k [Música] [Aplausos] [Música] Era uma vez uma mulher que via um futuro grandioso Para cada homem que a tocava um dia ela se [Música] tocou o que querem as mulheres Esta é uma pergunta que marcou o século XX após uma série de movimentos e conquistas femin e que o tornou o século das mulheres elas reivindicaram a igualdade de direitos políticos sociais reprodutivos e hoje ainda lutam contra a violência doméstica e sexual discriminação no trabalho preconceitos se foi no século XX que a mulher conquistou o direito à existência no 2 ela luta por mais do que
existir luta pelo respeito ao seu corpo suas escolhas sua vidaa essa série do Café Filosófico reúne pensadoras feministas de diferentes áreas do conhecimento numa reflexão pela autonomia das mulheres o corpo e a saúde estiveram na agenda de todas as gerações de feminismos mas foi a partir das décadas de 1960 e 70 que os movimentos feministas deram ênfase às questões do corpo e colocaram em Pauta discussões sobre a contracepção o aborto e a crítica à medicalização da fisiologia Feminina De onde é que vem o feminismo da Saúde como ele impactou tanto na produção de conhecimento principalmente
no campo da Medicina como nas políticas públicas é o que a médica Simone Diniz traz neste Café Filosófico eu começo dizendo que o feminismo é uma revolução muito bem sucedida talvez a revolução mais bem sucedida do século XX ah certamente a menos Sangrenta mas o que chama a atenção do movimento é o seu atrevimento e seu caráter subversivo né Um documentário que chama ela fica linda quando está zangada she's Beautiful and she Angry que é um documentário sobre o movimento feminista norte--americano ele começa esse documentário ah mostrando ele é muito atual pra gente ele mostra
primeiro a pressão de parlamentares pela restrição dos direitos ao aborto no caso norte-americano começa com uma manifestação Ah no te né dos parlamentares pressionando pelas restrições das leis de aborto no caso lá A e termina com a marcha das [ __ ] então ele eh parece tá falando do caso brasileiro queria falar do caldo de cultura que faz esse movimento surgir e esse filme ele trata também um pouco disso ah de como o movimento de direitos civis o movimento rip o movimento contra a segregação racial fazem parte desse caldo de Cultura político do surgimento do
movimento Inclusive a experiência das ativistas mulheres Ah que se sentiam muito restringidas né dentro desses movimentos mas é o movimento que tem uma agenda muito Ampla vocês vão ver ah que as questões por exemplo com relação aos direitos da Maternidade à creche a violência sexual ah a contracepção o aborto etc elas são muito presentes nesse movimento e questões como ao direito a mesmo remuneração por trabalho igual etc mas são narrativas sub que passam a eh relatar a experiência das mulheres de outra maneira e o filme fala um pouco sobre raiva também né e em grande
medida como fazer a raiva a frustração ah resultar em ações concretas de mudança que eu acho que é um dos grandes desfios que a gente tem uma dos principais problemas que as mulheres identificam é a sua alienação com relação ao cuidado com o corpo Ah e elas refletem sobre a dificuldade na relação com o sist tema médico sobretudo então elas não entendem o que tá sendo dito elas se sentem enganadas elas se sentem negligenciadas elas se sentem tratadas de uma maneira paternalista e respondem a isso Ahã com a necessidade de construir um conhecimento que seja
baseado na experiência das mulheres elas primeiro desconstrói essa ideia de que ser mulher é uma tragédia biológica ou seja de que as mulheres têm que pagar por isso elas têm que sofrer a que o seu corpo traz para ela um sofrimento que é inerente é essencial das mulheres que elas sofram então a menstruação é um sofrimento o parto é um sofrimento a gravidez é um sofrimento a menopausa é um risco grande que você fique maluca para sempre eh ã a gravidez tem uma demência gravídica que às vezes não param a mulher depois de grávida ela
fica sexualmente eh passada vamos dizer assim e assim por diante Então as mulheres passam a refletir criticamente sobre essa narrativa e sobre como não convém para elas ah essa narrativa negativa essa narrativa de alienação e elas passam a construir coletivamente um conjunto de livros né Um deles é o our BS ourselves né nossos corpos nós mesmos nós não temos uma tradução em português esse livro tá traduzido em 17 línguas eh Na verdade são tratados inteiros né onde elas pegam todos os temas ah da relação com o corpo desde a Sexualidade de a a relação com
sua própria anatomia com os ciclos femininos com a gravidez o parto pós-parto com a amamentação a Sexualidade a relação com com homens a relação com mulheres a relação com filhos eh a menopausa o envelhecimento os cânceres o adoecimento a relação com o serviço de saúde e fazem uma narrativa do feminino tanto do que é o fisiológico como da sua experiência como do que é que diz as melhores evidências científicas das áreas de incerteza e com fo um novo nova maneira de descrever o corpo né esse livro né ele inicia um conjunto de outros livros que
passam a fazer uma outra narrativa e questiona o conhecimento médico né Eh e passam a propor que as mulheres conheçam o seu próprio corpo né Então aí conç começam os movimentos de auto exame de auto observação como observar as suas próprias secreções Como é o colo do útero como o colo do útero muda no decorrer do ciclo como as secreções podem ajudar a identificar o período fértil período não fértil tem todo um movimento que tá sendo AD com grande fúria pela geração mais jovem agora né e no Brasil também a gente tem várias iniciativas como
por exemplo coletivo feminista sexualidade de saúde mas também o SOS corpo e muitos outros grupos trabalham com isso essas novas perspectivas de lidar com a saúde descrever de narrar O que é saúde e a doença eh tiveram eh uma importância muito grande em desenhar uma agenda de pesquisa eu vou dar um exemplo que eu acho que é um um um exemplo muito emblemático eu eh ensino entre entre outras coisas uma disciplina que chama evidências em saúde e explico como é que surge o movimento de medicina baseada em evidência em grande medida ele foi impulsionado conforme
os autores mais clássicos inclusive pelo movimento de mulheres vou contar para vocês Uma pequena história a respeito disso ah alguns países adotaram a prática de cortar as vaginas das mulheres episiotomia durante o parto supostamente para facilitar a saída do bebê e para reduzir o dano perineal Ahã em outros países isso não fez muito sucesso mas isso quando entrou no Reino Unido eh houve uma reação muito grande das mulheres organizadas e das parteiras né lá gente tem um sistema de assistência ao parto diferente do nosso é um sistema baseado em parteiras de Med wives e eh
as mulheres ficaram muito revoltadas com a pressão que havia para que as vaginas delas fossem cortadas pelas parteiras então elas resolveram fazer um estudo elas próprias diante dessa recomendação e naquele tempo não tinha internet não tinha formulário do Google não tinha nada disso elas fizeram isso por carta né Eh e ah conseguiram quase 2000 mulheres fizeram uma enquete liderado por uma antropóloga muito conhecida chila kissinger e contando a experiência das mulheres so episiotomia tabularam tudo e foram lá nos Royal College dele e dizer nós temos suporte jurídico para considerar que qualquer pessoa que faça uma
episiotomia numa mulher sem consentimento informado escrito pode ser acusado de lesão corporal e conseguir de fato suporte jurídico para isso ninguém foi preso ninguém não hou nenhum tipo de problema dessa natureza porém a partir daí foi feito o primeiro ensaio Clínico randomizado né Vocês sabem que os médicos têm essa crença numa hierarquia de evidências e no topo da hierarquia estão os ensaios clínicos randomizados né e as revisões sistemáticas do desses ensaios clínicos randomizados então eles fizeram era um ensaio clínico randomizado e não é que não houvesse anteriormente nenhum estudo dessa natureza né que chamado padrão
ouro dos estudos a respeito de episiotomia tinha mas eles comparavam era melhor fio x ou fio y era melhor cortar com misturinha ou com tesouro era melhor costar no momento X no momento Y ninguém tinha se perguntado se devia fazer ou não fazer E aí o que que os ensaios clínicos padrão ouro Encontraram o mesmo que as mulheres já tinham encontrado E aí se partiu do pressuposto de que era important ouvir as mulheres as pacientes a respeito da sua experiência se aquelas Então as mulheres mostraram que não só aquilo não facilitava a saída do bebê
como implicava mais dor mais sofrimento maior demora na retomada da vida sexual e assim por diante a partir daí foi criado todo um grupo para revisar um conjunto de eh intervenções que eram feitas de rotina no parto então esses movimentos pelo parto ativo eram movimentos de rua então teve um conjunto grande de manifestações e E com isso elas impactaram fortemente como era desenhado o sistema de saúde no caso deles lá né Eh no Reino Unido em grande medida o feminismo faz um voto de desconfiança no discurso médico o feminismo felizmente é muito plural as pessoas
têm visões diferentes do que e seria o mais adequado para cada vida de cada uma eh e eu eu pessoalmente acho que a gente não deve ter nenhum tipo de fundamentalismo mas eh A ideia é que a tecnologia as intervenções estejam submetidas às necessidades humanas e não o contrário e o que o feminismo reivindica é que a autoridade da decisão sobre as intervenções deve ser da mulher uma decisão informada de menina em sua simplicidade Cândida o observador encontra feito uma análise completa de sua alma grande sensibilidade emotividade facilidade de chorar e de rir timidez E
faceirice desde os 5 anos é bem diferente o menino sua fisionomia seu olhar vivo sua voz mais forte acusam já o caráter de mando que lhe domina os atos enquanto a menina em tudo manifesta sua aspiração a ser rainha de um lar o menino sonha visivelmente com sua liberdade com a internet e a consequente democratização das informações divulgação de pesquisas e teorias aparecem narrativas que disputam com a medicina as concepções de saúde e bem-estar isto contribuiu para novas configurações da mulher na sociedade que passou a reivindicar o poder de decisão e de autonomia sobre seu
próprio corpo a produção de conhecimento abre espaço para novos estudos sobre a Biologia da mulher e o feminismo avança influenciando também na implementação de políticas públicas nessa direção o feminismo produziu uma grande quantidade de material que tá sendo recuperado agora pelo movimento de uma maneira muito vigorosa né que são esses estudos de anatomia de fisiologia e de microbiologia mesmo da década de 70 isso tem sido retomado com muita ênfase d a importância do estudo mais recente agora sobre microbioma humano né que é uma reinterpretação radical de como a gente lida com nossos microorganismos né então
foram feitos estudos colaborativos com base em fotografia mostrando por exemplo que a a narrativa anatômica sobre os genitais femininos não não correspondia como as mulheres eram de verdade nem a anatomia de superfície por exemplo Anatomia da vulva então foi feito um estudo colaborativo fotografando mais de 1000 vulvas para mostrar que as vulvas eram muito diferentes entre si porque as pessoas olhavam pra vulva como tava no livro de medicina e a vulva era toda pequenininha simétrica arrumadinha e as pessoas em geral têm lábios assimétricos né o às vezes lábios bastante vamos dizer assim volumosos e exuberantes
e para as mulheres a gente tem padrão de gênero né as mulheres os genitais delas devem ser pequenos acanhados Humildes comportados né e dos homens podem ser expansivos etc Quanto maior melhor a gente tem essa diferença de gênero né e um dos problemas que havia nessa narrativa por exemplo é que o a o a ilustração nos livros mostrava os grandes lábios e Os pequenos lábios e com frequência Os pequenos lábios eram maior do que os grandes lábios então a pessoa olhava para aquilo e ela dizia meu Deus meus pequenos lábios são maiores do que meus
grandes lábios devo ser um tipo de anormalidade né então esse esse eh esse esforço né de mostrar paraas mulheres ah a variabilidade normal e mesmo a beleza né ah porque há uma equivalência entre a diferença da Norma a feiura né como é que a gente poderia fazer uma narrativa diferente disso quer dizer isso também porque o Brasil é um dos recordistas de cirurgia genitais de toda a natureza sexuais reprodutivas inclusive as cirurgias chama ninfoplastia que é uma cirurgia para redução dos lábios ah justamente pela crença de que esses lábios seriam maiores do que deveriam né
isso aquilo consistiria numa forma de anormalidade isso mostrou como ah em grande medida a os modelos de assistência descrevem e criam necessidade de saúde eh que são muito mais culturais da da as culturas sexuais das culturas reprodutivas que propriamente necessidade de saúde isso fez também que o que nesse esforço de se aproximado do corpo as mulheres eh recuperassem as artes eróticas né as artes orientais tipo o tantrismo o pompoarismo nisso há toda uma crítica também nessa relação das mulheres com serviço de saúde de que essa seria uma assistência agressiva E no caso brasileiro eh desde
a a década de 80 se fala sobre a agressividade na assistência à Saúde da Mulher ah em vários sentidos né agressividade e a violência no parto no caso brasileiro é difícil uma mulher sair sem uma ferida cirúrgica no parto seja uma cesárea seja uma cicatriz no no na sua vulva né ah mesmo as questões eh da experiência com os exames ginecológicos da desinformação do paternalismo e essa concepção né do corpo das mulheres como uma a questão da tragédia biológica e o feminismo traz uma reinterpretação de como esse mal-estar feminino a respeito do seu corpo pode
ser lido né a gente vem primeiro de uma tradição ah judaico cristã mas muito mais do que isso de que as mulheres sofr porque Deus mandou talvez Uma das uma das questões mais repetidas né Eh a queixa das mulheres no parto né de que quando elas eh demandam ajuda ou se queixam da dor há uma laicização da assistência uma laicização digamos incompleta eh onde o discurso médico diz o seguinte Deus mandou sofrer né o corpo é uma terrível ameaça mas nós podemos dar um jeitinho então é como se a mulher deixa de ser uma pecadora
que deve pagar pelo seu pecado através de Sofrimento no parto e outros Sofrimentos corporais para ser uma vítima Não do seu pecado mas do seu corpo incompleto imperfeito que precisa ser tutelado no caso pela medicina pessoas inclusive deixam de usar o termo trauma de parto para trauma da assistência Então as pessoas passam a fazer uma outra narrativa de que não é as mulheres não são vítimas do seu corpo né mas elas são vítimas do tipo de assistência misógina a qual elas são submetidas não quero com isso dizer que não existam Sofrimentos corporais na menstruação no
parto etc o que eu quero dizer é que esse sofrimento ele é potencializado e muito sofrimento desnecessário muito risco desnecessário é imposto à mulheres como forma de coagir as mulheres e essas são as palavras que as mulheres usam para aceitar certas escolhas com relação às tecnologias em saúde e nesse sentido essa concepção de que o corpo pode ser saudável e potente né A invés de simplesmente adoecido ela ela é uma ameaça eh conceitual muito importante né ela aparece com frequência como [Música] ah talvez uma ameaça que instabiliza todo o nosso sistema de crenças que é
baseado na ideia de uma superioridade do corpo masculino né e não não é apenas na hostilidade no medo do corpo né mas também num uma questão que é estrutur an da assistência E no caso Brasileiro ela é muito intensa que é o nojo do feminino né Nós temos usado muito uma autora que é Cláudia malacrida que discute como o nojo é estruturante das formas de assistência né então isso vem da nossa cultura Santo Agostinho é um que dizia que Deus para expressar seu desgosto com o corpo ele fez o ser humano nascer entre urina e
fezes né Então essa essa avão à materialidade né representada aí pelo feminino né Eh e esse feminino vem trazer esse feminismo vem trazer uma outra ideia né de uma outra estética né e de uma independência dos padrões de beleza então a gente tem duas narrativas que são inclusive narrativas de uma estética do corpo né do que que é aceitável né então entre essas duas narrativas é uma forte hegemonia né da versão eh que as autoras chamam patriarcal falocêntrica né E aqui no Brasil a gente também chama correcional né que parte do pressuposto que o corpo
das mulheres deve ser corrigido né Eh mas depois de tudo que houve né depois de todo esse movimento o mundo mudou né então a gente teve vários esforços de reivindicação da Autonomia das mulheres né mas esse feminismo e todo esse movimento e toda essa a todo vamos dizer essa mudança cultural que propôs ela implicou no caso brasileiro de um conjunto de políticas públicas entre elas a criação do programa de atenção integral à saúde da mulher né que começa em 1983 84 a ideia de integralidade do país era uma ideia muito sofisticada ela dizia respeito a
ao biológico a psicológico e social para além do foco centrado no biológico ela se referia a todas as fases do ciclo da vida não apenas No Materno infantilismo que nos acompanha né voltamos tudo atrás agora com a rede cegonha e ela também tinha a ideia de prevenção tratamento e Reabilitação que são as ideias de prevenção primária secundária e terciária e fortemente ancorar na ideia do questionamento das relações de gênero e das das propostas educativas então o país tinha um componente educativo muito forte e tinha participação de outros atores sociais Ah que o papel da enfermeira
da educadora enfim da psicóloga então havia toda uma ideia de equipe interdisciplinar para além do médico né então durante muitos anos o nosso mantra era esse pela implementação integral do programa de atenção integral a saúde das mulheres a gente ficava repetindo isso né e um dos grandes de desafios isso acontece no contexto também da implementação do SUS né que é um projeto grandioso né extraordinário em termos de esforço coletivo Então essa construção do SUS né levou a um esforço muito grande de universalização da assistência né No entanto como muitas autoras mostram né A o programa
era um programa muito avançado mas na ponta os profissionais tinha uma formação que não tinha mudado em nada né então ah em grande medida esse discurso foi um discurso que foi esvaziado em sua radicalidade né ah mesmo com a presença muito importante de um feminismo institucional brasileiro tanto nesses organismos que foram criados os conselhos as coordenadorias etc mas também pela presença de um grande número de ONGs femininos no Brasil e de sua articulação que impulsionavam a crescimento né então o feminismo eh inspirou um conjunto de inovações em termos de política pública que foram que que
H foram inclusive inspiração para outros países que usaram o nohal que o feminismo brasileiro desenvolveu Ah para criar políticas análogas né E esse movimento traz muito presente a questão de que o feminismo é uma questão para a democracia são as mulheres que fazem chorar as cebolas como se descascasse a própria vida e arredondando-se em então descobrissem um corpo o seu uma vida a sua a internet abriu um novo canal de comunicação também para os movimentos feministas um espaço onde as mulheres trocam experiências organizam encontros se articulam na busca de novas formas de assistência à gravidez
ao parto à amamentação à contracepção e se unem em torno de suas causas um exemplo de enorme repercussão na internet se deu com o vídeo de um parto em casa que teve milhões de [Música] visualizações o sucesso levou a uma reportagem de televisão com a opinião de um médico que foi favorável ao parto em casa so certas condições adequadas no entanto ele foi punido pelo Conselho Regional de Medicina mas as mulheres foram às ruas em sua defesa hoje em dia também há uma disseminação da evidência científica né traduzida para usuário em linguagem leiga né a
colaboração cochren Tem feito muito isso né E esse material é traduzido por português mas a nossa classe média e média alta fala inglês então as mulheres hoje em dia chegam no médico e diz assim Doutor eu li a última revisão sistemática sobre episiotomia e o profissional não sabe o que é uma revisão sistemática né ele tá com aquilo que ele aprendeu na faculdade então a gente tem esses novos movimentos ã e mudanças na cultura muito rápida né porque eh com frequência a mulher leu tudo Estudou tudo fez um plano de parto e a gente vê
as dificuldades do sistema né e dos profissionais de se ajustarem a essa ah novas reivindicações de autonomia então algumas questões que em outros países são banais né que as pessoas têm como questões muito bem resolvidas aqui no Brasil ainda são muito problemáticas né Eh um caso grave é a dissociação entre a evidência científica do que é seguro e que é efetivo na assistência ao parto e o que a gente tem na realidade né Ah então no Brasil a gente tem uma taxa de sária crescente altíssima né ah campeões disso né taxas super alas desse corte
na vagina da episiotomia mais de 90% das Mulheres dão a luz imobilizadas numa posição antif fisiológica que é a posição de litotomia então a a evidência fo foi para um lado que é da proteção da normalidade na medida do possível do máximo da ênfase no conforto da mulher ah da escolha da mulher dos procedimentos do ambiência mais informal mais acolhedora da privacidade da importância de entrar em trabalho de parto no Brasil como vocês sabem as chances de entrar em trabalho de parto são pequenas né E hoje em dia tem toda essa eh essa reinterpretação da
importância né Eh de entrar em trabalho de parto hoje em dia entrar em trabalho de parto é considerado o um momento muito importante para a saúde da mulher e do concepto né do bebê porque isso prepara um conjunto de funções né de atividades da fisiologia da mãe e do bebê né com efeitos no resto da vida tanto da mãe quanto do bebê né então a gente sabe que o prognóstico para doença crônica dos bebês dos nascidos é em grande medida definido no parto né a chance que ele vai ter de ter diabetes de ter hipertensão
sobrepeso idade asma alergias Eh agora as novas coortes europeias saíram mostram que vários tipos de câncer né todos esses riscos são aumentado se a pessoa não entra em trabalho se o bebê não passou por um trabalho de parto e se não passou pelo Canal de parto né tem todo esse debate sobre a formatação do do microbioma então ah na vida uterina a gente é relativamente estéril quando a gente passa pelo canal vaginal a gente vai receber essa chamada inóculo primordial né que vai ocupar aquele Campo né que estaria vamos dizer assim não não colonizado Então
se o bebê nasce colonizado por bactérias vaginais eh ele vai ter um prognóstico inflamatório metabólico diferente de que nasce de cesárea porque esses bebês entraram primeiro em contato com bactérias hospitalares né Eh então e tenderão a desenvolver um um metabolismo muito mais inflamatório eu digo isso repetindo alo que eu acho muito importante que é a questão da a iia né não se deve julgar um o a decisão da mulher sobre via de parto até porque no Brasil a Adesão a cesárea é resultante do modelo violento que a gente tem né então os movimentos sociais dizem
chega de parto violento para vender cesárea se a mulher tiver que escolher entre um parto onde ela vai ficar fisicamente imobilizada numa posição de fisiológica sem acompanhante eh colocada de rotina Sem ela ter direito de recusa de hormônios que vão aumentar as dores do parto as contrações uterin ah com alguém empurrando a sua barriga né que é aquela manobra de cristel alguém cortando sua vagina você escolhe entre isso e uma cesárea quem de nós escolheria isso né vamos ser sinceros com isso então enquanto a gente não mudar o modelo de assistência a parto para um
modelo que siga né o melhor que há de evidência científica e de Direito das mulheres eh a gente não tem muita chance de mudar o modelo de assistência enfrentar o modelo de assistência é um dos Desafios que vem ter sido trazido pelo movimento feminista desde eh eu diria desde a chamada primeira onda mas com muita ênfase nesse feminismo da década de 70 e 80 e que tem sido retomado por essa geração de jovens agora com uma força extraordinária eh Então a gente tem temas novos como por exemplo a epidemia de HIV aides né e uma
retomada de temas antigos né o tema da violência de gênero ele tá eternamente sendo recolocada né mas esses temas radicais da apropriação do corpo eles vão tendo cada vez menos ibop Sobretudo com as financiadoras então o financiamento que essas ONGs receberam né durante eh algum tempo era para temas ah a ideia por exemplo da dos modelos de assistência dessa relação mais desmedicalização temas que a gente chama os temas da segurança né então os grandes temas da década de 90 né e do do começo dessa década são os temas relacionados à saúde e segurança né que
são ah além do da Maternidade segura do aborto seguro do sexo seguro o tema mais importante de segurança que é a violência contra as mulheres né então a agenda fez uma inflexão para como sobreviver ao sexo a reprodução e as relações porém nessa década a gente tem uma volta das mulheres à ruas em grandes quantidades né então a gente passa a ter a quantidade de marchas incrív o modelo de medicina e de assistência à saúde do nosso país é baseado em um conhecimento decorrente de uma visão masculina a luta pelo cuidado a saúde da mulher
é uma do feminismo atual o que se quer mudar vai além da técnica envolve valores e posturas culturais questões sobre a autonomia e a relação menos medicalizada com o corpo permanecem como reivindicações importantes no movimento das mulheres mas hoje a ênfase está no tema da segurança segurança no sexo na reprodução no parto natural e no aborto Legal tanto na cesárea quanto no parto normal eu não sabia como isso ia acontecer quer dizer eu não fui informada então eu não tive condições de fazer essa opção eh por exemplo eu não sabia que na cesárea eu ia
ficar amarrada e não era uma opção minha também a cesárea eh nem no parto normal também não sabia que alguém ia empurrar minha barriga e que eu não ia conseguir me movimentar então eu gostaria que você falasse um pouquinho a respeito disso porque é um direito da mulher sobre o seu próprio corpo mas que a gente não tem nem o conhecimento para poder fazer essa opção antes do do do acontecimento eh o o parto é uma situação emblemática do conjunto de questões das mulheres com enfrentamento com o sistema de saúde né Eh alguns autores usam
o termo promoção da ignorância por isso que há toda essa esse esforço de que as pessoas possam saber e compartilhar o conhecimento eh E isso tem um recurso né que é o chamado plano de parto o plano de parto não tá escrito em pedra ele não é o contrário não é um contrato e muitas vezes o profissional ele vai ter que negociar um conjunto de coisas diferentes do que tá lá né mas de qualquer forma ele tem que funcionar como um recurso educativo a mulher tem que saber quais são as etapas do trabalho de parto
e que opções ela tem no decorrer de cada uma dessas etapas né Muito frequentemente eh tem uma autora que diz que as mulheres eh tem um tipo de amnésia da assistência ao parto Porque elas precisam apagar uma parte da experiência dada a brutalidade Então você imagina a pessoa faz uma cesárea né E ela é até oferecido o bebê para ela é esfregado bebê né não Ah tira uma foto um com a cabeça para um lado a cabeça pro outro e a mulher tá imobilizada fisicamente né um parto também frequentemente a mulher tá toda imobilizada ela
tá com os dois braços imobilizados as duas pernas amarrados né Então as pessoas precisam saber que esse tipo de coisa acontece pra gente poder se defender desse tipo de coisa porque você tá lá no condição que você é refém daquela situação né Eh por isso a escolha informada é tão importante por isso é tão importante os grupos de gestantes a a internet felizmente agora tem oferecido um recurso muito importante para que as pessoas possam conhecer mais sobre esses processos e fazer escolhas informadas fazer escolhas informadas exige também que as pessoas possam ter oportunidade de ter
um sistema de saúde que comporte a escolha né que é outra grande dificuldade que nós temos um caso brasileiro é muito importante que a formação passe a enxergar isso de outra maneira muitos já têm dito que a formação Talvez seja o Polo mais conservador desse campo inteiro né eu não não discordo mas eu eu sou tenho sido muito otimista com que eu tenho visto recentemente eu acho que mesmo a formação tem mudado muito né E tem trazido questões extraordinárias né eu tenho visto muita mudança institucional mesmo serviços do SUS estão incorporando né É muito pouco
ainda né mas a gente já tem serviço do SUS atendendo partos domiciliares a gente tem muitos serviços do SUS são baseado em evidência basead nos direitos das mulheres a gente tem eh experiências extraordinárias inclusive no setor privado né nas unimeds então a mudança no meu entender ela é visível ela é visível e ela é Irreversível queria que você eh falasse um pouco mais sobre os diferentes discursos ou narrativas a respeito do aborto porque me parece que quando os movimentos feministas falam sobre Ele eles estão falando uma coisa os dirigentes do nosso país estão falando outra
e os profissionais da Saúde eu não sei como eles estão se colocando a respeito disso e queria te ouvir um pouquinho esse debate sobre narrativas de feminismo é uma questão muito presente que muitos autores tem trazido né no Brasil Inclusive a gente tem vários grupos de pesquisa sobre narrativa tem um grupo muito bacana sobre narrativas do nascer mas outros tipos de narrativa que eh pessoas que vêm da antropologia mas também das das Letras de enfim de um conjunto de disciplinas né Eh e são narrativas distintas e eventualmente em conflito né as mulheres reivindicaram o direito
à contracepção e ao aborto como o parte do direito humano a regular sua fecundidade e como questão para democracia eu uso muito uma autora uma cientista política norte-americana que chama Ross pesk eh que fala também da questão das narrativas né Eh tangencialmente mas ela diz que tratar do aborto como uma questão paraa democracia coloca a discussão política no patamar onde ela deve estar né E também sobre uma questão de direitos humanos né Eh obrigar uma mulher a ter um filho que ela não quer né obrigar uma mulher a maternidade forçada é uma forma de violência
que só acontece com as mulheres e é tratá-las a quem da condição humana por isso o direito a regulação da fecundidade é parte da agenda dos Direitos Humanos dos seres humanos só que engravida são as mulheres né mas dos seres humanos eu eu gosto de muito de usar essa perspectiva os profissionais eh existe um código de ética médica né Eh e que existe uma legislação no caso brasileiro onde você tem dois permissivos legais para o conjunto da população certo para nós classe média que POD pagar uma clínica isso não faz diferença né Nós vamos no
máximo nos a ver com nossa consciência Mas isso é tudo né Os Profissionais de Saúde eles deveriam estar preparados para fazer o procedimento do aborto sempre que necessar porque é que no Brasil nós não ensinamos a técnica segura e efetiva para fazer um aborto no caso que é necessário a gente tem permissivos legais né o caso estupo de risco de vida da mãe Por que que a gente não ensina a técnica de aspiração que é a técnica segura efetiva menos dolorosa mais barata não precisa de internação e eventualmente não precisa nem de anestesia porque é
um procedimento tão simples e ao invés disso a gente continua ensinando a curetagem dilatação e curetagem que é um método medieval né que você tem um risco muito importante de dar complicações de aderência levar infertilidade perfurar o Ultra etc enquanto que a aspiração é um método muito mais simp então a gente de fato Os Profissionais de Saúde eh não tem uma formação apropriada nem do ponto de vista técnico nem do ponto de vista da legislação nem do ponto de vista da capacidade de empatia com aquela mulher que precisa nos casos que sejam dos permissivos legais
que são poucos mas ainda implica aí uma quantidade alguns milhares de abortos que deveriam ser feitos por por ano no Brasil nem assim a gente tem essa situação né os programas de aborto legal eles estão funcionando muito a quem da sua capacidade eles têm problemas de referência eles têm problemas de profissionais de saúde eles T problemas de insumo e o de constrangimento moral dentro das equipes de apoio aborto legal ainda é muito grande né o modelo que é ensinado o modelo que é reproduzido o movimento o modelo que estrutura as rotinas né O que a
gente chama o conhecimento autoritativo o que vale na vida real ele é um conhecimento antigo e feito nesse tempo da hegemonia masculina por isso isso é muito importante que as mulheres façam essas narrativas da sua experiência e façam narrativas subversivas a esse conhecimento são narrativas diferentes né dos médicos e desses eh dos nossos formuladores de política infelizmente eles são reféns né do dessa conjuntura política desse congresso que a gente tem cada uma dessas conquistas do feminismo do corpo né Eh tem sido ameaçada por governos conservadores Então a gente tem uma sequência de a afirmações institucionais
de impunidade que diz respeito à impunidade seletiva né que é uma questão que a gente tá vendo no Brasil o tempo inteiro né A questão do aborto é uma questão típica nós mulheres de classe médica a gente precisa fazer um aborto a gente vai numa clínica segura etc é isso que acontece para nós não tem punibilidade né agora vai ver os casos das mulheres que estão presas Quem são elas as mulheres tem mulher presa né Tem mulher assada tem mulher que sai presa dos serviços né hoje em dia mesmo as mulheres de classe média têm
sofrido essa onda conservadora a gente fala que tem uma hierarquia das sexualidades e das maternidades né a relação das mulheres com os corpos A coloca em situações diferentes de vulnerabilidade à violência então a gente estaria no topo da pirâmide deas brancas casadas é sexuais aí vai caindo né as solteiras as doentes em geral as pobres sobre positivas doenas mentais usária de droga moradora de rua trabalhadora do sexo presidiárias então a gente não trata as pessoas da mesma maneira E isso tem a ver também com de que tipo de parceria sexual surgiu aquela gravidez né eu
diria que eh todos esses movimentos né são movimentos virtuais Ou presenciais eles têm sido muito fortemente eh articulados com respostas rápidas né então a gente teve várias crises né criaram situações a a gente vê duas subversões narrativas no caso do parto muito fortemente uma é essa dissociação entre o que diz a ciência mainstream né que ela tá totalmente ao lado do discurso chamado alternativa Então as pessoas dizem essas pessoas são alternativas elas querem entrar em trabalho de parto né enquanto que o resto do planeta né Eh coloca isso como padrão ouro né isso de forma
alguma quer dizer que as mulheres devem ser obrigadas a entrar trar de trabalho de parto né Vamos defender aqui o direito à autonomia e a escolha informal mas o padrão Ouro da assistência tem mudado e aqui no caso brasileiro isso só tem sido trazido pelo próprio movimento de mulheres né Então essa é uma coisa que nós temos que louvar Então essa é uma subversão né a ciência está ao nosso favor e infelizmente o mainstream médico diferent m de outros países não tem assumido a liderança da mudança que em alguns países tem né um exemplo muito
concreto que eu acho é a liderança que mesmo num país muito medicalizado como é o caso dos Estados Unidos eh os médicos assum a liderança da exigência de ah justificativa para interrupção de qualquer gravidez com menos de 39 semanas completas e com isso eles reduziram prematuridade coisa que eles a prematuridade lá tava subindo ano a ano desde a década de 70 eles começaram a fizeram a inflexão da curva com isso né no caso brasileiro a gente vê em alguns lugares essa inflexão o município de São Paulo é um a gente viu deixou de subir e
começou a cair né então o que tá em debate aqui é muito mais do que a técnica são os valores né que que valor a gente d a integridade corporal ao respeito do corpo do outro essas hierarquias sociais né a própria agressividade que há com relação aos genitais femininos né se está mudando está mudando por conta desse feminismo não só o feminismo das mais antigas da nossa idade mas também do feminismo jovem que está realmente bombando né E que tá cada vez mais ah consciente da sua responsabilidade lutar pelo aquilo que precisa em termos de
saúde das mulheres né então e eu queria terminar com essa nota otimista eu acho que a gente tem muito motivo para estar otimista com feminismo atualmente e agora Maria O Amor Acabou a filha casou o filho mudou o teu homem foi pra vida que tudo cria a fantasia que você sonhou apagou a luz do dia e agora Maria vai com as outras vai viver com ipocondria mais reflexões você encontra no site e no Facebook do Instituto [Música] CPFL a gente nunca pode se aposentar do feminismo né porque essas questões estão se renovando o tempo [Música]
inteiro uma pessoa com esse fogo todo todo se amor para dar e ela está querendo apagar esse fogo p [Música]