Acordei com o gosto de sal e lama na boca, o corpo latejando como se tivesse sido esmagado entre duas marés. Minhas costas estavam em carne viva, esfoladas pelas rochas afiadas que o oceano, em sua fúria, usara como dentes. A luz do sol me cegava, mas não era o calor que me fazia sofrer, era o silêncio.
Um silêncio tão espesso que parecia viver por si só. Tentei me levantar e cada músculo gritou em protesto. Meus olhos vasculharam [música] a praia em busca de algo familiar.
Destroços do almirante, meu navio, meu lar por mais de 12 anos. Tudo o que restava eram tábuas quebradas, uma roda de leme enterrada na areia e um único barril de água ainda fechado, [música] como um presente deixado por um deus irônico. A tempestade tinha vindo [música] sem aviso.
Uma parede de nuvens negras engoliu o céu ao entardecer e antes que pudéssemos arriar as velas, o mar se ergueu como uma besta ferida. Lembro do grito do timoneiro, do estalo do mastro se partindo ao meio, do frio da água me arrastando para as profundezas. Depois só escuridão.
E agora esta ilha era linda de um modo que doía. Palmeiras altas dançavam [música] com a brisa, suas folhas sussurrando segredos antigos. Penhascos de [música] pedra vulcânica, cobertos por trepadeiras floridas, cercavam a enceada como sentinelas.
O mar aqui era de um azul tão puro que parecia vidro líquido. Se eu não estivesse à beira da morte, teria ajoelhado em reverência. Arrastei-me até [música] a sombra de uma árvore e deitei, certo de que morreria ali.
Mas antes que o sono me levasse, ouvi. Não foi um som comum. Não era o vento, [música] nem as ondas, nem o canto de pássaros.
Era uma melodia baixa, fluida, quase inaudível, mas que vibrava dentro dos meus ossos. Parecia vir da mata, do coração da ilha. Foi então [música] que as vi.
Primeiro pensei que eram ilusões, fruto da fome, da sede, do delírio. Mas elas se aproximaram com passos silenciosos, como se a terra as abraçasse a cada movimento. Eram mulheres, sim, mas não como qualquer mulher que eu já vira.
Seus corpos tinham a graça humana, mas estavam envoltos por uma pele suave, coberta por escamas [música] finas que brilhavam em tons de esmeralda, âmbata. Dependendo da luz. De suas [música] costas desciam longas caudas serpentinas, sinuosas e elegantes, que se arrastavam pela areia sem deixar rastro.
Seus olhos [música] eram dourados, com pupilas verticais, como os de cobras, mas não havia agressividade neles, só curiosidade [música] profunda, quase sagrada. A mais alta usava um colar feito de conchas entrelaçadas e dentes de tubarão. Seus cabelos, negros como a noite, estavam trançados [música] com flores brancas.
Ela se ajoelhou diante de mim, estendeu a mão, não para me tocar, mas para me oferecer uma concha cheia de água fresca. "Bebe", disse [música] em uma voz que parecia o eco de um rio subterrâneo. Sua língua era estranha, gutural e melódica ao mesmo tempo, mas as palavras eram em português.
Um português arcaico, macio, como se tivesse [música] sido aprendido de livros velhos e marés antigas. Beb. A água era doce, com um toque de raiz e flor.
Revigorou-me como um milagre. "Quem quem são vocês? ", perguntei rouco.
Ela sorriu [música] e seus dentes eram levemente ponteagudos, mas seu sorriso era gentil. Somos IV, as guardiãs da serpente mãe, eu. Tu és o que a maré trouxe.
As outras mulheres me ergueram [música] com cuidado, como se eu fosse feito de vidro soprado. Não usaram cordas [música] nem redes, apenas suas mãos e a força silenciosa de seus corpos caminharam comigo [música] para o interior da ilha. E a cada passo, a mata parecia abrir caminho.
As árvores se curvavam, as folhas se afastavam, [música] os animais se calavam. Chegamos a uma aldeia que desafiava a lógica. Não havia cabanas no chão.
Tudo crescia dentro das árvores. Troncos ocos abrigavam moradias circulares com entradas [música] em espiral, cobertas por cortinas de seda vegetal. Pontes de cipó ligavam as copas e o chão da floresta [música] era uma tapeçaria viva de musgo, flores noturnas e raízes entrelaçadas.
[música] O ar cheirava a jasmim, terra molhada e algo mais. Um aroma [música] antigo como incenso de templos esquecidos. Fui levado à plataforma mais alta onde a mulher de [música] conchas me esperava.
Meu nome é Nagaari", disse ela. "Sou a guardiã da memória. Eu sou Elias, só um [música] marinheiro.
Meu navio se foi. Não há só aqui", respondeu [música] com serenidade. "Tudo tem peso, tudo tem propósito.
Ela me conduziu [música] até uma parede viva, coberta por desenhos entalhados na madeira viva da árvore. mostravam cenas antigas. [música] Uma serpente gigantesca envolvendo a ilha, mulheres nascendo [música] de ovos de luz, um estranho vindo do mar com um colar em forma de círculo.
Esta [música] é a profecia, disse Nagari. Quando o mundo exterior sangrar veneno e a serpente [música] adormecida perder seu canto, o filho do mar virá com um olhar limpo. Ele entrará [música] na cova do coração negro e não com espada, mas com silêncio, restaurará o canto da cura.
Olhei para meu pescoço. Ali estava o colar que minha avó me [música] dera antes de morrer. Um anel de prata com uma serpente mordendo a própria cauda, o símbolo [música] do eterno retorno.
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