O programa a seguir pode conter descrições de extrema violência e não é recomendado para pessoas sensíveis. [Música] Oiê, eu sou a Mab. E eu sou a Carol Moreira.
E o caso de hoje é sobre um dos criminosos mais famosos do Brasil. Vestido com roupas elegantes e um lenço que cobriu o rosto, o assassino de hoje foi responsável por quatro mortes e dezenas de roubos e estupros. Por causa da sua sagacidade, ele levou 6 anos causando pânico em São Paulo até finalmente ser pego.
Essa é a história do bandido da luz vermelha. [Música] Brasil, se você gosta desse tipo de história que tem crime, tem mistério, vocês têm que conferir o novo selo da editora E de Ouro, que se chama Trama. Sim, gente, a Trama é um selo especializado em livros de fantasia e thrillers que tá sendo lançado agora.
O primeiro lançamento deles de thriller é o livro Onde está Daisy Mason, escrito pela Cara Hunter. E o livro fala sobre uma garotinha de 8 anos que é a Daisy, e ela desaparece misteriosamente. E aí tem toda uma jornada de um detetive para encontrar essa garotinha.
É, e assim como o caso de hoje do bandido da Luz Vermelha, esse livro trata de como os policiais têm que correr contra o tempo para descobrir quem é o criminoso, né? E tipo, ninguém faz ideia da identidade dele, então fica aquela aquela caçada que a gente ama, né? Exatamente.
E é claro que a gente tem o quê? Cupom de desconto. Aê!
Quem não ama um cuponzinho? Quem não ama um cuponzinho, o cupom é trama 10 e você tem que comprar no submarino. O link vai est na descrição do episódio, o cupom também e só vale até o dia 31/03, então fica ligado.
João Acácio Pereira da Costa nasceu em 1942 em Joinville, Santa Catarina. Ele veio de uma família pobre e ele tinha um irmão mais velho e outras duas irmãs. O pai dele era muito violento e batia na família toda.
E por causa disso, a mãe do João fugiu de casa, só que ela levou só as duas filhas e deixou os meninos a merc. Então, desde criança, o João já tinha sido abandonado e o único protetor dele era o irmão mais velho, o Joaquim. E a vida deles teve outra virada, quando o pai deles morreu de tuberculose.
Nessa época, o João tinha 6 anos. E o Joaquim 7. Os irmãos ficaram sob o cuidado de um tio que, de acordo com o João, explorava eles com trabalho infantil.
Supostamente esse tio fazia eles passarem o dia inteiro trabalhando em troca de comida e ainda abusava física e psicologicamente deles, ameaçando de morte, agredindo eles várias vezes. E nem dormir dentro de casa eles podiam, gente. Eles tinham que dormir do lado de fora.
Até que os irmãos não aguentaram e fugiram. E aí eles começaram a cometer roubos, assalto, roubo de carro, sabe? várias coisas para poder conseguir sobreviver.
E eles não tinham moradia fixa, eles iam onde tinha dinheiro e onde a vida fosse levando eles. Eles ficavam em hotéis e estavam sempre em movimento. E infelizmente esses irmãos foram frequentemente abusados sexualmente na rua por meninos mais velhos.
E daí o destino separou os irmãos. O Joaquim foi mandado pro juizado de menores e depois que ele saiu, ele virou agente de saúde, assim quando era mais adulto. E o João foi por um caminho oposto.
Ele se juntou com uma gangue de rua e ele participou dela por toda a adolescência. Ele tinha uma reputação de ser um dos meninos mais espertos e ameaçadores. E ele tinha uma ferida na perna, então ele acabou ganhando o apelido de ferida.
Nesses anos, ele até tentou se reaproximar de alguns parentes, assim, tios e primos, só que a família achava que ele era um mau exemplo e não queriam ele por perto, então acabavam se afastando dele. Inclusive, um dos tios do João morreu num incêndio misterioso. A própria casa dele foi incendiada e nunca conseguiram definir quem ou que iniciou o incêndio.
Anos depois, o João falou que o tio teve o que mereceu e que não sentia pena porque o tio tinha recusado ele. E óbvio que teve gente que achou isso suspeito, né? Tipo, será que o João tem alguma coisa a ver com esse incêndio e tal?
Mas não dá pra gente saber porque isso nunca foi investigado. Quando ele já estava no fim da adolescência, o João foi trabalhar numa tinturaria, mas ele continuava cometendo aqueles pequenos furtos. Chegou um momento que todo mundo em Joenville já sabia quem era ele.
Ele já tinha sido detido e fugido várias vezes. E os policiais decidiram ir atrás dele de novo. Então o João foi perseguido, pegou uma bicicleta e ele pedalou por horas até chegar em outra cidade.
E aí ele decidiu que ele não podia mais voltar para Joenville, né, que ele já estava sendo perseguido por lá. Olha, perseguido até hoje. Gente, a polícia chegou aqui.
Eu não estou em Joinville, mas enfim. O João decidiu que ele precisava mudar de cidade, né? Ele precisava de um novo [Música] lar.
Foi em 61, quando João tinha 18 anos, que ele decidiu se estabelecer na cidade de São Paulo. Ele continuava roubando carros, furtando pessoas na rua, coisas assim. E com o dinheiro dos roubos, ele foi morar no hotel, numa região conhecida como Boca do Lixo, que fica na região da Luz, no centro da capital.
O João amava filmes de Faroeste e o preferido dele era Pistoleiros ao entardecer. Ele passava horas assistindo e ele tinha uma fixação muito grande por essa figura do bandido que chega na cidade, chama atenção de todo mundo, tipo uma figura imponente. E além disso, ele era obsecado por um criminoso real chamado Carry Chazman.
E esse cara, ele era conhecido por seu the red light bandit, ou seja, o bandido da luz vermelha dos Estados Unidos. Então assim, o nome vem daí. O Chman, agiu na Califórnia nos anos 50, ele cometia roubos, sequestros e estupros.
E ele acabou sendo condenado à pena de morte e foi executado nos anos 60. Durante a adolescência, o João acompanhou essas notícias do Chman e ele ficou muito impressionado, principalmente com a lábia dele, porque ele sempre conseguia atrasar a execução da pena de morte. Ele sempre aparecia com um apelo, com alguma coisa.
Ele era super bem humorado, ele ria das acusações, ele sempre aparecia com novas provas, dizendo que a polícia tinha se enganado. E sempre que ele fazia isso, ele conseguia espaço na mídia de novo para tentar provar que ele era inocente. E como a gente sabe, quando um crime fica muito noticiado, é o famoso Lola Paluza, que a gente sempre fala, só a mídia, o público parece que já é o suficiente para definir se a pessoa é culpada ou inocente, né?
E o Chman sabia disso. Então ele sempre tava assim educado, ele era divertido, sabe? Ele falava: "Ah, eu não sou culpado desse tal crime, do não sei quê".
Então, fazia o Tad Band, né? É, ele fazia essa enrolação aí. E nessa ele conseguiu ficar adiando muita coisa por muito tempo, mas a lábia dele não fez ele escapar da pena de morte e ele acabou falecendo.
Só que mesmo assim o João achava ele o máximo, né? Achava essa capacidade dele de se manter em alta incrível. E ele ficou obsecado pela cor vermelha, que era a cor que representava o Chessman.
Então, ele começou a moldar a personalidade dele em torno da do Chessman. É como se ele tivesse interpretando um personagem. E além disso, João também era obsecado pela Jovem Guarda, que foi esse movimento musical que rolou ali nos anos 60.
E um dos participantes era o Roberto Carlos, né? A gente conhece o famoso o pai do Fuk. F.
Para quem não tá vendo Big Brother, é uma piada, tá? O pai do Fique não é o Roberto Carlos. Isso.
E a mãe não é a Glória Pil. Isso. Bom, eh, então era o Roberto Carlos, fazia parte, né, desse movimento da Jovem Guarda e o João curtia muito as roupas dele.
E outra participante da Jovem Guarda era Vanderleia. O João tinha um mega crush nela e ele queria casar com ela a todo custo. Olha, nessa época todo mundo tinha um crush na Vanderleia.
Vou falar que o João não era só quem era o João na fila do pão. Exatamente. Era só mais um crush.
E ele tinha um plano, gente, assim, infalível. Como é que ia ser? Ele ia invadir a casa da Vanderleia e convencer ela a casar com ele ali naquela hora.
Quais as chances disso realmente ter dado certo? 100%, né? Claro que ela vai casar.
Não, toda mulher espera que o homem, né, vá da casa e obrigue você a casar naquele momento, já traga o padre e tudo mais. Você viu que tinha uma moça dando uma aula de online de tipo uma dança assim e aí um cara entrou na casa dela, saiu esses dias, essa semana no na internet, ela tava ao vivo dando aula assim de dança e entrou um brother na casa dela e ela pegou mas para casar, não para, sei lá, tentar agarrar. Ela entrou e começou tipo a vir em cima dela e ela tava tipo ao vivaço.
E você não viu isso? Vou te mandar, vamos postar no nosso Twitter. E a mulher começou a bater no cara, ela virou e falou assim: "Ah, você vai vir aqui".
E começou a bater nele e perseguir ele. E dá para ver na live assim o cara fugindo Nossa, gente, queor, que bom que ela conseguiu bater nele. Meu Deus.
Sim. Ia ser a Vanderle, ia acontecer isso. Vayé.
Ai, gente, não, mas horrível assim pensar na nessa ideia, né? como que a mente da pessoa tem que tá deturpada nesse sentido. Mas enfim, ele usava as roupas e tal, que lembrava esse estilo, né, da Jovem Guarda e principalmente aqueles ternos pretos assim que eram parecidos com os do Roberto Carlos.
E outra peça que ele usava também era uns coletes, umas luvas de couro. Gente, vale a pena dar uma pesquisada, viu? Porque realmente era uma parada estilosa, né, naquela época, um chapéu de feltro.
Então assim, era umas cores assim bem interessantes. Ah, ele gostava de tudo que passava sem essa coisa elegante, extravagante, né? Bem jovem guarda mesmo.
Os looks eram mara. Enfim, ele queria parecer que ele era da elite, sabe? Ele queria parecer mais chique.
Ele chegava até pintar o cabelo, botava até peruca. E quando ele saí à noite, a desculpa dele pr as pessoas não acharem o visual muito estranho, ele dizia que ele era roqueiro, que ele se apresentava na rua Augusta toda a noite. E aí, gente, olha o nível da mentira.
Ele levava uma guitarra com ele. Tipo, ele nem sabia tocar guitarra, mas ele levava a guitarra para compor o look. Isso que é comprometimento com o seu lookquinho, tipo carnaval que eu eu acho engraçado quem vai com aquelas fantasias de carnaval que tem que levar muito aos objetos, sabe?
Parece tipo o monstro do Big Brother que tem que ficar carregando um monte de coisa. Gente, eu tô muito viciada no Big Brother, me desculpa. Enfim, aí o o João andava com o look todo, com a guitarra, tudo, e ele também começou a usar um lenço para cobrir o rosto quando ele praticava os crimes.
De acordo com o psicanalista Joel Bearman, as roupas extravagantes faziam parte da tentativa de que, mesmo pelo lado do mal, pela ação diabólica, o mundo reconhecesse que ele existia. E esse psicanalista também explicou a obsessão dele pelo vermelho, porque para ele o vermelho era o símbolo do diabo. E ele se transformou no diabo, né?
Esse mal que alimenta nele a sensação de ser essa figura diabólica. É como se ele falasse: "Vocês fizeram de mim o mal, então eu vou ser contra vocês a personificação do capeta". [Música] Tá, a gente já tem então todo o personagem montado, comportamento, as roupas e aí tudo isso, né?
A guitarrinha lá falsa. O João começou a agir. Ele já foi chamado de homem macaco porque ele usava um macaco sanfonado de carro.
Ele prendia na janela das casas, ia girando e rompia a janela com um estalo só. Daí ele entrava e roubava as coisas. Ele também foi chamado de bandido incendiário, porque quando uma família se trancava no quarto, ele colocava fogo nos livros, jornais, assim, para poder forçar eles a saírem e aí agredia eles.
Mas o nome que ele realmente amava era o que ele deu para si mesmo, que era bandido da luz vermelha, que nem o ídolo dele, o Chan, o João costumava agir de madrugada entre 4 e 6 da manhã. Ele entrava quatro porque achava que era quando o sono das pessoas estava mais pesado. E ele sabia por volta das seis porque a maioria das trocas de turno dos vigias era bem nesse horário.
Então quando dava essa hora, não tinha guarda e tal. Aí era quando ele acordava as pessoas para abrir o cofre, alguma coisa do tipo. E aí ele teria folga para sair nessa meia hora antes do novo guarda chegar.
E ele usava macaco de carro para esticar a grade e aí abria a grade e entrava. Quando ele não conseguia, ele quebrava a janela. só que sempre de luvas para não deixar nenhuma impressão digital e tal.
E ele era super ágil e forte. Numa das primeiras casas que ele invadiu, o João foi mordido por um cachorro, o que piorou aquele problema na perna que ele já tinha. Aí ele teve uma ideia, gente, que eu fiquei passada.
Quando ele ia roubar algum lugar, ele injetava clorofórmio num filé min cachorro. E aí quando o cachorro comia, né, ele ele dormia e aí o cachorro não fazia barulho, não latia e não denunciava a presença dele. Se alguém fizer isso com meu cachorro, eu mato.
Mas é muito exemplo de uma pessoa, tipo, que vai, é isso que é uma coisa que a gente fala demais, assim, que ela vai ficando mais, tipo, ele era um cara inteligente, né? Ele vai sofisticando, ele vai aperfeiçoando, operando. E ainda ele usava sempre uma lanterna vermelha para entrar nos lugares à noite assim.
E aí o apelido dele foi ficando mais forte ainda, né? E gente, ele estuprou várias mulheres nos anos que ele agiu ao todo, assim, foram quase 100 mulheres de todas as idades, desde crianças de 9 anos até idosos de 80. Inclusive, quando ele entrava no quarto de uma criança, ele perguntava se era menino ou menina.
E aí, se fosse menina, ele abusava. E às vezes ele deixava bilhetes pras vítimas. Uma vez ele entrou numa casa e roubou várias coisas e tal e a moradora estava dormindo pelada na hora.
Ele nem acordou ela nem nada, mas ele deixou um bilhete que dizia: "Uma mulher de respeito não deve dormir sem roupa. Em breve eu voltarei e espero que esteja vestida. " Assinado, o bandido da luz vermelha.
E aí ele deixou a carta na cabeceira e foi embora. A mulher não acordou nem nada. E aí vocês sabe o que que aconteceu, gente?
Seis meses depois, ele voltou para assaltar a mesma casa e a mulher estava dormindo vestida naquele dia. Uma outra vez ele foi assaltar uma casa, só que os policiais receberam uma denúncia que o bandido da luz vermelha tava lá. Então a polícia foi lá e gente, olha, eu nem acredito.
Ele se fez de sonso. Ele abriu a porta e fingiu que ele morava na casa. Ele falou: "Oi ah não, não tem nada aqui, não.
Não tem nada acontecendo. Tá tudo certo, viu, gente"? E gente, a polícia foi embora sem perceber que era ele.
Ele era o bandido da luz vermelha. E ele tinha uma série de cúmplices que eram, enfim, pessoas que ajudavam ele, né, a começar por um motorista de táxi que várias vezes buscava e levava ele pros roubos. Então ele tinha até um motorista, gente, até porque ele saia de casa com mala cheia de coisa, de joia, de objeto pesado e tal, então ele precisava colocar rápido no carro e sair correndo.
E depois que ele roubava um objeto de valor, ele tinha que revender. Então ele tinha dois receptadores. Um deles chamava Walter de Oliveira, só que apelido dele era Caboré, e outro era um cara espanhol chamado Carmelo.
A função deles era pegar essas joias que o João roubava e vender ilegalmente. Inclusive, eles chegaram a se desentender porque os receptores sempre estavam querendo aumentar a quantia pela venda, né, a porcentagem. E o João dizia que o Caboré e o Carmelo ficaram ricos às custas dele.
Só que em 66 o João foi preso por receptação de joias roubadas. Mas na época ninguém fazia ideia de que ele era o bandido da luz vermelha, porque ele usava uma identidade falsa. Então ele foi preso com o nome de Roberto Silva.
E ele ficou uns dias preso, foi solto, mas ao invés de sossegar, o João não se abalou com isso, pelo contrário, ele foi ficando cada vez mais [Música] ousado. No dia 3 de outubro de 66, o João invadiu uma casa na rua Grajaú, no bairro Sumaré. O estudante de 19 anos, Walter Bedran ouviu um barulho e apareceu na sacada com uma arma.
O João tentou falar: "Não, foi mal, bebi demais e entrei na casa errada". Só que o Walter não comprou essa desculpa e ameaçou atirar. Aí o João pegou um revólver e atirou no Walter, que morreu com tiro no rosto.
O João saiu correndo, pegou um táxi, só que ele tinha deixado os sapatos lá. E aí, olha que interessante, quando ele chegou no hotel onde ele tava morando, ele chamou um cara na calçada e falou: "Eu te pago uma grana se você subir no meu quarto e pegar um par de sapatos para mim, que eu não posso sair do táxi sem os meus sapatos". Um psicanalista envolvido no caso disse que isso só demonstra a obsessão do João e não sair do personagem, da imagem elegante que ele tinha construído.
Entrar no hotel sem sapato seria pior para ele do que ficar ali dando sopa pra polícia. Bizarro, né? E aí 10 dias depois, no dia 13 de outubro, o operário José Eneas da Costa, de 23 anos, estava num bar, no bairro Bela Vista e o João também estava no bar, só que eles começaram a se estranhar sem muito motivo.
E aí o João ficou achando que o José tava encarando ele e eles começaram a discutir. E foi uma briga sem pé nem cabeça, tipo, pode ser só porque o João tava bravo, sei lá, por ele que tava querendo descontar alguma coisa. De qualquer forma, o conflito foi ficando físico e aí o João atirou no moço, no José e o José morreu.
E assim, gente, o lugar tava cheio e o João não estava caracterizado com o Luke Bandido da Luz Vermelha, né? Então ele não tava com o lenço e tal, então simplesmente ele matou uma pessoa ali em público e fugiu. Ele ficou realmente com medo de ser preso.
Então ele tomou uma decisão drástica, se mudar pra outra cidade. E o João se mudou para Santos, onde ele achava que não ia ser encontrado e tal, e lá ele poderia voltar. agir como bandido da luz vermelha.
Mesmo assim, ele ficou uns meses assim meio low profila, não fazia muito alarde, comendo quietinho. Ele conseguiu um apartamento legal, até porque assim, nessa época ele já tinha muito dinheiro de que ele tinha roubado e tal. Ele decorou o apartamento todo vermelho e ele ficou morando em Santos.
Só que de vez em quando ele ia para São Paulo para cometer os crimes. Ele passava a semana toda saindo de noite em Santos, se divertindo, bebendo, dançando. E aí quando dava vontade de roubar ou ele precisava de dinheiro, ele ia para São Paulo, cometia os roubos e voltava.
Em 7 de junho de 67, quando ele estava com 25 anos, o João invadiu uma casa no bairro dos Jardins, em São Paulo, para roubar joias, como sempre. A casa pertencia a um magnata industrial suíço chamado Jeanvon Christian. Putz, já quero ver você falar essa essa esse nome aí.
Vamos lá. Chamado Jean Von Christian Saraspatac. Mas o Jean eh viu o ladrão e tentou reagir, só que o João atirou no cara e ele morreu.
E esse já era o terceiro assassinato, né? 8 meses depois daqueles dois primeiros. E aí, um mês depois disso, na madrugada do dia 6 de julho, ele foi assaltar uma mansão no bairro Ipiranga.
E ao chegar lá, o João deu de cara com o vigia José Fortunato, que tava de guarita na mansão. O João se escondeu, mas o vigia, o José conseguiu vê-lo e eles começaram a trocar tiros. E adivinhem, o João matou o vigia.
Depois disso, ele quebrou o vidro de uma das janelas e entrou na mansão. Ele subiu para procurar o cofre e encontrou uma das moradoras, uma estudante de biologia chamada Ingrid Yaskab Assad. E ela tava acordada na hora porque ela assustou com o barulho e o João tentou abusar sexualmente dela, mas ela reagiu, inclusive agrediu ele com alguns objetos.
Só que o João ficou muito bravo, jogou ela no chão e deu três tiros nela e foi embora. A moça foi levada pro hospital e acabou sobrevivendo, mas com a morte do vigia, o João já tinha cometido quatro assassinatos. No dia seguinte, a polícia foi dar uma olhada na mansão.
E diferente dos outros crimes, dessa vez o bandido da luz vermelha tinha deixado uma pista para [Aplausos] [Música] trás. Lembra que o João quebrou a janela para entrar na mansão? Então, quando ele fez isso, ele deixou uma impressão digital e a polícia fez uma análise com todos os digitais que tinha no banco de dados e conseguiram achar um suspeito.
Por quê? Porque um ano antes o João tinha ficado preso com aquele nome falso de Roberto Silva por receptação de joias roubadas. A gente até comentou aqui.
Então, as digitais dele estavam nos dados da polícia e deram médico com as do bandido da luz vermelha encontrado na cena do crime. Divulgaram nos jornais a foto dele, que também tava no banco de dados da polícia. receberam um monte de denúncia de gente que eu conhecia ele e dizia que assim, o nome dele não é Roberto da Silva, não, é João Acácio.
E aí a polícia começou as buscas. Por sinal, a revelação do rosto dele saiu na capa da Folha de São Paulo. Isso foi inédito na época, que nunca um assassino tinha chamado tanta atenção na mídia quanto João conseguiu chamar.
Como João não era besta, né, ele fugiu do estado de São Paulo e foi se esconder mais pro sul, lá no Paraná. Ele se refugiou na casa de um amigo em Curitiba, enquanto a polícia dava voltas achando que ele estava em São Paulo ou em Santos. E gente, a busca não foi brincadeira.
Chegou a ter 120 viaturas atrás dele ao mesmo tempo. Foi por causa do bandido da Luz Vermelha que a polícia teve que desenvolver métodos com mais tecnologia, com mais eficiência paraa identificação de impressões digitais, por exemplo. Isso sem falar na mudança geográfica que ele causou em São Paulo, né?
Por causa desse bandido da luz vermelha, se tornou extremamente comum as casas da área nobre colocarem muros. Então assim, nessa época que todo mundo começou a colocar muro em tudo, porque todo mundo estava com medo de ser invadido. E um mês depois do último assassinato, no dia 7 de agosto de 67, a polícia finalmente o encontrou.
Primeiro ele resistiu à prisão, né? Ele era muito forte, então ele ficou tentando comprar briga e tal, não queria ser pego, mas não teve como. Os policiais dominaram ele.
Ele foi encaminhado de volta a São Paulo e quando ele tava, quando ele foi pego, ele tava todo irritadiço, respondão. Se algum policial perguntava algo, ele respondia com ironia. Só que quando chegou em São Paulo, colocaram ele numa célha.
Até parte assim da parede estava pintada de vermelho, lençol vermelho, etc. E aí ele se acalmou, ficou sereno e começou a responder certinho todas as coisas que perguntavam. Confessou os quatro assassinatos em detalhes e com as datas e horários batendo certinho.
Outra coisa que vale falar é que quando ele foi preso, ele tinha dezenas de ferimentos de balas nas nádagas nas costas, que eram marcas de toda a violência que ele sofreu na rua quando criança. E aí ele ficou preso lá esperando o julgamento. E aí vocês já imaginam, né, gente?
Ele ganhou uma legião de fãs, várias mulheres mandando carta, dizendo para ter força, que queriam ficar com ele, aquelas coisas que a gente vê muito. E aí, finalmente, o julgamento aconteceu em 1970, 3 anos depois dele ser preso, quando ele já tava com 28 anos. E como João adorava a atenção da mídia, quando rolou o julgamento, ele amou, porque um monte de repórter foi falar com ele, ele batia papo, dava entrevista, dava informações exclusivas que ninguém sabia.
E como ele era obsecado com o Chman, sempre que ele ficava dando entrevista, ele aproveitava, né, como ele aprendeu com ele, a usar a mídia a favor dele. Então, com os estupros, por exemplo, ele começou a dizer pros repórteres que, na verdade, ele não estuprava, na verdade, ele flertava com as pessoas da casa e se rolar rolou. Isso irritou muito o juiz e no quarto dia do julgamento ele determinou que o processo ia ocorrer em segredo para manter a honra das vítimas.
Então, ia ser proibido o João ficar falando disso pros jornais. Durante a defesa, o advogado tentava a todo custo provar que ele era incapaz de responder pelo crime porque tinha problemas psicológicos e falava que ele teve tuberculose, que isso afetou a cabeça dele permanentemente, mas não rolou. Os psiquiatras definiram que ele era semiimputável, ou seja, ele tinha noção do que estava fazendo, só não tinha noção da magnitude daqueles atos.
Mas ainda assim ele estava na compreensão de que ele estava cometendo crimes. E João foi condenado a 351 anos, 9 meses e 3 dias de prisão. Ele foi condenado oficialmente por quatro assassinatos, sete tentativas de homicídios e 77 assaltos.
Os vários estupros que ele cometeu com algumas vítimas nunca foram comprovados. Médicos especializados definiram que ele tinha graves problemas psicológicos. Então ele ficou 7 anos preso no manicômio judiciário do estado de São Paulo, onde a saúde mental dele foi só piorando.
E os outros anos ele passou num presídio tradicional e ele já declarou tempos depois que tudo que ele fez foi porque os ricos não deram oportunidade para ele, mas os psiquiatras que estudaram a situação dele falaram que não era nada disso, que ele realmente tinha desvios psicológicos [Música] mesmo. Nos anos seguintes ao julgamento, o João começou a dar entrevistas e a revelar coisas que ninguém sabia. Ele disse que tinha mantido um relacionamento amoroso e sexual com o Caboré, o receptador.
Já preso, contou também que tinha um namorado dentro da prisão, um cara que era cozinheiro e foi preso por homicídio. E toda essa questão abriu uma, digamos, uma pergunta sobre a sexualidade do João, né? Eu acho que nem ele definia muito com quem ele era, né?
o que que ele é, se ele é b, se ele era hétero. E aí muita gente acha que ele só se interessava por mulheres quando ele tava com ódio, né? Quando ele queria ter essa dominância, quando ele queria cometer um estupro mesmo.
E uma coisa que corrobora essa ideia é que ele era amigo de várias prostitutas, mas ele não tentava transar com elas. Ele sempre comprava joias, roupas, elas dormiam na casa dele. Ele era realmente amigo delas, ele queria a companhia e tal.
E ele também roubava várias roupas femininas nas casas que ele assaltava, que poderiam ser os troféus, né, o que ele levava para lembrar dos crimes. Outra coisa que ele falou depois de preso é que nessa época que ele cometia os delitos, ele teve uma namorada e eles tiveram um filho juntos, só que essa namorada nunca foi encontrada. Então essa informação pode ter a ver ou não com um boato que rolou na época das investigações, porque um dos investigadores conversou com uma das vítimas de estupro e ela disse que uma outra vítima tinha engravidado do João.
Então foi dito que essa mulher que engravidou não quis abortar por motivos religiosos e que manteve tudo em segredo. E aí a gente não sabe, isso nunca foi comprovado, essa mulher não foi encontrada, então assim não dá para saber. Em 97, o João foi libertado do presídio.
E é bom explicar, mas ele, né, tinha sido condenado a 351 anos. Então, como assim? Porque não importa quanto tempo você é condenado.
Nessa época a Constituição brasileira falava que nenhum criminoso podia ficar preso por mais de 30 anos. Hoje em dia a lei já permite até 40 anos, dependendo do caso, mas como na época, né, ele foi pego em 67, então foi em 97 que completou esse período limite. E quando ele saiu foi o famoso Lola Palusa.
Dezenas de jornalistas em cima dele, ainda mais que ele saiu usando uma camisa vermelha, né? Claro. E todo mundo, cara, você lembra disso?
Você tem essa, eu tenho essa lembrança tão forte, lembro? Mas eu entendo ele porque eu amo vermelho também. Amigas.
Você lembra dele ter saído? Não, eu não lembro. Eu tinha, eu tinha 11 anos, mas eu lembro muito disso, dessa notícia.
Eu não lembro. Não sei se é porque eu morava lá em Cuiabá e acho que a gente não ficou sabendo desse rolê. Ah, não, foi o Brasil todo.
Esse era, esse era grande. Mas enfim, eh, foi aquele Lola Palusa, né? Todo mundo fazendo mil perguntas, tal.
Os guardas tiveram que proteger ele, levar até o carro. Só que ele não ficou assim nervoso não. Desde que ele foi libertado, ele deu várias entrevistas.
Se chegasse um repórter no meio da rua querendo falar com ele, ele conversava, falava que a prisão regenerou, que ensinou a respeitar a vida dos outros. Gostava de atenção, né? Quem buscou o João no presídio foi o irmão dele, o Joaquim.
O Joaquim ofereceu pro João morar com ele, mas ele preferiu voltar para Joinville, que era a cidade natal. e morar com alguns parentes. Relatos de vizinhos contam que ele sempre acordava de madrugada, botava uma manta e ia pra área do aeroporto ficar vendo os aviões decolarem.
e ele sempre tretava com os familiares. Então ele acabou tendo uma briga bem séria com um primo que expulsou ele de casa e agrediu ele. Depois disso, João passou por vários lugares pedindo abrigo e acabou sendo aceito na casa de uma família que era encabeçada pelo pescador chamado Nelson Pinzeger.
Pinzeger. Pinzeger. Pinzeger.
Não sei falar. Nelson Pinzager. E aí morava nessa casa o Nelson, a esposa, as duas filhas, a mãe do Nelson e o irmão dele, o Lírio.
E o Nelson não quis aceitar o João no começo, né? Tipo um cara estranho na sua casa, sei lá. Mas a esposa dele insistiu que eles tinham que ser caridosos, que eles tinham que acolher o João e tal.
Só que nunca foi uma convivência tranquila. O João assediava todas as mulheres da casa, até a mãe do Nelson, a esposa, as filhas, todo mundo. Sem falar que ele era super agressivo e ele ficava meio descontrolado de vez em quando.
E aí no dia 5 de janeiro de 98, mais ou menos 4ro meses depois de ser solto, o Nelson entrou numa briga com o irmão dele, o Lírio. Então os dois irmãos, né, o Nelson e o Lírio, começaram a tretar justamente porque o Lírio não aguentava mais o João na casa sediando os familiares e tal. E aí o João pegou uma faca e ameaçou o Lírio com ela.
Só que quando o Nelson viu a a, né, que o o João ia atacar o irmão dele, o Nelson atirou no João e o João [Música] morreu. Aos 55 anos, o bandido da luz vermelha estava morto. Depois de matar, o Nelson saiu correndo.
Ele fugiu com medo de ser preso. Só que dois dias depois ele voltou e resolveu se apresentar pra polícia. E ele falou, né, que tinha agido em legítima defesa e agordou o julgamento em liberdade sem grandes problemas.
Ele foi a julgamento no Tribunal do Júri de Joinville em 2004, 6 anos depois. E todo esse tempo ele passou em liberdade, mas tanto a defesa quanto a promotoria concordaram que ele merecia ser absolvido, porque realmente foi legítima defesa para salvar a vida do irmão. E assim foi o desfecho da história do bandido da luz vermelha, que morreu relativamente cedo, aos 55 anos, mas que marcou o país por muito mais tempo como um dos criminosos mais lembrados do Brasil.
[Música] Esse episódio foi pedido no Twitter pelo Doug Thomas, o Frases de Eugênio. Foi escrito por Luiz Leite e apresentado por Carol Moreira e Mabé Mona Fé.