O que acontece? Eu tava patrulhando de rotona, eu acho até que era o motorista, era o Roberto Carlos, capa de salame, ou era o Edson aqui. O capa faleceu, foi vítima de homicídio.
Eu não tenho certeza se foi ele, não dá para eu confirmar. Mais banco de trás, o Bofo e o e o Adelso. A gente patrulhando aqui a venida Aricanduva, oitavo batalhão.
Hoje é 21 na no antigamente era oitavo batalhão. Aqui houve uma distribuição melhor. Agora tem uma parte aí que é 21, né?
A tua casa ali é onde você morava era 21, né? Então ali era tudo oitavo. >> Tudo oitavo.
E a gente veio com a rotona, cara. Era de dia, tal. Quando eu entrei na Expressa da Aricanduva, na local tinha um ônibus parado e todo mundo botou a cabeça para fora do buzão e começou a fazer mãozinha pra gente.
A gente segurou o trânsito, passou a o canteiro central ali no na na calçada com com o jardim e foi aproximando. Só que, cara, a gente nunca aproxima colado com ônibus, né? Porque se os vagabundos estão armados ali dentro, ele sapeca.
Então a gente foi no 45, assim, fui indo quando eu cheguei perto da última janela do fundo do buzão, eu tava com a com 357 na mão, falei: "Tá pegando aí o cara". O pessoal falou assim: "Os caras acabaram de assaltar a gente, acabaram de assaltar a gente". Falei: "Tá aí dentro".
Falou: "Não, acabaram de assaltar". Aí a gente aproximou mais. Falei: "Mas como assim?
" Ele falou: "Não, tinha dois caras com uma moto parada no ponto de ônibus aqui na Aricanduva e um deles deu com a mão. O motorista parou achando que ele ia subir. O eles subiram com a arma, pegaram tudo que eles conseguiram rapidinho da gente aqui, montaram na moto e saíram fora.
" Falei: "Caraca, meu, nunca tinha visto um roubo de obzão assim". Mas qual que é a característica? Aí os caras falaram: "É uma moto vermelha, tipo XT600, só que menor cilindrada.
" Na época era Saara. Lembra da saara? >> Sim.
>> É uma saara vermelha, dois cara. Falei: "Para onde foi? " Fala, "Pegou carrãozinho aí naquele sentido.
" Aí beleza, saímos, cara. Cara, de repente, cara, a gente tromba os dois, os dois estavam parado num semáforo. Quando a gente viu que era os caras, a gente jogou pra contramão e foi indo para tentar cercar eles de frente, só que eles viram e começaram a sair fora.
Só que o piloto era [ __ ] meu. E aí, eh, por mais que eles tentaram sair fora de moto, ele comeu pela contramão, ainda mais paraa frente e lá na frente cercou e catamos. Catam aquela aquela abordagem que a gente já sabia que era, né?
Batia direitinho as características. O que que tinha nessa moto? Um cara no banco de trás, magrelo, noia, noia, mais velho.
Aquele cara devia ter uns 40 anos. Velho, mas noia, com oitão na cintura, mano. Inoxidado, sete tiros, novinho.
E na frente um outro cara. O que que aconteceu? Eu grudei junto com um do banco de trás, o o com a arma, já puxamos e arma.
Os outros dois polícias grudaram o da frente. Quando eu saí, que eu deixei acho que com o bofo, ele segurando o cara armado, nós somos no outro. Quando eu cheguei no outro, falei: "E aí, que que tem?
" Os cara falou: "Ixe, fodeu, cai aí, merda". Falei: "Não, que que foi? " E o cara, tipo, já ajoelhado no chão, cabeça baixa, a mão para trás.
Falei: "Que que foi? " falou: "É polícia. " Falei: "O quê?
" Falou: "É polícia". Falei: "Levanta, mano". Aí o cara levantou, falei: "Que [ __ ] é essa aqui?
" Agora você imagina, mano, você na vila, você tá com foragido atrás de você com oitão, sete tiros. A rotona vem, cata você daquele jeito, cheio dos produtos, a mochilinha com tudos pertencem dos caras do buzão. >> Ser polícia, ele sabe como é polícia.
Aí eu olhei na cara dele, falei: "E aí, mano, tá pegando aqui? " Ele pegou, então ele falou: "Ô, chefe, eu sou do 10º batalhão, 10º Batalhão de Santo André". Aí eu falei: "Isso é PM, mano?
" Ele falou: "Sou chefe, sou soldado, sou do 10o batalhão". Falei: "Que que é aquele cara ali? " Ele falou: "É um parceiro meu do crime.
Ele é ladrão, tá foragido". Inclusive, a arma que tá com ele é a minha da PM. Mano, eu acho que ele olhava para mim e pro Adécio e o Adécio, cara, já faleceu, vítima de latrocínio.
O Adelso era também estilo bofa, assim, bem pior que eu, os dois. Aí o Adelson olhava para mim, a gente se olhava, fala assim: "Que que você tá fazendo, cara? Que [ __ ] é essa?
" Ele pegou e falou assim: "Ô chefe, eu tô viciado em craque. Eu já tô desertor há mais de 10 dias. Eu peguei minha arma no quartel, fugi, não compareci mais pro trabalho.
Eu tô desertor e tô louco, louco de droga, louco de craque, roubando 12 horas por dia. Aí eu fumo e durmo. Acordo, roubo, fumo e durmo.
Falei: "Nossa, falei: "Mano, aí tem aquelas conversas, né? Porque que que os polícia queriam fazer? Eu queria guindar os dois e dirigenciar para catar mais coisa, catar droga, catar.
Aí, cara, do nada esse maldito desse polícia me saca a carteira e mostra. Ele tinha dois molequinhos, tipo assim, um devia ter um ano e o outro três. Eram tudo novinho.
Foi a primeira e única vez, acho que na minha carreira, que alguém me mostrou as fotos dos filhos e me deu uma mexida. Aí, cara, eu olhei para aquelas crianças, mano, olhei pra cara dele, virei pra minha equipe e falei assim: "Ó, meu, na moral, vamos parar aqui". Mas os cara, como assim, chefe?
Falei: "Não, DP, mano, vamos apresentar do jeito que tá". Os cara o chefe, vamos, vamos trabalhar, mano. Vamos trabalhar.
Polícia, ladrão, diabo, demônio. Vamos trabalhar. E o cara olhando para nós assim, falei: "Não, mano, o cara tem dois filhos pequeno, já vai ser expulso, vai pro presídio, vai se [ __ ] vai perder tudo, vamos parar aqui.
" Os caras, "Tem certeza, chefe". Falei: "Não, vamos parar aqui". E levei pro DP.
Esse cara foi preso, puxou, se eu não me engano, 7 anos no Romão Gomes, >> foi expulso. Beleza. Anos depois eu estava trabalhando no Centro Administrativo de Castigo.
Quando me castigaram e me jogaram lá para assinar certidão. E lá o que que a gente fazia? A gente ia almoçar na subsistência, que é o restaurante da PM.
Você vai a pé ali. Eu, esse restaurante da PM, ele é atrás da cavalaria. Você paga um valor subsidiado ali e almoça bem.
Eu saí da do centro administrativo e tô andando na calçada, sabe? Na Cruzeira do Sul do lado, não, no lado do panelão, do outro lado não tem aquela empresa de extintor. >> Hum.
>> Cara, eu tava andando sozinho ali e indo pra subsistência, só que trepado, né? Eu durmo, eu durmo armado. Eu vou, eu mijo cago armado.
Eu, é 24 horas armado. Tô armado aqui. Eu não, não ando desarmado.
Aí, mano, eu tô andando na calçada. Roupa paisana. Roupa paisana.
Isso uns 5 anos depois. Cara, quando eu olho assim, ó, vem vindo um cara de frente para mim. Eu percebi que eu conhecia de algum lugar, mas nem nem tum >> tum.
Quando chegou bem pertinho, ele parou na minha frente e falou assim: "E aí, chefe, tudo bem? " Inicialmente eu achei que fosse um Mike da do choque ali, né? Só que tava paisando os cabeludo, já não tinha jeito de polícia.
Aí eu falei: "Tudo bem, te conheço de onde, mano? " Ele pegou e falou assim: "Ô, tenente, eu sou o Mike do 10 que surpreendeu lá no com a moto, lembra? " Falei: "Puta que pariu, já dei aquela endurecida, né, mano?
Fiquei com a mão meio perto assim da cintura, tentando olhar a cintura dele. Eu falei assim: "O que você tá fazendo aqui na rua meio-dia? Você tá fazendo aqui?
" Ele falou: "Não, chefe, é o seguinte, eu saí da cadeia, puxei meu período fechado. Hoje eu tô trabalhando com silk screen e eu queria agradecer o senhor. Aí eu olhei e falei: "Você quer me agradecer o quê, mano?
" Ele falou: "Chefe, é o seguinte. Eu tava virado no craque, eu ia morrer. Ou eu ia tomar uma par de tiro ou eu ia morrer de infarto, um ABC, sei lá.
Eu ia morrer. >> Quando eu fui preso, o Roman Gomes é a única cadeia séria que tem nesse país, né? Em termos de rigidez, não entra nada, nada, nada, nada, nada.
Eu acho que as cadeias, essas de segurança máxima, as mais embaçadas, talvez seja assim, mas cadeia normal não. Aí meu, eu ele falou assim, ó, os anos que eu fiquei no Romão Gomes me desintoxicaram. Hoje eu não uso mais droga.
Tô trabalhando e tentando viver a minha vida da melhor forma, até porque eu me converti numa religião, eu tô melhor. Aí eu olhei pra cara dele, mano, eu falei assim: "Você realmente melhorou, mano? Você realmente tá trabalhando?
" Ele falou: "Ô, chefe, não tem porque eu mentir pro senhor. Não sou nem polícia mais, mas eu tô querendo agradecer o senhor". Eu falei: "Você tá querendo me agradecer o quê?
Qual o motivo de você me agradecer? " Ele olhou para mim, ô ô, Sneider, veio um pouquinho mais perto e falou assim: "Ô, chefe, foi Rota que me abordou. Eu sei que eu tô vivo hoje e uma parcela de eu tá vivo tem a mão do Senhor.
Então, eu quero agradecer e dizer pro senhor que eu ter ficado vivo não foi em vão. Eu tô no caminho correto, tô trabalhando, estou enxergando isso como uma segunda chance na minha vida. Porque o que eu tava fazendo e a forma como eu tava vivendo, a chance de eu de eu ter morrido na mão da rota era enorme.
Eu fui polícia, eu conheço. Então eu eu sou grato ao Senhor pro resto da minha vida. Aí, mano, e eu tava arisco.
Eu falei: "Amigo, vai sacar uma faca aí da da da Eu olhei para ele e falei assim: "Amigo, as pessoas morrem quando tem que morrer na hora certa. É Deus que define isso. É a forma como vem para cima da gente.
Você não morreu porque não era para morrer. Segue seu caminho. Que bom que você tá melhor.
Ele: "Chefe, obrigado por tudo. " Eu falei: "Tá bom". Aí ele saiu andando assim, ó.
Eu ainda fiquei olhando para trás assim. Aí fui, fui almoçar. Então é [ __ ] cara.
É [ __ ] É [ __ ] porque do nada às vezes Deus vem e te dá umas cutucada, né? Tipo assim, ó, ó, ó o que você fez ali valeu a pena, ó. Esse cara aqui é uma exceção.
Esse cara não foi reincidente, esse cara enxergou a merda e mudou. Eh, e mostra também que não tem boi, né, mano? Policial foi pego fazendo coisa errada.
Expulsão e cadeia.