E aí, essa experiência em Londres e em Moscou, de certa maneira, refrescou. É porque você virar aluno de novo, né, é uma coisa muito curiosa de acontecer depois dos 40. Eu tinha colegas; o curso é sensacional, que é um curso que aceita alunos de várias partes do mundo, né?
Então, minha turma tinha umas 20 pessoas. Você acaba conhecendo gente dos Estados Unidos, da Inglaterra, da Ásia; tinham iranianos, enfim, europeus e tudo mais, e também de idades muito diferentes. Curiosamente, não era o aluno mais velho, mas era um dos mais velhos.
Mais atroz essa troca com essas pessoas, né? Avisava a vida teatral de dois lugares que são muito dedicados ao teatro, né? O teatro londrino é muito forte e, em Moscou, o teatro faz parte da vida das pessoas como ir na padaria comprar pão.
Então, isso foi muito interessante de ver, assim. Tirando, obviamente, todo o conteúdo dos programas, das disciplinas dos cursos e tudo mais, o mundo. .
. [Música]. Isso renovou um pouco a própria prática teatral e pessoas com as quais eu me correspondo até hoje.
A gente troca muitas ideias, a gente se visita de vez em quando, né? É uma coisa de você sair um pouco daquele seu mundinho, né? Porque, para quem é do interior, né, parece que ir para São Paulo é o objetivo máximo, né?
Mas depois que a gente. . .
porque eu já estava aqui há um tempo, foi importante alargar um pouco esses horizontes, assim, né? Londres, especialmente, é um lugar para onde eu volto com razoável frequência, sempre que dá, porque além de ter morado lá e conhecido pessoas, é uma referência enorme, assim, de teatro. Muitas vezes vou assistir a coisas, buscar textos e continuar fazendo essa reciclagem, que é o mais claro em que não para, né?
É uma aprendizagem eterna, assim, a gente não para de estudar, né? A gente não para de estudar; cada peça que começa é um processo de estudo que tem a ver com aquela peça, que tem a ver com aquele autor, que tem a ver com aquele texto, com aquele universo. E mesmo quando você já está estudando e já está mergulhado naquilo, é.
. . cada coisa puxa um fio diferente e a gente vai estudando, estudando, estudando.
Outro dia mesmo, tinha que escrever o texto que vai entrar no programa da peça. Falei: "Bom, preciso. .
. não estava achando exatamente a chave que eu ia usar para escrever o texto do programa da peça. " E falei: "Não, preciso estudar mais isso aqui.
" E aí passei o final de semana inteiro estudando para poder escrever o texto do programa da peça, que já estava pensando há um tempão. Então, a gente acha que uma das maravilhas dessa profissão é que você não para de estudar. Então, o aprendizado, tanto o aprendizado mais técnico, vamos dizer assim, do ferramental, né?
Então, eu leio muitos livros que falam sobre o que são depoimentos de diretores, que são técnicas de ensaio. É aquilo que lá fora eles chamam de "the workbook", que são livros com exercícios, com práticas para você usar na sala de ensaio. Falei muito sobre isso, mas a história do teatro, enfim, as biografias dos diretores são sempre muito importantes porque, nas biografias dos diretores, eles falam muito sobre a prática, sobre o que acontece dentro da sala de ensaio.
Mas, tirando isso, que é da natureza da profissão propriamente dita, tem aquilo que a gente estuda, que a gente lê de cada peça, né? Então, isso é infinito, assim. Num todo, o processo de dirigir uma peça chama-se "emergência" de um autor chamado Martin Crimp.
E, então, para poder começar a entender o que o cara escreveu, agora a gente está mergulhando em estudos sobre o neoliberalismo e o liberalismo como política econômica. Aí a gente mergulha nesse assunto e vai, né, e vai embora para poder aprender e se aprofundar nisso. Neto, todo o teatro, assim como qualquer obra de arte, pra mim, ele funciona em duas chaves de procedimento, que são a seleção e a síntese.
O Borges, que escreveu um livrinho genial chamado "A Literatura Inglesa", ele fala sobre isso um pouco. É que a obra de arte acontece nesses dois momentos, né? Você faz uma seleção do material e depois você faz a síntese desse material, seja em qual plataforma for, seja numa tela, seja num palco, numa fila, numa página de papel.
Mas, pra você selecionar, você tem que ter abundância de material, né? Eu acho que isso é que tem a ver com esse eterno estudar e aprofundar-se sobre aquilo que você está fazendo, porque o processo de seleção precisa de muita abundância de material. Então, a gente vai buscar em tantos lugares diferentes: na vida, na observação das relações interpessoais, nas referências cinematográficas, literárias e musicais.
Mas a gente vai buscar também nesse estudo aprofundado que a gente faz do objeto da própria peça, né? Então, é um trabalho que esvazia e depois retoma, e depois esvazia de novo e retoma. Para si, parece meio.
. . porque estou falando de maré, mas é um pouco de maré também.
É que pra sensação que dá é quando uma peça estreia, que você é esvaziado, né? Até animicamente, assim, emocionalmente, daquela euforia da estreia, mas depois daquela sensação de desvio de momento, né? É parecido até com o bozo, com o orgasmo e tudo mais.
Mas, mais bonito dessa profissão é que depois tudo começa a acontecer de novo, quando você começa um processo novo na sala de ensaio, quando você vai começar a estudar para a próxima peça. E, então, a gente nunca é igual. A gente nunca é igual.
A minha mãe fala. . .
Os meus amigos falam: "Nossa, mas você anda meio triste, né? O que está acontecendo? " Falo nada, que eu estou estudando muito sobre o Holocausto.
É por isso que estou triste. Agora estou dirigindo uma peça que fala sobre palhaços, então é outra coisa, né? Outro dia, estava lendo sobre o Benjamin de Oliveira, o primeiro palhaço negro do Brasil, e a vida incrível que ele teve, e como ele se tornou uma figura importante na Belle Époque, sendo um palhaço que, sendo negro, era filho de escravos.
Então, é uma profissão que a gente é um pouco esponja, e por isso que também muita gente não entende por que a gente fica contaminado pelo trabalho, né? Porque parece um pouco obsessivo às vezes, mas se não for esse movimento, se esse movimento não tiver essa característica meio de esponja, fica burocrático, fica menor. A gente absorve o trabalho e leva o trabalho para vários campos da vida que não são da natureza do trabalho em si, né?