A criação de um Estado Palestino, convivendo junto com um Estado israelense, é apontada pela ONU e por muitos membros da comunidade internacional como a saída para o conflito. Desde a criação do Estado de Israel em 1948 que ela é proposta, mas até hoje nunca deu certo. Neste video eu vou te falar sobre as idas e vindas neste processo de paz, sobre as origens da solução de dois Estados e as críticas contra ela.
O conflito no Oriente Médio envolve uma briga por território; por recursos limitados, como água, fontes de energia e terras para cultivo. Mas tem ainda conotações étnicas e nacionalistas. E pra complicar ainda mais, é um conflito religioso.
A gente está falando de uma terra que é considerada sagrada para judeus, cristão e muçulmanos. Neste contexto, a ideia de uma "solução de dois Estados" para acabar com esse confronto multidimensional começou na época em que a região era um protetorado britânico. Desde fins do século 19 que a quantidade de judeus aumentava na região.
O sionismo, o um movimento que defendia a criação de um Estado judeu, ganhava cada vez mais força. Mas a chegada deles gerou um conflito com os palestinos que estavam ali. Mas foi depois dos horrores do Holocausto que ganhou força a ideia de dividir a Palestina histórica.
A recém-criada ONU aprovou um plano de criação de dois Estados: um para a população judia; e outro para a população árabe. Já na época a proposta teve resistência dos dois lados. De sionistas mais radicais.
. . e dos países árabes, que viram isso como mais uma intervenção colonialista do Ocidente que iria roubar a terra deles.
Mas a maioria dos judeus era a favor da proposta e assim que o Império Britânico saiu em 1948, foi fundado o Estado independente de Israel. Daí, Egito, Jordânia, Síria e Iraque atacaram o país recém-criado. Foi a primeira guerra árabe-israelense, que durou um ano.
. . foi vencida por Israel, que expandiu o território dele.
A Cisjordânia foi colocada sob o controle da vizinha Jordânia, e a Faixa de Gaza sob o controle egípcio. Para os israelenses essa foi a "guerra de independência" deles. Pro povo palestino foi a "Nakba", quem em árabe quer dizer "a catástrofe": 700.
000 palestinos foram expulsos ou tiveram que fugir. A maioria deles e dos descendentes, que hoje são mais de cinco milhões, ainda são considerados refugiados e se aglomeram em países vizinhos. Esse é um dos pontos que complicam a paz até hoje.
Outro momento que alterou as fronteiras foi a "Guerra dos Seis Dias" em 1967, que começou com uma série de tensões, incluindo o acesso a fontes de água. O Estado de Israel lançou um ataque relâmpago contra uma coalizão de Estados árabes e venceu a guerra. O resultado foi a ocupação da Cisjordânia, Gaza e Jerusalém Oriental.
Além disso, os israelenses também ocuparam a Península do Sinai do Egito e as Colinas de Golã da Síria. Tirando a península do Sinai, todos estes territórios continuam até hoje de alguma maneira sob controle ou forte influência israelense. Mas depois de tanta guerra e sofrimento, o mapa da região mudou num momento de esperança.
Você lembram daquela imagem clássica? O líder palestino Yasser Arafat e o premiê israelense Yitzhak Rabin sorrindo e firmando um plano de paz. Eram os Acordos de Oslo, assinados em 1993 que trouxeram uma nova mudança no status das fronteiras: Israel cedeu certa autonomia aos palestinos.
Em troca, a Autoridade Palestina reconheceu a existência do Estado de Israel. O Exército israelense permaneceu no controle de grande parte da Cisjordânia, mas os acordos previam a retirada militar e o estabelecimento de um Estado palestino. Mas aí começaram reações contra os acordos feitas por extremistas dos dois lados.
Facções islâmicas palestinas, como o Hamas fizeram ataques a bomba. Do outro lado, colonos judeus e a direita israelense liderada pelo atual primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, se opôs ao plano de paz. Em 1995, um extremista judeu assassinou o premiê israelense, Yitzhak Rabin, e inviabilizou o processo de paz.
Mas e agora? Os acordos de Oslo foram provavelmente o momento em que o povo palestino esteve mais próximo de ter o próprio Estado. De lá pra cá, a cada ataque e retaliação a situação foi ficando cada vez mais violenta.
E no epicentro deste conflito estão as políticas de assentamento de Israel na Cisjordânia. Dá uma olhada neste video feito por uma ONG Israelense especializada em direitos humanos. A Anistia Internacional e a Human Rights Watch chegam a chamar o regime imposto por Israel como um apartheid, ao segregar os palestinos.
E a ONU tem diversas convenções que afirmam que os assentamentos israelenses na Cisjordânia, um território em teoria temporariamente ocupado, são ilegais por violarem leis internacionais. Mas você deve estar pensando, mas e na prática? Na prática, este tipo de política torna, se não impossível, muito mais difícil uma solução de dois Estados.
Dados recentes mostraram que mais de meio milhão de israelenses ocupam a Cisjordania e eles falam abertamente que chegaram pra ficar. E alguns analistas apontam que esta situação transforma a Autoridade Palestina em uma espécie de força de segurança subcontratada de Israel, sem autonomia e incapaz de garantir direitos básicos do povo palestino. Diante desta Autoridade Palestina fraca, cresce a influência do Hamas, que defende a violência para exterminar Israel.
E do outro lado, Israel tem o governo mais extremista da história. O atual ministro de segurança nacional de Israel já chegou a defender que palestinos deveriam ser expulsos do país. Extremistas de ambos os lados são contra ou jogam contra a solução de dois Estados.
Mas o que dizem os especialistas críticos da solução de dois Estados, então? Uma das referências neste ponto foi um artigo publicado por vários autores em conjunto na revista Foreign Affairs em que dizem que "é hora de desistir da solução de dois Estados". Argumentam que "A Palestina não é um Estado em espera, e Israel não é um Estado democrático que ocupa acidentalmente o território palestino".
Eles apontam que a situação mudou de 93 pra cá e que é preciso reconhecer que o que existe neste momento é a realidade de um só Estado e afirma que a solução de dois Estados funciona como "uma cortina de fumaça para o status quo". Vale dizer que entre os estudiosos existem outras soluções sugeridas: alguns falam em um Estado para todos os habitantes da região com direitos iguais. Outros falam em uma confederação.
E mesmo antes dos ataques do Hamas contra civis, o apoio a uma solução de dois Estados tanto entre israelenses como palestinos vinha caindo. Pesquisas sugerem que gira em torno de 30 a 40% em ambos os lados. Agora, neste momento de espiral de violência, qualquer solução de paz parece ainda mais distante.
O israelense Yuval Harari, autor do livro Sapiens, fez uma reflexão interessante sobre estes momentos. Ele diz: "a sua mente está tão cheia de sua própria dor que qualquer tentativa de chamar sua atenção para a dor de outra pessoa parece uma traição". E ele fala também que neste momento a possibilidade de paz tem que vir de fora.
E na comunidade internacional, é quase um consenso de que a solução são dois Estados.