Glauber Rocha é considerado o principal cineasta do Cinema Novo, um movimento de vanguarda influenciado pelo neorrealismo italiano e pela nova onda do cinema francês, a nouvelle vague. Esta nova forma de produzir cinema popularizou a frase “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, que ia na direção oposta dos filmes de grande circulação até então. Em sua maioria chanchadas e produções de grandes companhias, ainda muito influenciados por uma pompa europeia.
No mesmo ano de lançamento de Deus e o Diabo na Terra do Sol, Glauber foi à Cannes com sua indicação à Palma de Ouro, e no ano seguinte, em janeiro de 1965, publicou um dos mais importantes manifestos da história do cinema brasileiro: Estética da Fome. O texto apresentava um projeto artístico revolucionário que almejava utilizar o cinema como ferramenta de mudança social, e não apenas de denúncia. Ao tensionar as relações entre o interlocutor artista latino-americano e o consumidor estrangeiro, o diretor apontava que a arte produzida até então não comunicava a verdadeira miséria vivida por seu povo a esse espectador, e nem este estrangeiro era capaz de compreendê-la verdadeiramente.
A única comunicação efetiva era de “mentiras elaboradas da verdade”, como exotismos formais que vulgarizam problemas sociais, e que apenas satisfaziam a nostalgia do primitivismo do observador europeu. Dessa forma, a América Latina permanecia colônia em sua produção artística. Os artistas eram castrados em exercícios formais e não atingiam plena possessão de suas formas, não despertando nunca do que Glauber chama de um “ideal estético adolescente”.
Além disso, a indignação social provocava discursos flamejantes, sendo o primeiro sintoma o anarquismo, o segundo, uma redução política da arte que faz má política e o terceiro, uma busca por uma sistematização para a arte popular. E foi, então, na fome que o cineasta encontrou a trágica originalidade do Cinema Novo: Glauber apostava também em uma estética da violência, já que, para ele, a mais nobre manifestação cultural da fome é a violência. Com ela, o colonizador poderia compreender, pelo horror, a força da cultura que ele explora, e não mais satisfazer a nostalgia de seu primitivismo.
Porque a violência do faminto não é primitiva, é revolucionária. Glauber afirmava que “enquanto não ergue as armas, o colonizado é um escravo”. Homem nessa terra só tem validade quando pega nas armas pra mudar o destino.
O manifesto da Estética da Fome marcou o cinema brasileiro e continua a influenciar até mesmo produções contemporâneas, como Bacurau. Onde a violência é a única resposta possível para a sobrevivência do povo que está sob ataque do colonizador. Por isso, mesmo que o Cinema Novo tenha sido encerrado como movimento, seu legado permanece.