Olá a todos! Hoje eu vou falar pra vocês sobre a investigação de acidentes dentro do nosso programa "Engenharia Clínica em 10 Minutos" onde a gente trata do corpo de conhecimentos que são desejáveis nos profissionais de engenharia clínica numa perspectiva aqui do Brasil. Então nós já estamos aqui no capítulo cinco, "Gerenciamento de Risco", que foi dividido em sete partes.
A primeira delas é investigação de acidentes; segurança hospitalar depois; gerenciamento de riscos, leis e normas; segurança radiológica; gases medicinais; preparação contra desastres e emergências, é um tema bem interessante e tem muito material; e análise da causa raiz dos acidentes e incidentes. Então como sempre, a gente faz uma revisão da aula anterior, em que estávamos falando de outras tarefas que os profissionais de engenharia clínica são convidados a realizar. A gente falou da revisão do plano diretor, às vezes hospital não tem um e a gente tem que ajudar a elaborar um plano, elaborar projetos de ampliação, reforma, fazer compatibilização de projetos complementares com os requisitos de cada equipamento, isso é muito intenso no grande porte.
Falamos também de gestão de contrato com gases, energia elétrica, telefonia. Muitas vezes a gente é convidado a participar disso também. Falamos da importância de desenvolver uma parceria com TI, hoje os equipamentos são todos passíveis de integração e cada vez mais serão integrados.
E vamos a seguir falar sobre a investigação de acidentes que é uma atividade que envolve vários players. Então nós temos o gerente de risco que faz a interface com todos os núcleos, ou seja, de segurança do paciente, CCIH, SESMT, tecnovigilância, enfim, precisa de uma pessoa para fazer todo esse alinhamento. Quando tem um acidente ou incidente o chefe do departamento pode estar envolvido, ser convidado a participar do processo de investigação.
O fabricante muitas vezes tem advogados das partes, organismos reguladores como vigilância sanitária, Anvisa, polícia. Muitos casos envolvem a polícia, tem que abrir um boletim de ocorrência ou uma coisa desse tipo. O paciente também acaba sendo envolvido, tem que ser analisado, os visitantes, os familiares todo esse conjunto de profissionais, de players fazem parte de um evento dessa natureza.
Só lembrando que há um tempo atrás a gente teve uma queda de monitor na beira de leito na Santa Casa de Barretos, tivemos também uma explosão durante um procedimento anestésico no Hospital Baleia de Belo Horizonte, tivemos uma explosão de autoclave na Bahia, então essas coisas vão se tornando cada vez mais comuns e a gente, que atua com engenharia clínica, é convidado a participar. Então vamos falar dos estágios de uma investigação. A primeira coisa é localizar o equipamento, é saber qual o equipamento que foi envolvido ou quais os equipamentos que foram envolvidos, conhecer o histórico dele, saber se tem recall, alerta ou alguma notificação de serviço de campo, mas o mais importante é saber qual o equipamento.
Aí está a importância de a gente começar a praticar a colocar o número de série do equipamento no prontuário do paciente, porque assim as informações ficam integradas e ficam fáceis de serem alcançadas. Entrevistas, a gente vai ter que entrevistar muitas pessoas, enfermeiros, médicos e outros profissionais da assistência como fisioterapeutas, biomédicos, técnicos em radiologia, tecnólogos em radiologia, enfim, as pessoas que estavam presentes no momento e o ponto de vista delas, isto é, o que elas vão poder relatar. Os familiares também.
Às vezes, o acidente pode ocorrer no quarto onde tem acompanhamento de familiar, é importante ver que às vezes o paciente relata algum desconforto, alguma coisa, então é importante também considerar o familiar como um elemento que possa ser entrevistado e e as informações conhecidas. A ideia é que essas entrevistas sejam feitas em separado, de modo que no final a gente possa amarrar todo esse pensamento que foi relatado pelos profissionais e participantes nessa entrevista. Um outro aspecto importante é testar o equipamento, ir além daquele teste de desempenho ou teste bancada formal, mas partir para os testes operacionais completos, considerando a simulação das circunstâncias.
Então, se é um bisturi elétrico: qual a potência de corte? Como é que ele estava montado? Quais eram os outros equipamentos que estavam montados na sala cirúrgica?
Como é que eles interagiam entre si? Resumindo, simular a circunstância na qual o acidente ocorreu e tentar reproduzir o evento, porque quando a gente consegue reproduzir o evento, fazer com que aquele evento seja reproduzido mais de uma vez, fica mais fácil demonstrar não somente a parte teórica, mas a parte prática de qual foi o mecanismo do acidente ou do incidente que aconteceu e determinar o papel do equipamento nisso tudo. Outra coisa, a gente pode ser convidado a testemunhar um teste realizado pelo fabricante, por uma organização independente ou até mesmo pelos peritos das partes, que dependendo de como for o desenrolar do processo judicial, a gente pode ser convidado a tomar parte nesse processo para ajudar os juízes a esclarecer as questões de natureza técnica.
Outro aspecto que é muito importante é o relatório. O relatório tem que ter uma introdução, um objetivo geral, um objetivo específico que você pretende atingir com esse relatório especificamente, um desenvolvimento, onde você vai procurar esclarecer os juízes. Às vezes esse desenvolvimento é feito com base em em quesitos que as partes fazem para o juiz e o juiz encaminha para o perito responder.
Quando não é perguntado, o desenvolvimento deve ser feito de forma a levar o leitor a entender cada etapa, como foi o acidente, como o que ocorreu e em quais circunstâncias. As conclusões muitas vezes a gente termina com orientações, referências bibliográficas, tabelas, gráficos, fotografias, tudo isso é importante. Descrever o dano, o mecanismo de ação, as circunstâncias do entorno onde o equipamento envolvido estava, os resultados das entrevistas, não só com relação às pessoas, como organizações, como fabricante, por exemplo.
Descrição e metodologia das inspeções, dos testes que foram realizados para que qualquer outra pessoa que realize essa mesma metodologia chegue no mesmo resultado. A avaliação dos resultados dos testes, menções a recalls, alertas, notificações de campo, ações de tecnovigilância, tudo isso a gente tem que levantar e ver como que o hospital estava preparado para reagir frente a um incidente ou um acidente. Eu passei um slide a mais aqui.
Voltando, o relatório por escrito, fotos, filmagens, todo o conjunto de informações que permitiu você concluir alguma coisa você deve anexar no relatório. O relatório deve ser mantido sob condições de confidencialidade, não é interessante que essas informações sejam disseminadas sem uma autorização formal ou da organização ou do processo judicial como um todo. E no final também o que se pode fazer são as orientações para evitar que novos acidentes venham a ocorrer.
Por exemplo, treinar, modificar um equipamento, fazer um update de software, mudar a técnica que estava sendo empregada na aplicação daquele equipamento, substituição do equipamento, enfim, alguma medida de segurança para evitar que o dano ocorra mais uma vez é importante e se isso acontecer o pessoal da engenharia clínica também pode fazer o follow-up e garantir que as medidas foram implementadas. Então essa é uma área muito interessante da investigação do acidente, tem muito a ver com engenharia clínica forense, eu mesmo já tive oportunidade de participar de mais de 50 processos judiciais diferentes nas várias esferas da justiça e é muito interessante porque a gente entende melhor o nosso papel como profissional e como a gente pode esclarecer para o juiz, que toma a decisão, o que realmente aconteceu do ponto de vista técnico. Então é isso que eu queria falar nesse capítulo "Gerenciamento de Risco" - a investigação de acidentes é basicamente isso que eu comentei.
No próximo vídeo a gente vai falar da segurança hospitalar como um todo e é isso aí. Espero que vocês deixem suas dúvidas, se inscrevam no canal, acompanhem nossos eventos no Facebook e no mais, muito obrigado pelo seu tempo!