ah queria falar que eu fico muito agradecida de vocês estarem aqui entendeu a Maira hoje minha filha nossa filha masa falava mamãe Mas vai ficar falando de coisa muito triste né porque ela uma el Ela é professora aqui da UFJF Doutora em letras né E ela mas eu vou dizer depois mais tarde eu posso dizer num depoimento que os nossos filhos que viveram conosco na clandestinidade no exílio não foi fácil a vida deles nem nossa nem deles né então eu sei que tem marcas marcas no corpo marcas na alma marcas no rosto e E isso
não se tira né Isso vai vai continuar mas assim o que a gente faz é ir né vivendo um dia de cada vez trabalhando tudo isso então eu disse não minha filha eu vou ela falou mas por que que você falou aqui por que que você aceitou E ela viu que eu tava assim um pouquinho ansiosa fui de manhã fui até pentear pintar o cabelo tava muito branco ele não pintam mas a mulher se não pinta acha que é desleixo né o homem não o homem é charmoso né Então aí mas não tem jeito né
Aí eu falei não eu tenho que pelo menos pintar cortar um pouquinho meu cabelo para não ficar muito muito feia na na imagem e pras pessoas os nossos convidados então aí eu falei não minha filha pelo contrário eu eu sou eu agradeço então São pessoas que estão se preocupando com o que tudo o que aconteceu no Brasil e que a gente então é a forma que a gente tem de estar passando e eu hoje né já precisando de usar Bengala por problema de artrose né quer dizer tô com 66 anos então se eu não posso
fazer outras coisas a militância ativa como a gente teve na na juventude né então agora na na fase mais idosa tudo que a gente puder falar conversar transmitir ainda é pouco né então quero agradecer e parabenizar vocês de tá fazendo esse trabalho e tinha aquele velho problema eu era moça não é era bonitinha como todas e eles me chamavam de Miss Brasil lá tinha um sujeito que era um tarado que não podia me ver quando ele me via ele fazia assim o nome dele era trali o sobrenome chamava de trali e E aí eu tinha
que ficar tirar roupa então era sempre mesma história nem faziam pergunta certo então esse abuso essa coisa horrível da Tortura não dá para imaginar não dá não dá para imaginar e eh eu sei que foi comigo mas foi com os outros também e continua sendo né aí no Brasil com os pobres com os presos eh eu tinha leite e o leite ele dizia que atrapalhava o desejo dele né então mandou me dar uma injeção para cortar o leite quer dizer diante de uma mulher com leite no peito era era tão como é que eu vou
dizer era tão psicopata que era mais fácil tirar aquele leite e continuar tarado né continuar louco como ele era e os outros também tem o tal de Nelsinho também e era tudo inho Nelsinho Rubinho Luizinho Toninho era tudo fininho tudinho todos no diminutivo porque eles são menores eram menores eles sabiam que eram menores se chamavam de no diminutivo não é só pode ser isso e foi um horror foi foi uma coisa não dá para contar não dá e antes eu fiquei com uma moça chamada aí já me passaram ca um lá do Fundão com uma
moça chamada Vera Vera Lúcia Nicolete ela é de São José do Rio Preto ela e o marido foram presos foram torturados quase até a morte e teve um dia que trouxeram ela desmaiada jogaram ela assim era uma cama um colchão de Palha com uma cama de concreto assim jogaram a Vera lá toda torta e eu pensei que ela tinha morrido e eu comecei a gritar pros meninos ela morreu ela morreu porque não conseguia animar ela de jeito nenhum a gente quando alguém chegar da Tortura você animava fazia massagem ajudava e ela tava desmaiada aí eles
vieram buscar ela assim levaram no colo e foram embora e eu perguntei para um um daqueles guardas que ficavam ali não sei se era do exército falei onde é que levaram a Vera eu só sabia Vera o nome dela não sabia nada dela ela era mais moça que eu um pouco eu tinha 23 Cadê a Vera Cadê a Vera aí ele falou assim levaram ela lá para uma sala dos investigadores onde tem os beliches ela tá lá claro que eu não acreditei nunca mais vi a Vera depois esse mesmo guarda voltou e disse assim ó
a moça aí foi para Hospital Militar eu achei que ela tinha morrido aí 30 e tantos anos depois t ela me escreveu um e-mail você por acaso esteve no dops tal eu sou a Vera eu me lembro que quando eu li eu tremia inteira eu tremia e até hoje falar dela é uma coisa tão sabe saber de vez em quando a gente se telefona e ela veio para São Paulo era eu né aí ela veio aí desculpa que eu fico muito emocionada e a gente se encontrou e eu pensava que ela tava morta e a
gente se encontrou aqui no Paraíso no bairro do Paraíso e agora ela tem netos né foi o Sérgio marido dela e nós somos muito amigas até hoje né E então teve isso aí depois eu fui pro presil tirar dentes fui na véspera do Natal mais ou menos me mandaram pro presentees Não só eu todo mundo e a gente tinha prão preventiva aí no presídio podia ter visita agora o que eles fizeram comigo no dogos também não pode fazer porque não pode nem apagar de tão pecado não é porque é comigo mas eles levaram meu filho
duas vezes lá me ameaçando dizendo que iam queimar ele que eu quebrar E eu lá na cela então a Vera essa moça subiu e e eles ela falou é um bercinho azul é é chamava Moisés aquele berço que a gente carrega então aí eles levaram duas vezes enganando né minha sogra foram buscar dizendo que eu ia ter visita eu e meu marido E no fim eu pude ver mesmo ele lá e ainda eu abracei minha sogra falei não traz mas ele some com ele pelo amor de Deus então levaram meu filho lá um bebê para
fazer isso eles faziam isso com todas as mães depois fiquei sabendo eles deixavam as crianças você vê as Crianças para saber o que eles podiam fazer ou as crianças que verem como algumas companheiras né levavam a criança para ver a mãe torturada arrebentada é eles não tinham escula nem não não é escrúpulo é pior não sei explicar é mais do que isso é pior é pior Eles eram muito boçais animalistas eles também não tinham menor noção do que que perguntariam ou não porque o delegado sacou Mas eles e aí eu me lembro que teve uma
hora já foi barra pesada porque eh Eles eram muito violentos e e me estupraram com c Mas sinceramente eu tava com moral alta PR caramba porque eu ainda tava no momento em que ainda não tinha sido reconhecida uma questão de tempo e portanto ninguém ia caído em lugar nenhum coisa nenhuma gente nenhuma sei lá o que que ia acontecer comigo mas pelo menos as coisas estavam sapas né aí te tira não te dá porrada mas te põe um Jacaré em cima de você é tortura jacaré o jacaré jacaré jacaré jacaré jacaré um jacaré um jacaré
de verdade jacaré que não era muito grande disseram eles depois que era des dentar é assim tortur ele vai dizer tortura não S chozin não fazia nada minimizam entendeu Aquilo não é nada aí botava o jacaré na tua para cada não tinha o nome para mim era Mariguela o jacaré é ah meu pro outro era lin aí botava no teu corpo Então você vai dizer não é porrada o tempo todo mas é tortura não JAC é a humilhação é sacanagem a humilhar o outro na tua frente a fazer is não sei que é não te
deixa dormir é tortura tortura um ambiente de terror eu acho a maior graça quando terroristas foram eles eles foram verdadeiros terroristas terror far terror com as famílias com os amigos tem até e chefe de de trabalho a pessoa foi presa também foi torturada eh crianças torturavam Pais na frente de crianças era terr terr era era um dos objetivos bem Claros era aterrorizar não só quem tava sendo preso mas de preferência a população é para o sentimento é de que é de Vitória sabe nós ter filho depois a mim me disseram que não ia poder ter
filhos tinha um útero infantil retrovertido que eu não ia nunca poder ter filhos O Amil carlou psicanalista lá psiquiatra médico do Doc médico boicot disse que você não podia ter filho é uma ele me examinou não é uma for deura Você tem 21 anos cara diz que você não vai poder ter filhos e você passa quase quatro que ninguém mais pode Te examinar o cara é médico não o cara é torturador o cara é o quê o cara é do exército mas ele é médico mas por que que ele teria dito isso se não fosse
verdade será que eu não vou poder ter filhos você teve filhos tive dois de enfiada assim pum pum eles tinha um jacaré também que botava em cima do seu corpo vocêa nua com o jacaré em cima a barra mais pesada para mim é coisa dos POG arara misturado com choco elétrico né aquela coisinha tipo você fica amarrado eles amarram seus suas mãos seus pés e te penduram no pau né no ferro Aliás você fica pendurado ali e aquilo demora também um tempão e o choque elétrico é um telefone de campanha que eles com dois fios
né eles amarravam no dedo do pé e outros ficavam passando pelo teu corpo nos mais variados lugares e com requint né e vamos molhar ela pro choque pegar mais aí jogava água e aquele choque também tem gradação né então eles começavam mais lento e aumentando você vai achando que vai borret também né coração não vai aguentar porque aquele negócio vai dando você vai se encolhendo todo por isso que eu fiquei inclusive com essa coisa paralisada né porque você vai se contraindo contraindo contraindo contraindo aí para o choque né você dá aquela relaxada a vem de
novo aí você vai se contraindo contraindo é Alucinante é Alucinante e depois de um tempo que eu tava lá já já assim no tava lá quase dois meses eles deram aula de tortura comigo cobaia de aula de tortura para vocês que estão estudando que vão ser professores é realmente inacreditável n você imaginar que você foi objeto de estudo de um grupo de torturadores vários oficiais eles me desceram da sela né eu já tava aí nesse momento eu tava com várias presas eh políticas né e EA te falava ela vai descer quando ia descer já sab
sabia que era alguma coisa grave né só que eu não sabia que era uma aula quando eu tirei o capuz eu vi que tinham vários homens uns 40 a 50 e eles começam Eles me avisam você vai a gente tá dando aula explicando aqui e aí eles começam a explicar o que que é mais eficaz que mais eficaz e fiquei lá um tempão e eu passei muito mal depois e voltei para abha cela com essas meninas cela gritar rezar e pedir para não descer mas não teve jeito chegou o médico e falou aguenta eu voltei
e continuei sendo bobaia você atribui isso a qu você ser forte bonita o quê nova acho que um somatório de coisas né assim né até difícil dizer mas quer dizer nova mais ou menos as pessoas todas eram dessa faixa tária né Mas claro que eles tinham um ódio especial pro fato de ser mulher ser uma pessoa tinha tudo para não estar nisso M porque eles falava muito isso mas você o pessoa tinha tudo perguntar nso como é que se meteu disso uma família toda legal não sei o qu então de um ódio especial né e
enfim eu fui uma pessoa também que T uma certa dignidade diante deles né do que eu pude quer dizer até porque não me sentia tão forte né Eu achava assim se eu começar a Contar alguma história aqui eu vou fraquejar então eu tive a postura assim mais de dizer eu não posso falar nada tem que ficar quieta tem que ficar entendeu assim como se eu não soubesse falar não conseguia não pudesse agora ela só enterrou o meu pai isso Ficou bem claro pra gente a gente não tem não tinha essa dimensão a gente só percebeu
na hora quando ela recebeu um testado J 98 97 sei lá entendeu E esse é o problema é a diferença entre o que tem que tem o morto para enterrar e o que não tem o morto para enterrar nós descobrimos esse ano né No ano passado esse ano que cada um de nós ouu pai num ano diferente entendeu e eu me lembro exatamente o dia que isso o dia que eu decidir que ele tinha morrier eu me lembro porque você decidir que morrer matar de novo entendeu Como que veio a atestado de óbito não veio
o Fernando Henrique né ela recebeu foi buscar e ela tem foto dela no jornal recebendo no Instagram proc curar minha criança tem tá acho que os arquivos lá L da minha mãe tem agora ela eu fui antes foi quando fez 10 anos 81 né como se fosse hoje eu publiquei contra a vontade da minha mãe uma uma mensagem de 10 anos da Morte e mandei rezar uma missa entendeu foi o meu ritual pessoal eu já tinha feito esse ritual antes eu já tinha matado antes eu já tinha literalmente decidido que a morte tinha acontecido entende
a frase né eu já tinha matado meu pai antes mas o ritual Eu eu achei que pra família era importante foi depois do acidente do Marcelo entende a gente estava Voltando a falar pela primeira vez nisso a gente era um silêncio edor não se falava noss cada um tocava a sua vida porque vai falar o quê Tá certo entendeu e eu achei Como já profissional que eu era psicóloga já tava na vida já tinha que aquilo faria bem pra família e fez não gostou nós fundamos aqui em 76 o movimento em 75 foi o ano
internacional da mulher né que então abriu colocou o tema da mulher como debate né Internacional pela Uno né e tal etc e a Terezinha zerbine em São Paulo eh Funda o movimento feminino pela Anistia E aí quando foi em 76 no início de 76 julho eu não lembro bem agosto eu e a Leonora a Leonora falou assim ó magga tá afundando movimento pela amnistia lá em São Paulo vamos começar um movimento aqui eu falei vamos embora vamos começar E aí a gente saiu à procura de pessoas que queriam participar do movimento né pessoas a gente
ia nas casas de mães que tinham filhos presos ainda de mães que seus filhos estavam exilados de irmãs né que que enfim tinha os seus uma companheiras que tinham seus maridos presos ou vice-versa enfim a gente começou a catar as pessoas para montar esse movimento feminino pela Anistia né então foram assim uns três meses de o tempo todo atrasa as pessoas de 76 até 78 Quando foi criado o comitê Brasileiro pela Anistia não foi 78 aí bizoca fala melhor do que eu comitê Brasileiro pela Anistia nós participamos ativamente aqui em Belo Horizonte de tudo a
gente ocupava os espaços e a gente teve apoio de uma igreja católica Progressista então por exemplo nós trou a gente fazia reunião por exemplo na sacristia do da igreja do Calafate que o pessoal nos deu Guarida sempre a gente ia pra porta das igrejas distribuir panfleto a favor da Anistia da Lei da Anistia soltar os presos político C Deus nossos desaparecidos né a gente fazia sem medo eu inclusive na época a Ângela pesut sempre fala mar eu sempre lembro de você porque eu tava grávida da minha segunda filha e com meu filho de do anos
pela mão ia para porta da igreja e não tinha medo né Ia e tal e e se envolvia e fizemos algumas grandes assembleias vamos dizer assim eh para espalhar o movimento ele crescia que vários grupos foram se organizando né tinha gente aí se organizada mães irmãs mulheres aí tinha ess esse conteúdo também da discussão da participação feminina na sociedade muitas aderiram a partir disso eu posso contar algumas coisas do que que era a vida clandestina que era uma coisa horrível né horrível nesse sentido você morava com nome trocado né a gente morou em vários bairros
nem lembro mais de tanto lugar que a gente andou tinha lugar que eu me chamava Vera outro lugar que me chamava mar sei lá nomes mil né e a vizinhança sempre você você aparecia pra vizinhança como casada com aquela pessoa né ele era viajante tinha que lentar coisas para compor a situação no bairro na frente das das vizinhas não podia fazer relações de amizade porque para evitar que as vizinhas entrassem na sua casa em geral a casa não tinha quase Imóveis né eram não eram casas bem mobiladas nem nada então a gente morou aquela época
tinha uma rua que eu não lembro o nome com três casas assim três casas Esta esta esta por exemplo né três casas assim grudadas o resto tudo era me descampado né e do outro lado da rua tinha uma espécie de sítio que era eram portugueses que plantavam verdura essas coisas eu comprava verdura ali para não ir no armazém todos esses cuidados pra vizinhança eu era uma pessoa casada com O Viajante né E O Viajante viajava muito né E era muito ciumento não queria que eu fizesse amizade com ninguém não er uma barra e eu fiz
amizade assim toda nessas três casas que a gente morou a nossa era no meio era tudo assim três casas Compridas aqui morava uma família A outra era grudada que era nossa e a outra era de uma senhora italiana cujo filho havia casado com a brasileira e ela tinha um reto eh lindor nunca esqueço o nome desse menino então era tudo complicado ali e eu me lembro que um dia toca a campainha e era velha a italiana né aí chegou disse assim eu me chamava era Vera dona Vera eu dizia né nome tal Vera A senhora
sabe da injeção eu disse Sei Sabe Vera porque me Beto que é o filho dela tinha casado com a brasileira e tinha nascido esse menino o meu neto tá com febre e eu não sei o que fazer viu era num lugar muito ermo ali né aí eu fiquei na hora dúvida né eu vou ou não vou mas como eu disse que tinha que eu sabia dar injeção não podia mentir eu tinha que dar e eu fui de inão no menino então para essa mulher eu virei Santa né imagina que vizinha maravilhosa que não incomoda que
da ingestão quando doente ficou minha fã saber de nada né até que um dia eu fiquei doente peguei uma uma febre horrível uma ligada desesperado porque eu não podia trazer médico né aí não sabia o que fazer nós tínhamos um companheiro que chamava Eros trenche uma família que já morreu eles eram de Campinas não de Itapetininga é Itapetininga e ele ele era farmacêutico e quando eu fiquei doente daquele jeito febre horrível a lig ela desesperada não sabia o que fazer não podia trazer médico aí ele falou com o trenche né com essa família se Olha
eu não sei o que que eu faço com a Clara a tard dendo em Febre tudo que ele mandava a tomar febre não cedia né daí o o o trenche disse faz o seguinte você pega a Clara de noite bota na capa protege ela bem e vem andando porque era uma estrada né tudo aquilo tudo era muito ermo né vai subindo da Estrada até até entrar na Avenida eu não me lembro como é o nome da avenida lá e aí ele me pegou com o carro eles me pegaram eu toda rolada aí fui pra casa
deles e fiquei no total Eu acho que eu fiquei lá uns TRS meses porque foi caracterizado que eu tinha eu peguei uma infecção muito grande é um negócio que dá uma febre horrível nome da doença que eu esqueci eu sei que eles chamaram um médico que é um companheiro nosso que foi lá na casa vi ver que que era era latite era muita coisa depois eu vou me lembrar do nome aí ele disse não eu ten que ficar em repouso absoluto até quando eu me curei quando passou daquela fe eu voltei para casa agora como
é que volta depois de TRS meses né a casa fechada a aí eu acendi tudo botei o rádio alto que eu ouvi a música italiana porque eu era assim a própria mulher que não era de nada n o negócio meu era cantar fazer nada era uma uma coisa incrível Eu imagino isso representado no cinema como é que seria a cena né E aí eu fazendo o maior barulho porque eu tava imaginando a cena quando a velha se desse conta de que eu tava ali né de defeito TOC com a campanha ouvi o barulho né dona
Vera ai eu fiquei ela falando aquele português meio atrapalhado eu fiquei preocupada O que que houve eu digo não é o seguinte tudo Men tira né minha mãe adoeceu porque eu dizia que eu era Gaúcha você imagina eu [Música] aqui é demais essa história né E aí eu disse assim não minha mãe ficou doente e eu tive que nem Pudo lhe avisar nada a senhora viu a senhora me desculpe teve que ir rápido visitar T que sair rápido né ela disse Pois é mas a senhora viu que as suas plantas cresceram ela mor molhava Plant
que [Risadas] bonitinha agora na clandestinidade você não tem eu vivia no final com a minha mãe e meu filho eu não tinha marido eu não tinha amiga minha amig sabe eu não tinha ninguém eu vivia PR minha mãe eu era jovem né eu caí na clandestinidade com 20 anos de idade e fui até os 36 foram 16 anos de clandestinidade porque viver na clandestinidade é algo e inominável você não tem o que falar né Você tá toda hora você no meu caso em particular você viver com um filho pequeno com nome falso uma criança que
não tem parente Não tem tio o pai é separado o pai você tinha que inventar que o pai éa separado para ele que ele era muito pequeno não sabia o que acontecia quer dizer esse pai ausente que nunca aparece não tem um tio não tem uma avó só tinha uma avó não tinha avó do outro lado todas as crianças T família ele não tem é uma coisa muito dura você tava perguntando como é que foi essa nossa experiência de militância de famí e tal né nós fizemos uma opção eu e Zé Luiz muitos companheiros fizeram
a opção de não ter filhos né mas nós dois nos conhecemos né nos apaixonamos e passamos a viver essa experiência casamos no Rio de Janeiro porque não podíamos casar nem J de Fora nem Araguari Porque nós já estávamos perseguidos nos dois lugares então casamos no rio as duas famílias ficam só para uma um um casamento assim bem íntimo né feito pelos dominicanos é feito pelos dominicanos né fre Eliseu fre Jorge então assim a família toda apoiando e tal mas assim poucos familiares e poucos amigos né para não não chamar atenção mas por que que eu
falei tava falando sobre isso vocês fizeram opção de ter filhos Ah sim então nós fizemos opção de ter filhos né e a gente sabia que era arriscado mas nós eh optamos de ter uma vida normal entendeu agora é complicado né Porque eu sei que as crianças elas elas eh digamos sofreram elas sofreram com esse com essa nossa opção nasceram Numa família de militantes e passaram hoje quando eu eu retomo a minha maternidade eu eu Eu costumo dizer assim que eu tenho uma experiência da Maternidade é na época da Juventude e esse período da ditadura militar
e da clandestinidade do exílio foi uma experiência e hoje é Outra experiência F fiquei muito tempo só né porque eu passei um período longo também na do longo porque ali cada dia parece que é um ano Então na verdade eu fiquei quase TR meses e eu Lembo que eu disente achou ficar louca que não é possível não tinha nada para fazer né porque eles lá você não tem nada absolutamente nada você não tem um um livro você não tem nada não Você não tem nada você não tem nada nada nada e você algumas coisas uma
delas era eu pensei bem Tem que bolar alguma coisa né vários dias eu fiquei tomando soro fiquei assim como se fosse uma enfermaria nessa cela na éa tava muito mal pass tinha mulher eh enfermeiras assim não só não só existia figura feminina nenhuma todos eram homens é isso tem a infraestrutura né que era os homens homem osos torturadores também eram homem só tinha homem não tinha enfermeiro era homem tudo era homem e aí eu sei que falei para não ficar doido tenho que fazer algumas coisas uma delas que eu inventei que eu acho foi uma
coisa né ajudou na minha saúde mental foi eu O Corão era de crina né aqueles cões de palha de eu tirava aquelas paras ficava fazendo tranças tranças e mais tranças fazia assim 20 tranças ficava contando fazia 20 tranças e com medo deles descobrirem e até me proibirem de fazer aquele negócio né então fazia aquelas tranças escondia aquelas tranças ia fazendo aquelas trancinhas Mava uma na outra Mava na outra depois eu desmanchava tudo e botava no colchão de novo aí daqui a pouco eu começava a fazer de novo então isso foi uma das coisas que eu
fazia outra coisa eu lembro que tinha um chão também né que ele tinha uns ladrilhos de pretos e brancos is aqui aí eu ficava contando multiplicando eu somava para cá para lá não sei qu então eram as duas estações que eu tive ao longo desse período né Em alguns momentos eu fiquei com outras presas Outras ficaram sozinha isso variou um pouco mas aos berros a gente conseguia minimamente uma organização era impressionante a gente fazia ginástica canadense tinha aquele livro na época que era super na moda ginástico canadense vamos lá Levanta a perna pra frente não
podia fazer nada pra lateral porque a cela não tinha espaço a cela mima mas a gente fazia esse tipo de coisa depois a gente até montou um jornal né porque depois aos poucos começa a chegar a gente recebia jornal da família não sei o que as meninas lá já receberam mais coisa então a gente passa ali como se fosse um jornal balco passava para PR outra notícia i recortando e colando enfim a gente vai se virando e vai montando estratégias para sobreviver né até també um episódio most um lado também no da Coragem Mas um
pouco do do Romantismo né que aí também tudo era na base do advogado advogado consegue meu advogado como a gente tava numa situação já de alguns meses praticamente n TR comunic totalmente ilegal absurda a história então ele el consegue entrar com pedido no Supremo que a gente então tivesse direito algumas horas durante o dia que uma quarta cela fosse desocupada pra gente ficar convivendo ali um pouquinho estudar fazer alguma coisa junta será brincar fazer E aí foi a glória né nossa que maravilha conseguimos no espaço para ficar Sei lá uma hora por dia porque só
T gritava seu nome quem é você Você é da onde a gente começava SOS L do romântico da nossa bravura mas ao mesmo tempo da nossa generalidade da nossa né a gente vai forar essa cela E aí tin aquelas revistas que a gente já recebia né est não não era estu não era Cruzeiro é E aí o que que a gente cola na parede um retratinho do Lamarca com dando fazendo treinamento pros pro pessoal da da VPR um uma foice o martelo também tinha saído alguma matéria né na revista mostrando maldo comina Batá fazer E
aí sei que chega o não sei se o no Max também mas enfim pelo menos o larca foi mar tavam lá e aí chega o superintendente de geral da deip que era a instituição que tomava conta desses presídios E aí quando ele chega lá Ele olhou aquilo ele não acreditou né são louca aí ele mandou primeiro a j arrancar disse arranque isso da parede uma maluquice vocês estão louca deu lá tor Daju eu morrendo medo to nossa aí A Jess falou ficou pensando pensando ela falou não não arranco não quando a Jesse falou não arranco
não eu falei sou que eu vou arrancar também aí arranca você aí eu olhei olhei vou arrancar não e finalmente ele pede a estrela para arrancar e ela também foi na onda da gente falou não arranco não aí o cara falou acabou Vocês não tem condições de ficar juntas são irrecuperáveis acabou o micr acho um dia dois Maravilhoso né primeiro que tem uma identidade muito grande né essa coisa da prisão coisa muito forte Então você já monta uma um esquema energia muito positiva todoo solidário todos os momentos que tive junto Tod as pessoas foi impressionante
mesmo na porrada na tortura na mesmo com a gess lá longe entendeu com a estrela mas a gente tinha uma uma coisa muito forte parecia que a gente convivia né imagina eu a gente convive os gritos né porque a gente não teve mais do que poucos minutos que alguém abriu a cela e a gente ficou junto mas a gente tem uma atividade uma coisa enorme e aí a questão de como você existe né então uma das perguntas que eu vi de vocês é sobre literatura Óbvio eu lia dois três livros por semana né a literatura
foi minha grande aliada eu acho que aí é muito interessante porque eh Uruguai eles nunca tiveram coragem de Proibir a leitura eu acho que exatamente porque é um país tão escolarizado é uma coisa tão importante a educação na verdade que eu acho que eles não tiveram coragem de cortar isso então mesmo nos piores quartéis os livros entravam né então a leitura a eu tinha uma rotina eh de tentativa de saúde assim então a gente tinha uma hora de banho de sol às vezes duas uma de manhã uma de tarde caminhar e caminhar erguida caminhar com
energia entendeu caminhar olhando pro para longe né então cada momento se aproveitar e depois apareceu a história da yoga né porque meus pais me mandaram um livro imag num livro de Yoga né E eu lá descifrando as posições eu fazia yoga mais de uma hora de manhã mais de 1 hora de tarde a questão da respiração foi fantástica né para mim então bom E aí entremeava isso um pouco alguma tarefa manual que pudesse fazer então eu tinha um dia muito ocupado tá e eh havia sempre algum uma certa possibilidade de conversa eh com guardas né
havia guardas que enfim estavam lá porque eles estão cumprindo seo militar Eles não estão nem aí né e conversavam ou próprios oficiais muitas vezes né um pouco curiosos com esse fenômeno das mulheres militantes né porque eu digo a gente foi feminista Avan la letra né antes do feminismo enfim eh que se surpreendiam em que conversar então alguma relação também você tinha de de fala obviamente que a gente era expert em furar eh em comunicações então de inventar códigos de comunicação com os companheiros que tivessem presos a gente do bilhetinho que o guarda levava a fala
por sinais a gente que quebrava os códigos sempre que possível não é verdade eh Enfim então a a Sra de resistência estavam presents Simas né então eu creio que essa ocupação do tempo intensa né Por incrível que pareça ela foi muito Salvadora né muito saudável né ess Essa ocupação ela era comum entre o conjunto das presas Ah com certeza todas laboriosas em relação os livros eles chegavam por intermédio dos seus familiares isso exatamente E então então eram periódicas as visitas para você conseguir ler Dois a três dias por semana cada 15 dias em geral cada
15 dias havia Breves visitas e eles podiam mandar coisas né Outra coisa por exemplo era eh coisas coloridas né lembro tinha uma colcha colorida alguma foto enfim enfeite né enfeitar aqu mesmo um ambiente realmente muito menor que essa sala do transitava a cela a cela a gente realmente se apropriava tentava mudar um pouco o tempo todo bem naquele sentido da Resistência que eu trabalho muito focou né quer dizer ela não é fora ela é dentro né então te fazem isso você pega isso tenta virar né o tempo todo né nas as coisas mais minúsculas os
militares eles se surpreendiam muito né com a presença da mulher no movimento e eles de alguma maneira tentavam explicar essa visibilidade das mulheres eh dizendo o seguinte Ah vocês estão aqui porque vocês quiseram acompanhar o marido de vocês porque o namorado de vocês era E aí vocês também acompanharam ou então teu namorado te enganou e te levou para sabe tentando colocar a gente no eterno lugar de vítimas né então a mulher e vítima mais ou menos é algo compreensível não então vítimas dos homens que nos levaram para mau caminho né Essa era uma fala muito
recorrente e eles te ofereciam esse argumento Ah você tá aqui porque teu namorado te enganou não sei quanto tal e para nós era uma coisa assim muito natural a gente resistiu muito a essa fala e gente dizia não a gente tá aqui porque a gente decidiu que isso era importante a gente tá aqui porque a gente quis porque a gente acredita no na luta etc né então a gente recusou muito instintivamente esse lugar eh de vítimas que nos era oferecido né eu diria Esse é um bom exemplo um pouco dessa questão que começar aparecer nesses
anos de um outro lugar possível para nós mulheres né Eh de protagonismo out lugar né de mais poder né então eu creio que esse é um bom exemplo partigiano portami via oh Bella ciao bella ciao bella ciao ciao ciao partigiano portami via che mi sento di morire e se io muoio da partigiano o Bella ciao bella ciao bella ciao ciao ciao e se muoio da partigiano Tu Mi Devi seppellire e seppellire l su in montagna o Bella ciao bella ciao bella ciao ciao ciao seppellire la su in montagna Sotto l'ombra di un Bel Fi eh
em tempos de democracia como que como que fica como que ficou né o movimento de mulheres em relação a aquelas grandes campanhas aquelas grandes Bandeiras O que que você estou isso daí em tempos de democracia eh Na verdade o movimento que teve uma época muito forte né antes da Democracia exatamente por causa da da Luta pelo a ditadura que unia todas as feministas no mesmo movimento né os espectro era grande né Ia de Azer com a democracia eh ficou mais eh dividido vamos dizer porque aí começam a aparecer as ideologias né O que que cada
um acredita então no no geral mas isso na questão política geral da Democracia não das questões feministas Porque nas questões feministas continuam as as mesmas bandeiras na verdade né de eh educação igual salário igual né é creches tudo aquela época questão do aborto a questão da da violência né da não violência eh tudo isso continuou durante a democracia sendo a as mesma a mesma briga vamos dizer a mesma a mesma demanda né continuou a mesma demanda E aí muito mais para o poder público né porque antes não havia diálogo aí começou a haver diálogo então
diá poder público e aí os grupos se juntaram então começaram a aparecer a partir da democratização muitas organizações de mulheres mas dessas Deixa perguntar uma coisa dessas bandeiras que já eram antes que continuaram Quais as que avançaram Quais as que tiveram ganhos expressivos e quais as que ficaram presas amarradas é é aqui Aqui realmente não tem muita avança praticamente nenhum é a questão do aborto né a gente fala de direitos sexuais reprodutivos mas é o aborto é que realmente não não avançou continuou os únicos dois casos aqueles de 1940 que é risco de vida da
mãe tem um caso Na verdade eu tô tô esquecendo o anencefalia tem um caso que entrou quer dizer foi um pequeno avanço né e e estupro né quer dizer são os dois casos que já existiam e acefalia foi um que entrou que se conseguiu depois de muitos anos tentando aí até euva divergência de que era uma uma coisa gradual se fazia não gradual né a 20 diver entre os próprios movimentos como não na questão em si mas como chegar lá né como chegar lá agora na questão da violência que houve mais avanços em questão a
leis não que não tenha violência contra mulher Porque infelizmente não podemos dizer isso porque todos os dias há casos né de mulheres assassinadas de de estud de de de apanharem né e tudo quer dizer até na rua quer dizer a violência continua mas há leis e agora acabou de ser né Eh promado uma lei que que er tô chamando a lei do feminicídio né tem a Lei Maria da Pene que já tinha que já er 2006 não Eng E agora tem a le do fico então nessa área eu acho que se avançou pelo menos questão
das leis Mas a questão é muito mais da educação né e Madalena uma coisa na época da da ditadura a o movimento de mulheres se organizava muito em cima de alguns jornais como Brasil mulher o nós mulheres depois o mulherio Então eu queria fazer duas perguntas primeiro se existem esse tipo se ainda existe esse tipo de imprensa se você poderia nominar algumas para pra gente e também como que então hoje esse movimento se se organiza cula não existe essa imprensa existe na internet existe muita coisa na internet estamos em tempo de internet não existe mais
imprensa existe publicações as organizações que podem né quando conseguem fazem publicações seus seminários seus temas né de debate publicações n publicações mas não existe mais esse tipo de imprensa escrita né com boletins existia no início das organizações eh feministas aquelas que é organizações mes alguns boletins escritos ainda ainda existiam no início ainda houve alguns motinos mas isso não se sustenta né porque se sai cara imprimir e tal tem que AL fazer escrever T então isso nos sustentou várias tiveram né Não chegou a ser um jornal com circulação maior coisas pequenas né pontuar você distribuí em
seminários em Atos em eventos e tal mas depois foi caindo e realmente com a internet começou e aí há muita coisa coisa que nem eu conheço se porque são jovens por exemplo que Ah faz um blog e tal que não chama feminista mas que é feminista porque as ideias são feministas tá entendendo então tem muita coisa nesse éa se você for pesquisar tem muita coisa realmente nascendo e cada vez mais cada vez mais houve um um uma de um Boom recente srio de de da questão do feminismo como a ide a ideia o que que
cada uma acha que é feminismo aí varia porque tá chegando ur gente enor e cada um acha que feminismo é alguma coisa mas a pouco pouco tempo teve o show da bonc nos Estados Unidos e atrás do palco tava escrito feminist em letras garrafais em luzes entendendo isso só para um exemplo né a a Valesca Popozuda aqui se diz feminista e eu sou feminista porque eu sou do meu corpo então há uma espécie a escritoras escrevendo né fal fazendo artigos a Clara de Brook realmente uma coisa de uma uma volta mas uma volta com outras
com uma diversidade que já havia mas que é muito maior hoje em dia que cada uma é o seu feminismo eu sou feminista porque eu acho isso e real ninguém tem carteirinha né claro [Música] [Música] n