Pra gente compreender a origem da quimbanda, a gente precisa romper com mitos fundamentais que muitas vezes vão servir para cristalizar a origem das religiões afroindígenas brasileiras em datas específicas ou figuras messiânicas. A quimbanda não nasce no vácuo. Ela é herdeira de um sistema complexo que atravessa o Atlântico desde as terras bantos na África Central até o subúrbio do Rio de Janeiro.
Nesse vídeo vamos entender como a macumba carioca, esse caldeirão étnico cultural do século XIX, vai influenciar na formação do que hoje a gente vai conhecer como Kimbanda. Olá a todos, sejam muito bem-vindos e hoje o nosso vídeo é sobre a origem da quimbanda. Historicamente, a palavra quimbanda, seja ela com K ou com q, vem do tronco linguístico quimbundo, que significa curandeiro, né?
Não servia somente para o curandeiro, mas também para aquele adivinho que tinha a missão de se comunicar com o mundo espiritual. Ou seja, servia também para nomear o sacerdote que mediava a relação entre o mundo físico e o mundo espiritual. Documentos inquisitoriais do século X e X7 vão trazer pra gente relatos como os de Luzia Pinta e João Congo, que dentro das suas práticas descrevem mestres que utilizavam tambores, ervas e danças para curar males físicos e espirituais.
Aqui a gente vê o embrião da quimbando, o sacerdote que lida com as forças da ancestralidade da terra. No Calundu, a gente já vai ter figuras de sacerdotes chamados de Tata Kimbanda ou Mameto Kimbanda, onde eles tinham o ofício de cura dos daqueles que procuravam eles e também da comunicação com a ancestralidade, não somente com espíritos dos antepassados, mas espíritos também divinizados, aqueles heróis de guerra, né, figuras importantes na história dessas pessoas e etc. Nesse vídeo não vamos focar muito no Calundu, porque o Calundu merece um vídeo voltado somente para essa prática.
Afinal de contas, o calundu é muito importante pra formação das nossas macumbas hoje, seja um banda, kim banda, candomblia, etc. Como vimos lá no vídeo sobre Pomba entender que a formação das grandes capitais se torna atrativo pr as pessoas que estão tentando mudar de vida ou sobreviver, né? E eles vão migrar pro Rio de Janeiro, principalmente na esperança dessa mudança de vida.
A macumba carioca vai ter uma forte influência da feitiçaria indígena, mas sobretudo da feitiçaria banto, né? Então ela acaba sendo protagonista dentro da maioria das macumbas cariocas. Quando a gente fala macumbas cariocas no plural, isso é por consequência de que vão existir dentro da própria pequena África várias outras macumbas que vão ter como sacerdote pessoas que não eram bantos, como por exemplo alguns sacerdotes que eram maleis ou murumins, ou seja, eram muçulmanos, né?
Ou então pessoas que eram yorubais, né? sacerdotes ou sacerdotiszas que eram Eurorubas que iam trazer o culto de orixá, por exemplo. Mas na grande maioria a macumba carioca era formada pela influência religiosa do povo banto.
E a feitiçaria banto acaba trazendo para dentro da macumba carioca uma figura muito importante, que é a figura do maioral. O maioral na macumba carioca não é uma divindade, nem uma entidade, muito menos um demônio ou um anjo. O maioral, na verdade, é uma energia consciente que vai alimentar toda a feitiçaria que vai acontecer dentro da macumba carioca.
E dentro da macumba carioca, assim como no calundu, vamos ter figuras de sacerdotais que vão adotar o nome de tataimbanda, sobretudo aqueles sacerdotes da macumba carioca de chão banto. Quando a gente fala chão quer dizer que é a maior influência daquela macumba, né? O chão yorubá tinha uma maior influência do povo yorubá, né?
O chão malê tinha a maior influência do povo malê. O chão banto tinha muita influência do povo banto. Então era muito comum a gente encontrar o culto de Inquis e também o culto ao maioral.
A gente vai deixar para falar sobre a macumba carioca num vídeo mais aprofundado, voltado só para ela, mas a gente tem que lembrar que a macumba carioca não era uma prática religiosa que agia livre, era marginalizada, era criminalizada e perseguida. Porém, a gente vai entender que no final do século XVI, início do século XIX, vai chegar o cardecismo no Brasil. E quem era os adeptos do cardecismo?
Era a elite brasileira. Elite essa que era formada por escravagas, por políticos, por militares e por pessoas que tinham um grande poder aquisitivo, o que estava longe de ser as pessoas que eram ali da pequena África, que faziam a prática da macumba. O cardecismo sempre teve essa visão de curiosidade sobre os fenômenos espirituais e isso vai fazer com que os adeptos do cardecismo olhassem paraa pequena África e a manifestação da macumba como algo curioso, que eles gostariam de ir ali e observar o que tava acontecendo ali, já que já existiam muitos relatos sobre qual era a manifestação espiritual que acontecia na pequena África.
Porém, estamos falando de pessoas que eram contra a abolição, estamos falando de pessoas que eram militares da época, que eram pessoas que eram burgueses. Então, é muito óbvio que essas pessoas não gostariam de estar num lugar onde era um lugar de preto, de mulher, de favelado, de pessoas que eram marginalizadas, né, de de indígenas, de muçulmanos, etc. Mesmo assim, a gente vai ver figuras que eram influentes da época, como políticos, por exemplo, subirem o morro, né, e frequentarem a macumba na pequena África, mesmo com toda aquela aversão às práticas mais africanizadas e indígenas, mas eles vão olhar para aquilo como com curiosidade e muitas vezes vão procurar ajuda dentro da macumba carioca, já que eles não confiam nem na própria religiosidade deles, o que não é muito diferente de hoje em dia.
Com o passar do tempo, a gente vai ver essas figuras que frequentam a macumba carioca, mas não gostariam de estar ali, quererem roubar a macumba carioca para eles, quererem se apropriar do fenômeno que acontecia ali. Mas como eles iriam fazer isso se eles não tinham a chance de aprender ali dentro como é que era feita a macumba? Obviamente vamos ter pessoas que vão subir o morro, aprender a macumba, sair de lá e levar essa macumba para outros lugares, transformando num rito higienizado e branqueado para que seja consumido por essa elite que era cardecista, que era cristã, coisa que não era dentro da macumba carioca.
Não estamos falando que não existiam pessoas cristianizadas dentro da macumba carioca, mas o protagonismo não era cristão e sim voltado às figuras afro-indígena. Sobretudo. Historicamente temos documentado que uma dessas figuras que vão subir o morro e aprender a macumba lá dentro é Zélio de Morais, né?
E Zélio de Morais vai absorver muito da macumba, sair de dentro da pequena África, ir para São Gonçalo, de onde ele vem, e fundar a labanda. E por que a Laabanda? A banda de Alá?
Porque Zélio frequentava uma macumba que vinha do chão malê, o chão muçulmano. Então ele aprende, né, a macumba ali dentro, parte dela, obviamente não tudo, né, e vai levar e higienizar, branquear ela, trazendo somente a figura do cabôco e do preto velho para dentro da sua macumba, né, onde ele vai chamar a sua umbanda de umbanda branca e demanda, que é uma umbanda que é de gente branca. E precisamos deixar claro que a Umbanda já existia dentro da macumba carioca como culto, já que Umbanda vem do dialeto quimbundo, que significa cura.
E a Umbanda era praticada na macumba carioca como uma gira de cura, como um uma sessão de cura, um rito de cura. Então o próprio Zélio vai ver que a palavra alabanda não cola muito, já que o cardecismo é cristão e ninguém queria seguir a lá, então ele coloca Umbanda mesmo. Não estamos aqui para demonizar a figura de Zélio.
Prometo trazer o vídeo falando só sobre o Zélio e como esse mito criacional da Umbanda não surge nem dele, e sim a partir dos anos 60, 70. A Umbanda se torna algo muito lucrativo. Por ela ser muito popular e ser de fácil acesso, conversar tanto com o rico quanto com o pobre, as pessoas começam a ver que ali tinha um forte potencial para se tornar uma religiosidade brasileira.
Porém, algumas figuras vão olhar paraa Umbanda e achar que ela deveria ser sistematizada e organizada tal como o cardecismo era. E essas figuras eram cardecistas e eles decidem fazer o primeiro congresso de espiritismo de Umbanda. Em 1941, algumas fontes vão falar em 1942, vai surgir o primeiro congresso de espiritismo de Umbanda, onde figuras como Aluíse Fontinelli, Leal de Souza, Lourenço Braga e outros vão acabar trazendo pra gente uma tentativa de sistematização da Umbanda e também da criminalização da macumba carioca, já que essas pessoas que eram cardecistas, que tinham um olhar cristão, muitas vezes racistas, vão olhar para macumba carioca como muito africana ou indígena.
É importante salientar que essas pessoas eram cardecistas, o que já ocorre um grande erro, né? Uma pessoa cardecista tentar decidir o que é umbanda e o que que não é. Mas foi isso que aconteceu.
Tanto é que nesse congresso se determina que os livros sagrados da Umbanda vão ser os livros escritos por Allan Kardec, o que é um absurdo, já que a própria figura de Allan Kardec era membro da sociedade frenológica, ou seja, da sociedade que visava provar que por causa do formato do crânio o preto tinha menos capacidade intelectual. espiritual. Então, não faz muito sentido uma religião de preto, de indígena, de marginalizado, ter como um de seus messias uma figura dessa.
Se vocês querem um vídeo voltado somente pro que aconteceu nesse primeiro congresso de espiritismo de Umbanda, comenta aqui embaixo que eu trago um vídeo falando sobre tudo isso com áudios originais do próprio congresso. Dentro de outras figuras do primeiro congresso de Espiritismo de Umbanda vai surgir Lourenço Braga com um livro chamado Umbanda Magia Branca aqui em Banda Magia Negra, que na verdade é tudo uma invenção. Não existe nada dentro desse livro que faça qualquer menção um fundamento real do que que é a macumba carioca ou sacerdote de kimbanda, né?
Ou sacerdote chamado quimbanda. Afinal de contas, até esse momento, a kimbanda não era um sistema religioso. Lourenço Braga vai chamar as práticas da macumba carioca de quimbanda, talvez por malcaratismo ou então por não entender de fato o que que acontecia ali.
Quem teve a oportunidade de ler esse livro e eu aconselho a ler com um viés crítico para poder entender como aquilo é ridículo, né? Tal como o livro Exu, né? E aí eu aconselho vocês a lerem para poder ver como é fantasioso, né?
E muitas pessoas vão utilizar isso como um documento para fundamentar a sua religiosidade em quimbanda, o que não faz sentido. Então Lourenço Braga vai olhar paraa macumba carioca, chamar ela de quimbanda e demonizar a quimbanda, porque como ele é cardecista e tem um viés cristão, nós ocidentais, sobretudo de formação cristã, vamos ter como normal na nossa vida, a necessidade de um antagonista dentro da nossa religiosidade, o que não acontece na cultura indígena e afro, né? Não existe um diabo pro africano, não existe um diabo pro culto indígena, né?
Então ele vai utilizar a Umbanda como a grande salvadora, algo que vem de Deus, de Jesus, etc. E vai olhar pra macumba carioca como aquilo que é o inimigo, o antagonista. Isso porque a macumba carioca tinha um viés muito mais afro-indígena do que qualquer coisa com um sincretismo cristão, por exemplo, né?
Então ele olha para essa manifestação religiosa como atrasada, como maligna, por consequência da sua prática, como por exemplo a imolação, o sacrifício animal, e vai taxar ela como algo de Lúcifer, né? Então isso tudo obviamente tirado da sua cabeça, não existe nenhum fundamento nisso. E principalmente quando ele olha pra figura de maioral que era cultuado dentro da macumba carioca como o próprio diabo.
Novamente vou salientar que dentro da cultura afro-indígena não existe a manifestação do diabo por não se acreditar nessa figura antagonista do bem. Já que pro afro-indígena, paraa macumba carioca, pro Calundu, paraa Cabula, paraa santidade, o mal está em nós. Nós somos o bem e o mal, a escolha de ser Deus ou diabo é sua.
Então, dentro dos absurdos que estão nesse livro, vamos ver eh a tentativa de renomear a macumba carioca como kimbanda, já que o sacerdote da macumba carioca de Chumbanto era chamado de Tata Kimbanda, né? e vai se e demonizar sobretudo a figura do maioral, sendo olhando para ele não só como Luúcifer, mas vão surgir outras figuras como Beebu, Baal e outros diamonds da Goécia. Isso porque essas figuras como Lourenço Braga, Leal de Souza, Aluísio Fontinelli, eles também estudavam teosofia, estudavam alta magia e vão utilizar a Goéssia misturando tudo para tentar explicar aquilos que eles não fazem ideia, né?
que a gente sempre gosta de falar que quem não sabe inventa. E é exatamente isso que eles fizeram. E vamos repetir, a figura de Maoral nunca foi vista como um demônio, muito menos ser vista como um deus ou como Bafomé ou como Baal ou como Beusebu, ou como Lúcifer, nunca foi vista dessa forma.
A figura de Maioral é uma energia consciente que rege todos os nossos trabalhos dentro da quimbanda, que antes era chamada de macumba carioca, que passa a ser demonizado e perseguido pela sociedade que vai ser adepta desse cardecismo e dessa Umbanda, porque era culpada a macumba carioca das coisas ruins que aconteciam na nossa sociedade por consequência dessa propaganda massiva que aconteceu de demonização do culto de maioral. Então a macumba carioca vai se adaptar a isso também. A macumba carioca tira a imolação da sua prática, vai esconder o culto de mai oral e vai passar a sincretizar muita coisa, sobretudo os santos católicos também, apesar de que até hoje muitas macumbas cariocas, como por exemplo a da minha casa, a gente não utiliza o sincretismo católico dentro da prática religiosa.
Entidades sim vão poder falar, né, como alguns pretos velhos, alguns boiadeiros, etc. , vão falar sobre a figura cristã sem problema nenhum, mas a religiosidade não vai sincretizar. Então, as macumbas cariocas, que agora eram perseguidas por essa questão fundamentalista dos cardecistas, dos cristãos em si, que depois também vai ser mais intensificadamente perseguido pela ditadura militar no Brasil, começa a esconder o seu culto de maioral e o culto de Exu e Pomba que aqui eles já eram chamados de Exu e Pombajira, como a gente já viu lá no vídeo sobre Exu e Pombagira.
Então, de dia a macumba carioca tocava sua macumba sem o culto de maioral. E quando toda a assistência, as pessoas que participavam daquela macumba, que eram visitantes, iam embora, se fechava a porta e se tocava para Maioral, que é o que vai falar de virar a banda. E finalmente a gente vai começar a ver pessoas chamando aquilo de quimbanda, né?
Que aí entrava o sacerdote que era responsável pela comunicação com o mai oral, pela comunicação com o véu da espiritualidade e ele era chamado de tataquimbanda. Então virava a banda pro tatakimbanda entrar. Então virava a banda para quimbanda.
Ou seja, a gente já começou a entender que a quimbanda como sistema religioso, como culto de maioral e a ancestralidade vai surgir agora nos anos 40. Não é uma religiosidade que surge na África, não é uma religiosidade que está no Brasil há muito tempo, mas a macumba carioca que vai dar origem tanto a Umbanda quanto a quimbanda, né? E a quimbanda vai ser demonizada por pessoas que não são parte da macumba carioca da quimbanda, muito menos da umbanda, são cardecistas, né, que vão utilizar seu fundamentalismo religioso para demonizar o que era do preto, do pobre, do marginalizado, do indígena, do muçulmano e etc.
Então, é muito importante a gente falar sobre origens dessas religiosidades para que a gente entenda que ela não surge com uma uma mito criacional, que ela não surge de um Deus específico e sim de uma construção histórica. A gente precisa entender que para entender a sua religiosidade, você precisa estudar história, antropologia, filosofia, saber da onde ela vem e não acreditar que foram demônios ou anjos ou deuses ou um Messias específico que fundou aquela religiosidade. Quimbanda hoje é uma ressignificação da demonização do próprio nome.
Afinal de contas, era a macumba carioca que foi desmembrada para sobreviver. De dia se tocava macumba carioca em aberto, sem imolação, sem o culto de maioral. E de noite se fechava as portas somente para aqueles que eram adeptos reais, que eram seguros, que eram pessoas que a gente podia confiar para poder tocar aqui em banda.
Então o culto de maioral hoje precisa ser entendido não como um culto ao demônio. Afinal de contas, né, quem determinou que seria o demônio são pessoas que odiavam a nossa religiosidade. Então se você hoje olha pro maioral como um demônio, você está concordando com essas pessoas.
Então é importante a gente deixar claro que a Kimbanda é oculta aos ancestrais, aos seus antepassados e essa figura que vamos chamar de maioral que não vamos ficar buscando uma explicação de quem ele é, de quem, da onde ele vem, o que ele foi. E sim ter fé de que ele vai sustentar a nossa banda. Para falar de Kimbanda não basta apenas um vídeo, a gente precisa trazer uma série voltada só paraa Kimbanda, falando sobre todas essas origens, né?
falando sobre como é a manifestação, qual é a diferença da quimbanda e da umbanda, tudo isso. E se esse vídeo foi interessante para você, comenta aqui pedindo uma parte dois que aí a gente começa a desmembrar ela aos pouquinhos para poder trazer mais informações aprofundadas. É importante eu deixar claro para vocês que todos os vídeos são uma pincelada sobre a história.
Então, se você quer se aprofundar, busque informações através dos livros e artigos que eu deixo aqui na descrição. Não adianta ficar comentando que eu esqueci de falar disso, esqueci de falar daquilo, quando muitas vezes eu não esqueci. Mas eu deixei de falar para poder ter um outro vídeo que precisa de um aprofundamento maior ou então porque simplesmente não cabe, porque senão o vídeo fica enorme e vocês não assistem.
E como sempre, toda a bibliografia utilizada para construir esse argumento tá aqui na descrição do vídeo e também novamente trazendo para vocês o meu livro Umbanda Histórica. tem um capítulo inteirinho falando sobre Kimbanda, falando sobre essa formação eh através da história, mas eu prometo para vocês que ainda esse ano vai sair o Quimbanda Histórica, onde a gente fala detalhadamente sobre toda a fundação da Quimbanda como prática religiosa e também sobre como ela é demonizada. Espero que vocês tenham gostado.
Deixa aqui nos comentários qual o próximo vídeo que vocês gostariam que eu fizesse. E muito obrigado. Estamos junto.
Até a próxima.