Você se acha uma pessoa boazinha? Na verdade, você é um bosta. Deixa eu apresentar pra vocês um cara que eu tenho certeza que vai mexer com todo mundo.
Trate-se de Jeremias, o Bom. Caso você não conheça, Jeremias o Bom é um personagem de Ziraldo e saiu do Brasil entre 1965 e 1969. E pra aqueles que fugiram da aula de história, entre 65 e 69, nós estávamos numa ditadura militar.
Inclusive, com a coisa só piorando. A ditadura começa em 64, em 68 temos o AI-5. Então, em 69, daí mesmo que a coisa estava muito, muito punk.
E Jeremias, o Bom, era um personagem que saía no Jornal do Brasil, depois saiu na revista Cruzeiro, e que contava a história de Jeremias. Contava a história de um cara que é extremamente gentil, que é extremamente bondoso, que aceita tudo, que não reclama de nada. Jeremias é bom porque ele é moralmente bom.
E ele é moralmente bom o tempo todo. Sabe aquele ditado, Deus é bom o tempo todo? Não é Deus, é Jeremias.
E aí você deve estar pensando, que tema interessante esse tem um bizarro que não gera história, um cara que só é bonzinho o tempo todo. Mas veja só galera, a gente tá falando de um quadrinho que tem um componente de sátira, de comportamentos, mas que também é uma crítica política. E isso é bem óbvio e vai ficando cada vez mais óbvio que não por acaso, em 69, deixa de ser publicado Jeremias.
Nesse sentido, dá pra até fazer um paralelo com o próprio criador, Ziraldo. Apesar de ser um autor muitas vezes lembrado pelas suas publicações, como Menino Maluquinho, Pererê, aliás, Pererê tem que ser resgatado, atenção editoras do Brasil, resgatem Pererê. Mas voltando, por mais que Ziraldo seja lembrado por esses trabalhos infantis, caramba, ele era um dos principais redatores, cartunistas do Pasquim.
Também caso você não saiba, foi uma publicação importantíssima e bastante combativa à ditadura militar. De certa maneira, como revista de humor, a gente nunca teve no Brasil algo tão forte quanto o Pasquim. Outra coisa sobre o Ziraldo que tem que se dizer é que o Ziraldo é assumidamente um cara de esquerda.
Ele foi filiado ao Partido Comunista do Brasil, ao PCB, e foi ele que fez a logo do pessoal. Então só por isso, você que é mais à direita vai dizer: ah, então por essas coisas, caramba, o Ziraldo não é perfeito. Já se você é comunista, vai dizer: Ziraldo é lindo.
Só que o Ziraldo também volta e meia se mete com algumas polêmicas, ele deu umas declarações homofóbicas lá atrás, depois até se redimiu. - Agora você imagina se eu vou ser homofóbico, doido com mulher do jeito que eu sou. Mas enfim, é esse o ponto que eu quero chegar aqui.
O Ziraldo, criador de Jeremias assim como qualquer pessoa, não é bom o tempo todo. Inclusive, essa bondade é relativizada. Para alguns, certos traços vão ser traços de bondade, para outros não.
Então eu tô fazendo essa comparação autor e obra pra mostrar que ninguém consegue ser bom o tempo todo perante os olhos de todo mundo. Inclusive tem essas contradições, o que é bom para um não é bom para outro. Daí que é interessante pensar o Jeremias que é bom sempre.
Ninguém vê no Jeremias uma ameaça, ninguém tem problema com ele, ele é um cara muito, muito bom. Daí que é bom a gente entrar numa pira aqui e pensar, como é que alguém poderia ser bom o tempo todo? Existe um valor absoluto quando se trata de bondade?
Ou a bondade é simplesmente resignação diante de tudo aquilo que nos oprime? É sorrir e dizer que tá tudo bem quando não tá tudo bem. Dito de outra forma, até que ponto a bondade não é simplesmente uma maldade que se faz consigo mesmo.
E veja, falar disso não se trata de advogar por um egoísmo, egocentrismo. O que eu tô tentando dizer pra vocês é que ser bom o tempo todo talvez seja não dar ouvidos àquilo que está incomodando dentro da gente. Por isso eu acho o tanto pertinente esse quadrinho, principalmente considerando o quanto que nós temos católicos, evangélicos e outras religiões com gente tentando ser boa e provar pra todo mundo que ela que é boa, os outros que não são, meu Deus, bastiões morais.
Então como vocês viram aqui eu vou mexer em vários vespeiros como moralidade, militância, até mesmo recalque moral ou religioso diante de uma ditadura militar. Sim, vou só falar de coisa que vai deixar todo mundo incomodado, com raiva do canal, essa é a proposta. E ao mesmo tempo, no meio disso, apresentar um clássico do quadrinho brasileiro que tá um tanto esquecido.
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Ele parece ser um homem um tanto corpulento, de ombros largos, com um cabelinho curtinho e uma barba por fazer. Ele usa óculos, tem uma flor vermelha na sua gravata e sempre carrega um singelo sorriso. O óculos aqui, enquanto elemento gráfico, não é por acaso, a gente não vê os olhos de Jeremias.
E o fato de a gente não ver os olhos dele é um elemento importante para caracterizar uma certa falta de emoção. Ou seja, a gente não consegue ver através dos óculos se ele tá assim. .
. ou assim. .
. ou mesmo assim. .
. Pode fazer aquilo ali, Jeremias? Posso?
Porém todas essas emoções eu tô inferindo, sacou? O Jeremias não demonstra nada disso. São pouquíssimos os momentos que ele demonstra algum tipo de frustração.
Talvez esteja em gestos muito pequenos, quando ele hesita de emprestar dinheiro para um amigo que ele já emprestou várias vezes grana e o cara até hoje não pagou. Então ele para, pensa e pergunta, você quer um cheque de quanto? Jeremias também é aquele cara que vai para o futebol, organiza os times e o pessoal fala: ah Jeremias, fica de fora, porque o pessoal que é meio fominha e basicamente você é ruim.
E o Jeremias fala: tudo bem, só que eu tenho que voltar para casa e vocês estão jogando com a minha bola. Só que quando ele fala isso, o pessoal já tá jogando, ninguém tá ouvindo ele. Jeremias é tão benevolente que ele apanha para o amigo, que nem é muito amigo dele, conseguir sair leso.
Ou ele paga a conta de uma roda de amigos, que também não são tão amigos assim. Uma das tiras que eu acho que melhor traduz esse altruísmo nocivo é quando o Jeremias, depois de pegar muita bala de criança que tá na rua vendendo qualquer coisa, ele descobre que tá com diabetes. Sim, ele compra toda a balinha que ele vê porque ele quer ajudar os meninos de rua e no final das contas ele também não fica muito bem.
Nesse ponto aqui vale a gente parar e pensar um pouco. Para que fique claro, eu não acredito aqui que a mensagem seja ignore meninos de rua. Papo não é, ah, dane-se que essas crianças estão trabalhando por aí, vira o rosto, não dá para fazer nada mesmo.
Não, aqui a crítica é justamente o contrário. Até que ponto ser simplesmente altruísta muda alguma coisa? Essa é uma crítica bastante recorrente de um ponto de vista de esquerda, a ideia de caridade.
Porque se de um lado a caridade resolve um problema imediato, e quanto a isso eu acho que ninguém discorda, por outro lado ela é a manutenção do problema. Quando os ricos fazem doações para os pobres, eles continuam ricos e os pobres continuam pobres. Você pode aplacar necessidades básicas imediatas.
Com a caridade você pode fazer com que naquele dia aquela criança não passe fome, mas no dia seguinte, se você não estiver lá, ela vai passar. Daí que começa aqui uma certa acidez na história de Jeremias o bom. A sua bondade é inócua.
Ela é boa talvez só para ele, que vai dormir com a consciência tranquila no travesseiro se achando uma boa pessoa. Aliás, não é boa nem para ele, porque ele é feito de otário e se machuca o tempo todo, mas para a consciência dele, a consciência dele é boa. Eu acho isso tão pertinente com essa galerinha que se comporta como bastião moral, principalmente nas redes sociais, Twitter.
É sempre a galera que fala: olha, eu sei o que é certo, eu sei o que é bom. E isso é um negócio que pega todos os aspectos políticos. Porque conservador adora ser bastião moral e eles ficam competindo entre si para ver quem é mais moralmente superior.
E no caso dos progressistas, a mesmíssima coisa. Cada um quer provar mais do que o outro que é antirracista, que é pró-feminista, que é pró-pessoas LGBT. Daí ficam cavocando tweets antigos, comentários equivocados para dizer, ah, você tem uma mácula, você tem um pecado.
Para logo depois de fazer essa grande contribuição à humanidade, ir dormir no travesseiro e dizer, ai que alívio, eu sou do bem. Enquanto o resto do mundo continua uma merda. O fato se você se achar bom, não muda p*** nenhuma.
Serviu só pra você praticar alpinismo social e ficar num pedestal moral. Mas mudar o mundo? Não mudou nada.
Você é um merda. Eu também. Todo mundo aqui que tá assistindo esse vídeo é um merda.
Menos o Jeremias. Apesar dessa primeira descrição, Jeremias não é sempre o otário do rolê. A bondade dele é algo com que as crianças se identificam.
O filho do Jeremias, por exemplo, é o menino mais feliz da escola, porque o pai faz tudo que ele quer. Já a esposa aqui, que é mostrada dentro de um certo clichê machista, ela é aquela mulher interesseira que só quer dinheiro. E o Jeremias dá prelo o tempo todo.
Então assim, apesar de ele continuar meio que com semblante do cara trouxa, em partes ele é mostrado como alguém que faz muito bem pra sua família. Mais adiante, vai mostrar que ele é o único cara que vai na reunião da firma sem um amante e leva a esposa. E os dois tão felizes, dançando.
Já em outro momento, que é uma das páginas inclusive mais bonitas que o Ziraldo já fez, a gente vê um bando de adulto falando uma série de coisas inteligentes. Com suas conversas sofisticadas, suas críticas sociais rasas, papo merda de adulto querendo fazer adultice. Só que a gente descobre no meio daquele blá blá blá todo que é uma festa infantil.
E daí você fica pensando, como assim não tem uma única criança? Aí você vira a página e as crianças estão todas num outro ambiente brincando com o Jeremias. Sim, o único que se prestou a ficar com as crianças é ele e ele parece autenticamente feliz.
Jeremias talvez seja mais sem pecados do que próprio Jesus. O padre fala: atire a primeira pedra quem nunca pecou. E aí o padre leva uma pedrada na cara e fala: Jeremias você não vale!
Contudo, a gente tem pequenos sinais do quanto que isso é uma frustração pra Jeremias. Quando, por exemplo, ele tenta matar uma moça, que ele é completamente incapaz de fazer isso, e aí dizem: Jeremias é tão bom e não faz mal pra ninguém. Uma tira que sintetiza muito o que eu tô querendo aqui dizer pra vocês é quando o Jeremias é assaltado no meio da noite e ele torna refém o ladrão.
E ele faz isso pra poder dar uma refeição pro cara. Sim, o quadro final é o Jeremias apontando uma arma pro cara que tá fazendo refeição na sua casa. É quase do tipo assim, eu sou bom, eu vou fazer bondade e se tu sair daqui da minha frente eu te dou um tiro.
Vai, vai, faz aí, faz aí, que isso aqui é uma bondade, faz! Eu tô fazendo uma bondade contigo, mas tu vai fazer! Ah, mas eu não quero!
Faz! Faz! Eu tô sendo bom, pô!
Quem é você pra dizer que eu não sou uma boa pessoa? É claro que eu sou bom, senão eu te dou um tiro na cara, seu merda, vagabundo, corno, filho da p. .
. Então, como vocês podem ver, tem uma outra face nessa bondade de Jeremias. E essa outra face se aplica também, inclusive, o quanto que talvez ele seja muito bom de cama.
E isso fica demonstrado em vários momentos, alguns mais óbvios, outros menos. Um deles que é um dos mais divertidos é quando a gente vê poronomatopeias muito lindas aqui que o Ziraldo faz, e elas representam uma mulher que está inconsolável. Não fica bem claro se ela foi abandonada, se ela está viúva, sei lá.
Só que todo mundo comenta, ai tadinha, não tem jeito, ela não consegue aceitar, era o homem da vida dela, nada fará ela parar de chorar. Aí o Jeremias passa, ajeita a gravata, se encontra com ela e ela para. Após algum tempo, Jeremias volta com um sorrisinho maroto.
Talvez ele só tenha dado um bom conselho pra ela. Talvez. Porém, como vai ser mostrado em outro cartum, que inclusive é muito, muito bonito, Jeremias é aquele cara que deixa uma mulher muito, muito satisfeita no meio de um quarto com tudo quebrado.
Como ela mesmo diz, Jeremias, você é bom mesmo. Ainda voltando nesse Jeremias que é essa magnitude da bondade, ele é o cara que quando vai se confessar, é o padre que se confessa pra ele. Da mesma maneira, quando ele reage a um assalto e acaba machucando o bandido, é ele que carrega nos braços esse bandido até o hospital.
Também é ele que se sujeita a levar o filho, os sobrinhos, os amigos do filho e dos sobrinhos ao cinema, para que os adultos possam ter um dia de paz. Também diante de um estrangeiro que não conhece nada a cidade, Jeremias diz, tá bom, eu levo você para conhecer o Rio de Janeiro. Já jogando pôquer, Jeremias é aquele cara que acaba sempre ficando só com as cuecas.
Mas aí fica a dúvida, ele joga mal ou ele é apenas bom com todo mundo? Jeremias também é muito bom para os seus pais, mesmo ele sendo certinho, ele leva a mãe dele para uma boate e o pai dele para o puteiro. Contudo, existe uma autêntica gentileza nele.
Quando, por exemplo, depois de várias pessoas passarem por um morador de rua e ficar dando uma moedinha aqui e outra lá, Jeremias fala e pergunta, oi, tudo bem? Jeremias também é o cara que salva gatinhos diante de uma turba que tá querendo matar os gatos. Que, aliás, cabe dizer, bando de pau no cu, mas só um comentário.
Jeremias também é aquele que, com um sorriso no rosto, fica com um bebezinho no colo. E ele fica com esse bebezinho no colo por muito tempo, até que alguém pergunta e ele responde, é que se eu botar ele no bercinho, ele vai acordar. Então, tadinho, ele tá dormindo tão bem, que é que fique.
Atire a primeira pedra, quem é pai e nunca fez isso. E se fez, é porque é um bom pai. Agora, se bota a criança e acorda de sacanagem, aí você é um canalha.
Sim, eu julgo. Embora não seja tão bom quanto o Jeremias. Até porque Jeremias é o cara que vai na terapia e o terapeuta que sai curado.
Só que, coitado do Jeremias, né, por ele ser tão bonzinho, ele tem dificuldade de sair da friendzone. Aí você tá dizendo, tá, mas ele não era casado? Gente, a gente tá falando de uma história tipicamente dos anos 60.
Fazer o outro de corno faz parte do típico humor da época. Sorte da esposa que o Jeremias é muito bonzinho. De certa maneira, a bondade de Jeremias chega a ser sobrenatural.
Quando, por exemplo, você fica sabendo que um cara se salvou com um transplante de coração do Jeremias. Só que daí o Jeremias passa na frente de todo mundo e o pessoal fala: peraí você deu o coração pro cara e tá aqui vivo? E aí o médico responde, é que o coração dele é grande demais.
Jeremias, ao menos por ser bom, ele também é bom em lutar. Ele é talentoso, ele é habilidoso, ele se resolve. Embora até ele tem seus limites.
Uma das tiras que eu acho mais emblemáticas é uma em que ele vai para a terapia, ele sai de lá, um cara aborda ele e ele vira um monstro. Sim, é a única tira aqui em todo o quadrinho que o Jeremias sai do controle. Que o Jeremias deixa de ser bom.
Mas não se esqueça, Jeremias é um anjo. É tão anjo que quando chega em casa e tira o casaco, ele tem asinhas. Como vocês podem notar, portanto, muito da sátira que a gente acompanha ao longo desse quadrinho tem a ver com o fato do quanto que essa bondade ela é instrumentalizada.
Seja para aquela pessoa que se julga a boa poder, dormir com a consciência tranquila, mesmo com o mundo pegando fogo, mas assim não, a minha parte eu fiz, eu joguei uma moedinha. Seja para o mundo todo se utilizar dos bondosos para poder chegar aos seus interesses. Por isso que filósofos como Chopin, Ehrnich ou mesmo Freud vão dizer que essa bondade ela não existe.
Do ponto de vista religioso, dá para pensar numa bondade em termos absolutos. Mas é grande verdade que o que a gente tem é simplesmente vontade de poder. A bondade é utilizada por nós como uma potência dentro de uma espécie de mercado moral.
Daí que ser bom significa de alguma maneira ser melhor que os outros. E mesmo os humildões que gostam de dizer por aí, não, que isso, eu não sou melhor do que ninguém. Mesmo quem diga isso de maneira muito autêntica, ainda é um recurso retórico para sair por cima.
Afinal, quando eu digo quem sou eu perante os outros, eu tô dizendo, eu consigo fazer uma leitura moral de você e de você de mim e mostrar que eu sou mais humilde que você. E notem que essa humildade não por acaso é sempre usada quando a outra pessoa se mostra melhor. Seja em termos de conhecimento, seja em termos de habilidade, seja porque tem mais grana.
Então a única maneira que você tem para disputar poder com uma pessoa que já é mais poderosa que você, é levar para o campo moral. É dizer, aquele cara ali, ele tem mais grana, ou ele é mais inteligente, ou ele é mais forte. Bem, eu sou moralmente superior.
E eu sou humilde. Por isso que conforme as tiras do Jeremias avançam, a gente vai vendo ele muito mais como uma espécie de força moral ao longo da história. E de novo, não uma força moral no sentido abstrato ou metafísico.
Não, essa força enquanto algo muito material. Disputa de poder humano. Isso já acontece em comentários um tanto ácidos da própria época, com Jeremias sendo o cara que foi convocado para fazer a nova Constituição.
Mas também mostrando uma espécie de Jeremias ao longo da história. Quando havia os homens das cavernas que iam todos agredir as mulheres, Jeremias era aquele que levava flores. Já na Arca de Noé, é ele quem cuida dos animais.
Foi ele que redimiu o mil notauro perante todos os outros seres da mitologia grega. Também quando pirata, Jeremias deu um gancho para um pedinte de rua que não tinha um braço. Já no coliseu, os leões gostavam de Jeremias, porque ele é bom.
Jeremias inclusive quando foi com Dante para o inferno, ele apagou o fogo. E foi ele que escreveu as peças de Shakespeare para o próprio Shakespeare poder assinar. Jeremias inclusive se revela a reencarnação da Princesa Isabel para ser aceito entre pessoas negras.
E antes que você diga, pô, mas isso tá muito errado. Duas coisas aí. Uma que a heroificação da Princesa Isabel como a libertadora dos negros nos anos 60 ainda rolava.
Quer dizer, rola até hoje para muita gente que tá meio perdida aí no debate. Mas também tem um outro elemento que eu acho muito bacana. E é o quanto você vê gente querendo pagar de amigo de todo mundo, defensor das minorias, mas que tá sempre tratando o outro como esse negócio.
Que é o outro, não sou eu. É tipo aquela galera branca que quer se mostrar muito amiga de pessoas negras e fala: ai, eu adoro a sua gente. Sua gente, não a minha.
Conforme as tiras do Jeremias vão avançando e a ditadura vai ficando cada vez mais pesada, o tom também se torna mais sombrio. Tem um cartum maravilhoso que é quando a gente vê uma série de pessoas preocupadas com milhões de coisas que estão acontecendo no mundo e o Jeremias consegue lembrar todas elas de mais um problema. Ou seja, que você vê muito dessa bondade já elevada a condição de profunda neurose.
Que, cabe dizer, é um negócio mais atual hoje do que na época. Porque hoje a gente vê as dores e sofrimentos do mundo o tempo todo. De modo que a nossa única escolha ética, inclusive nos dias de hoje, é se tornar um babaca.
Porque se a gente for sofrer, for chorar por cada notícia triste que a gente tá o tempo todo vendo, seja no momento que a gente abre o Twitter, seja quando a gente abre o Facebook, quando a gente abre o YouTube, a gente tá sempre diante de tragédias. É uma tragédia atrás da outra. E não quer dizer necessariamente que o mundo ficou pior, porque agora a gente é exposto a muita, muita notícia.
Um trem bateu na Índia. A gente saberia disso ou nem saberia porque tomaria três segundos de um jornal da manhã. Agora, você entra no Twitter e você tem imagens desse acidente de trem, com as vítimas, tudo, pra daqui a dez minutos ficar vendo uma outra coisa horrorosa que aconteceu no mundo, no Brasil, sei lá onde.
Então, do ponto de vista de saúde mental, é impossível você ficar bem. Você pode tentar ser bom, mas bem você não fica. E esse tom amargo do Jeremias reproduz muito as perspectivas de Ziraldo na época.
A ditadura tá se fechando, o clima tá ficando tenso, tem gente morrendo. E esse excesso de informações, esse excesso de perigos tá me deixando extremamente ansioso, tá me deixando doente. É por isso que a gente vai ver cada vez mais o Jeremias indo à terapia e nem sempre se dando muito bem com isso.
Inclusive, cada vez mais a gente vai ver histórias do Jeremias interagindo com soldados, sempre a partir de um certo equivo, com uma certa piadinha de comportamento, mas sempre em um certo tom de descompasso. Jeremias até quer ajudar os soldados, quer ser útil, mas ao mesmo tempo o que os soldados querem não é bem o que o Jeremias quer, porque ele é bom. Inclusive Jeremias, num comentário muito ácido, diz que os jornais agora podem ser usados como ternos.
E, obviamente, isso é um comentário muito claro diante da censura. Em outro momento, os senhores respeitáveis de terno e gravata dizem: olha, o Jeremias já não é mais tão bom, olha as companhias dele. E com quem ele está andando?
Um homem negro bem-sucedido, um estudante universitário e uma liderança religiosa progressista. O auge talvez desse sentimento sombrio esteja nesta tira. E daí levam um tiro na cabeça.
Aqui não é por acaso falar de Bolívia. Che Guevara tinha, naquele momento, acabado de ser assassinado na Bolívia. E aqui, nessa tira que é muito mais sombria do que esse tom usual do Jeremias, a gente vê aqui um comentário cada vez mais levado à obviedade de que essa bondade não resolve problemas.
Pelo contrário, os monstros, no caso a ditadura militar, estão à solta. E não adianta ser bonzinho com eles. Aliás, não adianta ser bonzinho com ninguém, porque bondade não é o que está em jogo agora.
Jeremias, portanto, apesar do seu bom humor e da sua crítica política, é um grande tratado moral. Mas um tratado do tipo que mostra o quanto que essa moralidade é apenas grife. Ela pode até, em certos momentos, se traduzir em gestos muito nobres.
Mas ela está situada numa economia na qual a moral se apresenta como mais uma mercadoria. É algo que você troca, que você usa aqui e acolá, pra dentro da sociedade você adquirir um certo status. E que, repito, não quer dizer que você precisa fazer isso aos olhos dos outros.
Às vezes, esse status você adquire se olhando no espelho. É aquele momento que você diz assim, ah, pelo menos eu sou bom. Outro ponto que a gente não pode deixar de passar é o quanto que Jeremias é um trabalho artístico do Ziraldo lindíssimo.
Conforme vocês foram vendo aqui as tiras, vocês devem ter notado que aqui é um capricho muito, muito grande. Tem quadros ou painéis que aqui o Ziraldo está mostrando o quanto que ele é um gigantesco artista gráfico. E isso a gente vê pelas composições rebuscadas com muitos personagens ao mesmo tempo e ainda assim tendo um equilíbrio na página.
Também é perceptível pelo trabalho com as onomatopeias. Ziraldo sempre foi muito bom nisso. Ziraldo sempre foi um cara que conseguiu trabalhar com muita competência a onomatopeia e mostrar o quanto que ela é um registro simbólico, ou seja, ela é algo que a gente convenciona.
O som do A é A porque a gente assim estabeleceu. Mas Ziraldo chama atenção também muito para como as letras são elementos plásticos. Ou seja, independente do que a gente reconhece ou não numa letra, ela nos dá um certo prazer, ela nos traz uma série de emoções e sentimentos.
Inclusive há momentos que o Ziraldo chega a ir em direção à abstração. Um dos desenhos mais lindos dessa coletânea é um jardim. A gente vê flores e mais flores, texturas, algumas difíceis de identificar e no meio de tudo aquilo há uma folha.
É uma folha? Com uma flor vermelha. É a gravata de Jeremias?
Pouco importa, quer dizer mais que o signo de Jeremias está ali. Nesse longo painel de coisas belas, Jeremias faz parte da paisagem. Uma paisagem que eu repito, é lindíssima.
O álbum todo é muito bonito. Fica a vontade de que alguém resgatasse essa tira e publicasse um Jeremias integral. A edição da Melhoramentos, que é a que tem no Brasil, ela compila algumas tiras do Jeremias.
E os véio da época costumam me dizer que as melhores nem estão fazendo parte desse álbum. Aí claro né, isso é relativo, depende do gosto de cada um, mas o fato é de que eu gostaria de ver mais histórias do Jeremias. Precisamos resgatar o Jeremias, porque afinal, ele é muito bom.
Fica então a sugestão desse novo futuro amigo de vocês, Jeremias. Esse é o meu primeiro vídeo aqui no canal sobre Ziraldo, o pessoal me cobrava há algum tempo. Aliás, não é o primeiro, eu já tinha falado do Pererê aqui.
Então fica a sugestão pra vocês verem um vídeo que eu também falo do Pererê. Mas pô, vamos resgatar mais o Ziraldo, não é só o Maurício de Sousa que merece coletâneas luxuosas. Aliás, pouco importa a questão do luxo, a gente tem que resgatar esses materiais.
No mais, digam nos comentários que outros clássicos do quadrinho brasileiro, e não só brasileiro, eu poderia resgatar aqui no canal. Tem muita coisa velha que pouca gente lembra e que vale muito a pena ser lembrado. Então digam aí nos comentários, mesmo você sendo jovem, diga: ah, meu pai, meu avô falava de tal coisa.
Meu pai, se ainda fosse vivo e ele assistisse meus vídeos, ele ia escrever Sobrinhos do Capitão, que é uma série que nem é muito velha, ela começou em 1897. Eu ia ter bem pouquinha coisa pra ler. 1897 até hoje.
Sim, porque até hoje sai de Sobrinhos do Capitão. Mas enfim, já estou começando a viajar. Ou seja, eu não faria isso porque eu não vou ficar atendendo os outros.
Eu não sou bom. Tá, por que que eu pedi então que vocês sugiram se eu. .
. Ah, sugere aí, eu só quero engajamento, escreve qualquer coisa. Viu?
Eu não sou bonzinho não, eu sou um cara interesseiro, jogando com as emoções de vocês por causa do algoritmo. Se bem que eu também gosto das sugestões porque me ajudam a ter ideia. Tá, eu tô ficando, tá ficando confuso, tá?
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Ou não.