[Música] [Aplausos] Oi gente tudo bem eu acho que eu tenho uma missão extremamente importante porque eu vou falar Eh representando quase 7000 moradores de uma favela que eu tive o prazer de conviver por mais de 3 anos primeira coisa de tudo que eu gostaria de dizer é que eu faço pesquisa dentro da linha de Antropologia do consumo e muita gente se engana quando pensa que pessoas como eu na minha formação de mestrado e doutorado a gente faz pesquisa para que as pessoas consumam mass mais né que as pessoas fiquem consumistas e foi muito interessante porque
eu comecei a estudar antropologia do consumo eh me debruçando sobre os estudos de furto e fraudde de energia elétrica pela chamada nova classe média que é um termo que eu detesto mas depois disso Eu frequentei uma série de seminários Esse foi fruto da minha dissertação é até tema de um outro Ted E aí eu comecei a ver que a mídia de uma forma geral retratava os fraudadores e os furtadores sempre com a foto de uma favela do lado e aquilo me incomodou muito eu falei será que é assim será que de fato as pessoas fazem
gato de energia porque querem como elas vivem E aí muita gente pode me acusar me dizer que eu sou uma uma romântica quando se trata de favela porque o que eu vou trazer para vocês é uma história de afeto é uma história de empatia e é uma história de muita entrega onde eu morei durante 3 anos e meio convivi com moradores de uma favela que não tem Vista pra praia que fica na região área do Rio de Janeiro e é onde eu aprendi a ser o que eu sou então a solução pode estar aqui a
favela na Vanguarda do consumo colaborativo Então a primeira coisa de tudo que eu posso dizer que eu tava lá e era apenas eu eu tava começando o meu trabalho de campo aluguei uma kitnete através de conhecidos e comecei a compartilhar de uma forma como foi criada né numa região eh e de cidade grande onde todos os valores estão focados na individualidade eh no consumo individual na forma eh pessoal de viver né minha ferramenta as minhas coisas a minha roupa minha maquiagem o meu carro né Eu sou até então eu era solteira era só eu no
carro só que depois de um tempo depois de 3 anos e meio convivendo com esses moradores da favela eu aprendi nam marra a ser nossos E por que que nam marra porque eu parti de um Choque Cultural muito grande de repente eu tava num lugar que público e privado tem uma outra conotação e como conviver com essas pessoas como viver nossos é o nome que de uma das redes sociais da barreira de do Vasco as favelas elas se organizam em núcleos em espécie de redes sociais por vizinhança por afinidade por parentescos Então quando você olha
favela em si são várias ilhotas várias pequenas vizinhanças que se organizam e trocam entre si e se protegem das de todas as dificuldades do mundo e por aí vai ser nossos é fazer parte de uma rede social de assistência mútua eh é você ter um é como se fosse imagina um trapesista e você sabe que tem uma rede embaixo dos seus pés para te proteger na hora que você mais precisa só que para isso compartilhar e colaborar faz parte de um estilo de vida isso foi uma coisa que eu aprendi na marra é que a
favela não pode ser explicada apenas pelo pela questão pela característica das suas mazelas da hipossuficiência da precariedade h a favela ela é muito mais do que isso eh E mais uma vez eu não tô sendo romântica eu morava em cima de um esgoto muitas vezes a minha resistência do chuveiro queimava e eu tinha que tomar banho na casa dos meus vizinhos ah por muitas vezes eram barulho por muitas vezes era polícia por muitas vezes eram eh Os Meninos do tráfico muitas vezes era a própria briga Existem os problemas da favela e isso é inegável o
problema toda que a gente só sabe isso e eu achava que a favela tem um contexto a favela é cidade a a favela tem uma cultura ela não é só precária e ela tem algo dentro dela que traduz confiança e oferece segurança eu me sentia segura dentro da rede do nossos sendo parte desses nossos eu tive que viver com uma outra dinâmica e uma outra esfera sociocultural que é a reciprocidade na Esfera íntima não bastava simplesmente ser eu eu tinha que compartilhar eu tinha que ser alguém uma integrante que fizesse sentido para aquele grupo o
coletivo sempre se sobrepõe ao indivíduo E aí eu acho que é uma coisa bem interessante da gente falar que é o seguinte agora tá muito modismo né falar de colaboração compartilhamento vamos todos dividir né o meu prédio todo mundo divide Os eletrodomésticos né Tem um monte de eu acho que essas políticas airbnb a Uber eu acho que são até políticas muito bem bem intencionadas só que valor não se impõe valor nasce com a Brota com a gente ã aposto vocês de vocês experimentarem qualquer outro desse tipo de eh eh rede de troca e aí Você
empresta uma sanduicheira aí um belo dia sanduicheira volta queimada e aí você vai tentar tratar com aquela pessoa com a qual você emprestou né que você fez a troca aí ele fala não comigo funcionou aí o que que você faz você faz igual aquele menino mimado do do do do futebol de Várzea você bota sua sanduicheira debaixo do braço e diz não quero mais brincar disso não Por quê existe mazela existe briga na favela sim existe essa história de que olha quebrou amassou riscou existe mas chega uma hora que ele olha pro que ele tem
instintivamente e ele diz assim não mas eu não vou arrumar briga com Fulano porque naquele outro dia ele me ajudou porque naquele outro dia ele pode me ajudar então é algo que é uma espécie de regra social é uma regra tácita isso não é dito Então essa liberdade para emprestar ou tomar algo de alguém né Eh é algo que não é imposto é quase natural Eu só não digo que é natural porque eu sou antropóloga é cultural obviamente mas é algo que é tá tão na na tá tão arraigado tá tão no ser daquele daquele
grupo que eles nem percebem que eles são assim então trocas impr préstimos doações cuidados colaborações se ocorrem dentro daquela rede de assistência mútua e também fora dela e leva tempo para você se aceito na rede eu levei cerca de TRS anos até eu ficar íntima até eu participar até eu eu eu ficar amiga até criar um vínculo de confiança até eu participar de vários eventos e criar uma historicidade nós precisamos voltar a nos conectar com os próximos as os vizinhos não se falam mais ã as pessoas quase se esbarram e não se falam Às vezes
as pessoas têm até eu não tenho nada contra as redes sociais mas às vezes nós temos mais intimidade com quem a gente não vê do que com a gente vê e lá na favela é assim o o virtual e o presencial ele tá integrado né então junto já que eu já estava fui cooptada na rede dos nossos e e eu fui cooptada de uma forma muito interessante porque eh depois de 3 anos e meio lá eu queria comemorar meu aniversário eu tava com muita saudade das pessoas eu falei vou fazer meu aniversário na favela os
meus amigos queriam conhecer a barreira do Vasco porque aonde eu vou a barreira do Vasco fica famosa e E aí eu falei vamos fazer um um aniversário e liguei pra Vânia Vânia Rodrigues presidente da associação uma das minhas melhores amigas e eu falei Vaninha chama o pessoal para o aniversário ela o pessoal quem os nossos quando ela falou os nossos eu percebi que ela não tava dizendo os dela ela tá falando ela tava me incluindo e quando ela me incluiu Aquilo me impactou eu falei pera aí alto lá e aí isso mexe com a cabeça
de todo o antropólogo tá fazendo pesquisa de campo gente pera aí eu não sou da favela eu não sou moradora eu não aparento ser da favela ã como é que eu sou nossos por que que eu sou nossos então já que eu era nossos a Vaninha começou a procurar casa e eu fui morar no beco no beco onde todos moravam desse grupo dela chamado Beco Eunice Rodrigues Então eu fui lá e comecei a conviver no beco então no beco a gente come a gente dança a gente vê tv a a gente faz churrasquinho a gente
faz festa pra criança no beco é o ponto de encontro no beco onde se toma uma cerveja sentada na guia da da da do portão até mais tarde e é meio tudo muito junto e misturado eh é um pouco entrar na casa do outro é são as frequenta é a janela aberta a porta aberta é você tá sempre pronto para receber e para frequentar o outro e eu nunca tinha vivido isso talvez no interior do Brasil a gente ainda tenha essa essa espécie de vilarejo essa ideia da vizinhança nas cidades menores mas numa cidade grande
verticalizada de onde eu vim isso é praticamente impossível e eu fiquei Encantada eu fui afetada por esse campo e eu comecei a olhar a favela como uma cidade pequena onde várias trocas aconteciam e eu fazia parte dessa troca então a rede social por exemplo ela prepara a festa da associação de moradores festa das crianças festa das mães Dia dos Pais na Natal então a gente de alguma maneira cada um contribuía com o que sabia fazer e eu tava lá tirando foto e só entende a rede quando se faz parte dela você não tem consciência do
que que é uma rede até você ser cooptada por uma é algo tão viceral é algo tão importante e é como se fosse um brilhante uma joia que você tá fazendo parte e essa rede hoje por exemplo ela tá no bolso no meu bolso no meu celular numa num grupo de WhatsApp que eu fui convidada chamada família então é esse mesmo sentimento com famílias e parentes próximos ele se revela nas redes sociais de assistência mútua nas favelas não se diz não pra rede porque um dia você pode precisar dela e quando é que você vai
saber disso ser da rede não é uma escolha ele é um valor e é para sempre e eu posso dizer que é tão forte como uma relação consanguínea o modo de de viver nessa maneira ela tá na ligada à abundância coletiva eu só tô feliz quando o outro tá feliz a gente se reconhece nas nossas tristezas nas mazelas nas dificuldades a gente tenta tirar o peso de um né de de alguém que esteja passando por uma dificuldade Financeira ou doméstica a gente aconselha se alguém morre todo mundo vai ajudar então é é um é um
jeito muito eh acolhedor de viver e eu nunca imaginei que eu fosse encontrar isso num lugar onde todo os jornais toda a TV toda a imprensa me dizia que era perigoso violento criminoso e Marginal e eu encontrei Exatamente isso numa favela e aí o que se compartilha O que é dividido porque aí eu comecei a falar assim gente se Empresta tudo aqui né aí eu vi utensílio doméstico E aí tem uma história muito legal com essa pipoqueira que é a pipoqueira da Silvia e a Vaninha juntava com ela tem um filho que é o João
Miguel juntava um monte de crianças no beco e a Vaninha chegava e falava Fafá filha mais velha vai lá e pega a pega a pipoqueira da Silvia voltava a fafar gente eu fiz vi isso acontecendo mas assim dezenas de vezes ao longo desses 3 anos e meio um dia eu fiquei questionando eu falei Vaninha Por que que você não compra a pipoqueira fica sempre pegando a pipoqueira do outro a lógica individualista né do de fora ela virou e falou assim botou a mão nas cadeiras e disse elain olha o tamanho da minha cozinha falei ã
se eu comprar tudo que eu preciso quem vai morar na minha casa são as coisas e não as pessoas E aí qual é a cara da antropóloga pesquisadora doutoranda na Universidade Federal Fluminense fica no chão né eu falei gente ela tá me ensinando a ser sustentável Olha isso E aí eu comecei a prestar atenção que sustentabilidade eu comecei a fazer prova né do tipo será que é isso mesmo primeira coisa que eu fiz eu não comprei um fogão eu não tinha fogão Aí você pergunta onde é que você almoçava onde é que você jantava eu
falei na casa dos outros e eu ainda escolhia eh Simone hoje tem o quê eh Dona eunício hoje eu fiz um peixe inclusive fazia o peixe para mim ai que eu falei eu tô com vontade de comer um peixe mamãe foi lá fora Dona e uní tin 85 anos mamãe foi lá fora comprar um peixe para você e fez com pirão então era toda essa rede de afeto que eu nunca tinha tido eu era filha de apartamento eu nunca tinha tido contato e eu encontrei numa favela ã internet serviços para instalação e manutenção aí lembra
do gato de energia o gato de internet o gato de TV que eu fui estudar lá no mestrado Pois é lá na favela não é gato é compartilhamento é outra lógica né você compra lá um wi-fi bota um wi-fi divide contrata Velox divide pelo valor e todo mundo paga um pouquinho com a mesma conexão chama Sky paga o pacote Premium D direita quatro ou cinco pontos cada um divide o ponto isso é inteligência isso é inteligência isso não é enganação isso não é jeitinho né no sentido eh crítico da palavra a gente tem acesso a
eletricidade a água e a outros bens e serviços produtos locais onde você tem preço amigo né você cobra mais barato eletrodoméstico esse aqui vanin até falou assim para mim esse é uma beleza faz frango de padaria Mas você não só pode usar aqui na barreira aí eu por que que só pode usar aqui na barreira lá porque puxa muita luz o pé de galinha da dona eice E aí é muito legal porque esse pé de galinha não é só um pé de galinha é o pé de galinha é o bolo da Cláudia é a feijoada
da Cristina Cada pessoa tem uma expertise do saber fazer e na hora da festa na hora da da convivência na hora do da sociabilidade cada um contribui com aquilo que sabe fazer então é expertise a gente tem produtos e e e roupa roupa de festa maquiagem eu eu usei a a a toalha eu quando eu tive fiquei sem energia elétrica do do fiquei sem resistência no chuveiro o Andrade falou assim eu falei Andrade e eu eu já tava né no local né Andrade gritava que o povo lá grita Andrade Olha só o chuveiro queimou ele
falou Sobe vem tomar banho aqui em cima eu falei pera aí que eu vou pegar minha minha toalha ele não tem toalha aqui aí eu falei então tá então assim é isso né Então usa toalha Nossa aqui tem toalha tem sabonete Tem tudo aqui falei tá bom então público e privado ganha outra dinâmica uso dos espaços comuns a rua e o quintal da casa né o serviço do quer do cuidado de dó Rezadeira cuidado de criança e esse eu acho incrível porque você pode ter creche por um dia ou por um período Então você hoje
que tem filho você coloca criança e paga uma fortuna de creche muitas vezes né então lá na favela você pode assim fulana fulana Então olha eu só tenho R 20 dá para dar uma olhada no Fulano aqui né E aí pronto dá jeito tudo dá um jeito tudo dá certo mudança eu fiz três mudanças né Eu nunca paguei ninguém eu só ia colocando o saco na frente da casa passava alguém dizia tá precisando de ajuda eu falei tô tô indo pra rua Auzira varga lá do outro lado e a pessoa ia carregando minhas coisas não
sei nem sei quem é a pessoa não sei carregavam né então a favela possui características desse moderno consumo colaborativo mesmo que os moradores não atente para isso isso é que é o mais legal a gente e aí eu acho que reside a magia primeira coisa de tudo o que a favela tem que faz com que as pessoas ajam dessa forma hein outra coisa qual é a lição que a favela tem para nos ensinar então a barreira do Vasco ela apresenta práticas que apesar de informais e que não estejam legitimadas pelas instituições elas estão afinadas com
a Vanguarda do pensamento social e econômic contemporâneo eles são colaborativos e eles são ah eles têm uma economia de compartilhamento e sabe por quê Porque aqui é assim todas as vezes que eu perguntei pra Vaninha que que vocês por que que vocês são assim por que que isso acontece dessa maneira ela respondia porque aqui é assim simples aqui é assim Line aqui é assim então é a resposta que eles sempre me deram e eu queria agradecer a barreira do Vasco pela incrível experiência que eu tive eh foi um divisor de águas na minha vida nada
será como antes e essa palestra essa Ted em homenagem a dona eice que nos deixou ano passado que a minha principal interlocutora minha Rezadeira a minha companhia do dia a dia com quem eu comia pirão de peixe e via eh TV ã e eu queria deixar um recado final Essa é a parede da casa da dona eice que foi pintada por uma das dos adolescentes da favela onde tem esse dizer lutar sempre des jamais eh eu queria deixar só um pedido eh Parem de ficar copiando eh políticas públicas eh de Fora Parem de olhar pra
Europa Parem de olhar pra Noruega pra Dinamarca Parem de olhar para modelos de negócios mirabolantes do do Vale do Silício parem a resposta tá mais perto do que você imagina basta a gente saber olhar as pessoas com a lente certa que é isso obrigada [Aplausos]