embora?
", perguntei. "Volto ao hotel. " E ele me contou onde estava hospedado.
[música] Por coincidência, era o mesmo hotel onde nós estávamos. Trocamos contatos e nos despedimos. A noite caiu suave sobre o apartamento da Barra da Tijuca.
Eu estava deitada na cama, com o celular na mão. Recebi uma mensagem. Era Diego.
Então, gostaria de me fazer companhia amanhã na piscina do hotel? Só isso. Nada de turismo, nenhum passeio, só água, [música] solas.
Se quiser. Sim, eu gostaria, respondi rapidamente. Na manhã seguinte, quando Rodrigo e mamãe saíram com suas mochilas, mapas impressos e um entusiasmo quase infantil, vamos ver o Cristo, o pão de açúcar, o jardim botânico.
Eu expliquei que passaria o dia por aqui mesmo, que havia conhecido alguém legal. Então eles só me recomendaram juízo antes de partirem. Eu me sentei na beira da cama, com o cabelo ainda molhado do banho, e olhei para o espelho.
Não estava pronta. Não estava vestida como alguém que encontra alguém importante pela primeira vez. Só estava eu.
Biquíni preto, roupão de algodão, pés descalços, sem maquiagem, sem fingir que era mais corajosa do que era. Eu peguei uma toalha e desci. O hotel era moderno, limpo, com linhas suaves e plantas tropicais que pareciam ter sido colocadas ali para lembrar que a natureza nunca perde a vez.
Como era cedo, a piscina ainda estava vazia. Só ele estava lá. Deitado em uma espreguiçadeira, ele me viu, se levantou, sorriu com os lábios e seus olhos, aqueles olhos que já tinham me desarmado na areia, se iluminaram como se eu fosse o sol que ele esperava.
Sentei ao lado dele. A água da piscina refletia o céu como um espelho quebrado, [música] pedaços de azul, nuvens que pareciam desenhadas à mão. Ele me passou um copo de água com limão.
Não perguntou se eu queria, só entregou como se já soubesse. Rimos. Um riso leve, sem pressa, como se tivéssemos tempo.
Ficamos bastante tempo conversando, com o sol nos acariciando, com o som da água batendo nas bordas da piscina, com o cheiro de protetor solar. Ele me contou coisas sobre sua vida e eu sobre a minha. Até que de repente nós não estávamos mais falando.
As palavras tinham se esvaziado. Ele se virou lentamente e, sem dizer mais nada, aproximou o rosto. O beijo foi lento, tão lento que parecia como as nuvens quase paradas no céu azul, como se ele tivesse finalmente encontrado a linguagem que eu nunca soube ensinar.
Era leve, como o vento que passa antes da chuva. Continuamos ali naquele momento que se prolongava com as ondas do mar. Algum tempo depois, ele fechou os olhos de novo e respirou fundo, como se estivesse pensativo.
Quando se afastou, não foi para distanciar, foi para me olhar. E aquele olhar, aquele olhar que não pedia nada, só oferecia, me fez sentir pela primeira vez que não precisava me esconder para ser amada. Vamos subir um pouco?
", ele sussurrou. "Eu assenti. Nenhum de nós falou muito enquanto subimos os degraus.
O ambiente estava vazio. A luz do sol entrava pelas cortinas sem pressa. E ele ficou diante de mim.
O beijei de novo. Não foi rápido, foi perfeito, foi honesto. Não me encolhi, não me afastei, não me escondi.
Ele me olhou nos olhos e vi nele o mesmo receio que eu carregava. O de que nossos sentimentos fossem passageiros, de que depois voltássemos a ser apenas duas pessoas desconhecidas que se cruzaram na areia por acaso. Fechei os olhos e foi assim, sem palavras, sem pressa, sem necessidade de provar nada, que nos aceitamos não como velhos conhecidos, mas também [música] não como estranhos, mas como dois corações que se completavam, não por falta, mas por ressonância.
Porque finalmente me sentia inteira com minhas cicatrizes silenciosas, meus silêncios aprendidos, minhas perguntas que nunca foram respondidas, como se estivesse lendo um livro que só eu sabia escrever. Eu me deixei ser [música] como alguém que finalmente confia. As palavras já tinham sido ditas na areia, na piscina, no olhar que se segurou por muito tempo antes de se encontrar.
Senti algo que nunca tinha sentido antes, pertencimento, como alguém que não precisa se justificar para existir. Simples, verdadeira, real. E ele me abraçou como se eu fosse o único lugar onde ele queria estar.
Ficamos assim por muito tempo, até a hora de nos despedirmos. Quando Rodrigo e mamãe estavam de volta, com sacolas de lembranças, fotos deles abraçados no pão de Açúcar e uma caixa de caju da feira da Urca. E aí, filha?
", perguntou mamãe enquanto tirava o chapéu de palha. "Como foi o seu dia? " Eu olhei para eles, para o homem que me acolheu sem pedir nada, para a mulher que me ensinou a ser forte.
E então, com a voz mais tranquila que já tive, respondi: "Foi um dia maravilhoso, de verdade. " Eles se olharam e sorriram, visivelmente felizes por mim. No dia seguinte, antes de ir para o aeroporto de volta para Minas Gerais, tive uma breve despedida com Diego.
Após um último abraço, ele me olhou e perguntou: "O que vamos fazer agora? " Eu sorri sem abrir os olhos. Acho que vamos esperar.
Esperar o quê? Que a gente descubra se isso foi só esse final de semana ou o começo de muito mais. Naquele dia, quando o avião começou a taxear pela pista, encostei a cabeça na janela.
O rio foi ficando menor, como se fosse uma lembrança sendo guardada numa caixinha que eu ainda não sabia quando voltaria a abrir. Mamãe dormia ao meu lado com a cabeça no ombro de Rodrigo e eu fiquei observando os dois tão tranquilos, tão certos um do outro e pensei que talvez, só talvez eu tivesse encontrado algo assim nessa viagem. Obrigado por assistir.
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