[Música] bom muitas vezes a gente se pergunta como foi possível a existência de um livro Como Grande Sertão Veredas e se pergunta Ainda como é que é possível que no mesmo ano de 1956 um escritor tenha publicado grandes Sertão Veredas e corpo de baile um conjunto também grandioso de sete novelas formando essas duas obras alguma coisa eh Inesperada na obra inteira de um autor quanto mais como alguma coisa que surgisse ao mesmo tempo isso faz a gente se perguntar de onde veio tudo isso como que que marães Rosa chegou a essa formulação de linguagem a
essa poética não é de onde veio tudo isso a gente nunca sabe propriamente Mas é interessante considerar que e o menino João Guimarães Rosa cresceu eh numa casa junto de de de um pai comerciante numa rua de Cordisburgo junto da estação de trem o lugar onde vinham muitas vezes as boiadas das fazendas e traziam o gado que embarcaria para o Sudeste eh ali portanto esse menino cresceu eh nessa casa nesse quarto colado na no armazém do pai eh ao mesmo tempo lendo vorazmente e ouvindo ou convivendo com toda essa gente né essa gente Cert seja
essa gente do Povo Mineiro que frequenta que chega a esse lugar por Excelência lugar de passagem de encontro que é a a loja do pai ali Portanto ele tá em contato com esse linguajar com esse mundo com essa vida com essas narrativas com a tradição oral deste mundo Mineiro ali da port do Sertão Onde está e cbgo quando ele se torna escritor e tem projeto de de escrever ele mesmo diz que ele poderia ter optado por um caminho completamente diferente como se ele tivesse numa encruzilhada ele poderia ter se tornado um escritor do mundo cosmopolita
do mundo Urbano e ele tinha repertório para isso ele tinha o repertório da literatura Universal mas ao mesmo tempo ele tinha outra opção que é mergulhar no mundo do Sertão que é um mundo oral por Excelência não é o mundo da escrita então ele tinha que resolver a seguinte questão ele um hiper letrado escolhia como destino de escritor tratar do mundo dos não letrados um mundo não conformado pela escrita e estava portanto de uma maneira muito própria naquele entrelugar que marcou tanto o modernismo brasileiro como um todo que foi como incluir o povo eh O
povo não letrado na ordem da literatura erudita n é a cultura escrita isso está presente em uma na ima está presente em Maro de Andrade isso está presente em Graciliano Ramos especialmente Vidas Secas que é o livro em que eh Graciliano Ramos eh se confrontou a seu modo com essa questão né de falar pela voz daqueles que não falam né isso escrevendo eh ao mesmo tempo isso está presente no destino eh depois do cinema brasileiro do cinema novo da música popular brasileira ou seja como unir de algum modo intelectual letrado e povo então e Guimarães
Rosa faz parte deste ciclo que ocupa a primeira metade do século XX no Brasil que vai até os anos 60 na verdade um grande ciclo que que se completa e de certo modo termina com a ditadura quando ao mesmo tempo os meses de massa a televisão acabaram com este vamos dizer entre lugar e de povo e artista erudito como sendo a uma ambição cultural da da Visão eh moderna do Brasil para resolver esse problema cada um desses escritores teve que formular um mundo próprio de vivências e de linguagem e a gente vê isso se a
gente acompanhar esse processo no primeiro livro de marães rosa e Sagarana um conjunto de nove contos escrito ou publicado 10 Anos Antes do Grande Sertão e do corpo de baile eh ali nós podemos ver Às vezes em alguns contos que até não são tão bem realizados mas ali a gente entende bem quais são as matrizes da obra de Guimarães Rosa um conto chamado minha gente por exemplo é um conto em que dois eh homens letrados estão indo da da estação de trem da cidade paraa Fazenda e vão conversando no caminho jogando uma partida de xadrez
mental são dois homens portanto do mundo letrado mas falando sobre o não letrado e um dele eles diz inclusive que gostaria eu tenho o prazer de submeter um capial a falar palavras difíceis só para imaginar o quanto a a palavra poderia ter o efeito mágico de abrir a cabeça de alguém se um capial falasse palavras como intimismo paralaxe sinclinal palimpsesto prosopopeia tudo isso é claro é uma coisa irônica sobre e Auto irônica sobre a própria distância entre o escritor e o seu objeto aquele de que ele quer tratar mas no mesmo livro há um outro
conto chamado São Marcos em que é uma situação que interessa o que estamos falando aqui é umor novamente letrado que gosta de passear pelo pelo espaço do mato para adentrar o mato até se perder e ele tinha desite um negro catimbozeiro que faz um feitiço contra ele e ele fica perdido no meio do mato ao mesmo tempo no mato ele escreve coisas num encos de um bambuzal palavras também difíceis como a surban pau eh que eh correspondem aquele mesmo desejo de trazer o super erudito para dentro do mato do mundo sertanejo acontece que surge algum
desconhecido sertanejo que começa a conversar com ele e a desafiá-lo poeticamente escrevendo outras coisas no bambuzal então é uma espécie de desafio entre o hiper letrado e o não letrado em que eh eh se torna esse desafio aliás se torna fundamental para que ele quando fica cego no meio do mato consiga descobrir a chave pela qual ele sai dali de dentro eu encaro esse conto como um rito um uma espécie de banho deiluminismo em Guimarães Rosa quer dizer ah o homem culto aceita a o feitiço recebe o feitiço do catimbozeiro conversa com o homem Popular
E é isso que permite a ele entrar e sair deste mato e eu acho que isso faz parte do processo literário pelo qual queimares Rosa foi engendrando uma linguagem que era ao mesmo tempo a do Hiper letrado e do não letrado isso no entanto não está resolvido ainda no livro Sagarana é justamente nos livros corpo de Bale o Grande Sertão Veredas nos livros de [Música] 1956 que esta questão esse desafio dá o seu grande salto acho que pra gente Entender esse processo eh vale a pena lembrar um conto central do corpo de baile que é
o recado do morro no Recado do Morro nós temos uma viagem de um grupo que está levando um eh naturalista escandinavo para conhecer o sertão é novamente um homem letrado que anota tudo que vê que traz uma caderneta e uma codac né a máquina fotográfica e as anotações que ele faz continuamente que fazem dele certamente um alterego do próprio marães Rosa quando a gente vê mar rosa nas fotos da da Excursão da viagem que ele fez com sertanejos no ano de 1952 também anotando tudo né então como se esse naturalista escandinavo fosse um alterego do
próprio escritor que está vamos dizer atravessando o mundo sertanejo e anotando tudo que encontra essa viagem vai levando o sertanejo e tem à frente um guia Estradeiro chamado Pedro orósio e atrás um tropeiro chamado Ivo crônico ao lado deste eh deste naturalista escandinavo vão um religioso Frei sinfr e um um fazendeiro seu jujuca do Açude Então essa comitiva está portanto dedicada a fazer ver o sertão para esse eh estrangeiro que quer incluir o sertão no mundo do livro no mundo das Letras é nessa viagem que vão surgindo a cada passo eh figuras eh do mundo
Popular que são cadeiros que e a partir do primeiro deles que se chama gorgulho ele diz que o morro falou o Morro da Garça falou e dá um recado que num momento é ininteligível num primeiro momento e que depois vai sendo recontado por seis outros recos até virar uma canção no fim do conto portanto essa viagem se torna a viagem do recado durante esse caminho o recado vai falando do que o morro fala de um aviso de violência de uma luta de morte que se mistura com festa na verdade é o mundo de truculência e
doçura do Sertão Mineiro que estão ali entremeados no fundo recado é o recado sobre uma emboscada mas que no final can do último sétimo dos recos que é laudel pug quando laudel pé canta a canção o o seu alquist o naturalista escandinavo mesmo sem entender as palavras sente que aquilo é uma obra poética que ele compara as grandes obras nórdicas escandinavas inclusive que geraram o Hamlet de Shakespeare Ou seja é como se aquele mundo sertanejo aquele recado sertanejo eh desembocou na literatura na grande literatura Então essa viagem é um de certo modo uma espécie de
figuração do próprio caminho pelo qual o hiper letrado se encontra com o não letrado numa obra literária em que as duas estão contidas então contidas de que forma atéa através dessa categoria que é do recado recado é uma palavra muito difícil de traduzir para outra lngua porque recado não é simplesmente mensagem mensagem quando eu digo alguma coisa a alguém e e alguém recebe Portanto o que foi dito o destinador Passa ao destinatário cumpriu-se a mensagem passou mas recado é outra coisa recado é aquele que vai passando é a mensagem que quando chega num passa para
outro e e no processo ela vai se transformando o recado consiste Justamente na transformação pela qual uma mensagem quando chega alguém e e passa a ser de outro alguém já não é a mesma daquele onde ela começou Eu acho que o recado é uma chave fundamental pra fórmula rosiana Porque toda a obra dele é uma junção do Hiper letrado com não letrado através do recado ou seja como que esta mensagem passa de um para outro através de uma espécie de terceira margem dito assim nós podemos considerar que o Grande Sertão Veredas é um grande noo
recado porque a gente lê alguma coisa que é falada por riobaldo mas que só nos chega através de um outro né riobaldo É do mundo sertanejo que é o mundo não letrado mas riobaldo já é ele mesmo formado pelas letras ele já é já passou por um processo de letramento dentro do mundo não letrado e Ele está falando ao hiper letrado que o escuta o doutor de óculos e escrevendo que o escuta e através da do qual esta fala de rubaldo chega a nós portanto eh o sertanejo fala num fluxo contínuo que passa através de
eh deste outro desse seu outro né o homem da letra e quando nós estamos lendo nós estamos lendo alguma coisa que é ao mesmo tempo do não letrado e do Hiper letrado né Nós que estamos na posição do leitor portanto aquele que já é o destinatário desse recado que está nesse lugar de portanto levar esse recado adiante acho que então foi dessa maneira muito original e muito própria que Guimarães Rosa formulou a possibilidade de tratar dessa distância entre o oral e o escrito e portanto fazer um livro em que a o mais fundo da tradição
oral da fala mineira está entranhado das informações eruditas polilingua eh os neologismos as criações literárias que eh se se unem indissociavelmente com esta primeira eh informação né Eh essa esse primeiro fluxo Eh vamos dizer eh sertanejo isso faz com que quando os meninos de Cordisburgo os miguelin por exemplo falem os poemas os poemas podemos chamar de poemas né mas as narrativas de de marães rosa é como se aquilo volta naturalmente para a música da fala embora tão profundamente trabalhado escrita a canção está presente também eh em Grande Sertão Veredas e já se tem dito quanto
a canção de ciru eh lembrada Por riobaldo que é ouviu de um jagunço ciz no dia que ele presenciou a chegada eh do grupo de jagunços na fazenda de celco Mendes ele eh e Ouve essa canção que ele nunca mais Esquece essa canção guarda o segredo da sua própria história e da sua própria história de guerra e de amor como numa canção num livro Uma Canção não tem música E é difícil compor música para uma canção tão Popular que é um arquétipo assim da memória coletiva o grande crítico Antônio Cândido resolveu isso de uma maneira
muito singular ele aplicou a canção as palavras da canção de cir Luiz uma melodia que ele ouvia cantada pela mãe dele mesmo Antônio Cândido e resultou nisso Urubu é Vila Alta mais idosa do Sertão Padroeira minha vida vim de lá volto mais não vim de de lá volto mais não corro os dias nesses verdes meu boi mocho Baetão Buriti água azulada Carnaúba sal chão Carnaúba sal do chão Remanso de Rio Largo Viola da Solidão quando vou para dar batalha convido o meu coração então a canção tem aquilo que marães Rosa diz chama o recado do
Morro de força o bafo da força melodian da força memorian ela nos faz lembrar uma lembrança do afeto uma lembrança do coração Ela traz o vivido e leva consigo que é o que acontece com o rio Baldo Quando ele leva consigo a canção de ciru