Vidas Secas romance de Graciliano Ramos diretor de dublagem Gustavo Lisboa Capítulo 12 o mundo coberto de penas o Mulungu do bebedouro cobria-se de arribações mal sinal Provavelmente o sertão ia pegar fogo vinham em bandos arranjavam-se nas árvores da beira do rio descansavam bebiam e como em redor não havia comida seguiam viagem para o sul o casal agoniado sonhava desgraças o sol chupava os Poços e aquelas escomungadas levavam o resto da água queriam matar o gado sim a Vitória falou assim mas Fabiano resmungou franziu a testa achando a frase extravagante aves matarem bois e cabras que
lembrança olhou a mulher desconfiado julgou que ela estivesse três variando foi sentasse no banco do copiar examinou o céu Limpo cheio de claridade de mau agouro que a sombra das arribações cortava um bicho de penas mataram o gado Provavelmente sim a Vitória não estava regulando Fabiano estirou o beiço e enrugou mais atestado impossível compreender a intenção da mulher não um bicho tão pequeno achou a coisa obscura e desistiu de aprofundá-la entrou em casa trouxe o aio preparou um cigarro bateu como fuzil na pedra chupou uma tragada longa espiou os quatro cantos ficou alguns minutos voltado
para o norte coçando o queixo xi que fim de mundo não permaneceria ali muito tempo no silêncio Comprido Só se eu vi um rumor de asas como era que sim a Vitória tinha dito a frase dela tornou ao espírito de Fabiano e logo a significação apareceu as arribações bebiam a água bem o gado curtia sede e morria muito bem as arribações matavam o gado estava certo matutando a gente via que era assim mas sim a Vitória largava tiradas embaraçosas agora Fabiano percebia o que ela queria dizer esqueceu a infelicidade próxima rio se encantado com a
esperteza de sim a Vitória uma pessoa como Aquela valia ouro tinha ideias sim senhor tinha muita coisa no miolo nas situações difíceis encontrava a saída então descobrir que as arribações matavam o gado e matavam aquela hora o Mulungu do bebedouro sem folhas e sem flores uma garrancharia pelada enfeitava-se de penas desejou ver aquilo de perto levantou-se botou o aioteracolo foi buscar o chapéu de couro e a espingarda de pederneira desceu copiar atravessou o pátio avisou-se da Ladeira pensando na cachorra baleia Coitadinha tinham lhe Aparecido aquelas coisas horríveis na boca o pelo caíra e Ele precisará
matá-la teria procedido bem nunca havia refletido nisso a cachorra estava doente podia consentir que ela mordesse os meninos podia consentir loucura expor as Crianças A hidrofobia pobre da baleia sacudiu a cabeça para afasta espírito era o diabo daquela espingarda que lhe trazia a imagem da cadelinha a espingarda Sem dúvida virou o rosto defronte das Pedras do fim do pátio onde baleia aparecerá fria interessada com os olhos comidos pelos urubus alargou o passo desceu a ladeira pisou a terra de aluvião aproximou-se do bebedouro havia um bater doido de asas por cima da poça de água preta
agarranjeira do Mulungu estava completamente invisível testes quando elas desciam do Sertão acabava-se tudo o gado e afinar-se até os espinhos suspirou que havia de fazer fugir de novo abortar-se em outro lugar recomeçar a vida levantou a espingarda puxou o gatilho sem pontaria 5 ou 6 aves caíram no chão o resto se espantou os galhos Queimados surgiram nus mas pouco a pouco se foram cobrindo aquilo não tinha fim Fabiano sentou-se desanimado na ribanceira do bebedouro carregou lentamente a espingarda com chumbo miúdo e não socou a bucha para a carga espalhar-se e alcançar muitos inimigos novo tiro
novas quedas mas isto não deu nenhum prazer a Fabiano tinha ali comida para dois ou três dias se possuísse munição teria comida para semanas e meses examinou o povorinho e o chumbeiro pensou na viagem estremeceu tentou iludir-se imaginou que ela não se realizaria se ele não aprovocasse com ideias ruins reacendeu o cigarro procurou distrair-se falando baixo Sim aterta era pessoa de muito saber naquelas beiradas como andariam as contas com o patrão estava ali o que ele não conseguiria nunca decifrar aquele negócio de juros engolia tudo e afinal o branco ainda achava que fazia favor o
soldado Amarelo Fabiano incorporado fechou as mãos e deu murros na coxa diabo esforçava-se por uma infelicidade e vinhamo outras infelicidades não queria lembrar-se do patrão nem do soldado amarelo mas lembrava-se com desespero enroscando-se como uma cascavel assanhada era um infeliz era a criatura mais infeliz do mundo devia ter ferido Naquela tarde o soldado Amarelo devia tê-lo cortado a facão cabra ordinário morfino encolher-se e ensinar ao caminho esfregou a testa suada e enrugada para que recordar vergonha pobre dele estava então decidido que viveria sempre assim cabra safado mole se não fosse tão fraco teria entrado no
Cangaço e feito misérias depois levaria um tiro de emboscada ou envelheceria na cadeia cumprindo sentença Mas isso era melhor que acabar sendo uma beira de caminho assando no calor a mulher e os filhos acabando-se também devia ter furado o pescoço do amarelo com faca de ponta devagar talvez estivesse preso e respeitado um homem respeitado um homem assim como estava ninguém podia respeitá-lo não era homem não era nada aguentava zinco no lombo e não se vingava Fabiano meu filho tem coragem tem vergonha Fabiano mata o soldado Amarelo os soldados amarelos são uns desgraçados que precisam morrer
mata o soldado amarelo e os que mandam nele como gesticulava com furor gastando muita energia poça polegar e sentiu sede pela cara vermelha e queimada o suor corria tornava mais escura a barba ruiva desceu da Ribanceira agachou-se à beira da água salobra Posse a beber ruidosamente nas palmas das mãos uma nuvem de arribações voa assustada Fabiano levantou-se um brilho de indignação nos olhos Miseráveis a cólera dele se voltava de novo contra as aves tornou assentar-se na ribanceira atirou muitas vezes nos Ramos do Mulungu o chão ficou todo coberto de cadáveres iam ser salgados estendidos em
cordas tencionou aproveitá-los como alimento na viagem próxima devia gastar o resto do dinheiro em chumbo e pólvora passaram um dia no Bebedouro depois largar-se pelo mundo seria necessário mudar-se apesar de saber perfeitamente que era necessário agarrou-se a esperanças frágeis talvez a seca não viesse talvez chovesse aqueles Malditos bichos é que lhe faziam medo procurou esquecê-los mas como poderia esquecê-lo se estavam ali voando lhe em torno da cabeça agitando-se na lama empoleirados nos galhos espalhados no chão Mortos se não fossem eles a seca não existiria pelo menos não existiria naquele momento viria depois seria mais curta
assim começava logo e Fabiano sentia de longe sentia como se ela já tivesse chegado experimentava adiantadamente a fome a sede as fadigas imensas das retiradas alguns dias antes estava sossegado preparando látegos consertando cercas de repente um risco no céu outros riscos milhares de riscos juntos nuvens o medonho rumor de asas a anunciar destruição ele já andava meio desconfiado vendo as fontes minguarem e olhava com desgosto a brancura das manhãs longas e a vermelhidão sinistra das tardes agora confirmavam-se a suspeitas Miseráveis as excomungadas eram a causa da seca se pudesse matá-las a seca se existiria mexeu-se
com violência carregou a espingarda furiosamente a Mão Grossa cabeluda cheia de manchas e descascada tremia sacudindo a vareta pestes impossível dar cabo daquela Praga estirou os olhos pela Campina achou-se isolado Sozinho no Mundo coberto de penas de aves que iam comê-lo pensou na mulher e suspirou coitada de sim a Vitória novamente nos descampados Transportando o baú de folha uma pessoa de tanto juízo marchar na terra queimada esfolar os pés nos seixos Era duro as arribações matavam o gado como tinha assim a Vitória descoberto aquilo difícil ele Fabiano espremendo os miolos não diria semelhante frase sim
a Vitória fazia contas direito sentava-se na cozinha consultava monte de sementes de várias espécies correspondentes a mil Reis tostões e vinténs e acertava as contas do patrão eram diferentes arranjadas a tinta e contra o vaqueiro mas Fabiano sabia que elas estavam erradas e o patrão queria enganá-lo enganava que remédio Fabiano um desgraçado um cabra dormia na cadeia e aguentava zinco no lombo reagir não podia um cabra mas as contas de sim a Vitória deviam ser exatas pobre de sim a Vitória não conseguiria nunca estender os ossos numa cama o único desejo que tinha os outros
não se deitavam Em camas receando magoá-la Fabiano concordava com ela embora aquilo fosse um sonho não poderiam dormir como gente e agora iam ser comidos pelas arribações desceu da Ribanceira apanhou lentamente os cadáveres meteus no aiorque ficou cheio empanzinado retirou-se devagar ele sim a Vitória e os dois meninos comeriam as arribações se a cachorra baleia estivesse viva iria regalar-se Porque seria que o coração dele se apertava Coitadinha da cadela matará forçado por causa da moléstia depois voltará a os lategos há cercas as contas embaraçadas do patrão subiu a ladeira avisou-se do juazeiros junto à raiz
de um deles a pobrezinha gostava de espojar-se cobrir-se de garranchos e folhas secas Fabiano suspirou sentiu um peso enorme por dentro se tivesse cometido um erro olhou a planície torrada o morro onde os preá saltavam confessou as catingueiras e ao as alastrados que o animal tiver a hidrofobia ameaçaram as crianças mataram por isso aqui as ideias de Fabiano atrapalharam-se a cachorra misturou-se com as arribações que não se distinguiam da seca ele a mulher e os dois meninos seriam comidos sim a Vitória tinha razão era atilada e Percebi as coisas de longe Fabiano arregalava os olhos
e desejava continuar a admirá-la mas o coração Grosso como um Cururu enchia-se com a lembrança da cadela Coitadinha magra dura interessada os olhos arrancados pelos urubus diante dos juazeiros Fabiano sabia lá se a alma de baleia andava por ali fazendo visagem chegou-se a casa com medo e a escurecendo e aquela hora ele sentia sempre uns vagos terrores ultimamente vivia esmorecido morfino porque as desgraças eram muitas precisava consultar sim a Vitória combinar a viagem livrar-se das arribações explicar-se convencer-se de que não praticar injustiça matando a cachorra necessário abandonar aqueles lugares amaldiçoados sem a Vitória pensaria como
ele