Meus queridos irmãos e irmãs, hoje celebramos com grande alegria a Solenidade de Todos os Santos, grande alegria de saber que a felicidade existe. Parece tolo, até mesmo parece óbvio dizer isso; mas é porque nós não paramos para pensar. Se nós olharmos para esse mundo, e se olharmos para esse mundo com objetividade, com sinceridade, com aquela sinceridade cruel e selvagem de quem quer encontrar a verdade, a nossa conclusão é óbvia: nesse mundo, não há felicidade, não há felicidade perfeita, não há felicidade plena.
Nesse mundo não há. Então, nós temos sede de felicidade, nós queremos ser felizes; mas nesse mundo o que encontramos? Encontramos pequenos momentos de alegria, de uma alegria efêmera, de uma alegria que de manhã brota e de tarde fenece, uma alegria que murcha, uma alegria que passa, uma alegria transitória, uma alegria caduca, uma alegria que se apaga com as luzes do sábado à noite.
Ontem à noite, quantas pessoas saíram para pecar? Quantas pessoas saíram de casa para ofender a Deus num momento de “felicidade”, num momento de alegria tresloucada? Chegaram a casa esta madrugada ou esta manhã, uns sóbrios, outros cambaleando, e a alegria se apagou quando se apagou a luz do quarto.
Não, meus queridos, esse mundo não tem felicidade para nos oferecer. E no entanto a felicidade existe, a felicidade pela qual anseiam os corações humanos, todos os nossos corações. A felicidade, ela existe.
E nós hoje celebramos milhões de seres humanos, “uma multidão incalculável”, diz o livro do Apocalipse, milhões de seres humanos que chegaram à felicidade, à felicidade plena. São os bem-aventurados, os felizes. Celebramos hoje a feliz Virgem Maria, nós celebramos hoje o feliz São José, nós celebramos hoje a feliz Teresinha, o feliz Padre Pio, o feliz Carlo Acutis, esses homens e mulheres felizes que alcançaram a felicidade.
Mas como eles fizeram isso? Nós poderíamos bem dizer que… O nome da festa de hoje é Solenidade de Todos os Santos, mas poderíamos dar um outro nome para ela. O nome da festa de hoje é “O Milagre da Oração”.
“O Milagre da Oração”, porque é isto o que faz os santos. A santidade não é causada por uma causa humana, a santidade é causada por uma intervenção divina, para aqueles que se dispõem a receber essa intervenção numa vida de oração, numa vida verdadeira de encontro com Deus. Eu, hoje, no dia de hoje, exato dia de hoje, eu tenho a alegria de celebrar quarenta anos de minha Crisma.
Fui crismado no dia de Todos os Santos do ano da graça de 1980, pelo nosso arcebispo Dom Bonifácio Piccinini, que naquela época era um jovem arcebispo de 51 anos. Hoje, Dom Bonifácio é nosso arcebispo emérito. (Aproveite para hoje rezar por ele.
Eu rezo por ele, pelo meu padrinho de Crisma. Que Deus lhes dê um lugar no Céu, as graças, a saúde, a vida, a perseverança necessária para isso. ) Mas eu digo no meio da homilia que estou fazendo quarenta anos de crisma porque, com a Crisma, nós recebemos os dons do Espírito Santo, que são os dons que Deus nos dá para agirmos santamente.
Quando os dons do Espírito Santo começam a aparecer na nossa vida, eles começam realmente a brotar (ou seja, nós já temos os dons, só que nós não estamos agindo com esses dons), quando eles começam a aparecer nessa vida, é sinal de que nós estamos no caminho da santidade, estamos verdadeiramente nos aperfeiçoando na santidade, porque quem age a partir dos dons do Espírito Santo age santamente, age divinamente. E eu estou dizendo isso por uma razão pastoral muito objetiva. Nós somos batizados, somos crismados, temos o dom do Espírito Santo.
Por que é que… Por que cargas d’água nós não nos comportamos divinamente? Por que é que nós… as pessoas que estão ao nosso redor não veem estes dons do Espírito Santo brotarem num comportamento divino e santo? Por que é que nós — eu, com quarenta anos de Crisma —, por que é que nós, miseravelmente, não somos os santos que Deus gostaria que nós fôssemos?
E a razão é muito simples, meus queridos. Os santos, os santos rezaram muito, os santos rezaram bem, os santos rezaram sempre. E se nós não somos santos, é porque não rezamos muito, é porque não rezamos bem e é porque não rezamos sempre.
Nós precisamos hoje, para alcançar essa felicidade, essa alegria no Céu, tomar o firme e determinado propósito de rezar e rezar muito, de ter uma vida com Deus. Ele é o nosso melhor amigo. Como é possível que nós prefiramos gastar horas e horas a fio na frente de um monitor de televisão, de computador, de celular, assistindo a vídeos, filmes — horas e horas… —, como se aqueles personagens dos filmes fossem nossos amigos, deixando de lado o único e verdadeiro amigo?
Como é possível? O meu telefone celular, ele tem uma função onde você lá pede para ele mostrar o tempo que você gastou naquele dia nas redes sociais. Eu devo dizer, com a graça de Deus, que gasto pouco tempo.
Mas mesmo assim, quando eu clico ali para ver o tempo que eu gastei nas redes sociais, conferindo notícias, vendo recados, eu olho para aquele tempo e comparo com o meu tempo de oração e eu digo: “Meu Deus, como é possível alguém dizer que não tem tempo para rezar? Como é possível dizer: ‘Eu não tive tempo’? ” Meus queridos, nós temos tempo; o que nós não temos é amor.
Nós temos tempo; o que nós não temos é a decisão, a determinada determinação de preferir Deus. Tudo é mais importante do que Deus, tudo é mais urgente do que Deus: “Ah, hoje eu não pude”. Por quê?
E todos os dias têm uma desculpa: “Hoje eu não pude, não deu tempo. Eu sou padre, eu estava preocupado e ocupadíssimo na minha vida pastoral”. Mas, padre!
… se você é padre e não tem tempo para rezar, você tem tempo para o que mais na vida? Quando Nosso Senhor Jesus Cristo escolheu os seus Apóstolos, Ele disse que escolheu os Doze “para que estivessem com Ele e para enviá-los em missão”. “Para que estivessem com Ele e para enviá-los em missão”.
E os Apóstolos entenderam isso perfeitamente. Quando Jesus subiu aos céus e enviou o Espírito Santo, os Apóstolos logo viram que eles estavam gastando tempo demais servindo às mesas das viúvas e dos órfãos, então eles disseram: “Escolhamos sete homens que sejam diáconos para servir às mesas, e nós”, Apóstolos, “nos dedicaremos mais à oração e à pregação da Palavra”. “Para que estivessem com Ele”, na oração, “e para enviá-los em missão”, na pregação da Palavra.
Isso, que eu digo para os padres e digo para os seminaristas, eu o digo também para você, meu irmão leigo, minha irmã leiga: se você não tem vida de oração, você não tem nada. Você não tem vida, porque isso que você vive não é vida; isso é morte disfarçada de vida. É morte que se agita.
Se você não tem vida de oração, vida íntima, vida com Deus, você não tem vida. Você está simplesmente disfarçando a morte, porque tudo o que você está cultivando lhe será tirado. Tudo, absolutamente tudo será tirado; só o “único necessário” não lhe será tirado.
Essa frase, você já reconheceu, vem da exortação de Nosso Senhor Jesus Cristo a Santa Marta, e Santa Marta se tornou santa exatamente porque ouviu essa exortação de Jesus: “Marta, Marta, tu te inquietas e te agitas com muitas coisas”, nas panelas da cozinha, no WhatsApp, no Facebook, no Instagram, no Netflix, no Youtube; “tu te inquietas e te agitas com muitas coisas”, carregado, levado, açulado para todos os lados, como um cachorro levado pela coleira, por uma multidão de paixões, de pensamentos, de perda de tempo, suma perda de tempo! A vida está passando, e você na frente de uma tela, de um monitor! Que custo isso terá para a eternidade?
O que é que isso significa de perda de glória no Céu, se você chegar a se salvar? Porque muitos não se salvam, e não se salvam porque não rezaram, e não se salvam porque preferiram as panelas da cozinha. “Marta, Marta, Maria escolheu a melhor parte, aquela que não lhe será tirada”.
Meu querido, minha querida, tudo aquilo que agita você o dia inteiro lhe será tirado, e só não lhe será tirado, se você viver tudo isso em Deus, em Cristo Jesus, numa vida de oração. Você é casado? Sua mulher lhe será tirada.
Você é casada? Seu marido lhe será tirado. Seus filhos lhe serão tirados.
Seus pais lhe serão tirados. Sua saúde lhe será tirada. Sua casa, seus bens, sua conta bancária, tudo lhe será tirado.
A única coisa que não lhe será tirada é a amizade que você teve nesta vida com Nosso Senhor Jesus Cristo e o tempo que você dedicou à oração. E no entanto nós estamos “ocupados demais” para rezar. Não, meus queridos, nós não seremos santos e não seremos santos nunca se não rezarmos, porque a santidade é uma ação divina.
O ferro frio não se esquenta por seu próprio poder. O ferro não tem energia para se esquentar, mas o ferro lançado ao fogo, ele se torna fogo. Ele primeiro se purifica da ferrugem.
A oração, no primeiro estágio da nossa vida de oração, ela vai-nos purificando. Sim, essa é a primeira coisa. Por quê?
Porque se você reza, e a sua vida não está mudando, existe alguma coisa sumamente errada com a sua oração. Essa é a primeira coisa que eu quero que você leve de bem prático e concreto para a sua vida. Se você tem vida de oração íntima com Jesus, e a sua vida não está mudando gradualmente, você está rezando mal e existe algo profundamente errado com a sua oração.
Aquilo não é oração, aquilo é simulacro de oração, aquilo é farsa de oração, aquilo é teatro de oração. Existe algo profundamente errado, porque o ferro que se lança no fogo esquenta, não pode não esquentar, e então ele vai-se purificando da sua ferrugem e, com o tempo, ele vai aquecendo e vai ficando incandescente. Essa é segunda fase da vida de oração.
A primeira é a purificação, a segunda é uma fase iluminativa, onde vão começando a aparecer as propriedades divinas, e você começa realmente a se comportar divinamente. Os dons do Espírito Santo vão aparecendo. Você começa a ter um temor de ofender a Deus: “O temor do Senhor é o princípio do saber”; depois você começa a sentir uma ternura e uma piedade filial para com Deus, para com Nossa Senhora, para com a Santa Igreja.
Isso é prodigioso, é uma piedade prodigiosa, um amor prodigioso, de ternura. E assim vão aparecendo todos os outros dons do Espírito Santo, até que, finalmente, como coroa desse processo, aparece a sabedoria, o maior de todos os dons do Espírito Santo. A sabedoria é uma mistura de conhecimento e de amor.
É quando a pessoa conhece e ama, ama a cruz de Cristo e conhece os segredos do Coração de Jesus. Um amor estremecido, uma sabedoria… Saborear o amor de Deus em qualquer circunstância da vida. E então o ferro começa a derreter, começa a se fundir, a se confundir com o fogo; o ferro torna-se líquido, começa a lançar labaredas como fogo, e essa é a terceira fase da vida de oração, a vida unitiva, em que o ferro está tão unido ao fogo, que é um verdadeiro matrimônio espiritual.
Assim, esse é o itinerário dos santos. Os santos foram santos porque passaram por esse processo, por essa vida de oração, por essa vida de transformação. Celebramos hoje a felicidade.
Existe uma felicidade esperando por nós no Céu, e a felicidade é daqueles que nessa vida rezaram. Os santos foram santos porque rezaram. Os pobres condenados do inferno se perderam porque não rezaram.
Tenha uma vida espiritual, uma vida de intimidade, uma vida de amor com Cristo. Viva a sua vida, ame tudo o que você precisa amar — por Cristo, com Cristo e em Cristo. Vamos nos determinar, meus queridos.
Vamos dizer hoje como Santo Expedito: “Hodie”. Hoje! “Hoje.
Hoje eu vou ter vida de oração. Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida”. Sim, uma intimidade com Cristo, um amor com Cristo.
Comece engatinhando, comece devagar, comece em orações vocais, comece em oração filial, escreva cartas para Jesus, vá falando com Ele. Mas tenha tempo para Ele. Este é o maior investimento que você pode fazer na sua vida, porque somente isso não lhe será tirado.
Todo o resto, tudo mais vai ser tirado. Meus queridos, existe um Céu maravilhoso esperando por nós e esse Céu “é dos violentos”. Sim, “o reino dos céus sofre violência, e são os violentos que conquistam” o reino dos céus.
Porque só existe um tipo de gente que reza. É quem faz violência no seu dia para encontrar tempo para rezar. Se você não fizer violência no seu dia, você não reza.
Você pode sair de férias, ficar de papo para o ar vinte e quatro horas, vai chegar ao final do dia e você vai dizer: “Não tive tempo de rezar”. Não pense que você não reza porque você trabalha muito. Você não reza porque você não quer!
Só existe um tipo de gente que reza: aquele que faz violência no seu dia. Então vamos lá. Arrebatemos o reino dos céus, conquistemos a santidade com a vida de oração.
Determinada determinação. Que caia o mundo, que o inferno gema, que venham todas as legiões infernais contra você, mas não deixe a oração. Outro dia, eu dizia para um padre, um sacerdote que é meu dirigido espiritual, eu disse para ele: “Padre, deixe o sacerdócio, mas não deixe a oração.
Deixe o sacerdócio, mas não deixe a oração! ” É evidente que, se ele não deixar a oração, não vai deixar o sacerdócio, mas por hipérbole, para exagerar, para entender a importância da oração. Deixe tudo, mas não deixe a oração.
É o único, o único necessário.