Poucas coisas são tão importantes e tão incompreendidas quanto o dinheiro. Um problema que sempre existiu na história da humanidade foi como mover valor econômico ao longo do tempo e do espaço. A maneira mais simples de se mover valor é trocando-se bens e serviços diretamente, ou seja, por meio do escambo.
Contudo, isso só é viável em comunidades pequenas. Em uma economia hipotética, com uma dúzia de pessoas isoladas do mundo, não há espaço para muita especialização e é possível trocar bens e serviços diretamente. Porém, em economias maiores e mais sofisticadas, em que as pessoas podem se especializar em algo, o escambo não é algo prático.
Nesse caso, aparece o 'problema da falta de coincidência de desejos', isto é, aquilo que você quer adquirir é produzido por alguém que não quer o que você tem a oferecer. Há três dimensões para esse problema. Primeiro, há a falta de coincidência em escala: o que você quer pode não ser igual em valor ao que você tem e dividir um dos dois em unidades menores pode ser inviável.
Por exemplo, você quer vender sapatos para comprar uma casa. Você não pode comprar a casa pouco a pouco, à medida que vende pares de sapatos, e o dono do imóvel não quer o valor da casa em milhares de pares de sapatos. Segundo, há a falta de coincidência temporal: o que você tem é perecível e o que você quer é durável, tornando difícil acumular o seu bem perecível para eventualmente comprar o bem durável.
Não é fácil acumular maçãs para comprar um carro, porque aquelas apodrecem antes. Terceiro, há a falta de coincidência espacial: você quer vender uma casa em uma cidade e comprar em outra, mas elas não são transportáveis. Esses três pontos fazem com que o escambo seja impraticável.
A única forma de contornar isso é usando um 'meio de troca', ou seja, algo que retém a informação sobre o valor subjetivo que as pessoas dão a bens e serviços. Aquilo que assume esse papel de meio de troca é chamado de 'dinheiro'. Isso acontece naturalmente, já que as pessoas que adotam esse dinheiro se tornam mais produtivas do que as que não o adotam.
Esta é, portanto, a primeira função do dinheiro: a de ser um 'meio de troca'. Em outras palavras, o dinheiro é um bem que é adquirido não para ser consumido, nem para ser usado na produção de outros bens, mas primariamente para ser trocado por serviços e outros bens. Por conta disso, sempre haverá demanda por dinheiro.
Não conseguiríamos prosperar sem ele. Ao contrário do que os estatistas nos querem fazer acreditar, a vida humana está repleta de incertezas, e não podemos saber exatamente quando precisaremos de uma certa quantia de dinheiro. Nos diz o bom-senso – e a sabedoria que vem com a idade – que é prudente guardar parte de nossa riqueza na forma de dinheiro, já que ele é, por definição, o bem mais líquido que existe.
Assim, no caso de uma emergência, podemos facilmente trocar esse dinheiro por recursos de que precisamos naquele momento de aperto. O preço que pagamos por essa conveniência é deixar de consumir bens e serviços no presente. A propriedade-chave que faz com que um bem seja naturalmente adotado como dinheiro é a 'vendabilidade', isto é, a facilidade com que ele pode ser vendido no mercado.
A princípio, não há nada que determine o que possa ou não possa ser usado como dinheiro. Ao longo da história, várias coisas foram usadas com esse fim: principalmente ouro e prata, mas também cobre, conchas, sal, gado, pedras grandes, pedras preciosas, álcool, cigarro e até, quem diria, papel pintado. As escolhas pessoais são subjetivas e, portanto, não há uma escolha 'certa' ou 'errada' em relação ao que é usado como dinheiro.
Há, entretanto, conseqüências dessas escolhas. A vendabilidade de um bem pode ser medida em termos de sua capacidade em resolver aqueles três aspectos do 'problema da falta de coincidência'. Um bem vendável em diferentes escalas pode ser dividido em unidades menores ou agrupado em unidades maiores.
Um bem vendável ao longo do espaço pode ser facilmente transportável. Até aí, tudo bem, há vários bens que satisfazem esses dois critérios. É o terceiro ponto, a vendabilidade ao longo do tempo, que é o mais crucial.
Esse ponto refere-se à capacidade de o bem reter valor ao longo do tempo. E essa é a segunda função do dinheiro: a de 'reserva de valor'. Para um bem ser vendável ao longo do tempo, ele não pode ser perecível.
Mas só isso não basta. É necessário também que sua oferta não aumente muito. A dificuldade de se produzir novas unidades monetárias determina a 'solidez' do dinheiro: quando é difícil produzi-las, temos um 'dinheiro sólido'; quando é fácil, temos um 'dinheiro frágil'.
Podemos analisar a solidez de um dinheiro, olhando para o seu estoque – o quanto existe dele – e para o seu fluxo – o quanto dele que é produzido. A razão entre o estoque e o fluxo é um bom indicador da solidez de um dinheiro. Quanto maior a razão estoque-para-fluxo, maior a chance de ele manter sua vendabilidade temporal.
Vamos tentar entender isso. Imagine que as pessoas escolham um certo bem, com uma alta razão estoque-para-fluxo, para ser usado como dinheiro. Nesse caso, a procura por esse bem faz com que o seu preço aumente.
Isso, por sua vez, cria um incentivo para que sua produção aumente. Porém, como o fluxo é pequeno quando comparado ao estoque, esse aumento da produção não provocará uma queda signficativa no preço. Sendo assim, a tal da 'vendabilidade temporal' fica preservada.
Ou seja, esse dinheiro não diminui de valor conforme o tempo passa. Quem guardar esse dinheiro manterá o seu poder de compra. Agora, se as pessoas escolherem um bem com uma baixa razão estoque-para-fluxo para ser usado como dinheiro, aí acontece o contrário.
Os produtores podem criar grandes quantidades dele, desvalorizando-o e destruindo sua vendabilidade temporal. Quem guardar as suas economias nesse dinheiro empobrecerá. Um corolário disso é que para algo assumir um papel monetário, ele deve ser custoso para ser produzido.
Ao longo da história, sempre que um desenvolvimento natural, tecnológico ou político resultou em um aumento brusco na oferta de um bem monetário, esse bem deixou de ser usado como dinheiro e foi substituído por um outro com uma razão estoque-para-fluxo maior. Por exemplo, conchas foram usadas como dinheiro apenas enquanto tinham um baixo fluxo, isto é, eram difíceis de serem econtradas. Além da razão estoque-para-fluxo, um outro aspecto da vendabilidade de um bem monetário é a sua aceitabilidade.
Quanto mais pessoas aceitarem um bem como dinheiro, maior a sua liquidez e maior a chance de ser comprado e vendido com pouca perda. Uma alta acessibilidade permite que todos os preços sejam expressos em seus termos, o que faz com que o bem desempenhe a terceira função do dinheiro: a de 'unidade de conta'. Nesse caso, todos os bens e serviços são expressos nessa unidade, e cálculos econômicos complexos se tornam possíveis, permitindo especialização e acúmulo de capital.
A operação de uma economia de mercado depende dos preços, e os preços, para serem acurados, dependem de uma unidade de conta, que reflita fielmente a escassez relativa de bens e serviços. Ao longo de nossa história, vários bens desempenharam o papel de dinheiro, com diferentes graus de solidez, dependendo das capacidades tecnológicas de uma dada era. De conchas ao sal, do gado à prata, do ouro aos papéis-moeda lastreados em ouro, chegando às moedas fiduciárias que usamos hoje, cada avanço tecnológico nos permitiu usar uma nova forma de dinheiro, com benefícios adicionais, mas também com armadilhas adicionais.
Entender as diferenças entre um dinheiro sólido e um dinheiro frágil é fundamental para compreendermos como sociedades prosperam e colapsam. Existe uma correlação positiva muito forte entre a solidez de um dinheiro e o sucesso de uma sociedade. Mas, mais do que isso, entender essas diferenças nos permite proteger os frutos do nosso suado trabalho.