Narrativas compartilhadas sem o prazer de ouvir hoje o relato de alguns aspectos da vida na história da nossa querida professora Daniela Aparecida Vendramini Zanella, coordenadora do curso de Letras da Universidade de Sorocaba. A Daniela também é doutora em Linguística Aplicada — Estudos da Linguagem pela PUC de São Paulo, é mestre em Educação pela Unisul e graduada em Letras Português/Inglês pela Uniso. Atualmente, a Daniela é a nossa coordenadora do curso de Letras e um dos focos principais da professora é a literatura em língua inglesa.
Ela normalmente tem sido professora de literatura inglesa e norte-americana. Estão com vocês a nossa querida professora Daniela Zanella, que vai começar a contar um pouquinho da sua história desde a época da infância, onde você nasceu, onde você estudou, e vai contando um pouquinho da sua história. De vez em quando, dou uma entradinha, mas vou deixar à solta, que o objetivo dessas narrativas é exatamente isso: contar, fluir a história e, principalmente, aquilo que me dá mais prazer dentro desse contexto de vida.
Então, quem? Obrigada, Robert, pelo convite. É uma honra estar aqui.
Na verdade, estou sendo entrevistada por quem desejaria entrevistar e é uma grande satisfação estar aqui com o senhor professor. E eu digo que a satisfação é minha, muito, muito grande. Eu fico muito feliz de você estar nesse momento, nesta situação e sendo a minha chefe.
Fazer muito grande tê-la como minha filha, uma carinhosa. Valeu! Então, vou começar um pouquinho falando da minha infância.
Eu nasci em Christi, no bairro de Santa Rosália, brinquei muito na rua e tenho amigos dessa infância que carrego e trago até hoje. Nós nos visitamos e temos muita amizade ainda. Estudei os anos iniciais em um colégio tradicional de Madri da cidade, que era um universo frutífero para a imaginação e fantasia de qualquer criança.
Ficar imaginando o que era permitido, o que era velado, o que não era autorizado. . .
Então, isso também já começa a trazer alguma marca no processo criativo de uma criança. Foram anos felizes, de muitas amizades. Ao final do ensino fundamental e início do ensino médio, eu estudei em uma escola municipal, Doutor Getúlio Vargas, onde conheci professores inspiradores.
Dentre eles, lógico, já conheci o professor Roberto de Literatura, que era fantástico. O modo como esse professor nos afetava, porque além do conteúdo, ele trazia questões para quebrar o distanciamento entre o jovem e o professor. Então, por exemplo, ele chegava na sala de aula e a gente já sabia o livro que tínhamos que ter lido naquela semana.
Ele fazia ioga na aula, para poder ali fazer um exercício de respiração, quem quisesse. Eu acompanhava, né? Mas ele pegava os pés pela traseira e trazia para a cabeça, e aquilo era divertido, quebrava o clima de muitas questões estabelecidas no estado lamento entre professor e aluno, especialmente o aluno adolescente que às vezes tem uma certa raiva e rebeldia.
E ali tinha o seu Rô, a gente chamava de seu Rô. Nesse contexto, também tive uma experiência muito enriquecedora com um teatro do Martins Pena que fizemos. Era Sábado de Aleluia.
Muito mais importante que o produto final, que juro, nem me lembro muito bem da nossa apresentação, foi o processo. A gente se reunia na casa de uma amiga que morava no centro da cidade, ali próximo à escola Getúlio Vargas, e eram tardes deliciosas, repassando o texto. A gente tinha contato com o texto original, que era a exigência do professor, que apesar do distanciamento, mantinha um canal aberto de conversa nas aulas de yoga e respiração antes das análises críticas de obras.
Era um professor exigente, e a gente tinha que dar conta de várias leituras de obras clássicas. Nesse momento do teatro do Martins Pena, a gente se encontrava na casa de uma família, um grupo grande, e a gente repassava os scripts, as falas, e, no meio disso, a gente ia brincar na rua. Entre o estudo formal daquele texto e a brincadeira, eis que um dia a gente saiu correndo atrás do Judas.
Quem fazia o papel de Judas naquela tarde subiu a 7 de Setembro e correu até a rua da escola. E todo mundo, as coisas que hoje a gente nem imagina, né? Os jovens não teriam a possibilidade de correr por ali.
Então, isso, com certeza, está na lembrança de cada um. Isso é constitutivo de cada um, seja lá a formação que cada um dá. Aquele grupo adquiriu nos anos futuros, mas para mim, já comecei a ser afetada.
Já comecei a ter a minha constituição, o meu olhar. Com certeza, mais tarde, comecei a fazer faculdade em São Paulo. Escolhi fazer Arquitetura e Urbanismo.
Adoro artes, sempre estive envolvida, e foi uma ótima escolha. Porém, morar em São Paulo foi um desafio, o qual eu não me habituei muito, e teria dado uma excelente professora de arte, acredito. Brincadeiras à parte, eu voltei.
E aí, todo mundo achando que eu iria fazer Engenharia Civil porque abandonei o curso de Arquitetura. Mas não. Quietinha, silenciosamente, eu pesquisei e falei: "Não, preciso de um curso que dê conta desse afloramento da minha questão de ligações com o artístico.
Eu quero trabalhar de alguma forma com a linguagem, senão a ilustração, o desenvolvimento de projetos. " Então, escolhi a linguagem das Letras. Não me dei muito bem no curso e, quem encontro lá novamente?
Meu professor, que já tinha realizado um trabalho de impressões de constituição enquanto ser humano, enquanto ser que decide o que vai fazer, porque também cabe decidir por fazer uma licenciatura. Não. É uma questão fácil ter um do jovem.
Então, pelo fato de eu ter largado, de eu ter, é não sinalizar do curso de arquitetura, eram 1, o novo desafio decidir por qual curso eu seguiria. E é com muita coragem que decidi fazer uma licenciatura. Foram anos incríveis!
Teve vários professores que também inspiraram, assim como o professor N. Maciel, em suas aulas de literatura brasileira, e a professora Fernanda Maia, com suas aulas de literatura estrangeira. Também nunca me esqueço que fiz a peça do Fantasma da Ópera com a Fernanda.
Fernanda, sim, em inglês ou não, em português mesmo. Eu fiz um trecho em inglês, um trecho de "Cinéfilos". Lembro que eu arrumei uma máscara, eu fui de fantasma e a gente cantou a música em inglês.
E para o Salão Vermelho — no salão era o salão que nem existe mais, coberto aquele lá. Aqui, hoje, a autoridade da biblioteca é um pontinho qualquer. E também isso era um ambiente interessante para a gente fazer essas performances.
Então, fiz as leis, fiz o curso de Letras, comecei a dar aula muito cedo também, que era uma questão que eu tinha desejo quando, enquanto fazia faculdade em São Paulo, eu me indagava: "quero começar a trabalhar". Então, essa decisão também de retornar à minha cidade. Eu já consegui conciliar a graduação com o meu tempo de trabalho, que é muito importante.
É você fazer um estágio, você já atuar como. . .
Então, dar aula bastante cedo. Logo fui convidada a elaborar um curso de idiomas, um curso livre ali para o colégio, né? Pela diretora, na época, e se fixava.
Esse foi meu convite de entrada para a fundação. Comecei a lecionar então no Colégio Dom Aguirre, em aulas de idioma. Eu tinha bastante liberdade.
Sempre achei muito importante a parte do aluno explorar a performance em sala de aula, mesmo sendo uma aula de língua inglesa como língua estrangeira. E ali comecei a perceber o papel desses scripts ou do não-script da performance. Mas, dali a algum tempo, surgiu a oportunidade de eu também compor o corpo docente do colegiado de Letras, que foi uma grande honra!
Iniciei ali minhas atividades nas aulas de literatura inglesa e literatura norte-americana, substituindo a Fernanda. Sim, foi logo na sequência que a Fernanda assumiu suas atividades em São Paulo por conta do teatro. E olha que responsabilidade, né?
Você. . .
eu jamais vou substituir a Fernanda, mas você dá com uma certa continuidade ao trabalho que uma inspiradora havia feito no começo. Claro, era bastante jovem ainda, havia muito a ser desenvolvido. Fiz o mestrado em educação, que foi fundamental para um despertar um olhar mais crítico, reflexivo e na sequência, depois de alguns anos, fiz o doutorado em Linguística.
Em estudos da linguagem, procurei sistematizar e meu olhar, porque, para mim, a performance, teatro na educação, o teatro na escola, é uma atividade criadora, é uma atividade criativa. Porque é um momento que o aluno tem condições de analisar toda aquela relação dialética do desenvolvimento, aprendizagem e criatividade. Então, é tanto no coletivo quanto no individual.
É um momento que tudo que foi constituído enquanto ser naquela atividade vai vir à tona: suas atividades, suas emoções, sua historicidade e os redimensionamentos que ele faz do seu social e das suas impressões. Então, um aluno às vezes começa nada atento, nada alerta de seu papel social, do seu papel enquanto cidadão, mas, aos poucos, ele vai sendo influenciado, vai sendo modificado e vai aprendendo, né? Nem precisaria ficar falando isso, que pra você, você sabe muito bem disso, o quanto a gente percebe as transformações dos nossos alunos e o quanto que é isso que nos nutre.
Acho que essa é a grande questão do nosso reviver, do nosso fazer acadêmico-profissional: observar e constatar a transformação de cada aluno, seja no seu ritmo, em seu processo, e nessa atividade criadora e criativa. E o teatro promove isso, eu acredito! O teatro promove isso, e não é somente no curso de licenciatura.
A gente sabe que as empresas, os cursos de business também usam a performance, também usam as simulações como situações de vivência, de experimentação, que vão possibilitar essa pessoa se constituir. Estar a analisar o seu processo criativo, estar a analisar também esse processo crítico e reflexivo. Para mim, está aí a importância do diálogo entre teatro e educação e, mais do que tudo, está aí a riqueza de fazer o profissional docente: a gente conseguir constatar as transformações nas atividades dos nossos alunos.
Muito bom! Daqui a pouquinho nós retomamos a partir desse momento.