Quando a parede de caixas de som começa a ser montada no meio do deserto do Marrocos por uma rave, a sensação que me veio já foi imediatamente a de tá sendo transportada para uma outra dimensão, uma dimensão mitológica, como se tivessem construindo ali um anfiteatro no qual as pessoas iriam praticar um ritual de celebração. E de fato, quando a música começa a tocar, que ele bate estaca tum tum tum e as pessoas começam a dançar como se tivessem num transe, a sensação é essa mesma, a de um ritual. Acho que nenhum filme me transportou de maneira tão radical nessa última temporada quanto o Sirá do diretor espanhol Oliver Laxen.
Primeiro, em um plano bem objetivo, a gente tem o mergulho do Laxy numa cultura hardcore de rave. Essa aqui definitivamente não é uma rave com aquelas de Ibisa, juventude dourada, dançando com algum DJ famoso. Isso aqui é um modo de vida e uma espécie de renúncia ao mundo, principalmente ao que tem de ruim, de destrutivo no mundo.
que as pessoas são mais maltratadas, as drogas são mais pesadas, e a entrega é mais profunda e a exceção do Sergue Lopes, que é um ator fenomenal, todos aqui são não atores, são pessoas que o Lax foi conhecendo eh durante a vida dele. Ele trabalhou muito tempo no Marrocos, conhece a região, conhece as pessoas e conhece principalmente esses modos de vida alternativos. A uma certa altura, essa rave é interrompida por uma leva de soldados que chegam para dispersar todo mundo.
A gente pressente, ouve dizer algo que nunca fica claro e nem precisa ficar, que tem alguma espécie de enorme conflito em curso. Alguém pergunta se é a terceira guerra mundial e outra pessoa responde: "Bom, o mundo já tá acabando faz muito tempo. " E no que todo mundo vai embora nos seus trailers e caminhões, o personagem do Serg Lopez, que tá ali com o filho pré-adolescente e a cachorrinha dele, tá procurando a filha que desapareceu, não dá notícias há meses, decide pegar um caminho alternativo e seguir um outro grupo.
São dois trailers pesados. Ele tá numa caminhonete que obviamente não é apropriada para um terreno como esse em que ele vai entrar, mas são pessoas com que ele teve algum contato enquanto ele mostrava a foto da filha para todo mundo na rave e perguntava se ela havia sido vista. Esse grupo tá indo para uma outra rave muito distante dali, quase já na Mauritânia.
E a ideia deles é que talvez a filha do Luí, o personagem do Sergue Lopes, esteja lá, possa ser encontrada lá. Isso não é propriamente uma premissa em sirá, eh, mas um enunciado. Sá é uma palavra árabe que pode ser interpretada, isso é descrito no começo do filme, como aquele caminho muito estreito entre o paraíso e o inferno.
E tudo aqui vai adquirir uma conotação simbólica cada vez mais ampla, cada vez mais profunda. Também tem a simbologia de se afastar do caminho que todos percorrem e escolher uma trilha mais árdua, tem a simbologia de atravessar um rio. Isso me faz pensar mesmo nessa ideia de mitologia grega com que o filme acenou para mim desde o início.
Eh, o Stcks era o rio que as pessoas atravessavam em direção à terra dos mortos, ao submundo dos mortos. E ao mesmo tempo o Lax vai tecendo com tudo isso eh algo muito diferente também. Ele vai falando de formar conexões.
É, o grande desafio dessas pessoas, o grande refúgio delas em relação ao que elas vêm de terrível no mundo, na verdade são os atos de generosidade. Na beira do rio, o Luiz e o filho dele, o Steban, acham que foram deixados para trás, mas não. O grupo tá só voltando para ajudá-lo a atravessar.
E um outro aspecto dessa renúncia, além da generosidade e da solidariedade, tá em aproveitar aquilo que os outros julgam quebrado ou descartado, o que tá representado nesses próprios personagens que o Lax coloca em cena. Muito simbólica também é a ideia de que a tragédia às vezes surge justamente daquilo que nós fazemos para afastá-la. o caminho vai ficando cada vez mais árduo, mais difícil.
Algo muito chocante acontece e acontece justamente num momento de união, de ajuda mútua. E a partir daí é como se a gente tivesse entrando no Ades da mitologia grega mesmo. As imagens vão ficando cada vez mais abstratas, mais impressionantes e mais pesadas.
Tem uma cena maravilhosa em que a gente vê muito de longe os veículos avançando durante a noite pelo deserto, só com o farol deles ligado. É impossível escapar a simbologia dessa imagem. E então vem um trecho em que o Oliveláx eh investe pesado nas metáforas que ele tava armando até aqui.
Eu tenho sentimentos ambivalentes em relação a esse trecho final. Eu não vou dizer o que transcorre, mas é como se mesmo no maior isolamento, eh, na maior renúncia possível, todos os elementos terríveis do mundo continuassem cercando essas pessoas. E para sobreviver esses elementos, eh, talvez seja preciso fechar os olhos e se entregar ao destino.
Se eu não tenho certeza de que eu gosto, do quão literal essa sequência toda se torna, eu acho maravilhosa a última cena. Ela tem, ao mesmo tempo, algo de esperançoso e algo de profundamente fatalista na ideia de que não adianta. A humanidade é uma corrente que arrasta a gente e a gente tem que seguir com ela para onde ela tiver indo.
São ideias abstratas, mas muito poderosas e belíssimamente traduzidas em imagem. Aliás, o filme foi rodado em 16 mm e a textura do 16, que é um pouco menos nítida, é muito importante pra maneira como essas imagens estão sendo criadas. Acho que é mais até uma experiência do que um filme.
E a beleza dele acho que a gente só sente quando a gente se deixa arrastar por ele também. E não sei, mas embora eu provavelmente não fosse capaz de viver como esses personagens vivem, como essas pessoas vivem, aliás, elas estão em boa parte interpretando a si mesmas, eh, eu fiquei com, eu achei invejável a maneira como elas conseguem cortar as amarras. Tem algo de grandioso em procurar a vida na essência dela mesmo.
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