[Música] Ela é considerada a casa do povo. Nela, 513 deputados se dividem de acordo com o tamanho da população de cada estado brasileiro. Uma divisão que deveria ser revista depois de cada censo, mas que, no entanto, está desatualizada.
A última foi feita em 1993, para você ter uma ideia. E com o passar do tempo, alguns estados foram ganhando mais moradores do que outros, mas mantiveram o número de deputados de 30 anos atrás. Isso fez com que alguns ficassem sobrepresentados na Câmara.
Em 2013, o Tribunal Superior Eleitoral tentou fazer uma atualização, mas o Congresso reagiu. O próprio Supremo decidiu que cabia ao Congresso e não ao TSE atualizar o número de deputados por bancada, mas os parlamentares não fizeram nada. Foi então que o Supremo Tribunal Federal entrou em ação.
Em 2023, determinou que o Congresso ajustasse as bancadas com base na população de cada estado, segundo o censo mais recente. E agora o prazo dado pela Suprema Corte está chegando ao fim. Se até o dia 30 de junho de 2025 não houver aí a votação dessa lei, a sanção dessa lei, o Tribunal Superior Eleitoral deverá fazer a revisão.
Pelos dados do censo de 2022, sete estados ganhariam vagas na Câmara dos Deputados e outros sete perderiam. E como perder não é uma palavra confortável no vocabulário dos parlamentares, eles começaram a se mexer. Teve a votação da urgência ali por volta de 8 da noite.
Os parlamentares aprovaram a urgência, ou seja, retiraram a tramitação da proposta das comissões temáticas, fizeram com que o texto fosse votado diretamente no plenário. Os parlamentares já aprovaram o texto em si e agora foi pro Senado. Para que nenhum estado saísse perdendo, o jeito foi aumentar o número de deputados nas próximas legislaturas.
Hoje são 513 deputados. Pela proposta aprovada, 18 novos deputados. Então total de 531.
Ceará, Goiás, Minas Gerais e Paraná, com uma vaga a mais cada um. Amazonas, Mato Grosso e Rio Grande do Norte com duas a mais. Japará e Santa Catarina ganharam quatro novas cadeiras na Câmara.
Deputados que encabeçam o projeto defendem que ele é importante paraa representatividade. Os críticos, no entanto, levantam um outro argumento não menos importante. Cada deputado custa bastante dinheiro.
Da redação do G1, eu sou Natusan Neri e o assunto hoje é: A Câmara quer mais deputados. Um episódio para entender o projeto de lei que propõe aumentar o número de deputados federais, o que diz o Supremo Tribunal Federal sobre o tema e os reflexos dentro e fora da política. Minha conversa com Lara Mesquita, doutora em Ciência Política e professora na Escola de Economia de São Paulo da FGV.
Quinta-feira, 8 de [Música] maio. Lara, que projeto é esse que aumenta o número de assentos no Congresso Nacional, em particular da Câmara dos Deputados? A Constituição Federal de 88, ela definiu que seria aprovada uma uma legislação complementar, estabelecendo o tamanho do legislativo brasileiro, né?
Quantas cadeiras a gente teria respeitada a proporcionalidade da população dos estados nessa representação e um limite de no mínimo, oito deputados para cada estado e no máximo 70 deputados. Eh, em 1993 foi aprovada essa lei complementar e a lei de 93 estabelecia um tamanho de 513 deputados e diz que antes de cada ciclo eleitoral seria necessário fazer uma atualização de acordo com a distribuição da população, porque é normal que se tenham movimentos demográficos no decorrer dos anos. Eh, no Brasil a gente desde a lei de 93 e da eleição de 1994 nunca foi feita essa atualização demográfica.
E o Supremo Tribunal Federal, então, eh, ele exige que o Congresso deixe de ser omisso nesse tema, que ele se manifeste sobre a adequação da distribuição das cadeiras entre os estados, representando eh atualizando essa proporcionalidade. E como o Congresso não se manifestou, o Supremo estabeleceu um prazo limite pro Congresso se manifestar, que é agora no final de junho. Então esse projeto de lei que foi votado, o que ele se propõe é responder a essa decisão do Supremo que exige que o Congresso deixe de ser omisso.
A Câmara, o Congresso tinha duas opções. Eles podiam simplesmente manter o número em 513 cadeiras, como é agora, e como prevê a lei complementar e simplesmente atualizar a distribuição entre os estados ou é prerrogativa do legislativo propor uma alteração no na lei complementar, atualizando o tamanho da Câmara dos Deputados, o número de cadeiras. Eh, isso em si, acho que não é um problema.
A questão aqui é se a solução que o Congresso tá apresentando, se ela de fato resolve o problema da desproporcionalidade entre a população dos estados e o tamanho das bancadas. Bom, então com isso eu te pergunto, o que estabelece a lei é que o número de cadeiras na Câmara dos Deputados deve ser proporcional à população de cada um dos estados. Se um estado tiver uma redução populacional, ele teria uma redução de cadeiras na Câmara dos Deputados.
Se um outro estado tiver um aumento populacional, faria-se um cálculo para avaliar quantos deputados a mais aquele estado teria. O raciocínio é esse? O raciocínio é esse.
Pensando que a lei define que são 513 cadeiras, exatamente isso que você falou. como que eu redistribuo essas 513 cadeiras, considerando a diminuição da população do estado A e o aumento da população do estado B? Ou seja, então em tese, não seria necessário, pelo menos a princípio, um aumento no número de cadeiras, mas apenas uma redistribuição.
São Paulo, por exemplo, que tem 70 deputados federais, se houvesse ao longo dos anos um aumento populacional em São Paulo que fizesse com que o número de cadeiras aumentasse, tudo bem. ou até mesmo uma situação em que houve um aumento populacional de todos os estados brasileiros, logo haveria, com base num cálculo populacional, um aumento equivalente do número de cadeiras, mas não é exatamente isso que está acontecendo, certo? O Congresso, em particular a Câmara, está tratando de que aumento do número de cadeiras para quantos deputados a mais.
E se isso é com base num cálculo populacional? Esse cálculo com base no crescimento populacional está havendo ou é chute? Natusa, até onde a gente sabe, tá mais próximo de um chute do que um cálculo pensado e proporcional.
Você tá certa, não era preciso aumentar o número de deputados, mas também não tem nada de errado em princípio no aumento do número de deputados. Eh, o que a gente pode discutir e eu acho que é muito pertinente e e me parece que pode levar a ao não atendimento da decisão do Supremo, é que o cálculo, como você mesmo apontou, ele tá mais próximo de um chute do que de uma conta bem feita. A gente não, pelo menos no parecer do relator, não tá lá definida como que essa conta foi feita.
O que que tá claro ali? Que com base no próprio levantamento que o STF já tinha feito, porque o STF sugere uma redistribuição há um tempo atrás, o Congresso fala: "A gente não quer que nenhum estado perca sua bancada atual, a gente vai crescer a dos outros estados. " E isso gerou uma uma inconsistência muito evidente em que eu tinha caso de estados com uma população maior do que a de outros, mas que tava ficando com uma quantidade de cadeiras menor.
Então, a gente vai compensar esses estados fazendo com que eles fiquem com o mesmo número de cadeiras ou uma cadeira a mais, pelo menos de acordo com que as informações públicas que a gente tem. E lembrando que esse projeto de lei foi apresentado ontem e votado ontem, né? Eh, esse acréscimo de 18 cadeiras, ele pode não estar resolvendo o problema da proporcionalidade.
Ele simplesmente tá dizendo: "Ninguém vai perder cadeira. Quem tinha direito a ganhar vai ganhar. Mas garantir que um estado que tenha 40% da população tem a 40% dos representantes da Câmara, isso não tá garantido.
Você disse então que essa decisão de aumento pode não resolver o problema da representação política atual. O que na sua avaliação resolveria esse problema? Eu acho que a gente tem que pensar que o problema da proporcionalidade na representação política, ele tem duas origens.
Uma, primeiro origem, tá nessa definição da Constituição Brasileira de que nenhum estado tem que ter menos de oito, nem pode ter mais de 70. Se a representação fosse completamente proporcional, São Paulo teria mais de 100 deputados e alguns estados muito pequenos teriam só dois. Se eu quisesse de fato ter um um casa legislativa eh proporcional à população brasileira, a gente teria que rever esses limites de máximo e de mínimo.
Mas não é isso que o Supremo tá pedindo e a gente não precisa necessariamente rever esse limite, mas mesmo assim, mesmo aumentando de de dos atuais 513 para 531, né, acrescentando essas 18 cadeiras a mais, a gente não tem nenhuma garantia que a gente tá resolvendo o problema da proporcionalidade pros outros estados, pros estados que estão fora do piso de 8 e do teto de 70, porque a conta Se ela foi feita, ela não foi apresentada. A impressão que eu tenho é que a conta da proporcionalidade ela não foi feita. O que foi feito é só uma conta para garantir que os estados que tem que ganhar cadeiras pelo crescimento da população, ganha as cadeiras a mais e não gere uma anomalia muito evidente, mas não a conta da proporcionalidade.
E hoje é sabido para quais estados haverá um adicional de de cadeiras de deputado? No parecer do relator, tá lá uma proposta sobre o crescimento das cadeiras, né? Quais estados estariam ganhando cadeiras?
Na região norte, o Amazonas mais dois, Pará mais quatro. Ali na região Centro-Oeste, o Mato Grosso com mais dois parlamentares, Goiás com mais um. Na região Sudeste, Minas Gerais com mais um deputado.
Na região Nordeste, Ceará mais um, Rio Grande do Norte mais dois. E lá na região sul, Paraná com mais um deputado e Santa Catarina mais quatro. Então, ao todo, pela proposta aprovada pela Câmara, mais 18 deputados.
E isso agora, o texto vai pro Senado, se aprovado segue pra sanção do presidente Lula. Se os os senadores aprovarem com algum tipo de mudança, volta pra Câmara para uma nova votação. Esses estados tiveram crescimento populacional que justifique um aumento?
A gente não sabe. A gente só sabe que se teve uma preocupação em que estados com a mesma população eh tivessem mais ou menos o mesmo número de representantes. Eh, o que que a gente sabe que tinha assim, Santa Catarina deveria ganhar representantes porque isso já tava lá desde a proposta original do do STF.
Olha, Santa Catarina, o Ceará, esses estados, eles têm direito a ganhar mais cadeiras. Então, eh, a conta aqui foi uma conta de chegada, mas a gente não tem a resposta exata para sua pergunta. E eu acho, Natusa, que tem uma questão mais séria pra gente pensar, que é o seguinte, eh, a gente continua tendo a previsão de adequação da distribuição das cadeiras na Câmara dos Deputados à proporcionalidade da população.
Então, quando eu tiver o censo de 2030 ou o censo de 2040 e eu verificar que teve mudança demográfica no país e for necessário fazer essa mudança, a nossa saída vai ser de novo aumentar o tamanho da Câmara dos Deputados. Porque o que tá sendo dito aqui é: a gente não aceita nunca perda de representação. Isso não é aceitável.
A gente só aceita ganho do número de representantes por estados. O que, segundo a tua explicação, infringe a própria legislação, porque a legislação tá dizendo o seguinte: não pode ter menos de oito deputados por estado e nem mais de 70 deputados por estado. Só que se um estado como São Paulo, por exemplo, vou insistir em São Paulo porque é o que tem a maior bancada, tiver um recu populacional, né?
Se a população de São Paulo parte migrar para um outro estado, não vai ser o estado que tá recebendo essa migração populacional que vai aumentar o número de cadeiras, porque São Paulo não vai reduzir o número de cadeiras, como a lei determinaria. E aí eu te pergunto se isso é constitucional, se você pode, além desse problema, ainda aumentar o número de cadeiras na Câmara apenas para alguns estados, porque outros também tiveram crescimento populacional. Eu concordo com você.
E para mim, esse é o principal problema da lei aprovada na na noite dessa terça-feira. Ela não apresenta a conta, garantindo que a proporcionalidade entre o tamanho das bancadas estaduais e as populações foi resguardada. Pergunta que a gente faz é: qual o trecho da decisão do Supremo que os deputados não compreenderam, que lá tá redistribuição, ou seja, você teria de aumentar as vagas de um estado e reduzir de outros.
Mas mais uma vez, como sempre acontece, os deputados na hora de cortar na carne eles não cotam. Mas é uma questão do censo. O último censo mostrou que a população em um estado teve aumento e em outro não cresceu tanto assim.
Aí você teria que fazer essa readequação. Do jeito que tá, o que vai acontecer é que esse número de deputados vai começar a crescer. A gente tá conversando aqui no calor do acontecimento, né?
Mas até isso chegar no Supremo, vai ter tempo para essa conta ser feita. E se ficar comprovado que a proporcionalidade não foi mantida, o Supremo pode derrubar essa lei por ela ser inconstitucional. Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com a Lara Mesquita.
E quais são, por exemplo, os impactos políticos de ter um aumento no número de deputados, Lara? Quais são os impactos, aliás, não só os políticos, os impactos gerais de se ter um aumento sem que o critério pareça assim tão claro? Acho que o primeiro impacto é é a questão da representação no sentido de que a gente tá dizendo que o eleitor do Rio de Janeiro ou o eleitor do Rio Grande do Sul, ele tem um peso maior na representação política brasileira do que o eleitor de outros estados que não foram beneficiados pelo aumento do número de bancadas quando deveriam ter direito eh a esse benefício.
O segundo impacto, a gente pode pensar no impacto orçamentário. Eh, eu até acho que esse impacto orçamentário ele é de menor importância porque ele, me parece que vai ser pequeno, pelo menos o impacto orçamentário direto, que é pensar o salário dos deputados, os assessores e a construção de gabinete. Hoje, cada parlamentar custa cerca de R$ 230.
000 R por mês, considerando apenas gastos com salários, verba de gabinete, cota parlamentar, auxílio moradia. De acordo com o próprio relator, com a aprovação da proposta, o impacto anual é de aproximadamente R 64 milhões deais, mas ele nega custos adicionais. No parecer, diz que o orçamento de 2025 já tem recursos suficientes para arcar com as despesas a mais.
Sim, mas a gente também pode pensar no impacto orçamentário indireto. E aí, já que o tema do momento é orçamento e emendas ao orçamento e a gente tem as chamadas emendas impositivas, eu tô falando que eu tô destinando mais recurso da união para esses estados que estão sendo sobrepresentados do que os outros estados. Então, de novo, eu tô tratando os cidadãos brasileiros de maneira diferente.
Agora, com relação à questão de governabilidade, representação partidária, relação executivo legislativo, eu acho que é muito cedo pra gente falar sobre isso, porque é difícil prever quais as bancadas partidárias vão crescer em cima dessas 18 novas cadeiras. A gente também não sabe quem vai governar o Brasil daqui, né, depois da eleição de 26, que é quando essa regra vai entrar em vigor. Então eu acho bastante difícil antecipar isso.
A outra coisa pra gente eh que é o impacto dessa mudança é que as assembleias legislativas também vão aumentar, porque a regra é que para cada deputado federal, o estado tem direito a três deputados estaduais. Isso até o limite de 36 deputados e depois você ganha um deputado estadual para cada deputado federal. Mas eu vou ter com todos esses estados que tão ganhando deputados federais vão ganhar também aumento no número de deputados estaduais.
E nas câmaras municipais também tem essa regra automática? Não, porque as câmaras municipais eh isso já tá constitucionalizado e o tamanho das câmaras também tem o tamanho mínimo e máximo, né? O tamanho máximo é a Câmara da cidade de São Paulo com 55 vereadores, o mínimo são nove vereadores e é por faixa de população.
Então a gente acontece ajuste no tamanho das câmaras municipais o tempo todo. Se a gente olhar eh o o tamanho das câmaras entre a eleição de 2020 e 2024, a gente vai ver que aumentou, porque quando o censo foi divulgado, aquelas cidades eh em que aumentou a população, muitas delas aprovaram leis, porque aí você só precisa aprovar a legislação municipal, respeitando o intervalo da Constituição, aumentaram o tamanho das suas bancadas. E a estimativa, você falou do efeito cascata, né?
o efeito cascata, tanto em crescimento do número de cadeiras, quanto em dinheiro gasto com essas cadeiras adicionais, mas também com o dinheiro das emendas que vão para esses redutos eleitorais dos deputados brasileiros. A estimativa, só com o aumento do número de deputados, é de um gasto anual de 60 64,6 milhões deais. Como é que esse tipo de gasto pode gerar um novo problema para o governo ou para governos, né?
Porque não vai impactar este governo agora, vai impactar o governo a partir de 2026, que pode ser esse governo, pode ser um outro. Que tipo de impacto a gente tá falando aqui? A gente tá falando em menos recurso disponível para investimentos, para políticas públicas.
Eu vou reforçar o meu ponto porque eu acho que essa não é a principal questão. Eu eu sempre defendo que a democracia tem um custo e e claro, enquanto sociedade a gente tem que conversar e pactuar qual é o custo a gente tá disposto a pagar. a gente poderia economizar esses 64 milhões em recursos do fundo eleitoral ou do fundo partidário ou existem até formas, né, se a Câmara quiser cortar outros gastos, minimizar eh esse impacto.
Mas assim, o caixa é único, né? A, o, o governo ganha dinheiro com a gente pagando imposto. O dinheiro do nosso imposto tem que pagar aposentados e pensionistas, financiar a todas as atividades do governo, exército, funcionalismo.
Então, assim, se eu tô destinando mais recursos para subsidiar a infraestrutura do poder legislativo, eu tenho que estar retirando esse recurso de algum lugar, que vai ser ou aumento do salário mínimo de algum lugar vai ter que sair que que potencialmente se reverteria. em benefício direto paraa população. Mas eu realmente não acho que esse é o ponto central eh desse projeto de lei.
Eu entendo essa tua preocupação, mas do ponto de vista da sociedade também acho importante o quanto a gente paga para sustentar um parlamentar, um deputado federal. Um poder que é pouco transparente, videenca do orçamento secreto, um poder que não presta contas do dinheiro que aplica nos seus redutos eleitorais, não é? Essa essa prestação de contas não é feita a contento e parlamentares que sequer têm meta para a efetividade social com o dinheiro de uma emenda parlamentar.
Ou seja, paga-se bastante. Eu sei, eu concordo com você que a democracia tem um custo importante que tenha mesmo. Mas será que esses parlamentares tão servindo a contento?
Se eles fossem contratados, né? Se a ideia fosse um, se a ideia fosse a ideia de uma empresa privada e eles fossem contratados para prestar esses serviços, será que as pessoas estariam felizes com o salário que elas pagam, né, com o dinheiro que elas pagam paraa manutenção desses parlamentares? Então, tem uma discussão também aí, né?
Não sei se eu tô sendo um pouco poliana, mas eu gosto de separar a discussão dos recursos destinados às emendas, dos recursos para financiar a estrutura do poder legislativo. Eh, são recursos de montantes diferentes e com naturezas e objetivos finais diferentes, né? Porque o recurso da emenda, se a gente assumir que não tem não tem corrupção envolvida, não tem nada de errado, eles estão sendo revertidos para prestação de serviços paraa população.
Eh, eu concordo que o valor é alto demais, que isso tem impactos sérios pro poder executivo, no sentido de o poder executivo poder fazer o que ele foi eleito, implementar sua agenda de governo. Hoje o controle do Congresso sobre o orçamento tá tão grande que isso pode pode estar impedindo o governo de implementar a sua agenda e a própria legitimidade do poder executivo. Eh, então eu gosto de separar essas duas coisas.
E aí eu acho que a gente tem que vir numa outra frente que é discutir do de exercer o papel da representação da legitimidade política e democrática. o que que os nossos parlamentares estão fazendo para se comunicar com a população, para que a população os veja e entenda que eles são representantes dos seus interesses e não pessoas que estão no Congresso Nacional agindo em função do interesse próprio. Eh, esse é um problema da democracia no mundo todo, não é só no Brasil.
E aí a gente podia abrir uma outra janela e discutir como que o nosso modelo de financiamento de partidos e eleições acentua essa desconexão, porque agora também os deputados, né, assim, os partidos políticos têm garantido, sem fazer nenhum esforço, o dinheiro que eles precisam para financiar a sua campanha, sem ter que se aproximar do cidadão, apresentar a sua bandeira e fazer uma prestação de contas. Então eu acho que esse é um problema eh mais fundo e de mais difícil solução. Lari, no meio de tudo isso tem algo acontecendo no mundo partidário também, que é a união do PP e do União Brasil, dois partidos do Centrão.
Explica pra gente as consequências políticas dessa união, desse casamento, vamos dizer assim, entre essas duas legendas. Essa federação, ela não tem, ela não se reflete só no poder legislativo, na Câmara dos Deputados e no Senado, e nem sei se é principalmente aí uma federação, ela significa que dois partidos vão durante 4 anos eh funcionar como sendo um mesmo partido. Isso quer dizer que na eleição de 2026, no lançamento de candidatos aos governos estaduais, pro senado, para deputados federais e estaduais, esses partidos vão ter que formar uma chapa única.
Com a federação, os dois partidos se tornam a maior força política do país. Vão ter 109 dos 513 deputados, se tornando a maior bancada da Câmara. No Senado vão somar 14 dos 81 senadores e igualam o tamanho do PSD e PL hoje as maiores siglas.
Nos estados passam a ter seis dos 27 governadores também à frente de todos os partidos e em número de prefeituras vão superar o PSD. A federação terá 10000 municípios. Tamanho significa mais recursos.
Em 2026, a federação vai ter a maior fatia do fundo eleitoral, cerca de R$ 1 bilhão deais, se considerarmos os valores de 2024. Eh, depois em 228 nas eleições municipais, de novo, numa cidade como São Paulo, eu vou ter uma chapa única de vereadores do PP e do União Brasil e eles vão ter que lançar o mesmo candidato para prefeito. Eles vão ter que se coordenar em todos os 5500, mais de 5500 municípios do Brasil.
Esse é o efeito mais importante. Quando a gente pensa no funcionamento parlamentar, no funcionamento legislativo atual, eu não consigo ver efeitos muito imediatos, porque as comissões já foram distribuídas. O que pode acontecer agora é que esses partidos consigam fazer mais pressão para ganhar relatorias de projetos de lei importantes.
Como tem o blocão que reúne a maior parte dos partidos, esse efeito acaba sendo minimizado. Então, eu não consigo enxergar na atuação legislativa atual uma consequência direta da federação. Você tem aí a formação de uma terceira força importante, né?
Hoje o PL tem, tá na liderança, tem 99 deputados, PL de Bolsonaro. O PT já tinha feito uma federação, a exemplo do União Brasil com PP lá atrás, com o PCDB e o PV. E essa essa federação tem 81 deputados.
E agora com a junção de União Brasil e PP, ao que tudo indica, você passa para 106 deputados, passa a ser a maior força da Câmara dos Deputados, né? Isso, mas isso seria mais importante se a gente tivesse no momento de distribuir, por exemplo, a presidência das comissões. Só que isso já aconteceu, que é com base no número da bancada, né?
Exatamente. Então, por isso que eu assim, eu não tô dizendo que isso é desimportante, diferente da federação que você mencionou do PT com PV e PCDB, que tinha um objetivo de tentar salvar os dois partidos pequenos que sozinhos não cumpririam a cláusula de desempenho e poderiam deixar de ter acesso aos recursos públicos de financiamento partidário e de campanha eleitoral gratuita no rádio, na televisão. e que talvez até nem conseguisse eleger ninguém por não conseguir fazer listas fortes o suficiente para garantir as cadeiras.
Essa é uma federação de estratégia de posicionamento político e eleitoral. Então, para mim é essa federação me parece ter dois objetivos claros. O primeiro é fazer frente ao PL e falar: "A direita não vai ser monopolizada pelo PL".
Nós temos aqui uma outra força da mesma magnitude para disputar espaço com vocês. Isso também oferece nos Estados alternativas para quem quer mudar de partido eh em direção a partidos de direita. O PL não é mais a única alternativa.
Em alguma medida é impedir que o PL faça à direita o que o PT fez à esquerda. Eh, o PT não deixou que nenhuma alternativa eleitoralmente viável crescesse à esquerda. E essa federação diz pro PL: "Olha, você não vai fazer isso no campo da direita".
De outro lado, essa federação, ela vai est bem posicionada para quando a gente for formar as alianças paraa eleição presidencial, chegar pro partido que vai capitanear. Eh, a gente tem, a gente imagina do duas candidaturas principais na eleição de 26 a presidência, uma pelo lado do PT e da esquerda e a outra não se sabe se vai sair do PL, mas de um bloco liderado pelo PL. E esses essas duas forças vão precisar encontrar aliados nos estados.
Então, hoje quem tá se organizando muito para ser o principal aliado nos estados é o PSD. O Gilberto Cassab vem construindo isso. Ele trouxe governadores pro partido.
Ele foi muito bem sucedido nas eleições municipais. Essa nova federação se coloca em pé de igualdade com essa estrutura também do PSD, dizendo: "Eu sou um aliado importante. Eu posso ser o seu fiel da balança nos Estados.
me escolha como seu aliado nos estados em troca de te apoiar nacionalmente. Aí a gente vai ter que coordenar quem vai lançar o candidato a governador, as vagas nas chapas do Senado e e ter um uma ação mais coordenada. Mas então ela, assim, para mim essa federação, ela busca de um lado limitar o protagonismo do PL à direita e de outro lado protagonismo do PSD nos estados como parceiro principal dos candidatos à presidência.
E no Frigir dos Ovos temos um centrão ainda mais poderoso, visto que União Brasil e PP são dois partidos desse grupo político tão forte aqui no Brasil. Lara, muito obrigada pela sua participação. Fazia tempo que você não voltava aqui.
A gente estava sentindo a sua falta. Bom trabalho. Foi um prazer.
Muito obrigada pelo convite. Fiquei muito feliz de vir conversar com vocês. Este foi o assunto, o podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida.
Comigo na equipe do assunto estão Mônica Mariote, Amanda Polato, Sara Rezende, Luís Felipe Silva, Thiago Casurosk e Carlos Catelã. Neste episódio colaborou também Camila da Silva. Eu sou Natusaner e fico por aqui.
Até o próximo assunto.