Muito bem, estamos aqui com o professor Cloves de Barros Filho nessa edição diferente do Wesley Podcast, uma edição EAD, visando os tempos modernos, já que o nosso podcast não é gravado na Grande São Paulo e a gente quer expandir o leque de entrevistados. Há alguns meses tentamos trazer o professor Cloves para cá, mas como tem uma agenda bastante corrida, não foi possível. E para agraciá-los aqui no Eslin Podcast com Essa entrevista, nós conseguimos uma agenda do professor e estamos realizando esse episódio online. Espero realizar outros episódios online também, eh, para conseguir trazer mais convidados aqui
no Wesle Podcast. Então, desde já, deixe o seu like aqui no episódio, inscreva-se no canal e compartilhe esse link com as pessoas que você acha que tem interesse. Eh, eu gostaria também de pedir desculpas desde já, caso aconteça algum imprevisto técnico. Como o episódio é Gravado, a gente pode editar depois, mas de qualquer maneira peço desculpas pro telespectador, porque são as as questões online que a gente, enfim, não tem muito controle. Professor, bom, acho que dispensa apresentações. Obrigado pela pelo seu tempo. É uma grande honra estar aqui entrevistando o senhor e acho que vai ser
um bate-papo bem bacana aqui. Eu que sou grato pelo convite, muito feliz de estar aqui. Espero ser contributivo e e claro, Professor, eh acho que uma das grandes questões que a gente vive hoje no Brasil e no mundo, e aí eu tô aqui me arriscando numa área, né, como neurocientista, me arriscando numa área de filosofia, eh são questões de grandes dilemas morais. a gente vê a ascensão de um um planeta mais interconectado nos últimos nos últimos nas últimas décadas aí, pelo menos, né, depois da principalmente acho que depois da década de 90 com a queda
Do muro de Berlim, o mundo se interconectou bastante, se globalizou, embora agora existam essas potências políticas que eventualmente queiram se nacionalizar de novo, mas de maneira geral o mundo tá mais globalizado. Uma das questões que surge com essa globalização são, digamos que tribos morais que antes tinham regras que funcionaram dentro da própria tribo para conseguir fazer com que a a Sua microciedade evoluísse resolvendo os problemas ali de dentro. Então, os muçulmanos têm as regras deles, os cristãos têm as regras deles ou mesmo vegetarianos, grandes grupos, grandes tribos políticas. E agora essas tribos estão entrando cada
vez mais em conjunto, eh, dividindo espaços, via imigração. E aí tem todos esses essas notícias que a gente eh vê de Londres ter um problema com imigração ou muita imigração que acaba gerando alguns Problemas, porque uma tribo moral quer colocar frente à outra tribo moral as suas próprias convicções de como resolver ou como viver melhor ou qual que é a maneira mais correta de viver, digamos assim. O senhor acha eh que, começando com uma pergunta bem simples de resolver aqui, né, professor, o senhor acha que existiria alguma metamoralidade ou caminho superior a essas tribos Morais
para resolver esse dilema de como viver de uma maneira mais harmônica? Bem, eh, a sua pergunta é uma pergunta importante e e a tentativa de respondê-la também se presta à controvérsia, né? Claro. Eh, quando nós falamos de ética, falamos de iniciativas de aperfeiçoamento da convivência no interior de certos universos Eh específicos de relações. Então, por isso temos a ética dos médicos, a ética dos advogados, a ética da empresa X, da empresa Y, a ética dessa ou aquela instituição até do presídio, da máfia, enfim. Então, é claro que há aí um limite, que é um limite
assumido de que eh o que está eticamente disposto tem uma validade circunscrita a aquele espaço, né? Eh, então, nesse sentido, eh, surgem aí Vários problemas, mas, eh, o mais óbvio deles é o fato de que aquelas pessoas que integram esses universos, elas interagem também com o mundo exterior. Elas interagem também com o mundo exterior. Elas interagem, isto é, elas interagem com eh com outras tribos, assim, pessoas que não pertencem à aquele universo, elas interagem com gente de outros lugares e e, portanto, Surge sempre a pergunta: que ética vai regulamentar essa relação? Então, eh, existe aí
um um uma limitante importante a considerar e e é por isso que quando nós nos remetemos a uma reflexão moral mais ampla, eh tentamos eh propor que a moral seja uma uma produção do espírito, da vida do espírito, que tenha por objeto a própria conduta. mas que tenha por referência alguma alguma norma universalizável, Né? Eh, ou seja, eh, aplicável em qualquer lugar, em qualquer tempo, e, portanto, válida para qualquer um. Então, a moral, ela começa num caso particular, concreto, vivido por alguém. ela termina numa decisão desse alguém que vai agir, né? Mas ela passa necessariamente
por um por um por um raciocínio, por uma por uma equação que envolve a busca de um elemento de universalidade possível. Seja quando Kant, por exemplo, propõe eh sua reflexão moral em cima de um imperativo categórico, ele se dispõe a encontrar e, portanto, levantar a possibilidade de que devemos agir de modo a pretender que qualquer um, em situação semelhante, análoga, devesse agir da mesma maneira. E isso qualquer um é realmente qualquer um, né? Então, nesse sentido, independentemente da tribo a que você Pertencer ou de que você fizer parte, que você integre, né, você não deve
mentir porque a mentira ela é autodestrutiva, ela ela é ruim em qualquer circunstância, digamos aí. Daí a sua dimensão categórica, né? E naturalmente, eh, outros valores absolutos poderiam ser propostos, como o sofrimento de uma criança, eh, que seja lá qual for a tribo, eh, é negativo, é a combater, é inaceitável, etc. Então, Eh, aqui haverá muita discussão, muitas, muitos argumentos pró e contra. Haverá quem diga que mentir não é universalmente negativo, dependendo da situação, né? famoso caso de um pai que esconde o filho de uma perseguição nazista, eh, e e perguntam pelo filho e e
o pai mentirá para proteger o filho. E isso, obviamente, eh, não pode ser eh condenado do ponto de vista moral, segundo muitos, etc. Então, veja, eh, o que eu tô tentando Dizer é que eh dependendo da linha que formos seguir, eh a resposta poderá ser uma ou outra. De qualquer maneira, eh, existe, falando de maneira um pouco mais modesta, né, existe em toda a reflexão ética e moral uma pretensão de uma validade eh superior ao caso particular, né? Portanto, é um trabalho sempre de abstração, mais ou menos assim. Eh, se eu discuto com você, a
gente divide um apartamento e eu discuto com você sobre A pertinente, a pertinência de usar um liquidificador que faz um barulho enorme no momento que eu tô gravando alguma coisa, né? É claro que o que for discutido para o liquidificador deve ser aplicável a o à batedeira, ao, né, a à televisão, etc. E aí já teremos subido um degrau, né, de abstração, aonde eh o que é discutido para aquele caso particular pretende valer para outros casos e outros cenários. Ainda que não seja eh de amplitude universal, Existe essa pretensão de ir além do caso particular.
Eh, assim também são as regras jurídicas. Claro. Então, nesse sentido, poderíamos dizer que eh diante da sua pergunta eh eh o problema é imenso, porque eh não há nenhuma eh consistência quando eh eh você tem enfrentamentos de pontos de vista, né, enfrentamentos de entendimentos opostos a respeito ito do valor dessa ou daquela conduta humana, Eh entendimentos opostos a respeito eh da sociedade ideal, do que queremos paraa humanidade, do que é justo e do que não é justo, né? Eh, quando temos esse tipo de enfrentamento, eh eh por incrível que pareça, na imensa maioria dos casos,
não há como resolver a coisa de maneira simples. Esse tem razão e esse não tem razão. Por quê? porque eh não havendo um gabarito definitivo eh eh eu diria divino, não é, para a resolução De conflitos, sempre haverá a argumentação eh e e ponderações que eh tornam complexa a atribuição de valor, né? problematizam a atribuição de valor. Perfeito. E e é e é por isso que eh todas as virtudes elas são problematizáveis. É por isso que eh eh a eh vícios como a covardia ou a posinanidade ou a desonestidade, etc. eh eh se inseridos nesse
ou naquele Contexto perdem a o seu aspecto negativo. Eh, é por isso que aquilo que é aparentemente positivo poderá ser absolutamente nefasto e e assim por diante. Razão pela qual eh temos muita humildade, né, diante desse tipo de temática que é de infinita complexidade no final das contas, né? Então, acho que é um pouco por aí. E é eu eu diria que é eh por isso que eh eu diria os contraditórios eh as polarizações e os enfrentamentos Eles eh são tão ardorosos, porque de parte a parte eh há um pleno convencimento de se ter razão.
Uhum. Não é? Não é uma uma simulação. Uhum. Não é um faz de conta, não é um teatrim, não é o indivíduo que, por exemplo, aposta, né, eh, na luta por uma sociedade mais egalitária, com mais igualdade de oportunidades, eh aonde as as, eu diria, os gaps sociais e econômicos devam ser reduzidos para que todos tenham oportunidade, Etc., é um indivíduo que tá convencido de que ele tem razão. O cara do lado que aposta na livre iniciativa, no mercado, eh na prosperidade restrita, no no enriquecimento como mola propulsora de todas as inovações e de toda
todo o empenho, toda a a disposição para para fazer acontecer as coisas. também tá convencido de que ele tem razão. E e evidentemente que eh muitas vezes quando temos que patrocinar uma sociedade mais egalitária, temos que Colocar obstáculos a plena livre iniciativa e e e vice-versa. Para conseguir uma plena livre iniciativa, temos que eliminar quase todo tipo de de obstáculo. E aí o que acontece é que, como as pessoas são muito diferentes e diferentemente preparadas, a as diferenças vão se acentuando em nível exponencial. E todo mundo acha que tem absoluta razão, né, naquilo que tá
propondo e defendendo. Assim também no caso dos costumes, não É? quando alguém eh sustenta que eh a as opções sexuais são uma questão de cada um e que cada um deve viver livremente em função eh eh dos seus apetites, dos seus das suas inclinações, etc., tá absolutamente convencido de que tem razão, ao passo que um outro que eh acredita numa estrutura familiar tradicional eh voltada para a procriação e com casais eh heterossexuais convencionais, etc., para por razões muitas também tá Absolutamente convencido de que tem razão. Então, nesse sentido, eh há uma dificuldade eh de considerar
o olhar alheio eh por conta do tipo de tristeza eh decorrente da dissonância que o olhar alheio traz em relação ao próprio olhar. E quanto mais rígido for o próprio olhar, né, quanto menos poroso e maleável ele se apresentar, maior será essa dificuldade, levando à intolerância, levando a ao Descrédito do alheio, levando a ao menospreo da alteridade, que são características eh do mundo em que estamos vivendo. Então, eu acho que é um pouco por aí. Não acredito não ter dito nada de absolutamente novo, mas eh de certo modo eu não vejo com muito otimismo eh
o andar da carruagem. Por quê? Porque as condições de integração e pertencimento a essas diferentes tribos a que você se referiu exige cada vez mais a adoção de pontos De vista radicais de de de extremos mesmo, né? e o indivíduo que se dispõe a considerar opiniões eh diferentes, ele acaba muitas vezes ficando nem lá, nem cá, ele acaba ficando sem time, ele acaba ficando e quando você não tem time, você não pode nem jogar, né? E aí, eh, não é muito convidativo. Perfeito. E então a estrutura da opinião pública contemporânea, ela favorece e incentiva à
adoção de pontos de vista radicais de Parte a parte. Perfeito. E eu acho que essas tribos estão eh como como indivíduos como existem, digamos assim, indivíduos tímidos, né, cognitivamente, né, intelectualmente econômicos, digamos assim, eles são mais fáceis de serem colocados para dentro da tribo e convencido de de suas prerrogativas. Mas a ainda, professor, complementando a pergunta, você quando você deu o exemplo do litificador Que uma determinada questão moral, ela sempre busca a resposta para algo externalizável a outras situações ou também dentro dessas tribos que a gente comentou agora do debate público, o nosso, acho que
universalmente, e até tem dados empíricos mostrando isso, pessoas querem viver melhor. né? Entende-se aqui na ciência a gente não usa felicidade porque é um problema definir o que é. Então a gente usa Bem-estar subjetivo. Vamos usar felicidade para fins práticos e didáticos. As pessoas querem estar mais felizes, querem ter uma experiência global mais significativa, mais alegre, etc. E isso parece que existem em diferentes tribos do mundo. E agora as quando eu uso tribo, não só no sentido alegórico, mas também no sentido literal, né? tribos afastadas, isoladas. Existem alguns antropólogos que levantam ide eh dados Sugerindo
que essas pessoas querem de alguma forma viver mais com uma qualidade global das experiências mais agradáveis. A gente não deveria usar a felicidade como o valor que é o verniz de todos os outros valores. que quando eu busco ler mais livros, ser honesto, ser ético, ser um bom pai, ser um bom filho, ser um bom marido, ser um bom ser um bom patrão, ser um bom empregado, no final do dia, Ganhar dinheiro, né, doar dinheiro, fazer filantropia, no final do dia, parece que todos esses valores eles estão existindo para que exista no final do dia
a felicidade. Seria a felicidade o boson de rigs dos valores, o o verniz que que que está em volta dos outros valores? E será que a gente não deveria buscar aumentar a qualidade global das experiências das pessoas e esse devesse ser o critério para agir moralmente correto? E aí para Chegar lá, em vez de a gente olhar cada regra moral das próprias tribos morais, a gente não devesse olhar o que as os dados mostram que melhora, a maior a qualidade de vida ou a felicidade da maior parte das pessoas. Não sei se minha pergunta ficou
clara aqui. Claro que ficou. eh você propõe eh aquilo que na filosofia eh num primeiro momento, as pessoas chamam de consequencialismo, ou seja, eh eu vou atribuir um valor à ação em Função do tipo de resultado ou consequência que ela fizer a de, né? Tanto que você fala em dados do que aconteceu e tal, não? Eh, e aí dentro do consequencialismo você propõe eh como critério eh a felicidade, né, como eh eh o marco distintivo, a referência maior, eh, para que eu possa saber se eu agi bem ou mal. Então, eh eh poderíamos dizer assim,
eh se eu aumentei A felicidade ao meu entorno, eu agi bem. E se eu diminuir a felicidade ao meu entorno, eu agi mal. E que naturalmente a minha própria felicidade tá no bolo, né, das pessoas impactadas, né? Bom, eh, então, só para situar, né? Quer dizer, eh, essa tua proposta, ela é a proposta de uma corrente específica da filosofia moral chamada de utilitarismo, né? Utilitarismo, ela é muito eh presente no mundo anglossaxônico e tem eh nomes importantíssimos como Jeremy Bentham, John Stuart M, etc. Então, qual é a ideia? A ideia é a seguinte: se eu
agi e aumentei a soma total de felicidade no mundo, eu agi bem. Se eu diminuir a soma total de felicidade no mundo, eu agi mal. Bom, é muito atrativo, é muito interessante e resolve um problema porque como eu tenho dificuldade de julgar a ação pela ação por falta às vezes de critérios, eu julgo pelo que acontece depois e isso é atrativo, né? Claro que aí você mesmo apontou uma dificuldade que é saber eh o que cargas d'água essa felicidade significa, né? Aí você propõ substituir a felicidade por bem-estar eh subjetivo, né? Eh, é claro que
eh a tentativa é bem-vinda, porque felicidade é uma palavra meio poética, de difícil definição, mas bem-estar subjetivo não sei se atende completamente Eh às nossas necessidades, porque no final das contas acaba jogando muito no colo do que a pessoa tá sentindo naquele momento eh para definir o valor de uma conduta que a tenha impactado. E você sabe que o que a gente tá sentindo num determinado momento pode cair por terra, pode ser transformado no segundo seguinte, eh, com o andar da carruagem e e a gente fica muito dependente de uma sensação que Que só pode
ser, digamos, apresentada como positiva em comparação com outras sensações já vividas ao longo da vida. e quando você diz: "Nossa, eu tô me sentindo bem", é sempre em relação a cenários em que a vida já foi ainda pior, né? Agora, eh, houve outras tentativas de de de resolver o problema, né? E uma delas é muito conhecida, Jeremy Bentham, que é a ideia de que eh você pode substituir a palavra felicidade por Prazer, né? E aí você tem, segundo esse tipo de pensamento, a possibilidade de ter alguma coisa muito mais concreta. Aumentei a quantidade de prazer
no mundo, eu agi bem, diminuí, eu agi mal, né? Happiness igual pleasure, é a equação utilitarista da vez, né? E acontece que aí você esbarra em dois problemas. Os prazeres eles são de muitos matizes, né? Eh, e e dificilmente comparáveis, né? Eh, e a partir daí, eh, A experiência num driving, eh, na entrada de Mogi das Cruzes com alguém que você não conhece pode ser prazerosa. A experiência de ler um livro de Dostoyevski ou acompanhar uma sinfônica de meratunal também pode ser prazerosa. Agora, você dizer que isso é facilmente quantificável é é bem ousado, porque
sim, o driving vale quanto, né? E e e a sinfônica de Maller vale quanto em relação ao Driving? E por quê, né? E e aí então eh virá haverá iniciativas outras dizendo que os prazeres do corpo são inferiores, os prazeres do espírito são superiores e, portanto, quando você impacta eh espiritualmente as pessoas, você eh agiu de maneira superior a quando você impacta fisicamente, porque o prazer físico é fugaz, o prazer do espírito ele é mais longevo. E aí os argumentos eles vão se seguindo eh muito longe. Mas há uma segunda um Segundo problema muito importante,
que é o seguinte: será mesmo que o prazer eh resolve o problema da vida, né? Quer dizer, será mesmo que os hedonistas sempre tiveram razão? eh eh até que ponto eh eh o meu próprio prazer ele ele esgota todos os valores da vida, né? Então, a título de exemplo, eu posso eh submeter minha vida a uma privação, a um sacrifício, a um constrangimento, para que alguém possa eh sofrer menos. E nesse caso, o prazer não foi meu, né? O prazer foi outro, né? Então, nesse sentido, eh, aqui nós esbarramos numa dificuldade suplementar, que é você
ter que colocar na balança o sofrimento de um e o benefício causado no outro, tirar subir um do outro para ver qual é a resultante. Eh, e muitas vezes e essa essa pesagem ela é absurda. Uhum. Porque a privação necessária para um eh é de categoria Completamente distinta do benefício oferido pelo outro. Muitas vezes a privação é de natureza econômica para um e de natureza eh de saúde, por exemplo, pro outro ou espiritual pro outro. E aí na hora de botar na balança não temos critério para pesar. Ora, eh resumindo tudo o que eu tentei
alertar, eh qual é a minha a minha certeza, eh, de que eh não é tão fácil assim resolver o problema, né? E e digo mais, quer dizer, Na hora que você eh eh assume uma postura consequencialista, não é? Você abre mão de julgar a ação pela ação e julga a ação pelo que acontece. Você é obrigado a considerar que muitos efeitos eles não são um resultado único daquela ação. Eles resultam de um encontro de causas, né, de eh causas essas que muitas não dependeram de quem agiu. Nada tem a ver com quem agiu, né? Eh,
eh, uma mesma ação dentro de um Determinado contexto produz certo tipo de efeito. Eu troco de contexto e a ação produz outro tipo de efeito, porque outras causas incidiram sobre esses efeitos e que não são da responsabilidade de quem agiu. Então, eh isso levará os anticonsequencialistas a argumentos muito interessantes. Quer dizer, eh eh eh é completamente aberrante você, por exemplo, Vamos pegar aqui um caso concreto de alguém que tá dando uma aula de filosofia e nessa aula de filosofia eh traz reflexões muito duras sobre a vida eh dentro de uma perspectiva conhecida como pessimista eh
de Schopenhauer, de siorã e etc. Eh, sim, que a vida é dor e sofrimento, que, enfim, viver uma roubada, etc e tal. Muito bem. E claro, o professor tá ali para explicar esse ou aquele autor e e e apresentar suas Ideias. Ora, o cidadão já entrou na aula deprimido, não é? E diante do que foi dito, ele sai da aula e resolve abreviar a própria existência de maneira inopinada. Bom, então eu vou atribuir valor à aula. Olha, a primeira consequência é que o sujeito decidiu parar de viver. Então aí você diz: "Bom, então eu vou
usar aquele ato do aluno para avaliar a aula do professor, dado que há uma Correlação causal. E aí o professor terá todo o direito de dizer: "Mas pera aí, eu eu dei a minha aula eh do há anos a aula nunca aconteceu essa aula eh, né? E e o que que ele tenderá a dizer? Eu não tinha nenhuma intenção em entristecer ninguém. Eu tô aqui apresentando ideias, né? E aí você traz paraa equação componente de intencionalidade, né, do que você no final pretendia Que que acontecesse no mundo em função do que você tá fazendo, uma
intencionalidade genuína, não dissimulada, uma intencionalidade, né, efetiva, etc. É claro que para um consequencialista de boas intenções, o inferno tá cheio, né? Mas para um intencionalista, né, de bons efeitos ou de maus efeitos, né, muitas injustiças foram também realizadas. Conclusão, você vê, trouxemos aqui eh dois modos de enxergar o problema. um modo de enxergar O problema que julga ação pelas suas consequências, pelos seus efeitos e o outro modo que é o de julgar a ação pelo que queria o agente, pelo que pretendia o agente. E o que é mais interessante é que nenhum dos dois
é plenamente satisfatório, né? E é e é exatamente por isso que o tema é fascinante, porque se houvesse uma equação matemática que desse conta do acerto ou do erro de uma proposta, o problema já tava resolvido. Um tem razão, o outro não tem razão. Eh, E quem não tem razão, pois que seja responsabilidade, responsabilizado pelo erro. Mas, mas não é assim, não é? E talvez nunca venha a ser, né? Eh, a filosofia moral, ela é um terreno difícil, resvaladiço. Os argumentos já foram vasculhados de cima para baixo, de baixo para cima, de todo jeito. E
continua havendo até o século XX, gente que é utilitarista, pragmático, eh intencionalista, vitalista e todo, eh até mesmo eh gente Que ressuscita Aristóteles, eh para defender eh uma ética das virtudes eh através do meio termo, etc. Então veja, eh não não temos uma resposta eh satisfatória para as pretensões de rigor que hoje em dia todo mundo espera, né? Perfeito. Mas eh o senhor acha que linkando as duas perguntas que eu fiz eh aqui e aí você levou na no final da primeira resposta pro debate público, eh você acha que a média da população ou a
população carece Mesmo com a com a inexistência, com esse vácuo de uma certeza que em algum grau com certeza é bom existir para fomentar debate. Mas você acha que a população carece de uma noção dessas vertentes de uma filosofia moral, filosofia analítica que tenta dar um norte para uma tomada de decisão mais inclinada a ser moralmente correta, mesmo que exista o debate de qual que é melhor, qual que é pior ou qual que é melhor em determinado momento. Porque parece-me que esse debate, tanto na educação pública brasileira quanto no debate público, ele é ele é
inexistente. Quando a gente fala, professor, eh, ou procura no YouTube, né, sobre filosofia e etc, geralmente a gente vê grandes nomes conhecidos, né, Aristóteles, Platão, Sócrates, eventualmente o Kant, principalmente, acho que com as com as suas aulas trouxe bastante o Kants. E não se tem tanto, Não sei se é no Brasil uma exclusividade do Brasil, mas não se tem tanto esse debate de uma filosofia mais analítica que tenta trazer um esses notes dessas correntes utilitarista, pragmatista, enfim, contratualista, ética das virtudes, deontologia. Por que que aqui não a gente não conversa tanto sobre isso e se
isso ajudaria a ter uma sociedade brasileira e um debate mais frutífero? Bom, eh, Eu acho que eu, imagina se eu te devolvesse a pergunta, né? Eh, eu tenho a impressão que o que você teria a dizer é muito próximo do que eu tenho a dizer. Eh, vamos começar pela educação de base, né, que é onde essas questões poderiam começar a ser tratadas, né? Nós temos 85% da nossa população que estuda em escola pública. Eh, e a escola pública fundamental é da responsabilidade do município e o ensino médio é da responsabilidade do Estado, Né? Eh, nós
temos a filosofia praticamente ausente desse currículo, né? E sendo a filosofia ausente, a filosofia moral entra no mesmo na na na mesma corrente, na mesma na mesma lacuna, né? Eh, então é claro que esses temas não são trabalhados, apresentados e no ensino privado haverá quem diga que é um um pouquinho melhor. diria que talvez Em casos esporádicos, né, dessa ou daquela escola onde o responsável pedagógico tem um particular apreço pela filosofia. Então, aí a coisa pode ser tratada um pouco melhor, mas de uma maneira geral esse debate, como você mesmo disse, é um debate ausente
do mundo escolar. No caso da universidade, essas reflexões elas só serão trabalhadas no curso de filosofia, né? Por quê? Porque nas disciplinas de ética Dos cursos eh aplicados, o que você tem é um ensino dogmático do tipo: "O certo é isso e o errado é aquilo". Eh, decora aí, esse é o código. Aprenda e saiba responder a respeito. Então, eh o que que eu te diria? Eu te diria que eh essa discussão, muito embora você possa sempre dizer que eu tenho, sou tendencioso porque é o meu campo de Atuação na universidade, foram 30 anos na
universidade ensinando essas questões, mas eh eu penso que por se tratar de um campo do conhecimento que cuida da conduta humana dentro da sua perspectiva de valor, e não científica. Uhum. Né? Quer dizer, o que eu quero dizer com isso é o seguinte, eu não discuto porque a pessoa fez o que fez, eu discuto como ela deveria ter agido, né? Então é um outro Tipo de olhar, né? Então esse olhar sobre o dever deontológico, portanto sobre o dever, sobre o que deveria ter sido feito, né? é um olhar que sabidamente faz falta numa sociedade como
a nossa, onde, digamos, há uma um a sensação recorrente de que eh as pessoas agem desonestamente, enganam as outras, passam a perna, ludibriam. eh as autoridades do poder público são criticadas por isso. Eh, muitas vezes no setor privado a situação eh não é melhor E aí há uma sensação de que esses assuntos eles são relevantes, eles eles eles integram preocupações do cotidiano, mas eh eles continuam a mercer do achismo, né, eh da improvisação. mesmo aqueles que eh se ocupam eh do bom comportamento no mundo do trabalho, né? Eh, e, portanto, estão à frente, né, de
departamentos de Compliance. Eh, quase sempre tem formação jurídica e e pouco pouco aprenderam nos seus cursos de direito sobre eh o lugar aonde essa discussão é legítima, que é a filosofia, né? Eh, tanto é assim que eh eu sou diariamente chamado para ir dar palestra sobre ética nas empresas eh em espaços aonde você tem um monte de gente Cuidando de compliance, mas há um entendimento, um reconhecimento de que, eh, o que tá por trás daquilo ninguém sabe direito o que é, né? Uhum. Então, ora, eh, você pergunta, precisaríamos então de uma espécie de revolução na
educação? E eu te digo, eh, esta é uma é uma obviedade, no meu ponto de vista, eh, né, gritante assim. E, e qual é a chance de isso acontecer? é Muito pequena por várias razões, uma delas é política, né? Quer dizer, o profissional da política luta por conservar o seu poder ou aumentar o poder que tem. Para isso, ele tem embates eleitorais. Os embates eleitorais, por sua vez, implicam a identificação de intenções de voto. Por que que o cara vota num e não vota no outro? E a educação não é um critério relevante. Então, um
prefeito, por exemplo, e sucatear a educação pública, Ele tem chance de se reeleger, sobretudo se ele pegar o dinheiro e investir em guardas municipais, superarmados e e assegurar assim uma impressão, né, uma sensação de de segurança maior nas ruas com a presença militarizada eh das forças da ordem. Então veja, esse é um aspecto. O outro aspecto é que se todo mundo resolvesse aprender ética, vamos imaginar que aconteça aí um uma espécie de delírio coletivo Patrocinado pela intervenção de extraterrestres que nos nos alucinam, né? E aí todo mundo percebe que a partir de amanhã é preciso
que nas escolas, além de matemática, física, química, biologia, etc. Tenhamos assim moral e ética um, moral e ética dois, moral e ética três, moral e ética quatro, etc. Pois muito bem, não haveria professor para isso. Não, né? Não, não, não pense você que eh Você imagina são 7.800.000 alunos de ensino médio nas escolas públicas, né? Vamos imaginar que nós ficássemos só com o ensino médio, o que seria lamentável, mas vamos imaginar só o ensino médio e vamos imaginar só as escolas públicas, excluindo as privadas que costumam oferecer mais atrativos aos poucos professores que existem no
mercado. Ora, isto exigiria que brotassem professores de ética há centenas Uhum. para dar conta dessa demanda, né? E é evidente que com a redução progressiva dos cursos de filosofia nas universidades e a formação de filósofos cada vez mais acanhada, não temos a menor condição de abastecer essa demanda, o que poderia ser ainda pior, porque isso poderia ser entregue na mão de professores que se serviriam da legitimidade da cátedra para expor o seu Senso comum mais tosco, né, e e mais, eu diria, eh, eh perturbador ainda, mais confuso do que já nos encontramos. Então, eh, por
muitas razões, não há como ter um olhar otimista sobre esse tema numa sociedade como a nossa. Claro, as empresas elas tentam tardiamente eh tampar um buraco e elas percebem a necessidade de uma reflexão a respeito. Eu mesmo sou convidado recorrente não só para palestras, mas para cursos. Estamos agora lançando um sobre ética e cultura organizacional que eh ou ética e cultura corporativa, o objetivo é é dar conta de muitas das demandas sobre o tema que me fazem eh a título de palestra nos últimos anos. Ora, eh, eu imagino que muitas empresas, eh, poderão Se interessar
pelo curso e, e o curso é muito didático, pega pela mão e talvez sane muitas lacunas conceituais, mas lacunas conceituais, essas que não deveriam ser sanadas agora, eh, deveriam já ser tratadas eh para todos em ambiente escolar, em um currículo oficial e e porque as coisas que eu ensino elas são perfeitamente discutíveis por alunos do ensino médio e seria muito melhor que nessa idade que passassem a Ter o hábito e o gosto pela reflexão a respeito da do valor moral da própria ação. Eh, muitas vezes eh o ingresso no mercado de trabalho, eh, ele é
ele é mais tardio e e muitas das muitos dos cacuetes, né, jeitos estranhos de pensar que são, eh, eu diria, absorvidos no senso comum das interações, ele já fez o seu trabalho devastador de De, eu diria, de consagração de um pensamento equivocado e frágil. E aí é mais difícil você consertar. Por isso, toda todo vídeo eu começo com a mesma o mesmo pedido, né? Abaixa a guarda. Esqueça tudo que você já ouviu a respeito e nos deu uma chance de começar do zero, porque temos esse direito, né, de começar do zero para para verificar eh
em que terreno estamos Navegando, em que em que, né, com que consistência estamos pensando. E às vezes começar do zero é a única forma que temos de de chegar a conclusões mais confiáveis do que aquelas que são eh repetidas e e circulam no senso comum. Uhum. Então, eh, eu acho que esse é o é o nosso objetivo e, de certo modo, eh, aqui a colar de maneira esporádica, eh, há alguma melhora, há alguma conscientização e E é por aí que a gente vai indo pelas frestas. Eh, para quem tiver interesse no curso na na pós,
né, que o professor está agora, acabou de mencionar, a gente vai deixar o link aqui na descrição. Então, basta clicar aqui na descrição que você tem acesso. professor, eh, a gente tem um uma questão que acho que de certa forma a gente acaba voltando pra filosofia, eh, talvez até para alguns autores que a gente já mencionou Aqui, eh, que é talvez bem contemporânea, né? Ontem mesmo tava assistindo a e eu tenho essas essas questões, esses hobbies curiosos. Eu tava assistindo uma votação do ministro do do STF, de alguns ministros sobre o marco civil da internet
e existe toda essa discussão sobre regulamentação das redes sociais. O Brasil, salvo engano, é o segundo país que mais consome redes sociais. em alguns relatórios chega a 3.30, 3:30 em média por dia de uso, que é bastante, né, na minha análise. Por outro lado, e acho que convergindo com isso para um para um para uma distância, para um caminho ruim, a gente ano passado teve mais não leitores do que leitores no país pela primeira vez. a gente vê um aumento de tempo de uso de rede social, a gente vê pessoas aparentemente se eh instruindo menos
com livros. A gente tem alguns sensos como o indicador de Alfabetização funcional, salvo engano, INAF, mostrando que 60 e poucos por tem dificuldade, com 4 anos ou mais de escolaridade de ler um texto um pouco mais complexo. No nível proficiente, apenas 10%. 35% de analfabetos funcionais que têm dificuldade de codificar palavras e números. Isso 35%, né, que é bastante assustador. Nesse sentido, professor, uma pergunta eh pro senhor e e claro, né, não não Espero aqui uma resposta que esgote o tema, óbvio. Você acha que eh ainda só para completar a pergunta, a gente teve, né,
essa esse problema da dos cassinos online no Brasil e a gente viu vários beneficiários de programas de de auxílio como Bolsa Família apostando. Enfim, a pergunta é, dado esse esse preâmbulo, esse prefácio, o senhor acha que, considerando que a população tem essa Vulnerabilidade ao que os dados indicam de instrução, seria legítimo ah o Leviatã, né, eh, entrar, o estado a agir inibindo a liberdade do indivíduo em algumas circunstâncias, como, por exemplo, E aí, claro, não precisa ser opinar dentro de esses exemplos necessariamente. pode levar para outras áreas que o senhor desejar, como, por Exemplo, eventualmente
bloquear o CPF de um beneficiário do Bolsa Família, impedindo de jogar, se isso, digamos que fosse possível do ponto de vista logístico, ou regulamentar as redes de forma que determinados conteúdos caiam e sei, talvez a plataforma fique inibida de deixar que algum discurso, mesmo que não enquadre um discurso agressivo e tal, circule ali dentro por medo financeiro mesmo. até que ponto a gente na sociedade que a Gente vive brasileira com baixo grau educacional, existe essa legitimidade de um ente supremo como o estado interferir na no indivíduo? Eu sei que esse debate é um debate longo,
mas eu gostaria da sua opinião, especificamente numa sociedade onde os indicadores mostram que a população tem dificuldade de instrução mesmo por conta de um ensino ruim e tudo mais que a gente já comentou. Também não sei se minha pergunta ficou Clara. A sua pergunta é claríssima e a minha resposta será também clara. Eh, quando você parte de um cenário concreto, que é um cenário negativo e você, eh, por conta desse cenário, você Adota medidas que não são as ideais, mas são paliativas e corretivas de alguns problemas que esse cenário acarreta. Você corre um enorme risco
eh de se acostumar com a gambiarra, né? Eh, eu entendo que O único modo legítimo de melhorar a sociedade é através de uma educação pública de excelência. Concordamos. E, portanto, quando tivermos uma educação pública de excelência que seja competente para apetrechar tecnicamente os Educandos, ao ingresso em algum mercado de trabalho, mas sobretudo que seja capaz de permitir iniciativas de reflexão soberanas, autônomas, lúcidas, críticas, né? Nós então eh não precisaremos de um estado alalviatã, Interventor, castrador. Eh, o mundo digital é um mundo que favorece muito iniciativas aparentemente anônimas e que acobertam a identidade do agente, mascarando
assim a sua eventual Responsabilidade. diante da ação. E de fato os mecanismos de controle juridicamente autorizados para fazer justiça são muito acanhados diante das possibilidades de transgressão, sobretudo são muito lentos. Uhum. Ora, se você não consegue controlar Pelo medo, porque não há medo, porque no cálculo do risco, o a gente acha que vale a pena, que o risco é pequeno, então nós caímos numa constatação que me parece ser evidente. A única coisa que pode impedir o sujeito de agir de maneira ilícita nas redes sociais é ele mesmo não aceitar fazer isso. Ou seja, é ele
ter uma formação moral que não tem e que o leva a discernir sobre as consequências do seu ato, que o leva a se sentir desagradado com uma eventual injustiça que venha a cometer. E ele mesmo, portanto, embora num momento de destero e de raiva, eh, pretenda agir de forma lesiva, ele mesmo se inibirá. Porque esse tipo de inibição que decorre da lucidez e da consciência moral, ele sim impede que a coisa seja colocada na rede. Depois tirar da rede é um exercício custoso e em grande medida ineficaz, como se tivéssemos enxugando o gelo. E aí
você tira, voltam a pôr, tira, voltam a pôr, tira, voltam a pôr. Portanto, você tem aí um cenário em que relações justas de convivência exigem lucidez do agente, eh uma lucidez deliberativa sobre a própria conduta. Perceba por que o estado ele tem que interceder, não eh de forma repressiva a posteriore, de forma truculenta posterior, porque isso é tardio. Os danos de imagem Trazidos são irrecuperáveis. O resgate do status quo ofendido é impossível. sempre haverá suspeita. Um indivíduo que é injustamente acusado, por mais que se desminta, por mais que se retire, por mais que se puna
aquele que o ofendeu, a a a presença daquilo nas redes sociais é um potencializador da suspeita que vai Ao infinito. Ora, como evitar tamanho gravane na vida em sociedade, agindo de modo a preparar a consciência moral dos agentes para que na eminência de uma ação delituosa, difamatória, etc., possam se inibir eles próprios. E esse é o tipo de coisa que eu não faço. Talvez você esteja me ouvindo e esteja pensando, esse professor é um lunático. Ele é ele é de uma ingenuidade patológica. Ele é ele ele acho que ele não sabe, ele não ele não
deve sair de casa, ele não deve conversar com ninguém, ele não deve por quê? Porque o indivíduo que tá nas redes e ele tá diariamente atacando e sendo atacado nas batalhas das redes, eh, ele tá de tal maneira involucrado num esquema de manifestação sobre as coisas do mundo e torná-lo moralmente mente consciente dos Danos e fazê-lo eh não agir para não promover injustiça junto a pessoas muitas vezes cuja identidade ele ignora completamente. Eh, isso é impensável. Pois é, mas eu te digo, enquanto isso não for atacado de chofre, enquanto a questão moral da consciência íntima
moral de cada um não for despertada em processos educativos sérios que mostram as consequências De uma ação nefasta nas redes, eh, nós, eh, assistiremos, já que você gosta do Leviatã, a uma guerra eterna de todos contra todos. E isso é o contrário do que nós chamamos de civilização. Se queremos viver uma vida digital civilizada, temos que ter condições de formar nossos jovens para ter lucidez. entenderem que do mesmo modo que podem Ofender, xingar, mentir, inventar fatos, etc. sobre alguém poderão ser vítima desse mesmo tipo de cenário. E é claro, eh eh não é possível que
não queiramos eh viver de um modo mais pacífico e menos belicoso nas nossas relações intersubjetivas. Uhum. Eh, professor, tô indo pro final aqui do episódio já. Recentemente eu li um livro do Mário Vargas Lhoa, que faleceu inclusive eh com 89 anos, salvo Engano, prêmio Nobel de Literatura, livro intitulado A civilização do espetáculo. Basicamente no livro ele argumenta sobre, ele passa sobre diversos assuntos, mas tem um que me chamou bastante atenção e aí eu gostaria de saber a opinião do senhor. Eh, a tese de uma das partes do livro é que o intelectual que ajudou a
construir boa parte do século XIX, do século XX, em grandes Embates no campo político, no campo das artes, no campo da filosofia, no campo do direito, no campo da ciência, ele tá, ele sumiu do debate público e foi pelo espetáculo, Porque muitas vezes o intelectual quando vai construir o seu argumento por questões inerentes à construção de um argumento complexo, a saber, tempo, profundidade, referências e etc, as pessoas acabam não dando ouvidos porque é um tipo de Conteúdo internetesco que não atrai as grandes massas. E por essa razão, e massa aqui eu digo não no sentido
financeiro, mas no sentido quantitativo de número de pessoas. E por essa razão a figura do intelectual acabo acabou e desse debate, dando lugar apenas ao espetáculo. Eh, o senhor concorda com essa análise? O intelectual brasileiro sumiu do debate público porque tá só um show de espetáculos. Em grande medida, sim. Eh, a única coisa que eu não concordo é que isso seja resultado único da existência da internet. Eh, isso já acontecia antes, né? Então, eu vou citar mais três eh textos que me ocorrem. A sociedade do espetáculo de Guidebor, o estado espetáculo de Roger Gerard Schwarzenberg
E aqui no Brasil o livro A comunicação do grotesco. A comunicação do grotesco de Munício Soé, que é um clássico ainda da década de 70, né? comunicação do grotesco. Eh, portanto, bem antes da da internet, né? Eh, de fato, eh, eu diria, o eclipse do intelectual se deve à falta de interlocutor mesmo, a falta de consumidor. E naturalmente a falta de consumidor começa com a a indústria cultural, as as grandes mídias e e chega até os nossos dias com as redes sociais e a internet. Mas eh o eclipse do intelectual, ele vem de antes, com
certeza vem de antes. E nesse sentido, eh, a falta de repertório para consumi-lo faz com que ele acabe encastelado Em espaços endógenos de interação, como são os os cursos de filosofia, os os os programas de pós-graduação, streito senso, eh, nas diversas diversas áreas que conversam entre si, que fazem suas reuniões anuais, né, aff, compó, ampul e todas elas que eh reúnem eh basicamente as mesmas pessoas ano a ano que falam para elas Uhum. sem nenhuma ressonância social. Vou mais longe. Acho que alguns intelectuais que conseguem ser ouvidos, conseguem ser ouvidos justamente porque conseguiram equacionar seus
pensamentos às exigências Uhum. de algum espetáculo. Uhum. Perfeito. Então, meus colegas brilhantes, né? Palestrantes extraordinários, professores incríveis. Cortela, carnal, pondé, Monja, etc. Eh, gente que entendendo que o encastelamento não lhe satisfazia, conseguiu criar mecanismos para conversar com um público mais amplo do que o da universidade por intermédio de caminhos, eh, eu diria, palatáveis e consumíveis eh eh por uma sociedade mais ampla. ainda não chegam a todos os lugares, mas já é muito mais amplo do que eh os espaços ortodoxos de vida acadêmica. E quando você só, só antes da última Pergunta, quando você sintoniza ou
torna mais palatável, coloca alguns ingredientes açucarados no no debate para alcançar mais público, hum, não não gera um um tipo de eh um tipo de tolimento por parte dos meios ortodoxos. Eh, você, por exemplo, quando disponibilizava as aulas no YouTube lá atrás, eh, ou começou a ser chamado pro Jô, para outros programas ou carnal, o Cortela, né, enfim, não gerou nenhum tipo de reação de dentro da academia e Às vezes essa própria reação iníbe o intelectual de sintonizar o seu o seu rádio na frequência do grande público. Sim, com certeza. Eh, é que são fases
diferentes, mas lá atrás, quando eu punha as aulas na ECA, na internet, eram aulas de 4 horas e eram as mesmas aulas dadas na academia e que eram apenas disponibilizadas para todo mundo, quem quisesse assistir, com todas as dificuldades de público que Uma aula como essa pode ter, né? Eh, claro que depois você começa a produzir conteúdo eh eh para o público, para um público cada vez mais amplo e com isso começa a a parar estas eh recorrer à simplificações e e com isso você passa a ser alvo eh de quem considera essa iniciativa ruim.
Uhum. Mas eh acho que é sempre assim, né? Quer dizer, eh eh quando você faz escolhas, Eh invariavelmente você é obrigado a a abraçar certos, como por exemplo, democratizar um pouco a filosofia, torná-la mais acessível. Há pessoas que nunca teriam ouvido falar disso se não fosse por você. E claro, você perderá um pouco de abstração, de rigor, etc. Para que isso seja possível. Então, é criticável, é, é claro que é criticável. Eh, mas é elogiável. É, também claro que é Elogiável, né? Então, se você sair aí e perguntar pros seguidores do Cortela e do Carnal
somados devem chegar aí a uns 10 milhões de pessoas, eh, o que que eles sabem de filosofia? Tudo que eles sabem, eles devem ao Cortela e ao carnal. Uhum. Né? Tudo que eles sabem, eles devem ao Cortela e ao carnal e ao pondé e e poxa vida, isso não tem valor nenhum, né? Uhum. Será que será que não valeu a pena sair da sala de aula com 30 e chegar a 1 Milhão eh eh trazendo três ou quatro exemplos eh atrativos, divertidos, etc. Será que não valeu a pena tentar mastigar o conceito com palavras mais
simples para alcançar um número maior? Então, são problematizações. Por outro lado, eu entendo perfeitamente o professor que dentro da universidade eh se vê constrangido a um rigor eh espartano, eh que essas facilitações possam desagradar profundamente. Eu também entendo e Quantas e quantas vezes fui mal falado e e se aí sei porquê. Entendo os argumentos e e tá tudo certo. Professor, última pergunta aqui pra gente encerrar. Eh, pergunta clichê, né, de final de episódio, final de programa. Dado esse cenário que a gente pintou aqui, eh, e dado a bagagem que o senhor tem de leitura, de
estudo, de palestras, de, de vivência e etc., Eh, como é que você enxerga atualmente assim o o futuro? O senhor é um um sujeito um pouco mais pessimista, um pouco mais otimista, idealista? Ah, eu eu acho que eh falar do futuro eh pura e simplesmente eh muito difícil, porque ele Ele pressupõe projeções realizadas aqui agora no caso em questão até para satisfazer a sua pergunta e que eh vão tá muito a mercer do que me ocorrer na mão agora aqui para articular, mas se eu tivesse que falar da nossa sociedade, por exemplo, o que já
é bem menos ambicioso, né, Eu diria que nós temos todas as condições para que Eh a nossa força econômica, tradicionalmente eh protetora de uma certa elite, ela possa, respingando em outros universos, ela possa tornar os benefícios mais, eu diria, mais amplos, né? de tal modo que a 10ma economia do mundo venha a proporcionar a todos os Brasileiros a 10ma melhor educação do mundo, a 10ma melhor universidade pública do mundo, a 10ma maior produção de conhecimento do mundo. Porque não se trata só de ganhar dinheiro. dos valores da vida são valores do espírito que não exigem
propriamente milhões, mas exigem um preparo Que a nossa sociedade eh se vê amputada, né? Então, eh, não é preciso ser muito rico para degustar uma leitura de Machado de Assis, mas é preciso que tenha havido formação para isso. E isso integra a vida boa, né? Uhum. E uma vida boa tem a ver com uma sociedade vusta, né? Hum. Então, é muito lamentável, né, que a vida espiritual do brasileiro seja tão pobre Por conta de uma formação do espírito também é pobre, sobretudo sabendo que recursos há para que ela possa ser mais altiva, mais rica e
sobretudo mais alcançável pelo grande número. Enquanto não tivermos uma educação pública tão boa quanto a privada, Enquanto não tivermos um uma paridade de formação, a igualdade de oportunidades será uma falácia e a sociedade continuará fundamentalmente injusta. Uhum. E, portanto, eu penso que em algum momento possa haver eh uma autêntica revolução no país. E quando eu falo palavra revolução, que me entendam, camarada, camarada Cloves, é, não precisa de nada, A não ser de uma disposição para viver e conviver diferentemente. Uhum. e a partir daí dar à formação do nosso jovem uma atenção que a nossa o
nosso país nunca deu. Já já tivemos uma escola pública melhor, mais sectária, mais restrita. Hoje temos uma escola pública mais receptiva, mais acolhedora, mais eh qualitativamente pobre. O que precisaríamos é eh uma autêntica revolução na aplicação efetiva de recursos e não Meramente constitucional, jurídica ou teórica, mas efetiva de recursos, de modo a que o professor se visse prestigiado, de modo a que houvesse interesse em ser professor. Essa essa profissão está desaparecendo na nossa sociedade. Ninguém mais quer ser professor, porque além de não ganhar nada, ainda apanha em sala de aula, né? Então, há há consequências
do nosso jeito de conviver que são obviamente nefastas e que Precisamos evitar a qualquer preço. Em algum momento, quem sabe, eh, com esse com essa transformação das mentalidades, pudéssemos ter, na questão da educação pública um elemento de orgulho nacional mesmo, né, como um dia foi a seleção brasileira de futebol. E aí, eh, disputaríamos com os melhores do mundo eh, os lugares e não esporadicamente aqui a colar algum eh algum alguma excepcionalidade que vence alguma olimpíada disso ou daquilo, mas Não. Eh, eh, teríamos padrões médios de escolaridade aonde esses 7.800.000 1 alunos de ensino médio tivessem
condição de ser eh representantes da nossa educação pública e rivalizar com eh os grandes países do mundo nesse quesito. E aí, e veja como não é uma questão de ser camarada Cloves, porque eh as empresas do mundo do capital precisam de mão de obra qualificada e se elas tivessem mão de obra Qualificada em abundância, elas certamente seriam mais lucrativas e, portanto, é do interesse de todo mundo que isto aconteça, não é? Então, eu penso que em algum momento isso possa vir acontecer e com isso teríamos uma outra sociedade, um outro país, eh, e um outro
entendimento de país, não só da nossa parte, como da parte do resto do mundo, que olha para nós com um misto de comiseração e desdém. Perfeito, professor. Agradeço demais o tempo que o Senhor disponibilizou paraa nossa entrevista, foi muito enriquecedora. Eh, o senhor, eu conheci o senhor, um breve relato pessoal, conheci o senhor, acho que em meados de 2015, quando vi a sua entrevista no Jô, época em que eu morava no interior do Rio Grande do Sul, fazia psicologia numa universidade particular. Até então nunca tinha visitado uma biblioteca, tinha tinha lido zero livros e foi
Graças à aquela entrevista e as aulas disponibilizadas no YouTube que eu me interessei mais por conhecimento. Então, olha que que bom que foi, pelo menos para mim e acho que para as pessoas que escutam você ter saído da do enclausuramento dentro da academia e ter produzido conteúdo na internet. Fico feliz. Fico feliz pelo seu depoimento e por todos aqueles que eu tenha podido ajudar em algum momento. O senhor tá com uma pós-graduação aberta e ou vai abrir O link? Tá aqui. Eh, o pessoal pode se inscrever por ali, né? tem todas as informações ali, há
uma pré-inscrição já em em em em vias e a inscrição definitiva será anunciada e perfeito. e uma oportunidade aqui de manter um contato na hora que você quiser, como você quiser, nas condições que quiser para para que a gente consiga aprender junto um pouco mais. Perfeito. O link tá aqui na descrição pro pessoal que tiver interesse. Suas redes sociais Cloves de Barros Filho, né? encontra em YouTube, Spotify, é no o Instagram @clovesdbarros, né? Eh, você tem também o TikTok, LinkedIn, YouTube e todos eles eh Cloves de Barros. E claro, eh, aqueles que tiverem interesse em
receber uma reflexão matinal às 6 horas da manhã, poderão se inscrever no @clovesdebarros do Instagram. Lá no Link da Bio tem o WhatsApp do Cloves. E aí, se colocarem lá o próprio telefone, receberão todo dia à 6 horas da manhã uma reflexão sobre a vida que eu acho muito simpático, muito legal. É bastante gente que recebe, são centenas de milhares de pessoas que recebem em muitos grupos e é bem bacana que isso aconteça. É um contato muito pessoal e muito, muito prazeroso para mim. Legal, professor. Obrigado. Galera, inscrevam-se no canal, compartilhe esse Episódio com quem
você acha que tem interesse. Dessa forma, você reforça o meu comportamento de voltar aqui produzir vídeos. E é isso, muito obrigado.