Que alegria tá aqui, né? Eu já senti aqui uma energia muito potente, né? E muito obrigado por me convidarem para esse momento lindo, assim.
Eh, antes eu quero fazer então uma audiodescrição. Eu sou um homem de 53 anos, eh, com traços indígenas, né, e pele branca. Eu venho de Ponta Porã, que é um território indígena, né, lá no Mato Grosso do Sul.
E essa palavra ponta porã, ela significa ponta bonita, né? Eh, em guarani. Eh, eu tenho cabelos compridos e grisalhos.
Eu estou usando uma camiseta cinza e tô com fones de ouvido, né? Ao fundo tem uma parede branca, eh, com a pintura um pouco desgastada. Sou educador popular, mestre em ciências, casado há 25 anos, com outra pessoa do mesmo sexo e pai de dois pets, né?
uma cachorra e uma gatinha. Acho que a minha imagem ela carrega também as minhas escolhas, né, meus afetos e também, né, os caminhos de luta e de aprendizado. E eu fico pensando que essa é uma oportunidade, né, de falar de cultura.
Eh, porque eu acho que vem várias questões na cabeça, né? Então, a primeira questão é: o que é que a gente faz quando está feliz, né? O que que a gente faz quando tá triste, né?
Que música que você ouve, que música que você eh eh gosta de ouvir sempre, assim, qual comida você procura, como é que você se veste, né? Como é que você fala? Então, eh tudo isso, sem exceção nenhuma, tudo isso é cultura, né?
E eu acho que é assim que a gente eh começa a entender, então um pouco eh que cultura não é só o que está em museu, que está em teatro, né? em teatros chiques, enfim, em livros antigos, né? Cultura é o que a gente vive, é o que a gente sente e o que a gente cria todo dia, né?
Nós estamos hoje nessa noite criando cultura, né? Eh, eh, e mais importante ainda, né? É o que a gente compartilha.
Então, a gente tá aqui compartilhando cultura, né? Eh, eu me lembro de uma, eu tô na na Brasilia, zona norte de São Paulo, né? Então, eu me lembro que uma tarde aqui eh trabalhando com crianças e adolescentes, um adolescente de 14 anos, ele me mostrou um celular, né?
No celular ele trouxe um bit que ele mesmo produziu no quarto, né, com fone de ouvido, eh, um notebook velho que a escola emprestou e tal. Ele disse, né, assim, vou abrir aspas. Isso aqui é o que me faz respirar.
Fecha aspas. Então, aquilo ali não era só um som, né? Era uma resistência.
né? Eh, é, é identidade, né? É, é expressão.
Aquilo ali é cultura, né? Eh, e não sou só eu dizendo isso. E aí eu acho que essa noite eu quero trazer um pouco de Marilena Xui, Paulo Freire, né?
Marilena é uma das maiores pensadoras brasileiras, né? E ela vai dizer que a cultura é tudo aquilo que o ser humano cria, né? para dar sentido ao mundo.
Então, pode ser uma ideia, pode ser um gesto, pode ser uma dança, eh uma comida, né, uma tradição, cultura, é a linguagem, então atravessando o corpo e se fazendo o mundo. Eh, XI nos ensina que a cultura não é algo só para alguns, né? A cultura ela está nas ruas, elas ela está nos salões de baile, nos terreiros, né, nas festas de igreja, nas batalhas de rima, nas feiras, né, eh, de artesanato, tá na fala, né, do jeito que eu falo, eh, eu, eu anuncio cultura, né, tá no corpo, tá na memória, né?
Eh, e a Marilena vai dizer que a cultura se apresenta de três formas, né? a cultura erudita, que é aquela ensinada nas escolas, né, nas nas universidades, a cultura popular, que é aquela que nasce do povo, né, que ela é espontânea, que é coletiva, e a cultura de massa, que é aquela que é distribuída para um grande público, né, muitas vezes pelos meios de comunicação, mas nenhuma delas é mais ou menos importante do que a outra, né? O problema é quando dizem que só a cultura erudita tem valor, é só aquilo que tá lá fora tem valor, né?
Então, e aí falando um pouco de território, a gente quer perguntar qual é a cultura do território, né? Qual é a cultura do território da Brasilia, por exemplo? Qual é a cultura do território de Ponta Porã, do lugar de onde eu venho, né?
Então, quando a gente fala de cultura, a gente precisa entender que ela não é um bloco único, né? ela pulsa, ela se reinventa, se esconde, né? Ela explode nos lugares mais improváveis, né?
E aqui na Brazilândia, na zona norte de São Paulo, por exemplo, isso se mostra com uma força impressionante. A a Brazilândia, ela é um território de encruzilhadas de memórias e migrações, né? De fé, de arte, de lutas, de festas, né?
É uma região marcada por eh uma desigualdade histórica, né? eh, mas também por uma criatividade, uma resistência eh que se transformam em práticas culturais vivas, né? Então, a cultura que se faz como uma identidade comunitária, por exemplo, cultura aqui na Brazilândia é laço, né?
É o que une a vizinhança no mutirão de limpeza na viela, num churrasco coletivo, né? Numa roda de capoeira, no campo de futebol de terra. é o que dá forma ao nós, né, comunitário diante das ausências do Estado, né?
Eh, também é são expressões artísticas. A a quebrada pulsa arte, né? Tem tem grafite nos muros com narrativas potentes, né?
Tem batalhas de rima na praça, tem eh os adolescentes colocam para fora o que sentem nessa batalha de rimas, né? O que vivem, o que sonham. Tem grupos de dança que misturam passinho breaking, samba e dança afro.
Tem artistas que cantam a periferia como quem recita poesia, com dor, com rima, com orgulho. A cultura aqui no território também tem tradições orais, tem tradições religiosas, né? A oralidade ela é fundamento.
As histórias passadas de geração em geração, né? eh os saberes das religiões de matriz africana, os contos do tempo da roça ou do tempo da migração nordestina, tudo isso forma uma base cultural invisível, mas extremamente presente, né? O batuque do tambor do candomblé coa junto ao sino da Igreja Católica e ao louvor evangélico, né?
Numa convivência marcada por tensões, né? Mas também por reinvenções. A cultura aqui também ela é alimentar, né?
É, é no tempero que se revela a mistura de mundos. O baião de dois com feijão preto, a macarronada de domingo com farofa, né? O pastel na feira com caldo de cana.
Cada prato carrega eh memórias, né? Memórias do sertão, memórias do interior paulista, memórias da ancestralidade negra, né? O fogão ele vai virar ponto de encontro e a comida vira uma narrativa, né?
A cultura aqui também são festas e são rituais. A festa junina organizada pela comunidade com bandeirinhas feitas à mão, a a quadrilha ensaiada na rua, o desfile de 7 de setembro das escolas públicas, né, que ganha contornos de ato político, né, o saral no quintal da biblioteca comunitária. As festas são momentos de afirmação do aqui também tem vida, aqui também tem beleza, aqui também tem história, né?
A cultura aqui também ela é digital, né? A cultura na periferia é digital. A juventude da Braasilândia também produz cultura digital, canais de YouTube que falam de moda preta, autoestima, vivência, né?
Que falam da da da população LGBTQ, APN+ na quebrada, né? Podcast que discutem eh políticas, né? Com gíria e meme, Instagram lotado de poesia, de resistência.
E aí o celular virou palco, né? Virou microfone. É o caderno ao mesmo tempo, né?
Aqui a cultura, então, é a cultura como resistência. A maior força da cultura da Brasilândia, ela está no fato de que ela não é passiva, ela resiste. É uma cultura que responde a exclusão com criação, que transforma abandono em arte, né, que enfrenta o racismo com poesia, que ocupa a rua, porque a rua é sua, a rua é minha, é a pedagogia do cotidiano, né, que ensina o tempo todo, mesmo sem pedir licença.
É, e a cultura da Brazilândia, ela existe em vários outros lugares, né? É a cultura também da quebrada de Ponta Porã, é a cultura também da quebrada de Campo Grande, é a cultura também da quebrada de Minas, de São Paulo, de do Rio. Então, a quebrada eh ela apresenta essa cultura, né?
O território tem essa cultura. E como é que a gente transforma tudo isso, né? Eu acho que a as questões que que nos ajudam a pensar sobre essa noite, né, como é que a gente sistematiza então, né, esse essa essa esse essa cultura, né, eh transformar a cultura então eh em saber sistematizado é dar corpo, né, é dar forma, é dar método à aquilo que o povo já sabe.
é reconhecer é que o conhecimento ele não nasce apenas na universidade, né, mas também no batuque do terreiro, na conversa, desculpa, na calçada, no corre da feira, né, no corre da feira de domingo, no improviso da rima ou no tempero do almoço de vó. E aí, eh, Paulo Freire vai dizer que a educação verdadeira é aquela que começa quando a gente parte da realidade concreta das pessoas, né? Eh, ele propunha que o saber ele se constrói em diálogo, né?
Um diálogo onde ninguém sabe tudo e ninguém ignora tudo, né? Porque todos têm algo a ensinar e aprender. E é aí que mora a sistematização da cultura, né?
Transformar o vivido em conteúdo estruturado, sem arrancar as suas raízes. Então, reconhecer o saber local como legítimo. Esse é um primeiro passo, né?
Antes de sistematizar, a gente precisa reconhecer que ali há conhecimento, né? Isso vai exigir uma escuta atenta, eh, uma humildade intelectual e abertura afetiva, né? Eh, de afeto, né?
Preciso entender que a avó que planta as ervas medicinais sabe tanto quanto o pesquisador aqui eh de gênero, educação e saúde, né, de botânica ou só que por outros caminhos. a gente vai aprendendo isso, né? Eh, também dar forma e visibilidade a este saber.
Eu acho que esse conhecimento ele precisa ser registrado, narrado, organizado. Então, isso pode acontecer por vários meios, né? né, registro, então, escrever livros, fazer podcasts, né, gravar vídeos, fazer exposições com saberes, né, do local, né, da do território, eh, metodologias populares, criar formas de ensino que partam da cultura local, né, como oficinas e outras experiências, enfim, cartografias culturais, né, mapear coletivos, artistas, grupos e saberes do território, currículos vivo, né, levar essas experiências para dentro da escola, para dentro da universidade, dos projetos sociais, produzir eh material pedagógico, né, transformar esse saber local em livros didáticos, apostilas, cadernos de atividades, trocar entre pares, né, as rodas de conversa, eh, mutirões, vivências que permitem que os saberes circulem, eh, gerações.
a gente tá fazendo cultura que a gente tá trocando, né, entre pares aqui nessa noite. Sistematizar é não é engessar, é sistematizar é valorizar, é mostrar que saber que nasce eh eh na quebrada também é ciência, também é pedagogia, também é epistemologia. A ideia é, se está vivo no território, precisa ser documentado com cuidado, né, claro, e com respeito.
Cultura, ela é como uma colxa de retalhos, né? Cada pedaço tem uma história, mas juntos a gente forma uma narrativa coletiva. Cultura é como uma receita de família, né?
Vai passando de mão em mão, adaptando os ingredientes, mas guardando o tempero da origem, né? Então, eh, mapee, né, o que você vê de expressão cultural no seu bairro. Mapeiee, escreva, fotografe, grave, organize, né, a agrupe por temas.
Então, arte, alimentação, religião, linguagens, né? busque quem está fazendo parecido, crie uma rede, então fazer essas conexões, né, dos grupos que tão nesse territ nesse território. Eh, eh, compartilhe, né, eh, essas experiências por meio de encontros, rodas de conversas, redes sociais, né, a gente tá aí, a rede social é algo que tem eh influenciado diretamente a cultura eh de um povo, né?
Então, por que não influenciar eh também utilizando esses espaços, transformar, né, tudo isso que a gente vivencia em educação. Então, levar paraa escola, projeto social, eh paraa roda de amigos, pro círculo de cultura, né, eh, articular sempre teoria e prática. aqui entra, né?
Eu acho que é uma potência, a gente falou já dele nessa noite, né? Eh, não tem como não falar eh do pensamento freiriano, né? A sistematização não é só descrever, ela é refletir, é olhar paraa cultura e perguntar o que que isso significa, né?
Que valores estão aqui nesse nessa experiência, né? Que histórias de opressão ou de liberdade estão por trás dessa experiência, né? um, por exemplo, um grupo que faz rap aqui na na zona norte para denunciar o racismo, né?
Você pode gravar isso, né? A gente pode transcrever as letras, analisar as mensagens, relacionar com os conceitos como eh, sei lá, necropolítica, eh, identidade negra ou a educação antiracista, né? Então, se a gente faz isso, virou conteúdo acadêmico, né?
Sem perder a essência, né? Eh, eu acho que a, eh, o saber sistematizado, ele também pode gerar formas novas de ensinar e aprender, né? Então, exemplo, ensinar matemática a partir do orçamento de um evento cultural, né?
Vou fazer uma eh eh sei lá, um saral. Então, vamos, como é que a gente, né, põe no papel o que vai ser gasto nesse saral? Ensinar a história a partir das vivências dos moradores mais velhos no bairro, né?
usar as letras do funk, por exemplo, ou do rap local, né, como ponto de partida paraa leitura crítica da da realidade. Eh, aqui a cultura então se transforma em ferramenta pedagógica, né, eh, em ferramenta viva, crítica, contex contextualizada. Eh, a cultura é a nossa forma de existir.
Então, quando a gente reconhece isso, a gente descobre que o que nos cerca não é falta, né? é abundância, é potência, é saber, né? E quando a gente transforma isso em conhecimento sistematizado, a gente se liberta da ideia de que só o que vem de fora é importante, né?
Então, a sistematização, ela só se completa quando volta pra comunidade e circula. Então isso pode acontecer em escolas públicas com projetos interdisciplinares, né, em ONGs, em coletivos, né, como parte de formações continuadas, em universidades, né, em disciplinas, em em trabalhos de conclusão de curso, em espaços culturais, por exemplo, com oficinas, com rodas de conversa, né? A a sistematização do saber, ela também uma forma de devolver dignidade a territórios historicamente silenciados e construir um outro modo de fazer ciência mais efetiva, mais enraizada, mais popular, né?
Construir redes, construir repertórios, né? Sistematizar também é coletivizar, criar redes entre pesquisadores populares, educadores, artistas e instituições formais. eh construir repertórios digitais, né, bibliotecas vivas, centros de memória.
É um, por exemplo, um coletivo cultural pode criar um arquivo digital com biografias de artistas, artistas locais, fotos de manifestações culturais, mapas dos pontos culturais do bairro, tudo com acesso livre para uso em escolas, para uso em projetos, eh, em universidades, né? Sistematizar então o saber da quebrada é como tirar uma fotografia com um zoom, aquilo que sempre esteve ali, mas parecia pequeno, agora aparece em detalhe, né? Brilha, ganha nome, ganha corpo e vira ferramenta de luta, ferramenta de ensino, de transformação.
E é isso que Paulo Freire chamou de leitura do mundo, né? A gente não estuda o território como quem olha de cima, mas como quem caminha com ele. E Xaí, a Marilena Shaí vai dizer que a cultura é aquilo que nos faz humanos, né?
Então, se o que nos faz humanos está aqui na nossa fala, no nosso corpo, na nossa quebrada, bora transformar isso em conhecimento, né, que liberta. A ideia é que a gente volte pro lugar de onde a gente veio, né? E que a gente olhe diferente pro grafite, pro som alto, pro jeito de falar, de dançar, de cozinhar, porque ali tem saber, ali tem cultura, né?
E cada um de nós, a gente, eu eu fiquei assustado com o número de pessoas que estão participando desse, desse momento aqui, né? Eh, eh, são agentes, nós somos agentes que vamos organizar tudo isso, né? Então, a gente vai valorizar, vai transformar tudo isso em educação, em resistência, porque no fim das contas cultura é isso, a gente viva criando sentido, mesmo tudo, mesmo quando tudo diz que não é possível.
Eu queria agradecer muito essa troca. Eu tô aqui, eh, não sei como é que tá meu tempo, mas enfim, eu, né, já tá terminando, pessoal. Anda, eh, pessoal que tá aqui, acho que isso é pra gente entender que a cultura ela não é um luxo, não é um enfeite, né?
A cultura é o que a gente faz para existir. A gente tá existindo aqui neste lugar e com dignidade, né? É o jeito que a gente encontra de transformar dor em arte, né?
Ausência em encontro, silêncio e voz. a gente falou muito sobre território, então, eh, a cultura ela não tá eh apenas nos eventos organizados, mas no cotidiano criativo da quebrada, né? Eh, eu acho que a a Shai vai nos lembrar que cultura é tudo que o ser humano cria para dar sentido ao mundo.
E Paulo Freire nos ensina que todo saber começa no chão da vida real. Então, quando a gente junta os dois, a gente entende que a cultura do território não é só expressão, né? é conhecimento legítimo, é pedagogia viva, né?
Nosso papel então é ouvir, registrar, compartilhar, né? Sistematizar. Eu acho que cultura é o tecido invisível que costura nossas vidas feita de conhecimento.
Olha aí a primeira palavra aparecendo, né? Que atravessa gerações, não apenas nos livros, mas nas mãos que cozinham, que dançam, que curam, né? E que constróem.
é também identidade. Olha a segunda palavra aparecendo, porque é na cultura que nós reconhecemos como nos reconhecemos como parte de um grupo, de um lugar, de uma história, né? Com um jeito próprio de falar, de vestir, de sonhar.
Então, a cultura carrega os valores. A gente falou de valores e crenças, né? Apareceu muito a palavra valores, né?
Que orientam nossas escolhas e convivências, né? O que é que a gente considera justo, o que que a gente considera sagrado, o que que a gente considera bonito e necessário, né? Ela é atravessada, alguém falou pelas fantasias, é atravessada pelas fantasias, né, que a gente cria para entender o o para entender o mundo, né, nos mitos, nos contos, nas festas, nas artes.
E ela se afirma ou se firma na tradição, né, que não é só repetição, mas é memória viva, aquilo que o tempo não apaga porque continua sendo reinventado no presente. Cultura, portanto, é aquilo que nos torna humanos, né? um jeito coletivo de existir, um jeito de imaginar e dar sentido à vida.
Eu acho que a gente poderia ficar falando muito mais, mas eu queria ficar por aqui.