[Você está no Kinobox] [Introdução] ♪ [Dani] A forma como a gente se veste é uma das maneiras de mostrar para o mundo quem a gente é, ou quem a gente quer ser. Certo? Com o personagem não é diferente.
Então vamos falar sobre figurino e como ele pode ajudar, e muito, na construção da narrativa. [Aula 22 - Caracterização] Olá pessoal, sejam bem-vindos à academia Kinobox de cinema. Prazer, eu sou a Dani e hoje a gente vai falar sobre caracterização de personagem.
Mais propriamente sobre figurino mesmo, a gente não vai falar sobre maquiagem, ou sobre cabelo, mas o princípio é bem parecido. Na aula de construção de personagem, o Vitor falou sobre como aspectos da personalidade, tanto os mais superficiais como os mais profundos, são importantes para fazer um personagem que vive, que existe, que é verdadeiro, que é crível. E, bom, isso tudo é mostrado para o espectador com alguns recursos.
Alguns de roteiro, que, bom, são as falas, né? As ações, isso tudo vai mostrando personalidade. Alguns que são mais ligados com direção e atuação, que vão mais para como isso tudo é falado, como isso tudo é feito nas ações.
E também aspectos de figurino, que é como ele se expressa e como ele se mostra para o mundo. A história do cinema é cheia de figurinos marcantes que, inclusive, viram fantasia com muita facilidade de tão marcante que eles são. Tipo “Bonequinha de Luxo”, por exemplo.
[Fotografia da personagem do filme Bonequinha de Luxo] Ou Lunga, de “Bacurau”. [Fotografia do personagem Lunga do filme Bacurau] Cara, o Bacurau, ele seria outro personagem completamente diferente se ele não tivesse aquela caracterização que ele é. “Game of Thrones” é uma série, por exemplo, que explorou bastante os figurinos, né?
Tem até um livro, caro e extenso, que fala sobre esses figurinos, passa por todas as temporadas. Mas, assim, é claro que foi muito bem feito, é claro que tem ali muitos detalhes que foram pensados e que, de alguma forma, imprimem naqueles personagens, mas seria absolutamente impossível não alterar o figurino deles ao longo da série, porque eles mudam muito ao longo da série. A “Sansa”, por exemplo, é uma menina no início da história.
Ela é uma menina que sonha em casar com o rei, ela nem sabe que ele é um escroto ainda, mas ela quer muito ser rainha não porque ela quer poder e ela tem essa ambição, mas porque ela é deslumbrada com esse mundo, né? Então ela quer isso para ela. Essa menina, ao longo da série, se transforma em uma mulher que vira uma liderança do reino do norte, que passa por um casamento terrível, que passa por traumas fortíssimos, e, assim, convenhamos, essa menina dessa foto não é uma liderança do Norte, que passou por um casamento terrível e por traumas fortíssimos.
[Fotografia da personagem Sansa ao lado de outros personagens da série] Essa aqui sim, essa aqui é condizente com essa descrição. [Fotografia da personagem Sansa vestindo uma armadura preta] Essa aqui passou por momentos tensos na vida e usou tudo isso como armadura para se proteger, e ser forte e fazer o que ela precisava fazer. Entende?
Concorda com isso? A Colleen Atwood é uma figurinista de Hollywood que foi indicada 12 vezes ao Oscar, ganhou quatro vezes, e ela diz que figurino é a primeira impressão de uma personagem antes que ela abra a boca. Essa frase é super simples, mas várias vezes as frases mais simples são as mais verdadeiras, né?
E, assim, vamos fazer uma brincadeira aqui. Olha para essa imagem. [Fotografia das personagens Grace e Frankie lado a lado] Mesmo que você nunca tenha visto “Grace and Frankie” na sua vida, você nem sabe do que se trata, só de olhar para essa imagem você consegue saber quem são essas personagens sem que elas tenham falado nada ainda.
Vamos fazer uma brincadeira supondo que você não tenha visto a série, né? Se não viu, assista. Porque é uma série muito boa, inclusive.
Mas vamos fazer uma brincadeira aqui. Uma delas tem um filho que se chama Coyote, o outro filho tem o nome impronunciável, ambos são adotados e ela fabricou o seu próprio lubrificante íntimo feito de inhame. A outra tem uma empresa de cosméticos muito bem sucedida, a empresa leva o seu nome, inclusive, e o drinque favorito dela é um “Dr Martini”.
Eu não preciso te dizer quem é quem, preciso? E da mesma forma que você, quando coloca aquela roupa que você ama, aquele vestido maravilhoso que faz você se sentir fabulosa, aquela blusa que você se sente a pessoa mais gata que já pisou na face da terra, sabe? Da mesma forma que isso muda sua postura, isso muda sua forma de andar, isso muda as coisas que são possíveis, que são apropriadas de se fazer, ou não com aquela roupa, isso também acontece com o ator quando ele coloca o figurino.
A caracterização tem uma função super importante de fazer o ator entrar na pele de uma outra pessoa. Esquecer. .
. não esquecer, mas se separar um pouco do que ele é e adentrar outros traumas, outros desejos, outras vivências. Isso é sempre muito importante.
Algumas aulas atrás, a gente falou de paleta de cor e como que isso ajuda na construção da atmosfera do filme. É muito comum o personagem ter paleta de cor, também. [Fotografia da personagem Marie na cozinha] Quem viu “Breaking Bad”, por exemplo, vai lembrar que a Marie só usava roxo.
Tudo na casa daquela mulher era roxo. Chegava a irritar de tão constante que era. Mas tem um lado que é bem interessante nisso porque, assim, a personagem ela era certinha, estável em um primeiro momento, uma pessoa assim, íntegra e alinhada, acho que talvez seja a melhor palavra, mas ela também guardava uma tensão muito grande.
Ela era cleptomaníaca, por exemplo. Era como se ela sempre estivesse, eu tinha um pouco essa impressão, que era como se ela sempre estivesse em atrito, assim, interno, como se ela sempre estivesse em uma pequena ebulição, assim, um pequeno, uma pequena vibração, pequeno nervosismo assim, sabe? E, cara, é interessante você pensar no roxo quando você pensa nisso porque o roxo tem como base o azul e o vermelho.
O azul é calmo. O azul é íntegro. O azul é estável.
O vermelho é irritado. O vermelho é intenso. E o roxo, quer queira, quer não, como ele vem dessas duas bases, ele guarda um pouquinho isso.
Ele não é tão calmo como o azul, ele não é tão irritado quanto o vermelho, mas ele mistura um pouco o quente e o frio, ali, e é isso, isso transforma um pouco, né? Isso diz um pouco sobre a Marie, isso é bem legal de observar. Breaking Bad é, inclusive, uma série muito boa para falar desse tipo de coisa.
A Skyler, que é esposa do Walter White, o figurino dela, a paleta de cor do figurino dela muda muito a medida que ela se aproxima ou se afasta do marido. É bem legal de observar isso ao longo da série. Tem uma coisa que eu acho muito legal quando acontece com figurino, que é quando ele vira um símbolo para alguma coisa.
É um pouco mais difícil de fazer em curta-metragem, né? Mas em longa, de vez em quando acontece. Tipo, no outro dia eu estava vendo “A Vida Aquática com Steve Zissou”, que é um filme do Wes Anderson, que tem um elemento de figurino que é bem excêntrico e bem diferente, assim.
Eles usam, todos, um gorro vermelho. A equipe do Steve Zissou usa um gorro vermelho. E, assim, não me surpreende por ser um filme do Wes Anderson, né?
Que tem até uma direção de arte quase normal, mas tem esse elemento excêntrico que dá uma unidade para aquela equipe e mostra que eles são todos um pouco doidos. E esse elemento acaba que vira um símbolo que extrapola o filme. Eu acho isso muito bonito quando isso acontece.
O Rubel, o músico, ele usa esse gorro. Ele e a banda dele usam esse gorro em alguns shows que eles fazem. E o que ele tá querendo dizer, na minha opinião, quando ele faz isso, coloca esse gorro na banda, é que todos eles são um pouco loucos, sabe?
Todos eles estão atrás de algo que é único, que é especial, que é raro e que talvez seja capaz de curar. No caso do Rubel, eu acho que essa coisa é a música e no caso do Zissou é um tubarão. Mas, no fim das contas, o sentimento que passa quando você vê, é o sentimento de que aquele gorro se transformou no símbolo de alguma coisa.
Vale lembrar, também, que figuração também tem figurino, tá? E se você for fazer o figurino de algum projeto, pergunta se tem figuração e se você vai precisar produzir o figurino dessas pessoas também, ou se rola pedir para elas levarem opções no dia do set. É bem comum fazer esse pedido.
Você fala para os figurantes que as cores são tais, tais e tais e que a situação é para ir com uma roupa do estilo mais assim, ou assado. Às vezes é a cena em uma praia, então é bom avisar para as pessoas não irem de calça jeans, por exemplo. E aí os figurantes, no dia do set, levam várias opções de roupas e de objetos que tem a ver com aquela proposta e aí, lá você escolhe qual que você vai usar.
É bem comum isso. Às vezes também é importante produzir alguma coisa. Então é legal que você saiba se vai ter figurantes, ou não.
Bom, antes de finalizar esse vídeo, se liga aqui no card com as 35 aulas teóricas que abrangem várias áreas da produção audiovisual. Então vamos para as dicas de figurino. Como todas as outras pessoas da equipe, é importante ser organizado.
Como as cenas não são filmadas na ordem, figurinista precisa saber quais são as cenas daquele dia para ele levar o figurino certo para aquelas cenas, já organizadinho, já etiquetadinho, já separado por personagem que é para não correr o risco de usar uma roupa errada na cena que não tem nada a ver. Outra dica é: se você tiver acesso a uma arara daquelas, assim, simples, que é um ferro assim, preso em um pezinho, se você tiver acesso a uma delas vai te facilitar bastante no dia do set. Que aí você já pode deixar tudo passadinho, já organizado na ordem, aí na hora é só pegar e colocar no ator.
Sucesso! É mais difícil de ter erro. Outra dica interessante é ter mais de uma peça, principalmente das blusas, se isso for possível, né?
Porque às vezes acontece do ator sujar a blusa, de cair alguma coisa, de cair maquiagem, até de rasgar mesmo. Às vezes o autor sua muito e aí fica aquela pizza gigantesca na blusa. Então é legal se você puder ter mais de uma opção das blusas que são mais marcantes, ou mais importantes.
Outro detalhe que às vezes passa: evite estampas que possam dar “moiré”. Isso é bem menos comum hoje em dia porque a câmera, a tecnologia de captação de imagem já avançou bastante, mas tem algumas câmeras e alguns tecidos que, quando combinados, ainda não esse efeito “moiré”. Dá uma olhada nessa imagem.
[Imagem de uma blusa do tipo social de estampa listrada] Parece que a blusa está vibrando, né? Tem um movimento, ali, esquisito. É um efeito óptico que dá quando você tem uma estampa muito pequenininha.
É danada! Aquelas blusas de botão, sabe? Com umas listras bem fininhas.
Aquilo ali é quase certo que vai dar “moiré” em certas câmeras. E, cara, isso é muito incômodo. Eu sou uma pessoa muito sensível à “moiré”.
Às vezes eu vejo a olho nu. Às vezes quando eu estou andando na rua, ou falando com alguém, a pessoa está com uma blusa determinada, às vezes nem é listrinha, às vezes é o tecido da malha mesmo, já causa “moiré”. E eu consigo perceber a olho nu, e às vezes me dá até enjoo, real.
[Imagem de uma blusa do tipo social de estampa listrada] Essa imagem aqui me dá um pouco de enjoo quando eu estava pesquisando, te juro. E elas nem estão em movimento. Em movimento é ainda pior.
Então, assim, evite esse tipo de roupa. Antes de você escolher e definir o figurino, teste na frente da câmera para ver se está tudo certo, se não está dando nenhum ruído na imagem para você poder definir certinho e lá no dia do set ter uma surpresa desagradável. Outra pessoa com quem você vai ter que checar esse figurino é o técnico do som.
Sim, tem algumas roupas, alguns tecidos que causam ruídos. Geralmente a lapela ficar presa aqui, na gola, bem perto da garganta do ator, ou aqui embaixo, quando tem decote, mais entre os seios. E tem alguns tecidos que quando a gente se mexe, eles fazem ruído e isso, assim, estraga realmente o som.
Então, é importante checar com o técnico de som se está suave, se está tudo bem com esse tecido antes de você definir. Às vezes, na prova de figurino, que é o momento em que a gente define realmente qual vai ser a roupa de cada cena, às vezes tem lá o fotógrafo, ou alguém da equipe de fotografia e alguém da equipe de som para dar aquele “check” no figurino e garantir que vai dar tudo certo. Bom, por fim, tenha uma caixa de alfinete de bebê.
Vai ser muito útil para você. Às vezes acontece da roupa estar um pouquinho larga e você querer dar uma “cinturadinha”, assim, simples, ou puxar a alça de uma regata assim, para trás para subir um pouco mais a logo, por exemplo, coisas desse tipo. .
. e o alfinete de bebê vai funcionar muito bem nessa hora e não vai correr risco de você espetar os atores. Então leve com você para o set.
Show? Ficou alguma dúvida? Caso sim, coloca aqui nos comentários que a gente dá um jeito de responder vocês nos próximos vídeos, ou em um vídeo extra.
Caso você não saiba, esse vídeo aqui faz parte da 1ª turma da oficina Kinobox de cinema. As aulas teóricas são disponibilizadas, gratuitamente, para todo mundo no YouTube. Mas as aulas práticas são restritas a um grupo de 60 alunos.
Vários curtas-metragens vão ser produzidos na oficina e você vai poder assistir a todos eles, aqui, nesse canal. Se você se interessou e quer saber quando a próxima turma estiver aberta, deixe seu contato no formulário que está aqui na descrição desse vídeo. A oficina Kinobox de cinema é realizada com fomento do Governo Federal, do Estado do Rio de Janeiro e da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa, através da Lei Aldir Blanc.
Até a próxima aula. Legendado por Mariana Gomberg.