Cícero é um caminhoneiro de 37 anos que dirige pelas estradas há anos. Ele não conheceu seus pais; foi criado por uma senhora que apenas sabia o nome de sua mãe: Maria de Fátima Santos Assis, e tinha um amuleto que pertenceu a ela. O amuleto, em forma de decar, ficou para Cícero como uma lembrança da mãe que ele nunca conheceu.
Ao longo da vida, ele se conformou em não conhecer a sua origem, porém sempre se questionou sobre quem seriam seus pais. Secretamente, Cícero sonhava com um dia em que poderia conhecer a sua mãe e perguntar a ela por que a deixou com aquela senhora. A mãe adotiva de Cícero não era nem boa nem má; ela nunca deixou que nada faltasse para o menino, mas nunca o amou verdadeiramente como uma mãe.
No fundo, ele era muito grato por tudo que aquela mulher fez por ele, mas desejava ter o conforto do abraço de uma mãe. Quando completou 18 anos, a mulher que o criou lhe disse que havia feito tudo o que podia por ele e que estava na hora de Cícero seguir seu caminho. Ele decidiu se tornar caminhoneiro, como uma forma de poder percorrer as estradas e, quem sabe, encontrar a sua mãe.
No começo, ele trabalhou dirigindo o caminhão de uma empresa de logística. Ao longo dos anos, juntou o dinheiro e comprou seu próprio caminhão; assim começou a poder escolher os seus trabalhos. Cícero está há anos nessa profissão e nunca chegou nem perto de encontrar a mãe.
Toda nova parada que ele fazia, perguntava para as pessoas se conheciam alguém com aquele nome, e a resposta era sempre negativa. Com o tempo, ele desanimou e passou a focar apenas nas entregas de mercadorias que tinha para fazer. O trabalho de caminhoneiro nunca foi fácil e sempre exigiu grande concentração de Cícero.
Ele acabou optando por não formar uma família. O medo de que algo acontecesse na estrada e de não poder dar o amor que uma família demandava contribuiu para essa decisão. Ele lembrava como foi sua vida com sua mãe adotiva e, pensando sobre isso, ele não gostaria de ter filhos que eventualmente tivessem um destino semelhante.
Se ele não pudesse estar ao lado das crianças, quem as criaria? A vida de Cícero é muito solitária. Ele tem alguns amigos da estrada, mas a verdade é que não tem ninguém tão próximo.
Às vezes, ele sente falta de ter alguém com quem contar, uma pessoa com quem conversar sobre o seu dia, as dificuldades da rotina nas estradas. Enfim, Cícero gostaria de ter alguém próximo, porém acredita que seu estilo de vida não comporta essa configuração familiar. Embora seja uma pessoa solitária, ele é reconhecido como alguém gentil e pronto para dar suporte para aqueles que precisam.
Todas as vezes que se depara com alguém que precisa de qualquer tipo de auxílio, Cícero não hesita em ajudar. Numa tarde, ele conduzia seu caminhão por uma estrada relativamente tranquila e avistou uma mulher muito simples, com aparência sofrida, pedindo carona. A mulher, que aparentava ter uns 60 anos, tinha um semblante cansado, cabelos já bem grisalhos e muitas rugas.
Via-se que um dia aquela mulher havia sido muito bonita, mas atualmente estava envelhecida pela ação da vida. Ela parecia bastante sofrida e tinha uma mala de mão bastante velha. Cícero observou que os carros e caminhões na frente dele nem cogitaram parar para dar carona para aquela senhora.
Provavelmente, o fato dela ter uma aparência envelhecida e simples era o motivo. Cícero sempre se orgulhou de ser prestativo e ajudar quem precisava, então parou seu caminhão e abriu a porta para a senhora. Embora ela estivesse pedindo carona, parecia bem surpresa que aquele homem havia parado.
Certamente, ela estava há algumas horas na estrada, esperando que alguma boa alma parasse e aceitasse levá-la daquele fim de mundo. Ele cumprimentou a senhora com simpatia e perguntou para onde ela queria ir. Ela respondeu que para qualquer lugar longe de onde estavam, pois aquela cidade não tinha mais nada para oferecer a ela.
Cícero perguntou se ela precisava de ajuda com a mala ou para subir no caminhão; afinal, ele era alto. A senhora respondeu que a mala estava praticamente vazia e que conseguiria subir os degraus até o banco do passageiro. Ela então alcançou a mala para Cícero, que em seguida subiu com dificuldade para o lugar do carona.
Não demorou para que ela se sentasse ao lado de Cícero. Ele então perguntou o nome dela; ela disse que se chamava Sueli. Cícero percebeu que a companheira de viagem parecia muito nervosa com alguma coisa.
A inquietação dela podia ser percebida através dos seus gestos nervosos e pela forma como ela olhava constantemente pela janela, como se estivesse querendo deixar algo para trás. Seja lá o que for que tenha acontecido com aquela mulher naquele local, era evidente que ela queria deixar no passado e esquecer. Cícero era muito gentil e decidiu não perguntar sobre algo que poderia estar machucando aquela mulher, então ele mudou de assunto e perguntou se Sueli tinha alguma ideia de destino para sua viagem.
Ela respondeu que estava apenas querendo deixar aquela cidade para trás; ela havia tido uma vida muito infeliz e agora estava completamente sozinha. Cícero disse para Sueli que sua intenção era, como destino, o extremo oposto do estado; ou seja, ele estava dirigindo para bem longe. Ela comentou que tinha muitas lembranças daquele local.
Para onde ele estava indo, Cícero, por sua vez, lhe disse que lá era sua casa. Apesar de viver na estrada, era lá que ele havia sido criado por sua mãe adotiva. Ela já havia falecido há muitos anos, mas ele conservou a sua casa como uma forma de respeito à memória dela e também de sentir que tinha um lar para onde voltar após as longas viagens.
Como já estava meses na estrada, ele gostou de ter encontrado um cliente que tinha uma encomenda. Para ser entregue lá perto, era a oportunidade dele voltar para seu lar e ver como as coisas estavam. Ouvir o que Cícero dizia, mas não parecia exatamente interessado.
Ele ficou se questionando se estava sendo enfadonho. A mulher deve ter percebido que esse pensamento passava pela cabeça do companheiro de viagem e pediu que ele a desculpasse; a sua distração se devia à história que ela tinha na cidade para a qual ele estava dirigindo. Apesar de não ter boas lembranças de lá, ela sentia que havia chegado o momento de enfrentar o seu passado.
Sueli contou que havia feito algo de que não se orgulhava quando era mais jovem e precisava enfrentar isso. Afinal, não se pode deixar a vida sem enfrentar todos os seus monstros, não é mesmo? Tentando ser educada com aquele homem gentil que lhe ofereceu carona, ela decidiu perguntar mais sobre ele.
Como era para Cícero ficar tão longe de casa por tanto tempo? Ele pareceu surpreso com a pergunta. Ele explicou que a única família que já teve na vida foi a mulher que o criou.
Ela sempre buscou dar a ele tudo de que necessitava materialmente. Cícero estudou e cresceu com saúde graças ao esforço daquela mulher. No entanto, ela nunca foi exatamente carinhosa, inclusive isso o deixa confuso.
Pois, por ela adotá-lo, se não tinha o desejo de ser mãe? Suel disse que, às vezes, as pessoas agem de formas estranhas para demonstrar o seu amor. Tiziano, que o criou, o amasse, mas não demonstrasse isso como as outras pessoas.
Para dar a ele o que necessitava, podia, de forma, dizer que o amava. Se ele pensasse nas dificuldades que aquela mulher certamente teve para lhe dar o bom e o melhor, perceberia o tamanho do esforço dela. Ninguém se esforça por alguém a quem não ama.
Cícero nunca havia pensado dessa forma. Realmente, aquela mulher fez um grande esforço para criá-lo. Não sendo rica, ela precisou trabalhar duro em um período da vida em que deveria estar descansando.
Se fosse só ela, talvez não precisasse dar tão duro. Todas as vezes em que ele precisava de um conselho, ela estava lá para dizer a ele o que fazer. Muito do que ele sabe da vida aprendeu com ela; sem essa base, dificilmente teria conseguido prosperar como caminhoneiro.
Cícero achou importante dizer para Sueli que Lúcia havia ajudado a compreender mais sobre a sua mãe adotiva e que, por isso, era grato a ela. Como resposta, ela lhe disse que sabia dessas coisas porque sua própria mãe era mulher assim; ela, infelizmente, não entendeu que todo o esforço da mãe para lhe dar o que precisava era a forma dela dizer o quanto a amava. Se tivesse compreendido isso antes, ela certamente teria sido mais grata àquela mulher, tão devota da Virgem de Guadalupe.
Cícero comentou que sua mãe adotiva também era devota da Virgem e que sempre rezava com ele à noite, antes de dormir. Sueli sorriu se lembrando da própria mãe fazendo isso na cabeceira de sua cama. Como resposta ao que pensava ser indiferença, Sueli se rebelou e se tornou uma adolescente problemática.
Ela teve diversos problemas, especialmente devido às más companhias que estavam sempre à sua volta. Não havia um dia em que a mãe de Sueli não fosse avisada de que a filha havia feito algo ruim ou estivesse envolvida em alguma confusão. A mulher era sempre compassiva com a filha; a repreendia, mas sem raiva ou amargura.
Ela explicava para Sueli como aquelas atitudes poderiam prejudicá-la. Sueli pensava que sua mãe não a amava porque não gritava com ela como as mães de suas amigas. Em contrapartida, as amigas de Sueli desejavam ter mães tão compreensivas quanto aquela sábia mulher.
Um dia, Sueli descobriu que estava grávida e, ao contar para a mãe, recebeu apenas um olhar decepcionado como resposta. Já foi algo a mais do que das outras vezes em que fez coisas consideradas reprováveis. A mãe não lhe recriminou; nunca disse uma única palavra negativa.
Mas era visível em seu olhar a tristeza que aquela notícia causou. Hoje, Sueli compreende que sua mãe sabia que ela não tinha estrutura emocional para ser mãe e que aquele poderia ser o primeiro passo de uma série de problemas. Sueli acreditava que a mãe agia assim como forma de puni-la.
A frieza podia ser muito mais brutal do que qualquer grito ou reclamação. Então, conforme os meses de gestação foram passando, Sueli se sentiu sozinha e sem apoio. No entanto, quando parava para pensar, se lembrava de sua mãe a acompanhando ao médico, comprando vitaminas e roupinhas para o bebê.
A mãe explicava o que acontecia com o bebê a cada mês na barriga da mãe e lhe falava sobre sua própria experiência quando engravidou e deu à luz. Sueli agora sabe que essa forma de agir era a maneira que sua mãe tinha de tentar se aproximar para poder dar bons conselhos à filha. Nunca foi frieza; era exatamente o oposto, tanto amor que precisava ser dado em doses pequenas e suaves.
Cícero ouvia aquela história e imaginava como teria sido a gravidez de sua mãe, qual teria sido o motivo do abandono. O que será que leva uma mulher a abandonar um filho? Sueli prosseguiu contando que teve seu filho com sua mãe ao seu lado.
O pai da criança havia fugido muitos meses antes dela dar à luz. Embora estivesse ao lado de sua cama, a mulher não lhe deu a mão, não disse uma única palavra, apenas olhou para o bebê sendo retirado de sua barriga e dando o primeiro choro forte como um "olá" para o mundo. Quando pensa a respeito, Sueli se dá conta de que essa foi a forma de sua mãe lhe dizer que ela havia, enfim, crescido e que, a partir daquele choro, passava a ser o adulto de referência de outra pessoa.
Já estava bem escuro e Cícero disse para Sueli que ele estacionou o. . .
Caminhão, para que os dois pudessem descansar. Na parte de trás do caminhão, havia um espaço que ele usava para uma cama improvisada. Como ela era sua convidada, poderia dormir ali.
A mulher, então, perguntou onde ele dormiria. Cícero sorriu e respondeu que dormiria ali na cabine mesmo. Sueli protestou, dizendo que não queria tirar o seu lugar de descanso, mas ele respondeu, então, que não tinha importância; ele fazia questão de fazer aquela gentileza.
A mulher decidiu não discutir, pois, ao que tudo indicava, Cícero não abriria a mão de lhe ceder a cama na parte de trás do caminhão. Sueli se acomodou em um colchonete entre as caixas de mercadoria. Não era a mais confortável das camas, mas, comparado com os lugares em que ela havia dormido até então, era uma cama de princesa, finalmente longe do que a afligia.
Ela pôde dormir tranquilamente; seus sonhos a levaram novamente para aquele dia em que ela deu à luz. Mais diferente do que havia acontecido na vida real, ela estava feliz e preparada para assumir a responsabilidade. Na manhã seguinte, Sueli foi acordada por Cícero com um café quente e um pão com queijo.
Ele explicou que havia ido até a loja de conveniência do outro lado da rodovia e comprado aquele café da manhã para os dois. Isso fazia parte da rotina dele: conhecer os lugares em que poderia comprar comida pela estrada. Ela lhe agradeceu e disse que não queria gerar custos para ele.
O homem, então, respondeu que ser gentil era a forma dele agradecer as coisas boas que a vida lhe deu. Os dois tomaram o café em silêncio e, então, Cícero disse para Sueli que eles voltariam a pegar a estrada; afinal, ainda havia muito chão para percorrer para que ele conseguisse entregar sua mercadoria e rever seu lar. Ao volante, ele lhe disse que havia sonhado com a mãe adotiva e que tinha sido muito interessante; era como se os dois tivessem tido uma conversa e ele finalmente a tivesse perdoado por não ter sido tão amorosa.
Sueli lhe disse que, às vezes, só o fato de uma pessoa não lhe fazer mal já é uma grande coisa. Cícero se deu conta de que aquela mulher deveria ter sofrido muito. Ela, então, disse que gostaria de contar a outra parte da história dela, o que ela não havia contado no dia anterior: uma das piores coisas que havia feito na vida.
A mulher lhe contou que, após dar à luz ao seu filho, não conseguiu manter próxima do bebê; os momentos com a criança lhe geravam um sentimento de intensa agonia. Era como se estivesse sendo sufocada. Só ele olhava para o seu bebê e tinha a impressão de que nunca mais seria feliz na vida se permanecesse ao seu lado.
Era terrível dizer uma coisa dessas, especialmente logo após dar à luz, mas era o que ela sentia no momento. Ela só esperou ter condições de andar para fugir de casa, deixando a criança para que sua mãe criasse. Claro que ela não tinha orgulho de ter feito isso, mas teria sido pior para o filho ter sido criado por ela; ela não tinha o mínimo de estabilidade emocional.
Já sua mãe era o oposto; embora fosse uma mulher fria, era avó daquele bebê e, com certeza, não deixaria o pequeno passar necessidades. Sueli ainda tinha vã esperança de que a mãe fosse como toda avó, ou seja, muito mais amorosa do que era com os filhos. Sueli caiu no mundo e, como era muito jovem e inocente, acabou se envolvendo com pessoas que lhe fizeram muito mal.
Decepções amorosas, agressões e problemas com falta de dinheiro foram apenas alguns dos problemas. No decorrer dos anos, ela foi viajando de cidade em cidade; o objetivo era chegar o mais longe que conseguisse. A cada cidade em que ela avançava, se sentia mais segura, pois estava mais distante do filho e de sua mãe.
Essa jornada levou-a para o lugar onde Cícero a encontrou e lhe deu carona. Um dos piores momentos de sua vida foi entre o momento em que abandonou o filho e pegou carona com Cícero; décadas se passaram, os anos pareceram séculos para Sueli. Ela havia sofrido demais em relacionamentos abusivos, empregos que a exploravam, com a solidão e, no pior momento, quando precisou enfim fugir de onde estava, encontrou a carona de Cícero, que estava indo para onde toda a sua história começou.
Era muito difícil não imaginar que aquilo era um sinal divino de que ela deveria conversar com sua mãe. Sueli sabia que era difícil, mas desejava que a mãe ainda estivesse viva para que ela pudesse se desculpar por tudo de errado que fez. Cícero se comprometeu a levar Sueli até a casa da mãe dela.
Quando chegassem à cidade destino, ela agradeceu e disse que tentaria se lembrar do caminho até a casa. Havia passado muitos anos; ela tinha medo de que o progresso já tivesse derrubado aquela casinha tão simples. Cícero comentou que realmente a cidade mudou muito desde que ele era criança, mas que muitos moradores haviam preservado as suas casas.
Para muitas daquelas pessoas, não fazia sentido vender o terreno e se mudar para outro lugar; aquelas pessoas pertenciam àquele local e sabiam disso. Morar no chão em que nasceram era muito mais importante do que uma mala cheia de dinheiro. Para essas pessoas, sendo assim, Sueli podia ter uma esperança de encontrar a mãe exatamente onde a deixou.
Sueli sabia que sua mãe certamente seria uma das pessoas que permaneceriam no local em que viveu grande parte de sua vida. Ela só tinha receio de que a senhora não tivesse resistido ao tempo; afinal, ela seria muito idosa se estivesse viva. Pensando que seria interessante mudar um pouco o rumo da conversa, Sueli questionou Cícero por que ele não se casou.
Afinal, muitos caminhoneiros constituem família, mesmo que precisem viajar sempre; retornam para as esposas e filhos. A resposta dele… Foi que, por ter sido abandonado pela mãe biológica, acabou se fechando para a ideia de ter uma família. Como o caminhoneiro, ele vivia viajando, nunca estava em casa; no fim das contas, acabaria sendo um pai ausente.
Ele sabia o quanto não ter uma mãe e um pai perto mexe com os sentimentos de alguém. Assim, ele decidiu que não teria uma família; concluiu que, no fim das contas, era justo. Se Cícero acreditava que não tinha como oferecer o amor familiar, não deveria iludir ninguém.
Sueli não teve escolha quando se viu grávida. Entendeu que não tinha condições de oferecer o amor de mãe para seu filho e, por isso, decidiu partir. Cícero estava apenas evitando ter que fugir ao decidir não constituir uma família.
No entanto, Sueli percebia que aquilo entristecia profundamente. Mais uma vez, ela achou melhor mudar o assunto. Ela quis saber como era a vida de um caminhoneiro na estrada.
Cícero contou a ela como já tinha passado por coisas bem curiosas ao longo dos anos. Ele já havia sido assaltado, já tinha dado carona para pessoas muito diferentes entre si e até se apaixonado uma vez. Sueli ficou curiosa para saber mais sobre a vez em que ele se apaixonou.
Cícero contou que, uma vez, uma moça muito bonita pediu carona. Ela ia para uma cidade próxima da sua cidade natal. Ele acolheu aquela bela moça no caminhão e, no mesmo momento, soube que a amaria pelo resto da vida, mas ele não disse nada a ela ao longo do caminho, pois sabia que não seria nada gentil oferecer carona para, então, fazer propostas amorosas.
A moça, que se chamava Carolina, poderia interpretar de outra forma. Os dois conversaram muito ao longo do caminho e perceberam que tinham muita coisa em comum. Carolina foi a única mulher que o fez pensar em talvez mudar de ideia e estabelecer uma família.
Porém, ele se lembrou que não tinha muito para oferecer a ela. Aquela vida de caminhoneiro era extremamente complicada e ele acabaria deixando-a muito mais tempo sozinha do que em sua companhia. Sueli, então, perguntou para Cícero se ele não tinha considerado a possibilidade de mudar de trabalho.
Ele até tinha pensado a respeito, mas o que faria se não fosse caminhoneiro? Ele havia estudado, mas não tinha ensino superior e não sabia fazer mais nada além de se sentar ao volante e levar as mercadorias para seu destino. Sueli o corrigiu e disse que, na verdade, ele sabia, assim, afinal, durante aquele período, ele ouviu gerenciar o estoque e fazer cálculos para estimar os custos de combustível; tarefas que, para ele, pareciam simples porque faziam parte de sua rotina, mas que, na verdade, eram complexas.
Talvez ele pudesse investir seu tempo em abrir uma empresa em que ele gerenciasse outros caminhoneiros. Pela primeira vez na vida, Cícero se deu conta de que talvez realmente soubesse fazer mais coisas do que apenas conduzir um caminhão. Ele sempre ajudava as pessoas sem esperar nada em troca, mas precisava admitir que Sueli o estava recompensando.
A companhia daquela senhora o fez ver sua mãe adotiva sob outra perspectiva e também considerar que talvez tivesse uma chance de seguir outro caminho, um em que não estivesse tão solitário. Cícero dirigiu algum tempo em silêncio, refletindo sobre o que Sueli havia lhe dito. Então, ele percebeu que os carros da frente estavam parados; ou era uma blitz, ou um acidente.
Ao dizer isso para Sueli, ele percebeu que ela ficou nervosa. Observando um pouco melhor, Cícero concluiu que era um acidente. Ao dizer isso para ela, Sueli respirou aliviada.
Cícero ficou pensativo a respeito do motivo que levou a mulher a ficar tão nervosa com uma possível blitz. Se ela estivesse nervosa pelo acidente, ele entenderia, mas teria medo da polícia. Algo estava errado e ele precisava saber o que era.
Pela primeira vez, Cícero se perguntou se deveria ter dado aquela carona; talvez aquela mulher estivesse fugindo de mais do que apenas seu passado. No entanto, como ela o havia ajudado, Cícero resolveu não falar nada a respeito. Fosse o que fosse, ele não diria nada para aquela mulher.
Mesmo com essas desconfianças, ele sentia algo bom nela; era difícil explicar, mas ele sentia como sempre fazia quando se deparava com um acidente na estrada. Cícero tirou do bolso da camisa o amuleto que havia pertencido a sua mãe. Ele segurou aquele pingente com força entre os dedos e rezou para a Virgem de Guadalupe que tudo desse certo para os envolvidos no acidente.
Era uma coisa que ele costumava fazer para se acalmar e também para emanar coisas boas para quem estava em dificuldade. Ao fazer isso, Cícero acabou chamando a atenção de Sueli para o amuleto. Ela olhou fixamente para o pingente nas mãos de Cícero.
Ela olhava para o pingente com um olhar confuso. Foi então que ele lhe disse: “Esse colar e pingente eram da minha mãe biológica. A senhora que me criou me deu.
Além de me lembrar da mãe que eu nunca conheci, também funciona como um tipo de proteção. ” Ele prosseguiu dizendo que sabia que parecia bobo pedir proteção para um objeto de uma mulher que o abandonou, mas ele se sentia reconfortado fazendo isso. Sueli continuava olhando para aquele pingente, estupefata; seu olhar compenetrado deixava claro que ela estava pensando em algo.
Tinha alguma coisa passando pelo seu pensamento naquele exato instante, porém Cícero não fazia ideia do que era, embora estivesse bem curioso para saber. Após algum tempo, o socorro chegou para ajudar as pessoas envolvidas no acidente. Felizmente, ninguém ficou ferido com gravidade e a estrada logo foi desobstruída.
Sueli e Cícero podiam seguir viagem. Porém, duas coisas haviam mudado durante aquele período: primeiro, Cícero passou a ficar desconfiado de que talvez Sueli estivesse fugindo da polícia; segundo, Sueli se deu conta de que talvez já conhecesse Cícero há muito tempo. Mas como ela contaria isso para ele?
Talvez fosse melhor não dizer nada. Afinal, quando. .
. A noite chegou, se ofereceu novamente a cama para que Sueli dormisse. Então, se acomodou na cabine.
A mala dela havia ficado na parte da frente do caminhão com Cícero; no entanto, ele achou que não era justo mexer nas coisas dela sem autorização. Dessa forma, ele precisou se conter a noite toda. Afinal, mais do que curiosidade, ele estava preocupado de que ela fosse uma fugitiva.
Cícero se lembrou de sua mãe adotiva lhe ensinando que jamais deveria violar a intimidade e privacidade de ninguém, especialmente de uma mulher. Ele se perguntou se isso era válido para pessoas que tivessem algum problema com a polícia. Mesmo que fosse uma situação delicada, ele concluiu que deveria permanecer firme em sua postura de não avançar os limites.
Aliás, pela manhã, ele providenciou o café da manhã para os dois. Em seguida, ele disse que aceleraria o ritmo para que eles pudessem chegar ao destino final no máximo na metade do dia seguinte. Sueli perguntou se havia algum motivo em especial para ele desejar que a viagem fosse mais curta, e ele apenas disse que desejava descansar.
Cícero usou a desculpa de querer ver como estava a casa de sua mãe, mas, na verdade, ele queria ter certeza de que não ficaria mais muito tempo com Sueli em seu caminhão. A cada hora que ele ficava com ela a bordo, mais chances tinha de ser abordado pela polícia na estrada; se ela tivesse feito algo errado, ele poderia acabar sendo interpretado como um cúmplice. Cícero se concentrou em conduzir o caminhão e ficou em silêncio quase todo o tempo.
Sueli se questionou internamente se ele poderia ter imaginado o que passou pela cabeça dela quando viu o amuleto que ele tinha em mãos no dia anterior, mas ela concluiu que era impossível que ele sequer imaginasse quem ela era na verdade. Como o destino poderia ter sido tão certeiro? Ela pegou a carona justo com ele e estava a caminho de sua cidade Natal exatamente naquele momento da vida.
Era incrível como tudo parecia ter sido escrito como um grande roteiro. O papel dela era sair de cena de forma triunfal ou em silêncio; a escolha era dela. Porém, o que seria melhor?
Novamente à noite, Cícero parou o caminhão e encaminhou Sueli para a parte de trás do caminhão. Ele, mais uma vez, quis abrir a mala dela, mas resistiu. No dia seguinte, os dois tomavam café da manhã ao lado do caminhão quando Sueli perguntou se havia algo errado.
Ela tinha percebido a mudança de Cícero com ela, mas não sabia o que havia acontecido. Mesmo sabendo que a viagem estava chegando ao fim, ele achou que seria melhor poder passar as próximas horas mais tranquilo e então lhe disse que percebeu seu nervosismo à menção da blitz. Sueli parecia aliviada por saber que era aquilo que atormentava a mente de Cícero e não outra coisa.
Ela lhe disse que, assim como havia lhe contado antes, sua vida foi repleta de relacionamentos difíceis e ruins. O último havia sido o pior de todos. Ela levantou levemente a blusa e Cícero pôde ver em seu abdômen marcas de cortes e queimaduras de cigarro.
Sueli prosseguiu dizendo que já estava cansada das constantes agressões do ex-companheiro e, um dia, ela revidou. Ele chegou embriagado em casa e tentou agredi-la. Ela estava passando roupa naquele momento; sem pensar muito, ela usou o ferro quente para se proteger.
Ele percebeu o movimento dela e colocou o braço diante do rosto; assim, o ferro queimou o braço dele. O ferro estava bem quente, fez um bom estrago no braço do homem. Correu para buscar atendimento médico e disse que a denunciaria na polícia.
Sueli teve medo de estar sendo procurada pela agressão, embora tenha apenas se defendido. Cícero lhe disse que achou que ela tinha feito algo mais grave pela preocupação que teve com a possibilidade de se deparar com a polícia. Sueli então lhe disse que o ex-companheiro era influente na cidade em que eles moravam e não teria dificuldades em mobilizar a polícia para caçá-la.
Cícero imaginou que Sueli deveria ter sofrido muito ao longo da vida em relações ruins e difíceis. Com certeza, para ela, era realmente assustador poder ser encontrada pelo ex-marido e ter que sofrer as consequências por ter tido coragem de revidar os ataques dele. Cícero ficou aliviado de saber que se tratava apenas de uma situação em que ela tentou se defender e não um crime de verdade.
Aquela mulher de quem ele tinha gostado praticamente de graça não era uma criminosa; era apenas uma mulher que buscou se proteger. A viagem continuou sem grandes problemas. Os dois conversaram amenidades e chegaram à cidade destino.
Quando passaram pela placa de "Bem-vindos", Cícero perguntou para Sueli qual era o endereço de sua mãe. Ela lhe disse que queria muito conhecer a casa dele, o lugar em que ele foi criado. Cícero estava grato pela boa companhia que Sueli teve durante a viagem e decidiu levá-la até lá.
Conforme eles se aproximavam da casa de Cícero, Sueli se perguntava se deveria contar a ele quem ela realmente era. Assim que ele estacionou o caminhão, Sueli sentiu as lágrimas rolarem pelo seu rosto; tanto sentimento preso querendo sair e finalmente podendo ser livre. Cícero não entendia por que aquela mulher estava tão emocionada ao olhar a casa em que ele foi criado.
Será que ela havia conhecido a mãe adotiva ou a mãe biológica dele? Sueli mal conseguia descer do caminhão de tanta emoção. Cícero ajudou-a, dando-lhe a mão.
Diante daquela casa, ela finalmente compreendeu que todo aquele caminho tinha apenas um objetivo. Sueli parou diante de Cícero e disse que tinha mais uma coisa para lhe contar. Como ela estava fugindo da polícia, mentiu para ele que se chamava Sueli; na verdade, aquele não era seu nome verdadeiro.
Cícero olhou muito confuso e perguntou qual era o nome verdadeiro dela. Sueli respondeu que se chamava Maria de Fátima Santos Assis. Aquele nome, sendo pronunciado por aquela mulher que, de alguma forma, lhe parecia tão familiar, a viagem toda, Cícero sentiu suas pernas amolecerem.
Aquela mulher diante dele era, então, a mãe que ele tanto procurou. Mas como isso era possível? Ele havia finalmente conseguido encontrar a pessoa que tanto procurou a vida toda.
Ele se lembrou de como buscou Maria de Fátima em todos os lugares por onde passou, mas sempre sem sucesso. Ele então gritou para ela: "Você é a minha mãe! " No final, ele só precisou dar carona para uma desconhecida para que isso se realizasse.
Com medo de que ele não acreditasse em sua palavra, Sueli retirou de sua mala um documento de identificação. Cícero pensou que, se tivesse mexido nas coisas dela, teria descoberto antes que ela era sua mãe perdida. Sueli então perguntou por sua mãe para Cícero, e ele lhe disse que ela já havia falecido.
Foi então que ela se deu conta de que ele lhe disse que a mãe adotiva havia falecido, mas ela não tinha ligado a mãe adotiva dele à sua própria mãe. Cícero lhe disse que estava sabendo naquele instante que sua mãe adotiva era, na verdade, a sua avó. A mulher nunca havia lhe dito que eles eram da mesma família; ele sempre acreditou que ela o havia adotado, que ele era uma criança rejeitada que havia vindo de um orfanato.
Sueli ficou um pouco em choque ao saber que sua mãe criou o seu filho sem dizer a ele que era sua avó. Porém, ao mesmo tempo, ela não achava aquilo exatamente estranho, talvez a mágoa. Porque ela foi embora, tenha feito a mulher desejar não ter um vínculo mais forte com o neto, ou ela tenha feito aquilo para proteger o seu filho, evitando que ele buscasse na avó algo da própria mãe.
Essa era uma coisa que ela nunca saberia. Com certeza, Cícero queria conversar com a sua mãe. Parte da história ele já conhecia pelo que ela tinha contado durante a viagem de caminhão.
Ele disse para sua Elia, agora Maria de Fátima, que não tinha rancor dela, que podia entender, ao menos em parte, o que ela passou. Mas, ainda assim, eles precisavam conversar para que a história de ambos pudesse ficar completa um para o outro. Os dois sentaram-se à mesa do lado de fora da casa e conversaram por muitas horas.
Então, Sueli disse que precisava contar mais uma coisa para o filho: algo muito difícil, mas que ele precisava saber. Ela contou que estava muito doente e que não tinha mais do que alguns meses. Cícero pensou que era muito injusto encontrar sua mãe para perdê-la.
Contudo, Sueli disse que, na verdade, esse era um presente do destino para ambos; os dois tiveram a oportunidade de se conhecer e conversar antes de isso não ser mais possível. Ela sabia como era difícil não poder conversar com a mãe, não poder encerrar os assuntos em aberto. Mais uma vez, isso ofereceu uma nova perspectiva para o filho.
Antes que ele se levantasse, disse que tinha mais uma coisa que ela trouxe dentro daquela mala. Antes de fugir da casa do ex-marido, ela pegou dois maços grandes de dinheiro que ele tinha em casa. Não era uma fortuna, mas era um bom dinheiro.
Mesmo assim, ela pegou aquele dinheiro sem saber exatamente por que fazia isso, pois não tinha mais tanto tempo de vida para gastar consigo. Porém, mais uma vez, a vida deu sentido a uma atitude dela; agora, ela entendia que uma voz soprou em seu ouvido para que ela pegasse aquele dinheiro para poder dar ao seu filho. Com aquele dinheiro e a sua capacidade de gestão, ele poderia iniciar a sua própria empresa de caminhões.
Cícero disse para a mãe que não poderia aceitar aquele dinheiro, mas ela disse que se tratava de uma ordem materna. Já que ela nunca pôde fazer nada pelo filho, queria pelo menos poder ajudá-lo a iniciar uma vida mais feliz, uma existência em que ele poderia finalmente constituir a sua própria família, talvez com Carolina. Quem sabe?
Nos meses seguintes, Cícero cuidou de sua mãe, sempre desejando adiar o momento de sua partida. Quando o momento derradeiro chegou, os dois estavam em paz. Ele sabia que tinha lembranças bonitas com ela e que ela também levaria o amor que eles construíram naquele período.
Cícero também havia dedicado parte do seu tempo a criar sua empresa de frota de caminhões. Já havia alguns funcionários, e os caminhoneiros já partiam para fazer as entregas, enquanto Cícero administrava o empreendimento e tratava dos clientes sem precisar deixar a sua casa, lembrando das palavras da mãe que o aconselhou a procurar por Carolina. Cícero foi em busca do seu grande amor.
Ao chegar à casa dela, avistou da janela Carolina, que continuava linda como sempre e nunca havia se casado. Curioso para saber por quê, Cícero perguntou e se surpreendeu com a resposta: a mulher nunca se casou porque tinha esperança de que ele mudaria de ideia sobre ter uma família e iria atrás dela. O reencontro com a mãe ajudou Cícero a finalmente colocar a sua vida no caminho com que sempre sonhou.
Ele se casou com Carolina, e os dois tiveram quatro filhos. A empresa prosperou e deu muitos frutos. Inscreva-se no canal "Vivências Narradas" para mais histórias emocionantes; seu apoio é muito importante para o nosso trabalho.
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