ter assim sobretudo quando falar em público >> tá presentand o seu nome e a o >> tá bem Vanda Anastácio familiar do Primo António, como era conhecido em família Dr Anastácio Gonçalves. Obrigada. Então, Vanda, eh, o que é que ou ou começamos pelo fim, que é que memórias familiares é que guarda desse primatório ou começar a explicar e a importância ou o papel que o seu pai como testamenteiro teve?
>> Começar pelas memórias. >> Então, vamos começar pelas memórias. Memórias familiares é que guarda.
>> Então, eu tenho algumas memórias familiares. Deixa Isabel quando ela perguntar. Ah, OK.
Pensei que não aparecia. Eu tenho algumas memórias familiares do Primo António, ainda que eu fosse muito pequena quando ele faleceu. O que acontece é que eu penso que ele durante um certo tempo esteve a pensar quem seriam as pessoas mais indicadas para cumprir seu a sua vontade de deixar a casa e a coleção h ao estado, ou seja, abr-la ao público.
E uma das pessoas em que ele pensou foi o meu pai. E há as memórias que eu tenho são de visitas do Primo António à casa dos meus pais, porque ele tinha pedido a ao meu pai se podia ir assistir à vida familiar dele, que é parece-nos hoje em dia uma coisa muito estranha, mas temos que pensar que ele era uma um homem muito solitário, que não casou, era solteiro e vivia dedicado à sua profissão e à sua coleção. E então o que ele fazia?
Ele chegava, cumprimentava-nos e e sentava-se numa poltrona e ficava a ver-nos brincar. E eu lembro, tenho uma memória vívida disso, apesar de ser na altura uma criança pequena. E outra coisa, depois no final, quando ele se ia embora, depois jantava com os meus pais lá, conversavam e tal, e quando se ia embora, dava uma libra dor a cada um.
E eu achava aquilo estranhíssimo porque ficava, lembro-me de ser pequeníssima e de olhar para aquela moeda amarela e achar que aquilo era engraçado, mas a mim não me dizia absolutamente nada, não é? são as, sim, as memórias mais antigas que eu tenho. Depois o as memórias que tenho e que me acompanharam durante mais tempo são do meu pai vir todos os fins de semana com os outros dois testamenteiros, que era o Dr Amaral Cabral e o Dr Penque da Almeida, para a Casa Museu fazer o inventário da coleção.
E isso durou eu, a ideia que eu tenho, claro que isto é a perceção do tempo, como sabemos, é uma coisa muito psicológica, é de que terá durado anos seguidos em que todos os fins de semana pacientemente eles vinham a fazer o inventário da coleção, ver em que estado estava descrever as peças. Isso durou bastante tempo. E depois h temos que pensar que o primio morre em 65.
também a morte dele, que ele morreu depois de ter visto o museu do Hermitage, que era uma um dos seus sonhos. Ele já tinha tentado uma vez, não tinha conseguido, tinha de novo eh ido eh de propósito eh São Petesburgo para ver o Museu do Ermite. Deve ter sido realmente uma grande emoção porque ele depois morre de coração eh depois de ver o Hermitage.
Agora temos que pensar que ele morre em 65 numa altura em que não há relações diplomáticas entre o Estado português e a então União Soviética. E eh isso foi uma complicação a nível da família também foi o meu pai, porque o meu avô ainda era vivo, mas estava bastante doente e também foi o meu pai que teve que tratar desses trâmites que teve tiveram que envolver a embaixada portuguesa, autorizações na altura da da de todas de várias instituições do do Estado Novo e depois eh da viagem do cadáver, o reconhecimento ao fim de muito tempo. da viagem de barco que tinha sido feito e que foi o meu pai que foi fazer esse reconhecimento.
Portanto, tudo isso foi uma autêntica aventura que durou também mês e que também tenho na minha memória. Portanto, as minhas memórias são umas memórias, podemos dizer infantis ou muito juvenis. H um pouco da figura, mas sobretudo do impacto que isso teve.
eh no meu pai e na nossa no nosso núcleo familiar, ainda que ele era uma presença era muito mencionado em casa dos meus avós. Meus avós também tinham um gosto pelos objetos e cada objeto que estava na casa deles muitas vezes já tinha sido eh apreciado pelo Primo António. Então, eh, porque era uma coisa que a família fazia quando comprava um objeto ou comprava uma peça ou tinha uma peça, eh, era então, ó António, o que é que tu achas?
E tal. Então, para cada uma, a minha avó dizia: "Olha, o Primo António desta dizia que não era valiosa, mas era interessante, ou esta não é rara, mas eh é uma uma obra bonita" e assim sucessivamente. Era muito engraçado.
Ele como que tinha uma espécie, havia um mapa, uma espécie de mapa psicológico sobre as apreciações que o Primo António teria feito acerca dos objetos em casa da, pelo menos da minha avó, que é o que eu me lembro melhor, não é? Que era a casa que eu mais frequentava. >> Obrigada.
E também ainda apando às memórias familiares como que a banda tem eh eh lembra-se se o primio era mais lembrado na sequência disto, provavelmente como como colecionador, como oftalogista, também havia essa esse essa importância que lhe era conferida como médico deofetalogista ou mais como colecion a família e dava muito valor ao facto de do primónio ser oftalmologista, não só porque ele Ele era oftalmologista, mas durante muito tempo era um dos oftalmologistas da moda. Eh, não foi por acaso que ele foi depois médico do do Gulbenken. Não era só do Globenken, era um nome muito conhecido em Lisboa.
Aliás, também foi graças a a esse prestígio que ele conseguiu depois também construir a sua coleção. A, e sei lá, eu, por exemplo, tive um problema de vista quando era muito pequenina e fui fui levada pelo minha mãezinha para ser vista pelo Prime António e também por um outro grande oftalmologista que era o Dr Cavaleiro Ferreira, que também h depois vim a conhecer pessoalmente mais tarde e que era uma pessoa notável também. H, portanto, ele era o ou um dos grandes oftalmologistas dos grandes nomes em Lisboa.
Mas do ponto de vista da família, se o que interessa é a visão familiar aqui para a nossa conversa, a questão da oftalmologista da oftalmologia e da sua opção por estas especialidades estava muito ligada a um episódio da infância dele, eh, que tem a ver com o facto como sabe, ele só tinha irmãs. Agora falha-me se eram cinco, se eram seis irmãs, mas eh a irmã mais nova brincando num com num pequeno grupo em que estava o primanto, feriu-se com uma tesoura, cegou de um olho e como na altura não havia penicilina, enfim, essa infetou, a infeção passa para o outro olho e ela fica cega. é a senhora, ela chamava-se Tiolinda, era a prima.
E hh a ideia que havia na família é que e quando ele estuda medicina e se dedica à oftalmologia, em grande medida era um reflexo, portanto era como se quisesse redimir-se dessa ocasião que em família nunca ninguém disse que tinha sido ele o culpado. Aliás, eram crianças. Nunca na família se falou que era pronto, estavam a brincar com uma tesoura e, portanto, em casa da minha avó as tesouras, quando os meninos se aproximavam estava tudo fechado à chave.
Não se podia brincar com tesouras, nem de bicos redondos, nem pensar nisso. Hum, mas e é penso que era era vista assim, era uma espécie de compensação por aquela tragédia que ele tinha vivido em criança. E como todos nós temos uma interpretação, não é isto?
Agora já não é o facto, é a minha interpretação. Quando nós vemos no testamento que ele quer ser enterrado juntamente na mesma campa que essa irmã, eu penso que de facto e em algum momento da em algum lugar da sua memória e da sua mente há um sentimento que é preciso redimir aquela aquela culpa. Pá, é claro que a culpa é uma coisa absolutamente subjetiva e provavelmente não tem nada a ver com a realidade, mas portanto a questão da oftalmologia para a família não está fora de todo um outro contexto que não é propriamente a medicina.
Depois perguntou-me >> colecionador e >> enquanto colecionador e enquanto colecionador sim, porque como lhe digo, as pessoas iam perguntar, compravam uma peça e lhe perguntar conselho. Eh, os presentes que ele oferecia normalmente eram peças muito escolhidas, peças de que ele gostava eram obras de arte, eram, sei lá, os meus pais casaram, eh, e o Primo António que ofereceu foi um Falcão Trigoso, por exemplo. era, há uma, a vida dele não era dissociada da coleção, é como se fosse a obra, uma das obras da vida dele ou talvez a grande obra da vida dele.
E eh agora eh recuperando um bocadinho o seu pai e a relação da família com já com a casa museu aberta em 1980 e como é que a família se foi relacionando com este com este património e com com com esta herança delgado. >> Será que isso é importante referir? Pois, não sei.
Vão editar isto, não vão? Sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim. >> Porque há um a primeira dificuldade >> não faz mal.
Quando o Dr Anastácio Gonçalves morre e deixa este testamento testamento é aberto, os três testamenteiros que, como disse o meu pai, portanto, o João Anastácio, o Dr Penque de Almeida e o o Dr Amaral Cabral e procedem ao inventário e tentam que ele se cumpra, que que o testamento se cumpra. Mas temos que pensar que tudo isto demora muito tempo. Há procedimentos burocráticos.
O primeiro procedimento que demorou muito tempo foi eh o inventário, porque não havia um inventário nem uma descrição das peças que pudesse ser até para entregar a a às entidades competentes e com alguma consistência e depois eh o tempo passa e dá-se o 25 de abril. E, portanto, eh, mesmo a morosidade das instituições, eh, e o tempo do inventário, morosidade das instituições, também não havia, não há muitos casos destes no caso português, eh, o Primo António inspira-se num num exemplo que é um exemplo inglês, que é a Casa Museu do Sounds, do Arquiteto Sounds em Londres. No caso português não havia muitos precedentes.
Portanto, também temos que pensar que para eh a burocracia portuguesa causava-lhes um problema. Isto causa causava um problema. E, portanto, toda essa morosidade que podemos dizer que tendo em conta estas circunstâncias era natural, eh, com o 25 de abril, eh, foi um, as pessoas estavam preocupadas com outras coisas e não com a questão de abrir mais um museu em Lisboa em moldes que nem eram os mais habituais e e portanto parou tudo.
Agora, a uma casa fechada começa a ter problemas de começa-se a estrgar, começa a haver problemas de infiltrações, começam os telhados a precisar de reparações, começam os canos, começam e e portanto é um desespero durante os anos que se seguem ao 25 de abril para tentar e um pouco antes e e sobretudo depois no meio daquela agitação do PREC o que é que se faz com isto? CAS a degradar-se a coleção que que eles tinham perfeita eh consciência do valor da coleção. Temos que pensar que, por exemplo, o Dr Amaral Cabral era um grande colecionador do porcelano oriental.
Aliás, eu penso que a coleção dele dialoga com a coleção da da Casa Museu porque eles eh vão aos mesmos leilões, conversam sobre as peças eh enfim h e tinha a perfeita consciência do valor das coisas. E e a mesma coisa o Dr Penco de Almeida, que era um conhecedor também de pintura, quer dizer, eles tinham a noção de que as coisas estavam a estragar e eram coisas com valor. E é depois só em 79, com uma exposição de pintura que é feita na Fundação Carlus Gulbenken, que se consegue chamar a atenção.
Penso que antes disso há um programa feito por pelo David Mourão Ferreira, que tinha uma série de programas sobre a arte e cultura portuguesa na televisão, na RTP, e que faz um programa e aqui, portanto aqui na Casa Museu, sentado na escrivaninha do do Primo António, e que chama a atenção para o local, para a existência deste espaço, desta e desta coleção. E depois, >> pera aí, desculpa, não toque, não toque no micro, tá bem? >> Onde é que ele tá?
Já fiz as agora não tou começa outra vez com David Pronto. >> Essa parte. >> Tá bem.
Portanto, há um momento em que o David Mourão Ferreira, que tinha uma sequência de programas sobre literatura e cultura portuguesa na RTP, h, escolhe a Casa Museu como e local para fazer o seu programa e chama a atenção para a coleção e para a existência da casa. E depois penso que é depois disso, posso, a minha memória pode atraçoar, mas penso que é a seguir que em 79 se faz essa exposição na Gulben e que a partir daí dá-se pelo menos há uma exposição pública suficientemente eh impactante, como se diz agora, eh para chamar a atenção de que há ali uma joia que está ou uma coleção que se está a degradar, que pode ser utilizada pelo Estado, que pode ser fruída pelo público, etc. Tá.
>> Só sim, se quiseres. Sim. >> Eh, retomando aqui aqui à questão do do do testamento, eh, eh, porque é que porque é que o o António eh escolhe o seu pai?
É porque entendo que é importante um um membro da família estar presente nesse processo. É por é pelo conhecimento que o seu pai tinha sobre a coleção. >> Não, meu pai era economista.
>> Qual é no fundo a pergunta é qual é a razão pela qualos escolhidos? Escolhe escolheu meu pai. Eu penso que ele escolheu, aliás, durante muito tempo temos que pensar que o Primo António é da geração do meu avô, portanto do pai, do meu pai, e vivia bastante isolada em Lisboa e tinha, portanto, era uma relação muito bastante cerimoniosa, não é?
E lá avaliava umas peças ou dava uns palpites sobre peças e não era uma relação muito íntima. Mas há um momento em que morre um dos irmãos do meu avô, que era o tio Joaquim. e que era o padrinho do meu pai.
E nessa e como era o padrinho do meu pai, foi o meu pai que tratou da execução do testamento do tio Joaquim. E durante essa época em que meu pai, por causa do testamento, da herança do tio Joaquim, eh, foi durante meses, todos os fins de semana e Alcanena, Primeiro António ia visitar as manas e pedia beleia. E então todos os fins de semana, durante alguns meses, iam os dois daqui para Alcanena e depois trazia outra vez depois dele visitar as manas da Alcanena.
E foi durante esse esse foi aí que eles começaram a conhecer. Meu pai conta isso num texto que está num catálogo da exposição da República que foi feita aqui. Eh, o que é que eu me parece que ele viu no meu pai?
Isto agora já é uma questão de opinião. Acho que viu o bom senso e ponderação, que eram características da do meu pai, e o pragmatismo, eh, ou seja, eh, muito, muita preocupação em que as coisas fossem feitas, que era uma grande qualidade que ele tinha. E também penso que durante muito tempo, como meu pai era economista e ele não tinha grandes conversas sobre arte e cultura com ele e era um miúdo, não é?
Para ele, ele era da geração dos dos jovens. eh, talvez não tivesse de achado que ele tivesse assim grande interesses grandes interesses culturais e deve ter gostado da conversa, mas penso que que as ele precisava se calhar e há é verdade que ele eh queria que houvesse uma pessoa da família que estivesse sempre ligada à casa museu. Há um momento, não sei se é uma carta ou se é no próprio testamento, a memória agora não me não me ajuda, em que diz que gostaria que estivesse sempre alguém da família ligado à casa.
H, e e para quê? Para assegurar que as determinações do testamento fossem cumpridas e continuassem a ser cumpridas. Mas eu até tenho ideia que ele dizia que devia ser um descendente do meu pai naquela, sempre naquela ideia de que ele era uma pessoa racional, ponderada e pragmática.
Penso que claro que meu pai teria, eu sou filha, vou sempre falar de ótimas qualidades que ele tinha e que e tinha e vejo sempre como uma figura notável, mas penso que essas qualidades para o Primo António talvez tenham sido o fundamental. Muito obrigada. Tá ótimo.
Muito obrigado. Ótimo.