Sabe aquela impressão de que você sabe as respostas para todos os dilemas alheios? E sabe aquela reação que você tem em relação aos seus problemas, de chorar no banho? É importante saber por que isso acontece.
Assim começa o texto que nós vamos ler e analisar hoje. Eu sou o professor Mão e continuamos a ler o texto. Escute, escute o que nós vamos dizer agora.
Isto aqui é importante: é que nós vemos os outros como robôs, autômatos, altamente previsíveis. Mais do que isso, vemos os outros de modo objetivo e límpido, como em um filme. Por outro lado, ao olharmos para dentro de nós, vemos e ouvimos barulho e fúria.
Então, vocês têm essa impressão? Eu já pergunto de cara: não é que aquela questão, quando alguém vem com um problema, certo, todo choroso ou cabisbaixo, na hora você já pensa assim: "Ah, mas era só ele fazer isso aqui, né? Era só ele parar de chorar.
Era só ele meter a mão na massa de uma vez. " E fica aí: "Ah, ele não consegue emprego, não para em emprego, mas era só ele se focar um pouco mais ali no emprego dele. " Bem simples, né?
Pois é, de fora é simples, realmente. E não, muitas vezes não está errada a solução que nós temos para os dilemas alheios, como foi frisado aqui, né? Mas aí nós olhamos para dentro, para os nossos problemas, e nós estamos lá todo dia.
Eu tenho que levantar de manhã às 7 horas, às 6:30, e aí eu tenho que ir para um emprego que eu detesto, com colegas que eu detesto, ou coisa assim, né? O meu chefe me detesta, né? Estou sempre brigando com ele, sempre discordando das decisões dele, mas era só eu focar mais um pouquinho ali, baixar a cabeça e trabalhar, ignorar aqueles caras ali.
Não é tão simples, mas eu não consigo. Talvez até de vez em quando me venha a ideia certa na cabeça, mas eu não consigo de qualquer jeito, né? Porque dentro, não é só ver a coisa objetivamente, porque dentro tem barulho e confusão, fúria, né?
Eu fico brabo ou começo a ficar nervoso, ansioso, inquieto. Não é isso que acontece, né? Ah, mas por que nós conseguimos ver a vida dos outros objetivamente?
Como eu disse, muitas vezes nós somos assim como o Descartes, filósofo que dizia que olhava para os outros ou para os animais na rua e imaginava que eles eram uma espécie de robôs, assim, autômatos, né? Não tinha esse conceito de robô, mas autômatos, né? Seres que funcionavam devido a um mecanismo interno perfeitamente previsível.
E nós vemos um pouco a vida dos outros assim, especialmente porque somos deficientes na famosa empatia, não é? Então, nós vemos os outros e não sofremos nada. O cara tá ali com uma cara triste, mas às vezes eu penso: "Ah, mas o cara é meio fracote também, é um fracote aquele ali, né?
É por isso que ele tá triste, não é depressivo porque ele é fraco. " Então, e nós vemos assim: "Bom, era só, né? Só porque ele é assim.
São os gênios dele, sei lá, a educação dele, a educação moral dele que foi deficiente. Já era a programação ali do robozinho. " Já era.
Nós, se não temos muita empatia, olhamos para os outros assim, né? Porém, ao olharmos para nós mesmos: "Ah, não, eu sou muito vivo, está cheio de dilemas interiores, cheio de dores interiores, cheio de impasses emocionais que me impedem de fazer as coisas como eu deveria, né? Eu sou muito humano, humano demais, já diria o título de uma obra de um filósofo.
Eu sou humano, demasiado humano, né? Eu sofro e tá bem assim, né? O que eu vou fazer?
" Continua o texto. Isso é interessante pela seguinte razão: porque mostra que a nossa inteligência realmente é capaz de objetividade, né? E realmente é, né?
Porque se o cara focar ali no trabalho, baixar a cabeça, ignorar os outros, se ele simplesmente suportasse os sentimentos interiores que o impedem de trabalhar direito, ele realmente conseguiria trabalhar, né? O problema tá ali: uma falta de vontade, de força de vontade. Seria fácil, ele treina, treina a vontade e deu, vida que segue; daqui a pouco tu consegue um emprego melhor.
Nós dissemos também: "Ah, beleza, mas quando é conosco. . .
Ah, não, eu nunca vou sair desse emprego, ah, eu estou destinado a isso aí, o meu destino é cruel. " Né? Mas isso mostra que a nossa inteligência existe e ela é capaz de olhar para um problema humano e encontrar uma solução, pelo menos uma espécie de solução, pelo menos uma solução muito genérica, né?
A solução no nível individual, bom, é mais complexa, mas no plano genérico, que é o plano da inteligência, nós vemos as soluções das coisas. Isso já é bom. Aqui, o que eu quero frisar é que isso já é bom; que nós percebamos que a inteligência está ali operando e ela faz o trabalho dela bem.
Tá, o problema muitas vezes não é a inteligência, tá? Às vezes, é, às vezes o cara é burrinho; às vezes o cara não teve uma educação decente, então ele não consegue analisar a situação. Beleza, né?
Dá para remediar aqui e ali, mas muitas vezes o problema não é da inteligência assim para essas coisas do dia a dia, para essas coisas do trabalho, da família, etc. , né? O problema não é a inteligência não entender a situação, é que não tem só inteligência dentro de nós, né?
Tem esse turbilhão, tem essa tormenta que nós vamos ver agora. Agora continua o texto: seria bom se fôssemos objetivos em relação a nós mesmos, mais do que em relação aos outros, por quê? Porque nos tornaríamos capazes de lidar com nossos problemas, né?
Seria bom, né, se a gente. . .
Olhasse se nós olhássemos para dentro e analisássemos o problema, encontrássemos uma solução e implementássemos tudo muito objetivamente, assim, até meio friamente, né? Seria bom se fosse assim, não é? Continuando, você gostaria de ter essa objetividade?
Se sim, continue escutando. A primeira coisa que deve fazer para isso, para ter a objetividade, é lidar com uma barulheira dentro de você. Então, ah, o que me impede?
São esses sentimentos, são essas reações espontâneas que estão dentro de mim ou esses desejos desencontrados, ou esses desejos perversos que eu tenho dentro de mim, que surgem apesar de mim, né? Isso tudo aqui eu estou resumindo nesse termo barulheira, né? Porque isso vem como pensamentos mil.
Uma hora eu quero, eu penso numa coisa porque eu quero uma coisa; outra hora eu penso em outra porque eu quero outra, né? Outra hora eu estou tentando ficar concentrado para uma atividade, aí eu me distraio, ok? Isso é a barulheira que eu falo.
E só há um jeito, hum, de lidar com essa barulheira, com essa confusão interior: esperando a tempestade passar, tá? Parece simples, né? Vamos lá.
Assim como é difícil pensar numa solução perfeitamente racional em meio a uma tormenta do mar, é difícil pensar com o barulho dos desejos e das frustrações retumbando no peito. Olha, então assim, imaginem agora, vocês precisam imaginar. Quando nós propomos, num texto, uma imagem, não é simples comparação a título de ornamentação do texto, né?
Entendam isso. Se eu proponho aqui essa imagem de alguém no meio do mar, num barco, numa tormenta, uma tempestade na água, vocês têm que imaginar, hã? Vocês têm que imaginar essa tormenta, essa pessoa ou esse grupo de pessoas, essa tripulação de navio, numa tormenta, tentando, né, segurar as velas ali ou fechar as velas ou se protegendo da água ou tirando a água do barco.
Tudo isso, você tem que imaginar essa cena porque a cena proposta da imagem tem muito a ver com a solução no âmbito prático da vida prática do dia a dia, tá? Então, continuando, agora que vocês estão imaginando isso, há um detalhe que você deve notar. Na natureza, os fenômenos mais poderosos podem arrasar locais inteiros se estiverem pela frente, mas eles nunca duram muito.
A ação das forças mais poderosas é devastadora, mas também rápida, né? Então, sim, uma tempestade pode ser devastadora; uma ventania pode ser devastadora, mas ela não vai durar cinco anos, ela não vai durar cinco meses, tá? Às vezes ela vai durar cinco dias, três dias, tá?
Que pode parecer muito e pode destruir muita coisa, mas ela não vai durar para sempre. Ela vai durar também um longo período de tempo, né? Tudo que é muito intenso dura pouco, passa rápido na natureza, tá?
Se vocês observarem os fenômenos, vão ver que é assim. Em outras palavras, se você for capaz de sustentar-se em meio à tormenta interior por algum tempo, ela passa, tá? Então esse é o segredo, né?
E a dificuldade é sustentar-se em meio à tormenta, né? Aguentar aquele puxão mais forte do sentimento, né? Até da dor ou do desejo, né?
Aguentar aquele puxão inicial, que é o mais forte, não é? Mas se aguentar. .
. não sei quanto tempo, varia de pessoa a pessoa, de caso a caso, de desejo a desejo, né? Ele passa.
O desejo não dura para sempre, né? O cara tá com um desejo de bolo, mas não vai durar para sempre. Se o cara não quer comer o bolo naquele dia, uma hora ele vai esquecer, se ele suportar, né?
E aguentar não comer o bolo. Se está sendo abalado por poderosos sentimentos de ira, luxúria, inveja, glutonaria, mas puder suportá-las por tempo suficiente, eles vão amainar, como o vento da tempestade, ainda eventualmente. E se o barco não foi a pique, ele pode então se salvar, aportando em segurança, né?
Então, quando acaba a tempestade e um barco consegue chegar ao porto, algum porto, os marujos podem ser. . .
E aí eles podem até rememorar tudo aquilo, dar risada, né? Pensar assim: “Pô, olha ali, tinha todos os sinais de que ter uma tempestade, nós fomos mesmo assim, né? Mas, graças a Deus, sobrevivemos.
” Eles podem rememorar, podem analisar toda a situação depois, na calmaria, não é? Assim como o homem pode também examinar depois, né? O que ele resistiu a um desejo assim, ah, esse desejo aqui foi uma besteira, ali eu fiquei, né?
Algum tempo ali brincando com essa história: “Ah, vou comer um bolo, é, vamos fazer um bolo, não sei o que, ah, queria um bolo. ” De repente, o desejo ficou muito grande, mas eu consegui resistir, certo? Tudo isso acontece.
Continuando. . .
Isso significa que você consegue olhar as coisas que se passam internamente com mais calma e racionalidade, hum, né? Se a pessoa suporta o desejo, ele tem um tempo para refletir depois. Vêm outros desejos, todos sabemos, mas ele tem um tempo ali em que ele tem um certo controle sobre a alma dele.
Sim, a alma como que se aquieta, assim, e entende, assim, tá? Ele resistiu à minha. .
. à minha influência, né? Essa alma irracional, como diziam os antigos, essa parte da alma que é irracional, tá?
E ele pode refletir: “Olha só, né, isso aconteceu por isso, por aquilo. ” Ele tem um certo momento de racionalidade, né? Depois vem outro desejo, e aí ele tem que resistir de novo.
Não sei, ele tem que fazer alguma coisa, tá? Mas se a pessoa nunca resiste, ela nunca tem esse momento de racionalidade para pensar nas coisas. Ela tá sempre com alguma coisa na cabeça, sempre com um desejo, com um remorso, com uma frustração na cabeça, e ele nunca resiste àquilo, diz: “Não, vou pensar nisso, não vou atender a isso,” certo?
Então, ele tá sempre ali, sendo puxado de um lado para o outro, e é isso, né? Ele nunca vai. .
. Conseguir pensar claramente sobre a sua vida, os seus desejos, porque eles vêm, né? Qual é o erro que ele comete na disciplina, na sua disciplina diária?
Porque esses desejos vêm, certo? Vai adquirir esse hábito de examinar a sua vida, suas intenções, motivações, desejos, né? Então, ele vai ser sempre essa pessoa que é um tanto autômata, mesmo é um tanto previsível, porque ela sempre cede, né?
Ela sempre vai ter uma coleção ali de desejos, frustrações, remorsos de estimação, e ela sempre vai ficar ali vivendo aquela dinâmica, né? Então, se nunca resistir, é isso que acontece: vai ficar vivendo essa dinâmica, essa tempestade perpétua da alma. Né?
Continuando aqui, então, eu disse: isso significa que você consegue olhar as coisas que se passam internamente com mais calma e racionalidade, como se olhasse para um outro, como se estivesse analisando a vida do outro, porque aí tu olhas para trás, para ti mesmo, mas tu já te vê com uma certa distância e objetividade. Tá olhando para o outro, né? O que, em certo sentido, não é falso, pois as paixões que estão em nós não nos definem, né?
Então, as paixões estão em nós, mas elas não são a nossa natureza ou a nossa essência, né? Senão, nós definiríamos o homem como o animal que deseja ou que tem paixões. Não!
Nós definimos como animal racional, porque é isso que é a função mais nobre da alma, a atividade mais nobre da alma. As paixões estão em nós, tá? Elas estão ali, são algo com o qual nós temos que lidar, sim, mas não podemos deixar que elas nos definam.
Elas podem nos definir se nós não exercermos as nossas capacidades a pleno, né? Se nós não exercermos a racionalidade, o exame, né? A capacidade de examinar a nossa vida, né?
E dizer sim e não para as pulsões da alma, tá? Continua. E, para terminar, olhando para você mesmo com alguma objetividade, você pode ter esperança de se conhecer como realmente é.
Então, aquela questão no final, aliás, que estava lá no começo, que até era o título desse texto aqui, né? Conhecer os outros é fácil, mas a si mesmo não, né? Então, para nos conhecermos, nós temos que dizer não a desejos, paixões, tristezas, todos esses sentimentos, né?
Nós temos que mandar neles. Eles podem vir, eles vão vir. Não vai chegar um momento em que eles não venham.
As pessoas não podem definir a nossa vida, né? Assim como no mito de Hércules, a Hidra de Lerna sempre vem uma nova cabeça, né? Corta uma, vem a outra.
Isso significa, né? A Hidra de Lerna é como se fosse esse apetite baixo, né? Esse apetite racional da alma.
Né? O Hércules cortava uma cabeça, nascia outra. Ele tinha que ir lá e cauterizar para não nascer, né?
Mas voltava, né? Sempre voltava. A Hidra não morria até que ele descobrisse a cabeça, né?
Que é a principal, cortasse. Mesmo assim, não morre. Ele tem que enterrar, e ela tá viva ainda, né?
Então, a raiz dos desejos nunca desaparece, tá? Nós podemos lidar com ela, mas nunca controlar, nunca, aliás, apagar, né? Nós podemos controlar até certo ponto, dominar.
Porém, se quando olhas, só vê a tempestade e se joga ao mar, já não vê senão as águas do abismo, né? Então, se quando tu olhas a tempestade interior, tu já cede imediatamente àquilo, né? Ao desejo que está por baixo daquilo ou à tristeza, e aí tu vai para um canto, né?
Te olhas e choras, sei lá o quê, né? Ou fica remoendo algum insulto do passado, alguma frustração, algo em que tu falhaste na vida e tu ficou sempre com aquilo ali. Ah, falei aquela vez.
. . Ah, falei com o pessoal aquela vez.
Falei comigo mesmo, né? Eu não mereço nada, tal, não sei o quê, né? Se sempre que vem esse sentimento, tu já te jogas, já te deixas tomar por ele, então tu tá sempre como aquele cara que estava no barco, viu a tempestade e ao invés de tentar permanecer no barco, se jogou no mar, né?
De susto, se jogou no mar e foi tragado, né? Então, é isso, pessoal. Essa é a mensagem.
Por que disso, né? Antes de terminar, por que isso? Bom, é porque para estudar, nós precisamos lidar com essas coisas, né?
Muitas pessoas vêm com a questão do: "ah, eu não consigo estudar, eu sou muito distraído, caído, eu não consigo focar na leitura", e não sei o quê, por isso, né? Porque não controlam minimamente essas paixões, né? Não precisa nem ser o Hércules, né, que lhe deu um fim, um trato na Hidra, né?
E já estava mais ou menos livre dela no final do seu segundo trabalho, mas tu tem que ter. . .
tu tem que enfrentar. Pelo menos tem que ali cortar uma cabeça e tal, né? Ah, depois vai nascer de novo, mas pelo menos eu cortei aquela cabeça que veio.
Então tu tem que adquirir esses momentos de liberdade das paixões para estudar, para se dedicar a um assunto, né? Com perseverança, né? Não só de maneira assim: "ah, me dediquei hoje", "ah, três dias depois eu larguei", né?
Comecei um negócio empolgado, depois no dia seguinte já desempolou tudo, né? Então, tem que lidar com essa Hidra, né? Como eu estou usando aqui como imagem, certo?
Então, essa é a mensagem, né? Não consegue estudar, muito provavelmente tem algo a ver com isso, certo? Então, nos vemos numa próxima.
Aí, muito obrigado!