É uma dessas grandes verdades estabelecidas que o Superman é o maior super-herói de todos. Pelo menos em teoria. Já tem um bom tempo que as pessoas tão meio encucadas com o personagem, né?
Especialmente no cinema, que é o que a maioria das pessoas consome e a mídia que realmente pode mudar a percepção das pessoas que não são desse nicho cada vez menos lucrativo de leitor frequente de quadrinhos. Quero dizer, eu queria muito que gibi atualmente fosse uma industria autossuficiente e não um grande laboratório de ideias pra filmes e séries de TV, mas cá estamos. (Especialmente agora que a Warner é um estúdio mutilado que foi revendido várias vezes e não consegue tomar uma decisão decente) Mais de 40 anos depois, o Super-Homem ainda é meio refém do espectro do Christopher Reeve.
Ou eles tentam emular a imagem dele demais e não dá muito certo ou eles tentam se distanciar o máximo possível dele e continua não dando muito certo. E mesmo assim, por mais que eu ame esses filmes, especialmente o primeiro, a não ser que você seja muito fã de super-herói e já tenha a cabeça de cinéfilo fedido já feita, não é como se a maioria das pessoas das gerações mais novas tivesse correndo pra ir assistir filmes de quase três horas de 1978. Tá tendo Superman & Lois agora, que eu assisto, é fofo, eu gosto dos filhos e ela faz esse melodrama novelinha teen sem virar uma loucura do caralho tipo Riverdale.
É tão bom quanto eu realisticamente consigo imaginar uma série desse tipo sendo. Mas eu meio que quero mais. Convenhamos, a gente tá vivendo na época mais mainstream e hypada de super-heróis de todos os tempos, e o melhor que o SUPER-HOMEM consegue é uma série de sucesso bacaninha na CW?
E quando se trata do caminho a seguir, o que diabos a gente faz com o Superman, a gente ainda tá travado na discussão se ele deveria ser um herói otimista sorridente, ícone da esperança e tudo mais, ou sei lá, deprê e com cara de cu. E eu meio que quero levar essa conversa pra próxima etapa. É claro que eu quero que o Super-Homem seja esperançoso e sorria e não seja um psicopata, mas até isso não é o suficiente.
Quero dizer, é um passo na direção certa, mas ainda não é o bastante, não pra justificar o maior herói de todos os tempos. O filme precisa ser mais do que ter o herói colorido, sendo bacana com crianças e mandando uns discursos vagos sobre esperança e fé pra funcionar, é só olhar o fracasso fascinante de Mulher Maravilha 1984. Acho que o maior problema é que as pessoas tão com uma visão meio limitada de todo o potencial do personagem.
Ele voa muito rápido, é forte e atira laser do olho, tem Metropolis e Smallville, a identidade secreta de Clark Kent e ele pode enfrentar o Lex Luthor, ou às vezes outro kryptoniano tipo o Zod ou afins e… é meio que isso. Pra maioria, isso é o Superman, como reafirmado pela mídia ao longo dos últimos bons anos. O que mais você tem pra fazer com o personagem?
Mas eu diria que o personagem não simplesmente se provou limitado, essas limitações foram impostas e continuamente reafirmadas como o seu ápice. Mas eu quero relembrar de quando o Super-Homem era realmente SUPER. Porque acho que o público moderno simplesmente já não tem noção do quão GRANDE ele era.
Por décadas, ele não era só o maior super-herói, ele era O super-herói. Tinha o Super-Homem como um ícone cultural e colossal e tinham outros caras de outras revistas que pegavam uma carona no sucesso dele. Todos os seus gibis eram os maiores sucessos de venda.
Literalmente. Até os spin-offs da Lois Lane e do Jimmy Olsen vendiam mais que o Batman, ou o Homem-Aranha ou qualquer outro. Ele era inegavelmente o rei.
Então é claro, eu quero destacar a Era de Prata. Acho que a maioria assistindo já sabe disso, mas pra quem não souber, a Era de Prata geralmente dá pra marcar como começando em 1956, com a criação do Flash do Barry Allen e terminando em 1972, com a morte da Gwen Stacy. Ela acontece nesse cenário dos Estados Unidos prosperando no pós-guerra, com histórias sendo feitas pra toda uma jovem geração de baby boomers.
A Era de Ouro impactou a estreia do Superman como essa fantasia revoltada de uma classe trabalhadora de um país que ainda sentia os efeitos da crise, a Era de Prata toca no fascínio com a Era Atômica e a corrida espacial pra se jogarem de cabeça na ficção científica pulp e fantasia. Que é a minha forma elegante de dizer que o tom e as histórias dessa época eram completamente surtadas. O Superman era sempre tão poderoso quanto a história quisesse que ele fosse.
Se fosse do interesse da história, ele podia carregar planetas inteiros nas costas ou voar tão rápido que ele viajava no tempo ou então ele só teria espontaneamente alguns poderes muito estranhos, tipo telepatia ou super-ventriloquismo. Ele lutava com vilões recorrentes como o Sr Mxyzptlk, da quinta dimensão, que ele precisava enganar e fazer falar o seu nome de trás pra frente pra ele ir embora. Ou Brainiac, sequestrando cidades com um raio encolhedor e colocando elas em garrafas.
Ou o Bizarro e o seu mundo Bizarro quadrado, onde todo mundo fala as coisas ao contrário. Ou Titano, um chimpanzé gigante que atira raios de kryptonita! E por falar em animais, acho que a maioria aqui já tá ligado sobre o Krypto, o Super-Cão, mas a Supergirl também tinha o Raiado, o Super-Gato, e Cometa, o Supercavalo!
Antes do Superman ser o Superman, ele era o Superboy, em Smallville, e antes ele era até o Superbebê! E como Superboy ele ia pro futuro ter aventuras com a Legião dos Super-Heróis no século 30! E o Lex Luthor era um dos melhores amigos do Superboy, até que ele acidentalmente deixou ele careca e isso jogou ele no caminho de arqui-inimigo cientista louco em busca de vingança!
Tem a Fortaleza da Solidão, que uma base tão colorida e interessante quanto qualquer Bat-caverna e fechada com uma chave gigante que só o Superman poderia levantar. Batman e Superman são melhores amigos e vivem competindo. Jimmy Olsen faz crossdressing e se transforma monstros por acidente, e Lois Lane planeja esquemas mirabolantes pra descobrir a identidade secreta do superomi e se casa ou quase se casa com quase todo mundo que você possa imaginar.
E não era só ela e Lana Lang, um dos grandes amores recorrentes da vida do Superman era uma SEREIA TELEPÁTICA, chamada Lori Lemaris. E quando os gibis queriam surtar ainda mais, eles ainda tinham as histórias imaginárias, onde se explorava o que aconteceria se o Superman morresse ou se casasse, sem afetar o status quo. Abrir um gibi aleatório dessa época significa que absolutamente qualquer loucura é possível!
Acho que isso prova o meu ponto. A Era de Prata era muito. Simplesmente muito.
E a maioria dos seus excessos foram minimizados com o tempo. Seja com a ascenção da Era de Bronze, ou o filme 78, ou o reboot no pós-crise, e todas as adaptações que vieram depois. Então você não tem mais Superboy, o Superman só vira o Superman quando ele é adulto.
A Fortaleza da Solidão é simplesmente feita de cristais e alguns hologramas. O Bizarro é um clone defeituoso do Superman como na primeira aparição. Jimmy Olsen é só um moleque abobalhado e Lex Luthor é um empresário inescrupuloso.
Por aí vai… Volta e meia algum quadrinho tenta dar uma resgatada em algumas dessas ideias, mas elas nunca fazem muito impacto, especialmente no que diz respeito fora do nicho de meia-dúzia de gatos pingados que lêem os quadrinhos. E cada uma dessas simplificações fazem sentido em seu pequeno contexto histórico, era o caminho que parecia necessário seguir com o personagem, especialmente à medida que esses elementos eram vistos como camp. Hoje em dia, esses gibis dão mais as caras quando alguém quer fazer algum post engraçadinho na vibe do “olha só o quão doido era o Superman antigamente!
” e a discussão é geralmente com algum tom de desprezo de “Graças a Deus, as histórias não são mais assim”. Mas eu acho que nós estamos exatamente no momento onde eu acho que o oposto é a solução e é hora da gente reavaliar o legado e o potencial da Era de Prata. Não só como um período histórico importantíssimo pro personagem quando ele era o líder de uma indústria de quadrinhos autossustentável, mas também como uma época rica, criativa e extremamente divertida.
E o que ela tinha, eu acho que é o que o Super-Homem precisa agora. O que eu acho tão estranho é que Superman Grandes Astros terminou de ser publicado há quase 15 anos. E a Era de Prata é de longe a maior inspiração pra sua visão definitiva do que uma história do Superman deveria ser.
Com cada edição basicamente destacando algum elemento icônico da mitologia de acordo com essa época. Uma edição sobre a Lois neurótica, outra sobre aventuras malucas do Jimmy, outra sobre Lex Luthor megalomaníaco, ou sobre o planeta bizarro, ou sobre o Superboy encontrando visitantes do futuro, por aí vai. Ela se refestela no quão ensandecido, criativo e bem-humorado esses quadrinhos podem ser.
E todo mundo adora, sempre é considerado uma das melhores, se não a melhor história do Superman… então por que não tem ninguém encarregado dos filmes da DC pegando esse feedback óbvio e falando “isso, isso é o que o filme tem que ser”. Aliás, no geral,Grant Morrison tem sido o santo-padroeiro não-binárie do Super-Homem há muito tempo. Entre o Grandes Astros, a run delu no começo dos Novos 52, a minissérie do Superman e The Authority, desde os tempos da sua fase na Liga da Justiça, sem falar em todos os seus depoimentos e passagens que elu escreve sobre em Superdeuses, elu é basicamente o responsável por abrir os olhos de toda uma geração mais jovem que nunca teve contato com o Superman pré-crise pro potencial dele em todo o seu escopo.
É claro, atualmente tá cada vez mais difícil imaginar um futuro otimista pro que costumava ser a Warner Bros e por extensão, a DC, tanto nos quadrinhos, mas especialmente no cinema, mas se o Superomi nunca perde a esperança, então eu também não vou. Eu não estou dizendo que o futuro do Super-Homem no mainstream tem que ser um pastiche perfeito da Era de Prata. Eu não acho que a estética tem que ser retrô, da mesma forma que eu não acho que todos os personagens devem ser brancos ou que a gente tem que representar a visão patriarcal da época.
E eu também acho que pelo menos alguns aspectos de revolta da classe trabalhadora da Era de Ouro devia dar as caras aqui. O importante é capturar o espírito aventureiro, o fascínio e a empolgação com a ficção científica e a fantasia. A sensação de que qualquer coisa é possível.
E daí fazer um Superman que seja moderno, esperto e politicamente atualizado. Então para de se apegar a simbolismo cristão ingênuo como se tivesse acabado de descobrir a figura de linguagem, serião, o Superman foi criado por dois moleques judeus. Ele não precisa ser Jesus pra ser relevante.
Nem precisa ficar eternamente apegado a existencialismo barato pra se autojustificar. “O Superman é Deus? ”, “Por que o Superman é bom?
”, “O mundo precisa do Superman? ”. Alguém tira a cabeça do homem de dentro da própria bunda que isso arruina a xuxinha do cabelo.
Ele deve ser autoconfiante, não autorreverente. Super-Homem é literalmente a cria da Action Comics, apesar de impresso, o seu dinamismo e sua diligência ao resolver os problemas, ele agindo, é o que fizeram ele saltar da página pro inconsciente do mundo todo. Mas esses anos todos tornaram o Homem da Ação estático.
É por isso que eu quis relembrar aqui o que ele tinha de especial antigamente, o quão diferente era ser fã do Superman durante todas essas décadas passadas e como isso pode voltar a mudar. Porque te fazer acreditar que um homem pode voar não é meramente literal, é acreditar que o céu é o limite. -------------- ENTÃO, pequena anedota, porque esse vídeo nasceu como um Animajon e acabou expandindo pra outro negócio: À princípio era mais só pra eu falar sobre o episódio que o Superman aparece no Batman Os Bravos e Destemidos e é uma grande celebração da Era de Prata, mas acabou virando um negócio completamente diferente.
Aliás, eu não perdi a ironia que eu falei que a gente tá muito refém do Superman do Christopher Reeve e aí eu terminei justamente fazendo referência ao poster do filme. Mas fazer o que, continua sendo uma puta frase de efeito. Enfim, meus apoiadores.
Gente bonita e cheirosa que vocês podem ver aqui e que ajudam nessa jornada do canal. Lembrando que se você quiser virar um apoiador, o link do meu Apoiase tá na descrição, eu ficaria muito agradecido. Então galera, um beijo nos glúteos de vocês, eu vejo vocês na próxima e até mais.