[Música] Muita gente acredita que a revolução russa foi feita pelo povo ou que pelo menos ela recebeu um grande apoio popular, mas isso está longe de ser verdade. O livro The Voice of the People, em português A Voz do Povo, publicado em 2013, reuniu uma coletânnea de 150 cartas escritas por trabalhadores e camponeses soviéticos durante os primeiros anos do regime bolchevik. A obra deu a palavra à opinião da população soviética, que raramente é considerada nos registros históricos da revolução.
No livro, as cartas são reproduzidas integralmente e analisadas uma por uma pelos historiadores Carmine Storela e Andrei Socolov. Elas foram inscritas nos primeiros 15 anos da revolução para líderes soviéticos como Lenin e Trotsky. A primeira dúvida que surge é como uma população de analfabetos da Rússia imperial poderia ter escrito as cartas.
É claro que existia analfabetismo na Rússia Imperial, mas ele foi exagerado pela propaganda soviética. De fato, a maioria dos russos era ignorante, atrasada e isolada de grande parte do mundo moderno. No entanto, tendemos a imaginar o analfabetismo como mais disseminado do que ele era de fato.
Era do interesse da historiografia soviética enfatizar as conquistas bolcheviques e uma forma de reforçar isso era exagerar o grau de atraso na época da revolução. Afirmar que o analfabetismo era generalizado é enganoso. Uma parte substancial da população sabia ler e escrever.
O próprio regime soviético fez na época um levantamento para saber o nível de analfabetismo da população. De acordo com o censo sindical de 1918, quase 2/3 dos trabalhadores que viviam na cidade sabiam ler e escrever. Em 1920, 40% da população na Rússia e na Ucrânia afirmava saber ler e escrever.
Além disso, o próprio governo estava encorajando os jornais locais a terem um escrivão que colocasse no papel as mensagens que os Mujiques queriam enviar ao regime. O novo governo queria informações dos próprios camponeses para saber como as políticas estavam sendo aplicadas em cada região. As cartas eram direcionadas aos jornais soviéticos por meio de escritores substitutos para camponeses analfabetos, fazendo com que até mesmo o mais humilde MJik desse suas opiniões.
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A Caravelas já publicou o livro sobre a Revolução Francesa, As Cruzadas, A idade Média, A Guerra Fria e muito mais. Visite o site da editora e aproveite as [Música] promoções. Mas as cartas não se limitaram a responder o que o governo queria.
Os camponeses aproveitaram o espaço para registrar suas insatisfações e fazer críticas às políticas soviéticas. As cartas vão do período da guerra civil até o início da coletivização forçada no campo em 1932 e aproximam o leitor contemporâneo da realidade vivida pela população naqueles anos em meio à guerra, à fome, à pobreza e aos abusos das autoridades locais. Quando foi lançada em 2013, a obra foi bastante elogiada por trazer à tona fontes pouco exploradas e apresentar uma nova perspectiva sobre a relação entre o Estado soviético e a população.
Infelizmente, o livro ainda não foi traduzido no Brasil e sua versão em inglês não tem um preço atraente. Embora seja difícil adquirir a obra, é importante que as pessoas tomem conhecimento sobre como a população soviética encarava os revolucionários. Tema que dificilmente é ensinado em sala de aula porque os livros didáticos normalmente repetem o que a propaganda soviética dizia, que a revolução era amplamente apoiada pelo povo.
Fiquem agora com alguns trechos selecionados do livro. Quando o jornal Gazeta Crashtiansaia começou a ser publicado no final de 1923, os bolcheviques haviam eliminado os partidos políticos de oposição e a maioria das organizações governamentais, incluindo os sovietes, tinha caído sob domínio do Partido Comunista. Nesse ambiente político altamente fechado, a escrita de cartas constituiu uma das poucas formas pelas quais os cidadãos poderiam ter atenção das autoridades.
A escrita de cartas direcionou o fluxo de jornais e outras comunicações oficiais, transformando os leitores de receptores passivos de notícias em participantes ativos da construção da nova sociedade. permitiu em particular que camponeses alfabetizados, semianalfabetos e analfabetos, por meio de escritores substitutos, transcendessem os limites impostos pelo isolamento geográfico, permitindo que até o mais humilde Mujik expressasse suas opiniões sobre temas importantes e insignificantes. A maioria das cartas dessa coletânea foi solicitada pelo conselho editorial da Gazeta Crastianskaia, mas não chegou a ser publicada.
No entanto, as cartas complementavam os canais de informação oficiais que as autoridades centrais recebiam. Portanto, elas tinham a virtude de fornecer à liderança central uma noção da opinião pública sobre uma variedade de questões, além de ser um meio para avaliar o ânimo da população. A hostilidade em relação ao regime e à suas políticas nem sempre está ausente.
A linguagem, o tom e as lições transmitidas nessas cartas estão frequentemente longe do que Moscou consideraria confortável ou correto. A tentativa oficial de organizar a escrita de cartas também estava sujeita à espontaneidade popular. sem mencionar o desejo evidentemente sincero dos camponeses de escrever a verdade sobre aquilo que sabiam.
Como as instituições rurais do Estado e do partido ainda estavam em processo de formação no campo, os camponeses podiam ser menos cautelosos e sentir-se mais encorajados a se expressar livremente. Moscou também contribuiu para a atmosfera de expressão aberta ao iniciar campanhas de propaganda, visando combater, por exemplo, a corrupção, o desperdício ou a má gestão financeira das autoridades locais. Mas convidar críticas vindas de baixo é sempre arriscado.
Líderes e liderados geralmente leem roteiros diferentes e agem com motivações diferentes. Uma vez aberta a barragem, as críticas e as insatisfações e emoções por trás delas podem ser difíceis de canalizar. Na análise de classe do partido, a maioria dos camponeses era ou aspirava a ser pequena proprietária e, por isso, estava dominada por uma mentalidade pequenburguesa que os tornava um aliado pouco confiável.
Acima de tudo, essa mentalidade colocava os camponeses em desacordo com o objetivo final dos bolcheviques de socializar a produção agrícola por meio da agricultura coletiva. Com base nisso, os membros do partido tendiam a encarar os camponeses com desconfiança e a difamar muitas de suas atividades e ambições como egoístas e exploradoras, em vez de socialmente úteis. A doutrina do partido classificava os camponeses sem terra e os camponeses pobres como proletários.
Os camponeses ricos eram apelidados de Kulax, um termo que anteriormente se referia aos agiotas das aldeias. Após a revolução, o termo adquiriu a conotação política pejorativa de antiproletário. A condição subordinada dos camponeses também os colocava em desacordo com o discurso político soviético dominante, que buscava definir os interesses e os objetivos do Estado como idênticos aos dos camponeses.
Como resultado, o campesinato adotou uma atitude crítica em relação às reivindicações do Partido Comunista, uma atitude que não hesitavam em expressar em suas cartas. As dificuldades da vida cotidiana constituíam uma grande fonte de insatisfação com o novo regime. Os trabalhadores, em nome dos quais os bolcheviques exerciam a ditadura, sentiam profundamente as privações materiais e não hesitavam em expressar seu descontentamento.
Um trabalhador escreveu o seguinte: "Camarada Len, o que você nos fez? Depositamos nossas esperanças em você, confiamos a você o governo do país e ficamos sem uma migalha de pão na rua. Seria melhor ter sido fuzilado.
Documentos. Carta a Leon Trotsk e Vladimir Lenin de um trabalhador de Petrogrado sobre a situação do abastecimento alimentar na cidade. Novembro de 1918.
Camaradas Trotsk e Lenin, nós, todos os proletários das fábricas e usinas de Petrogrado, estamos nos demitindo de vocês. Estamos nos demitindo porque seu governo está esmagando nossas forças. Antes de vivenciarmos isso, todos nós nos posicionamos a favor do poder soviético.
Mas quando vimos os caminhos do poder, amaldiçoamos esse regime e quem o lidera. Explicarei os motivos de nossa maldição. Um, o exército vermelho nos rouba indiscriminadamente, sem verificar se temos como alimentar nossas famílias ou não.
Eles não verificam isso, apenas retiram o que querem. E se você não entregar, eles atiram em você na hora e inventam provas de que você desafiava o poder soviético. Dois, eles roubam de todos os passageiros nas estações de trem.
Quem recebe esses rublos miseráveis e vai comprar pão para sua família, volta sem dinheiro e sem pão. Aliás, camaradas Trotsk e Leni, vocês mesmos sabem quanto pão estão dando por cabeça em Petrogrado. Um trabalhador não consegue se alimentar assim.
Embora seja caro, temos de comprar no mercado negro, goste ou não. Três, pedimos a vocês, como nossos líderes, que permitam a todos os trabalhadores de Petrogrado, passagem gratuita até a estação de Toropino para comprar pão e outras provisões. Em Petrogrado, eles estão caros demais.
Camaradas, deveria interessar a vocês que os alemães e o Exército Branco do Norte nos alimentam com seus sacos de pão, mas a Guarda Vermelha nos rouba. Atendam ao nosso pedido, camaradas. Carta ao presidente do Soviete Supremo dos Comissários do Povo, Vladimir Lenin.
28 de junho de 1918. Estou notificando-os dos eventos de 24 de junho na província de Orel. O povo de toda a província e especialmente em Orel está extremamente insatisfeito com o poder soviético por suprimir e zombar da religião.
Eles também estão perturbados com a enorme quantidade de polones estonianos, letões e judeus na milícia, nos sovietes e em outras organizações. Um grupo bem organizado e armado de ferroviários está preparando um extermínio geral de judeus em Orel para 1eiro de julho e a expulsão imediata de poloneses, letões e outras nacionalidades. É claramente entendido por todos que em vez de obter a liberdade, eles se tornaram escravos desfavorecidos de um estado impessoal.
Todos estão sufocados com essa liberdade. 90% das pessoas espera que o quizar apareça para retalhar os bocheviques e manter Len e Trotsky em gaiolas, alimentando-os com carne de cachorro. Se houver uma tentativa de registrar a colheita de grãos, todos os celeiros serão queimados, pois todos veem esse regime como uma humilhação e completamente ilegal.
Eles consideram você, Lenny, um tirano inescrupuloso, insolente e cruel. Antes que seja tarde demais, saia. Pare com essa violência contra o povo.
Do contrário, eles vão devorar você. Você deve realizar o desejo do povo. Mostre um pouco de humanidade.
Você inflingiu uma boa dose de tortura ao povo e bebeu quase todo seu sangue. Os comissários são ex-escriturários, ordenanças. São todos garotinhos estúpidos, grosseiros e convencidos.
Tudo está cambaleando. O povo está se preparando para saldar a entrada dos alemães com uma procissão camponesa. Por causa da supressão da religião, o povo despedaçaria todos vocês se caíssem em suas mãos.
Para o bem do povo e seu bem-estar, vocês deveriam dissolver os soviétes imediatamente e sumir. Cartain de OM, morador da vila de Sumi, Ucrânia, sobre a proibição do livre comércio e seus efeitos no abastecimento. 25 de março de 1920.
Respeitado camarada Lenin, entendo que o comércio privado não seja permitido na Rússia soviética, mas talvez isso pudesse ser adiado porque as pessoas ainda não se adaptaram. Se o comércio privado é proibido, significa que todos os itens, sem exceção, devem estar disponíveis nos armazéns estatais. Mas não há nada nos armazéns estatais.
Na minha opinião, se ainda há bazares, então existe um comércio privado. A proibição do comércio privado está apenas no papel e isso beneficia os comerciantes que praticam um preço mais alto pelo risco que correm. Mas se o comércio privado for permitido, haverá mais produtos a preços mais baixos e as pessoas não passarão fome.
Ou então as lojas estatais precisam ser melhoradas. Camarada Lenin, que tipo de luta é essa para o proletário quando trabalhadores morrem de fome, frio e tifo? O que o pobre proletário deve fazer?
Ou ele apoia o poder soviético ou especula. Ato que vai contra o que o poder soviético está lutando, mas ele precisa especular porque precisa comer.