Olá, meus caros! Estamos aqui então dando continuidade ao nosso programa, e hoje eu gostaria de falar de um tema que está muito em voga, que é a psicologia tomista. Muitas pessoas me perguntam: o que é a psicologia tomista?
Em que ela se fundamenta? Onde ela se baseia? Qual é a sua proposta?
Nós precisamos entender o próprio nome, né? Já já indica falar de psicologia tomista. O tomista nos leva ao pensamento de Tomás de Aquino ou São Tomás de Aquino, como é conhecido na tradição católica.
Ele foi um frade dominicano que existiu no século XI, portanto, no período medieval. De fato, nós não vamos encontrar nas obras de Santo Tomás um texto ali específico de psicologia, principalmente se nós levarmos em consideração o sentido, enfim, às vezes mais contemporâneo e moderno dessa palavra. A grande questão é que Tomás de Aquino, a partir da sua vida, do seu conhecimento e da sua experiência, realmente desenvolveu com muita maestria uma obra muito interessante sobre a realidade humana e sobre a conduta humana.
Então, o que se chama de psicologia tomista, em primeiro lugar, é justamente a utilização de determinados elementos do pensamento de Tomás de Aquino para que, de alguma forma, isso sirva dentro do contexto da psicoterapia. O que nós vamos encontrar em primeiro lugar em Santo Tomás é a questão da sua psicologia filosófica ou da antropologia filosófica, como nós chamamos hoje. Então, toda a abordagem, toda a análise que ele faz do ser humano, da estrutura do ser humano, é evidente que nessa análise que ele faz, ele salienta muitas vezes essa estrutura natural do ser humano, procurando mostrar como o ser humano é constituído de corpo e alma numa unidade profunda, mostrando que o ser humano não é constituído de duas substâncias, mas ele é uma substância constituída de dois princípios, né?
Que têm toda a dimensão material e uma outra que é todo um princípio também espiritual. Então, ele procura explicitar o que é o corpo, o que é a alma e como se dá essa unidade, que no caso é uma unidade substancial e não acidental. Ele frisa muito isso.
A partir da compreensão de como se dá essa relação entre corpo e alma, essa unidade substancial, ou seja, como a estrutura natural do ser humano vai se constituindo, ele mostra, então, como se desenvolve a nossa sensibilidade, os nossos sentidos externos, a importância da visão, da audição, do tato, enfim, do paladar, mas também dos nossos sentidos internos, principalmente a imaginação e a memória sensível. As análises que ele faz da questão da sensibilidade são muito interessantes, mas ele não para por aí. Ele também mostra que nós temos duas grandes potências da alma, espiritualmente falando, que são a inteligência e a vontade.
A inteligência que naturalmente busca o ser para compreendê-lo, e a vontade que tem uma inclinação natural para o bem, a partir daquilo que a inteligência mostra para ela. As análises que ele faz dessa estrutura, do próprio funcionamento da inteligência e da vontade, da relação de uma com a outra, realmente são muito ricas, são muito interessantes. E, junto com isso, ele também explora profundamente a questão da dimensão afetiva e da dimensão moral do ser humano, ou seja, ele tem muitos textos sobre a questão das paixões.
O que são as paixões? E qual é, de fato, o devido lugar das paixões na vida do ser humano? Então, num primeiro momento, ele mostra que as paixões não são nem boas e nem más; temos que ver como vivenciamos, qual é o lugar delas e como elas são direcionadas na nossa vida.
Muito dessa discussão das paixões vai acabar ocorrendo dentro do contexto das reflexões de Tomás sobre a questão da ética, sobre a questão da moral, ou seja, da vida humana, da conduta humana, sobre a questão do fim último do ser humano. Então, nesse contexto todo, depois que ele analisa a estrutura natural do ser humano, chamando atenção também para seu aspecto sobrenatural, ou seja, a importância da graça de Deus, dos dons do Espírito Santo etc. , ele vai focar nessa questão de qual é o fim último do ser humano, como o ser humano deveria viver e se portar para atingir esse fim último, que é justamente se contemplar a Deus face a face.
E, a partir disso, ele vai mostrando que, infelizmente, muitas vezes, a questão dos vícios adentra a vida humana, o que é uma verdadeira disposição interior permanente para fazer o mal, que atrapalha profundamente o uso da inteligência e da nossa própria vontade, mostrando a importância das virtudes. As virtudes são, de fato, o contrário dos vícios, ou seja, são disposições constantes e permanentes para que a gente consiga buscar o bem, fazer o bem e também buscar a questão da verdade. Ora, esse modo de pensar de São Tomás, portanto, se a gente for ver, ele explicita a realidade humana, a estrutura do ser humano, como isso se desenvolve e o aspecto moral presente em tudo isso, e como isso, de uma certa maneira, e, é lógico, usando uma linguagem da época dele, vai interferir no estabelecimento do nosso caráter, da nossa personalidade, do nosso modo de ser e de existir, gerando, como se fosse, verdadeiros distúrbios e doenças da alma nesse aspecto.
Ora, quando se fala, portanto, de psicologia tomista, nós estamos falando do uso dessa concepção, dessa explicitação, dessa análise do ser humano e de toda essa dimensão da afetividade, das paixões e da moralidade da vida humana. Isso é possível, é condizente. Eu conheço muitas pessoas, né, psicólogos, que estão estudando cada vez mais o pensamento de São Tomás com essa.
. . Finalidade e mostram resultados muito interessantes.
Por quê? Me parece que a grande razão de ser de tudo isso é que os cursos de Psicologia hoje são uma verdadeira confusão. Os alunos ficam ali 4 anos ou mais estudando psicologia nas mais diversas vertentes, né?
Não estou nem aqui discutindo, né? Mas é Lacan, Freud, enfim, Jung, né? Ou psicologia comportamental, Carl Roger, etc.
E tantos outros. Então, a gente sabe que tem várias linhas, várias vertentes, né? A própria discussão da problemática da psicanálise.
A grande questão é que acaba se adentrando num monte de teorias, num monte de perspectivas, num monte de abordagens, onde muitas vezes uma contradiz a outra e não se analisa de maneira minuciosa. No meu entendimento, duas coisas: primeiro, falar de Psicologia, querendo ou não, é falar do estudo da alma humana. Muitos não gostam dessa definição.
Ah, é o estudo da mente, é o estudo, não sei do quê. É porque a alma é uma palavra que carrega muito uma significação religiosa, então muitos não gostam; muitos preferem até dizer o estudo da mente e outras coisas. Mas, independente disso, etimologicamente, a psicologia é o estudo da alma humana.
Tomás de Aquino não inventou isso. Ou seja, Platão falava sobre essa problemática da alma. Aristóteles escreveu uma grande obra sobre a questão da alma humana numa perspectiva naturalista, falando que a alma não só é princípio de vida, mas é a forma substancial do corpo vivo.
Na sua obra, chamada "Peri Psychés" (Sobre a Alma), ele explicita vários aspectos da questão da alma no sentido geral e, lógico, de modo mais peculiar da alma humana. Então, Tomás de Aquino, de uma certa forma, recebe toda uma tradição que não era cristã, mas também dentro da tradição cristã, como Santo Agostinho, que também analisou muito essa questão da alma humana, da vida interior, da questão da interioridade. Portanto, é possível falar também de uma certa maneira de uma psicologia agustiniana, né?
E tantos outros autores. Tomás recebe tudo isso, mas faz uma síntese muito profunda. Ele escreve muito sobre a realidade humana e me parece com muita propriedade.
Além disso, faz uma abordagem sobre a questão moral da vida humana também fabulosa, né? Escreve na Suma Teológica a parte que ele fala das virtudes. A análise que Tomás faz da problemática das virtudes é uma das mais amplas e profundas que eu conheço.
Então, tudo isso com certeza mostra a relevância do autor, mas tem um segundo ponto que para mim é fundamental. Então, como eu disse, a pessoa que estuda psicologia nunca fez uma discussão e uma análise minimamente rigorosa do que é alma. Ou seja, como que eu vou fazer um diagnóstico?
Como que eu vou orientar e ajudar alguém se eu não tenho uma compreensão clara? Então, se você tem, né? Se você parte de um pressuposto de uma antropologia reducionista, onde você só reduz o ser humano à matéria, a um conjunto de átomos e moléculas, sei lá o quê em movimento, a compreensão que você tem de alma é totalmente confusa.
Então, é óbvio que isso vai ter implicações negativas. De fato, me parece que, nesse aspecto, a psicologia tomista procura explicitar o que é alma, como que é esse funcionamento da alma humana, dessa realidade humana e, portanto, fugir de qualquer tipo de reducionismo antropológico, levando em consideração a totalidade da realidade humana. Isso é um ponto fundamental, né?
E daí talvez esteja o sucesso de pessoas que, durante 20, 30 anos, já trabalhavam com a questão da psicologia e hoje veem resultados assim fabulosos. Por quê? Porque aprenderam a olhar o ser humano de novo no seu todo, na sua totalidade, mostrando que eu não posso desprezar nenhum aspecto da vida humana ou da experiência humana.
Tudo é importante. O ser humano não é só um ser físico, né? Ele não é só um ser humano que tem estrutura biológica ou psicossocial, né?
Ele também tem uma dimensão espiritual, e essas coisas são importantes. Ele também tem um desejo de moralidade, uma necessidade de analisar a sua própria conduta. E aí vem o segundo ponto.
Tomás não só nos oferece uma compreensão da totalidade da realidade humana, levando em consideração todos os aspectos, mas ele tem uma visão realista. Ele parte da observação da realidade. E aí a gente vê que para que a pessoa tenha a sua psique, a sua personalidade, seja uma personalidade equilibrada que garanta que ela seja um adulto maduro e consiga conduzir a própria vida, né?
E não seja carregada de tantos distúrbios, ela precisa estar vinculada à realidade. Sendo que, hoje em dia, parece que nós esquecemos disso, né? Parece que não existe mais realidade; tudo é relativo.
Cada um tem a sua. Mas é interessante porque a realidade se põe constantemente. Quantas coisas você não quer e acontecem do mesmo jeito?
Você não quer ficar doente, a doença vai lá e se manifesta. Você não quer a doença, ela vai lá e se impõe. É só você ver: existe uma dimensão da existência que não depende de nós.
Então, é óbvio que, por um lado, existe a nossa subjetividade, as nossas vivências interiores, mas há uma dimensão da realidade que é objetiva, que não é o nosso olhar e os nossos desejos que determinam, mas que parece que tem uma lei própria e uma dimensão própria. E é isso que Tomás aqui nos chama atenção. Por isso que, no entendimento dele, ou seja, quando se fala de psicologia tomista, é justamente ouvir a pessoa, colher a pessoa e conduzi-la, tentando lembrar, em primeiro lugar, qual é o seu fim último.
Qual é o seu fim último? Porque lembrando qual é o seu fim último, isso já ajuda a duas coisas: primeiro, qual é o seu fim último? Quem é você?
Qual é a sua estrutura natural e para que você existe? Essas duas coisas, né? Quem sou eu?
Eu. Qual é toda a minha dimensão corpórea, sensível, mental, mas também espiritual, etc. ?
Então, eu tenho, em primeiro lugar, lembrar quem eu sou, essa memória de si mesmo, e, ao mesmo tempo, ir entendendo qual é o meu fim último, para que eu existo. A partir disso, é que eu vou ordenar e organizar a minha vida. Então, é esse fim último que é o princípio ordenador, porque o fim é o bem.
Se o fim é o bem, o bem é o fim. Então, é a partir disso que eu ordeno a minha vida, para que eu consiga realmente atingir o desenvolvimento saudável da minha própria natureza enquanto ser humano. Porém, o ser humano precisa de ajuda para tudo isso, porque, querendo ou não, muitas vezes os vícios foram se estabelecendo.
E aí, eu preciso de virtudes, né? Ou seja, antes do próprio problema dos vícios, eu já preciso das virtudes para que eu consiga fazer um bom uso, né, da minha inteligência, da minha vontade, da minha própria sensibilidade, para eu poder ter uma personalidade ordenada, né, saudável. Então, são esses elementos que Tomás aqui não vai lembrar.
Precisamos lembrar quem somos, levar em consideração a totalidade. Precisamos saber qual é o nosso fim último que nós realmente almejamos, como organizar a nossa vida, ou seja, amar a verdade, porque não tem como você ser saudável distante da realidade. E a verdade nada mais é do que expressão dessa própria realidade, e as virtudes são fundamentais nesse ponto.
Então, no fundo, a psicologia tomista vai lembrar disso: o ser humano não é só matéria; o ser humano também tem uma dimensão espiritual e moral. Isso é importantíssimo. O ser humano tem um fim último.
Temos que ordenar nossa vida a partir disso. E o ser humano precisa aprender a amar a realidade e a verdade, né? E muitos distúrbios e dificuldades que nós temos é porque nós queremos viver muito mais de fantasias e desejos do que, de fato, da realidade, do que nós somos, do que as coisas são.
Então, são esses elementos que a psicologia tomista lembra. E é isso que um psicólogo tomista procura levar em consideração na sua psicoterapia. Que não tem nada a ver!
Muitas pessoas dizem: "Ah, essa psicologia só é para quem é religioso, para quem só é católico". Não. Porque o psicólogo, ele é o psicólogo de qualquer um.
Ele tem que respeitar quem está ali na sua frente, que ele está tentando ajudar. O que ele vai usar é lógico aqueles critérios e princípios que ele entende que são mais verdadeiros, que são mais corretos. Ele vai propor um caminho.
E, então, não é só para quem é católico, ou para quem é cristão, ou para quem é religioso, é para qualquer pessoa que queira ajuda e está disposta a enfrentar as suas dificuldades a partir desses critérios e princípios. Né? Que você possa continuar os seus estudos, né?
Tem alguns livros interessantes nesse sentido explicando o que é a psicologia tomista. Um forte abraço, tudo de bom, boas reflexões e até o nosso próximo encontro. Tchau, tchau!