[Música] Olá esse é o podcast filosofia pop eu sou o Murilo Ferraz e aqui comigo está o Marcos Carvalho Lopes e ail Ben Machado hoje a gente recebe o professor Wanderson flor mestre em filosofia e Doutor em bioética pela Universidade de Brasília a dilben vai acompanhar a gente em todos os nossos Episódio sobre filosofia africana esse é o nosso Episódio número 15 e hoje falamos sobre O bunto na filosofia africana se você ainda não conhece o nosso site pode visitar o filosofi poop.com PBR e deixar o seu comentário tem sempre algum texto complementar lá no
site nós estamos com a promoção para comemorar as 500 curtidas na nossa página do Facebook Vamos sortear um kit com os livros canção estética e política e máquina do Medo do Marcos Carvalho Lopes confira as regras para participar da promoção na página do Facebook o link vai estar no Post do Episódio O sorteio vai ser no dia 28 de novembro de 2015 participe Siga a gente no Twitter curta a página do Facebook ou envie um e-mail para contato a @film poop.com no filosofia pop a gente pretende conversar sobre temas filosóficos e uma linguagem acessível A
ideia é usar também referências culturais como filmes músicas ou programas de TV para ilustrar alguns conceitos dialogar com ideias mais próximas da gente A cada 15 dias Sempre as segundas-feiras a gente vai estar aqui para continuar essa conversa com vocês vamos então paraa nossa conversa sobre filosofia Africana e o [Música] buntu hoje a gente recebe o professor Wanderson flor que é mestre em filosofia e Doutor em bioética pela UnB ele realiza pesquisa sobre filosofia africana Eu gostaria de pedir para você se apresentar aí pro pessoal para quem não te conhece para saber quem você é
Com que que você trabalha Olá pessoal eu sou professor de Filosofia e e bioética da Universidade de Brasília trabalho com ética filosofia política e formação docente tenho trabalhado com as questões acerca de subjetividade desde que eu comecei a pesquisar e nos últimos 10 11 anos venho trabalhando com o pensamento africano afro-brasileiro né tentando fazer aí uma interconexão com discussões sobre gênero religiões de matriz africana né para tentar oferecer Subsídios paraa formação docente sobretudo né que a partir de 2003 nós temos uma determinação legal de trabalhar com esses conteúdos também no na educação básica então basicamente
o que eu tenho feito é isso e tentando expandir e divulgar um pouco mais o pensamento africano que a gente conhece tão pouco bom a nossa conversa de hoje é sobre filosofia Africana e Ubunto gostaria de começar perguntando pro pro Anderson o que que é esse Ubunto Então Essas perguntas sobre o que é são sempre muito difíceis né sobretudo quando elas se referem a a coisas ou a conceitos ou a experiências que eh não são típicas do ocidente porque essa é uma pergunta muito próxima da da da dinâmica do ocidente né a pergunta o que
é a pergunta metafísica por Excelência e que em muitos lugares do mundo não se colocam assim em outras sociedades não se colocam assim muitas pessoas estão interessadas em compreender os comos das Coisas do que em compreender o que é mas como a gente trabalha num di nós podemos chamar de intercultural um dos grandes esforços é tentar traduzir aquilo que é um pensamento outro para o nosso pensamento pra gente entender como esse pensamento poderia funcionar para dialogar com ele então quase todos os pensadores pantos né que são dessa região da do continente africano que originou pelo
menos a palavra o Tentam explicar da dificuldade de traduzir o bunto para qualquer outra língua mas ah ainda assim tentam mostrar de que maneira né eh pensar com o bunto nos levaria a entender de que maneira a humanidade que nós temos se dá sempre de modo interconectado seja o buun tem uma espécie de imagem e da humanidade que não supõe indivíduos como referencial para pensar o que é o humano mas uma coletividade que que acaba por conceder E por construir a identidade e a subjetividade dos indivíduos então o bunto de um modo geral é a
humanidade pensada na interconexão fundamental entre tudo o que pode ser humano e do ponto de vista do pensamento banto não é não apenas as pessoas humanas que nós somos constituem a humanidade há muito mais coisas na humanidade do que o homo homo sapiens é apenas um dos modos possíveis de humanidade tudo que tem agência tudo que transforma a natureza Tudo que de alguma maneira interfira no no movimentação das coisas eh compõe a humanidade portanto também é o bunto ou tem o bunto né nessa humanidade interligada e que só funciona numa interconexão isso tem implicações para
o modo como nós conhecemos o mundo implicações para modo como nós julgamos a ação como nós experimentamos a a a vida de um modo geral seja o bund seria um modo de de ser né vinculado com processos com movimentos de um lado e Com uma interconexão fundamental entre tudo o que possa ter uma uma capacidade de humanidade né tudo que tem agência tudo que se comunica tudo que come tudo que age né basicamente seria isso eu fiquei pensando nisso inicialmente eh como que ele chegou a filosofia posteriormente a filosofia Africana e a filosofia Umbu né
Ele comentou que vem trabalhando com essa questão da subjetividade e eu sempre Acredito que quando a gente trabalha com a Subjetividade a gente acaba indo com questões que nos tocam muito assim então seria mais ou menos isso assim Acho que ele respondeu já um pouco mas como que se deu o processo desse encontro com a filosofia posteriormente com a filosofia Africana e é um butu ou se já foi diretamente com a filosofia africana tem uma uma coisa que um filósofo africano que eu tenho estudado que é o idima chama a atenção de que nós não
podemos entrar nem na filosofia nem na nossa Própria vida sem nos conectarmos com as histórias que eh nós contamos e as histórias que são contadas sobre nós n então eu chego na filosof tentando entender as histórias que foram contadas sobre mim mesmo e essa percepção do que nós somos como nós percebemos na história do ocidente sobretudo na história do Brasil privilegiou algumas narrativas que de alguma maneira se vinculam com com o Mundo europeu e afastam n elementos tanto indígenas quanto africanos e o meu interesse foi tentar conhecer essas outras histórias que também fazem parte de
mim que se contam sobre mim mas se contam escondidas né ou ou se encontram escondidas e assim eu começo a a a me interessar inclusive em função também do meu ativismo no movimento negro né de tentar entender Quais são as influências não é do do mundo africano ou dos Mundos africanos sobre a minha própria história E assim eu vou eh buscar elementos para entender como esse pensamento se constituiu no continente africano como ele chegou aqui como foi apagado aqui de alguma maneira como é que isso diz respeito sobre a minha própria história a filosofia sempre
fez parte da minha própria vida eh eu cresci no num ambiente sempre vinculado com a leitura com o pensamento com a reflexão e sempre tive um gosto pela filosofia nunca foi muito não foi uma uma descoberta Quebrada muito embora eu tenha começado estud dando primeiro né medicina masis acabou que eu Eu reconheci que eu tinha muito mais afinidade com a filosofia do que com com a saúde terminei o curso de Filosofia e terminando o curso de Filosofia me interessando pelas questões da subjetividade eu me aproximo da filosofia Africana e a perspectiva Ubunto vai aparecer exatamente
no momento em que no conjunto desses estudos para compreender aquilo que a Gente sabe tão pouco que é o o contexto e a a variabilidade do das reflexões no continente africano eu encontro um eu encontro uma perspectiva que dá conta de pensar aquilo que seriam os processos de subjetivação tanto no continente africano como aqui que nos ajuda a a entender uma série de dispositivos que no Brasil nós não sabemos muito bem de onde vem como essa extrema hospitalidade como essa esse Agenciamento da da relação com a lei que nos leva até essa coisa do jeitinho
brasileiro ah como que isso de alguma maneira tem heranças africanas e como essas heranças são quebradas às vezes ou seja nós temos esses elementos mas por não sabermos como esses elementos nos chegaram às vezes utilizamos esses elementos como ferramentas eh fora de contexto vamos tentar usar um martelo mexer uma xícara de chá né Nós temos a ferramenta Mas não sabemos muito Bem como usá-la porque não não recebemos o manual de instrução dessas ferramentas junto da nossa história nós sabemos que elas estão aí mas não sabemos muito bem nem de onde elas vieram nem como elas
funcionam e às vezes usamos mal então a minha tentativa de compreender esses elementos tem a ver com a minha própria história né como um ativista do movimento negro interessado em filosofia interessado em resgatar aquilo que que é parte da minha história e tentar Partilhar isso com outras pessoas Acho que isso é fundamental Não é só um estudo ah egoísta né que que tem um punho meramente autobiográfico mas que também possa servir para outras pessoas eh para constituir essa comunicação essa comunidade de pensamento em torno do qual da qual nós possamos construir um currículo diferente uma
educação diferente para que se Abra a outros olhares além dos olhares europeus eu queria fazer uma pergunta assim pedir Para o Anderson fazer essa conexão que ele fez com a vida dele agora fazendo a conexão com a história do do termo e a localização geográfica do termo dentro da África o bunto vale para toda a África eu tem uma região específica da África em que ele ele é uma cosmologia específica de alguma região da África então a palavra Ubunto é uma a palavra de que tá em uma das línguas né a o chosa e o
zulu que são línguas bantas faladas na África do Sul né no no nesse Espaço geográfico que hoje nós chamamos de África do Sul eh mas os teóricos africanos chamam a atenção de que essa esse é um conceito que aparece com vários outros nomes Praticamente em todo o continente Africano né que recebe outros nomes mas que persiste enquanto modo de percepção da realidade dessa realidade interligada interligada em torno de uma espécie de de força primordial ou força vital sobre a qual a a aia falou no no podcast sobre Filosofia Africana e filosofia da ancestralidade essa noção
de força vital que está presente em vários lugares do do continente africano Pens por exemplo no mundo nos mundos ubás ela apece com a como a noção de aé né essa força tal dinâmica fundamental que Funda uma noção de eu uma noção de pessoa eh uma noção de humano que é instanciado na comunidade ebé essa comunidade esse conceito que aparece nos nas línguas urubá não é São anteriores Ontológica lógica epistemológica aos seres humanos individuais né Eh como o mundo africano é um mundo que na maior parte das vezes ou conhece os binarismos ou quando conhecem
esses binarismos T uma força explicativa secundária ou terciária seja não é como pro nosso pensamento em que nós precisamos eh na nossa lógica de elementos duais e de elementos binários de tipo forte para compreender né ser e não ser certo e errado Ah enfim essas estruturas Binárias nós tendemos não é a pensar de modo diferente eh essas relações entre indivíduo e comunidade que aparecem como dois polos distintos o pensamento africano não pensa assim e essa localização geográfica então do termo Ubunto estaria no mundo banto das línguas Zulu e lossa que estão na África do Sul
mas é um conceito que perpassa não só o mundo banto e o mundo banto no continente africano vai desde Camarões até a África do Sul um espaço imenso no No no continente mas essa esse conceito essa cosmovisão né em torno dessa natureza interligada da humanidade atravessa Praticamente todo o continente Africano em suas características tradicionais vale a pena lembrar que hoje o continente Africano em função dos do dos contatos coloniais e também dos fluxos migratórios de pessoas islâmicas eh de pessoas vindas do oriente para o continente Africano não apenas sustenta mais as cosmovisões africanas Tradicionais antes
da visita ou da da invasão dessas outras eh culturas e e sociedades né então se nós encontramos por um lado o termo Ubunto eh na na África do Sul o conceito de vun em todo o continente Africano tradicional né Nós encontramos também outras práticas de pensamento né seja vindas pela colonização seja vindas pelos fluxos migratórios né que chegaram ao continente quando você fala dessa localização geográfica Você fala muito Do não sei se é povo você é linguagem você é região banto Eu acho que eu acho que a pessoal que tá ouvindo aí não não tem
contato muito com a pensamento africano e tal eu também não tenho e a gente não sabe muito bem do que que você tá falando quando você fala disso assim você desce uma explicação sobre o que é esse termo o que ele significa Quem são os os banto então uma das características da da da organização do conhecimento sobre África é pensar eh a Geografia em torno da língua né o os bantos São pessoas que falam línguas do tronco bantu né bantu é uma um nome que foi dado a um conjunto de línguas falada nesse nesse Território
que vai desde Camarões até a África do Sul né que tem uma espécie de Irmandade linguística assim como tem o português o espanhol o francês o italiano seja tem uma espécie de Irmandade linguística e todo esse povo foi chamado eh em função da sua prática dessa língua Existem muitos Grupos étnicos né o povo bantu acabou sendo identificado como um grupo étnico né O que é incorreto porque existem várias culturas bantas várias línguas bantas é porque um o bantu é um grupo linguístico que acabou identificando esse conjunto de populações que falam essas línguas e essas línguas
de alguma maneira acabaram denominando esse conjunto muito vasto de pessoa né e a Nesse contexto linguístico que você encontra a a expressão eh Ubunto e de um Modo geral nós encontramos essa palavra falada na África do Sul do ponto de vista geográfica né que no centro sul do continente africano né que é um dos países que tem né línguas e populações que pertencem ao grupo banto e vale a pena anar que a noção de banto né ou a a a palavra banto traduz humano né é uma outra palavra para ser humano né in tu como
essa força vital a ou essa energia essa força vital que a a dibia falava na na no podcast em que ela participou n é E bantu você geria essa força encarnada nos humanos então é uma palavra para falar de humanidade obviamente não são os bantus que que que nomeiam a si mesmos assim né nem deram esse nome pra sua própria língua já foi uma uma palavra atribuída não é por esquemas coloniais né então às vezes é importante notar isso porque a autodenominação dessas pessoas é diferente do modo como nós as nomeamos a partir da experiência
do do da colonização eu não sei se isso Ajuda a entender o que seriam o que seria esse grupo étnico né bantu sim sim acho acho ficou bastante Claro é é interessante quando a gente vai estudar o butu tem essa divisão até que o Anderson já colocou né Umbu né o ninu E aí eu queria que ele falasse um pouco mais sobre isso assim para ficar mais sobre a a composição da palavra né um dos teóricos eh acerca de Ubunto que é o o Mogobe Ramos fala da Palavra como um termo composto né de ubu
e in in tu essa essa força vital que compõe tudo no universo né é uma energia dinâmica que tá presente em nas coisas e na na em toda a natureza tudo o que existe h em tuja como se fosse a aquilo que os press socráticos de alguma maneira tentavam procurar como arqué aquilo que compõe tudo para o o mundo bantu seria essa noção de intu né e o ub bu seria uma forma de Individuação partilhada que já começa a bagunçar o nosso a nossa compreensão né porque a gente pensa em individuação como aquilo que nos
separa do que é coletivo a noção de de ubu é exatamente essa individuação que se dá no coletivo se dá coletivamente é como nós se nós pudéssemos pensar na formação de grandes famílias e que isola não é eh a humanidade dos humanos da humanidade de outras de outras figuras Que compõe né aquilo que seria eh o conjunto dos existentes então o buntu seria essa força vital né que De algum modo se projeta ou se manifesta ou aparece na humanidade dos humanos né E ao mesmo tempo em que essa que a humanidade de humanos é alargada
não é também fala desses humanos que nós mesmos eh somos a palavra tá vinculada com isso mas com essa manifestação dessa força onipresente né Essa Força Viva dinâmica Transformadora numa individuação coletiva né que faz com que nós só possamos existir em múltiplas complexas e tensas relações com o restante da humanidade e aí é muito importante pensar que não é eh Às vezes as pessoas fazem usos meio como é que eu diria românticos da noção de Ubunto como se ela fosse uma teoria da harmonia em que essa relação de interligação Faria com que tudo fosse lindo
e maravilhoso e perfeito e não necessariamente é assim Né as interconexões Entre todos os seres humanos comportam conflitos comportam desacordos né E esses desacordos é que tem um modo particular de tratamento a partir dess situção de Ubunto Ubunto teria exatamente a ver com essa a palavra Ubunto né sendo tendo Essa dupla Essa dupla formação dessa força Fundamental e daquilo que dessa força se expressa na comunidade de humanos que faz com que cada indivíduo cada pessoa exista né em seu caráter profundamente Interligado interdependente e dinâmico também né Essa essa interligação não é estática não se dá
sempre da mesma maneira não é cristalizada não tem formas pré-definidas porque o o conjunto da dos existentes tem formas e modos diferentes de se interligar É interessante fazer essa ligação até com o que eu falei né Episódio sobre filosofia Africana e ancestralidade né dessa relação m com ancestralidade né que nunca é um Indivíduo único mas um indivíduo coletivo e que essa coletividade modo algum de modo algum Nega esse indivíduo né Exatamente porque fica parecendo também que é uma outra idealização do dos Mundos africanos que é um coletivo sem pessoas né como se fosse eh uma
uma pura forma coletivista sem espaços pro eu individual o eu não é que o eu individual não exista esse eu individual é completamente vinculado e mesmo subordinado é uma palavra que pra Gente pode ser muito eh angustiante subordinado às dinâmicas da comunidade só que essas essas dinâmicas da comunidade ao contrário da nossa porque Nós pensamos né o individual e o coletivo como polos distintos das relações humanas pensamos que de uma maneira geral nós tendemos a hierarquizar de modo opressivo o individual ou coletivo Quando pensamos nessa malha social que privilegia o coletivo não é e secundariza
o Individual né só que a relação apesar de haver uma primazia do coletivo sobre o individual é uma é uma primazia ontológica mais que que política que que quer dizer essa primazia ontológica mais do que política ela tem a ver com o fato de que a própria condição de existência de cada ser humano individual passa historicamente pelo coletivo né É preciso que tenha havido um grupo anterior né para que uma pessoa nasça a pessoa não nasce do nada sozinha e é Poss e é necessário do ponto de vista de uma ontologia natural que a pessoa
seja feita de elementos coletivos anteriores né que vem da natureza eh que vem dos próprios corpos das outras pessoas que conformam a coletividade anteriormente ao surgimento ao nascimento de uma nova pessoa mas isso nada tem a ver com que isso entre atrito até porque o conflito o dissenso A pluralidade de projetos de mundo é sempre presente na comunidade a comunidade não é um um um todo homogêneo Harmonioso onde todo mundo pensa mesma coisa e sobretudo eh na qual exista uma regra única de resolução de conflito resolução de conflitos é coletiva também e É nesse e
É nesse sentido que há uma espécie de anterioridade H óg que determina os modos políticos de resolução de conflitos e de organização da da vida ela mesma porque nós estamos pensando eh em modes liberais né que pensa uma característica fundamental dos indivíduos a liberdade a autonomia Enquanto que para essa perspectiva Ubunto nem a noção de liberdade e nem a noção de autonomia fazem sentido uma vez que você nunca é livre porque é condicionado pelo coletivo para existir por isso que eu tô chamando a atenção que é uma espécie de anterioridade ontológica e não é autônomo
porque você não pode simplesmente dar a si mesmo as suas leis de modo desligado do dessa dessas condições que a própria comunidade Eh te oferece a sociedade te oferece limitações inclusive você não pode dar as leis a si mesmo para viver como vive uma ave né você não pode decidir dar as próprias leis a si mesmo para poder voar né Sem aparelhos sem mecanismos artificiais construídos socialmente ou seja há limitações ontológicas paraa liberdade e paraa autonomia nós somos seres sempre coletivos não é e a agência eh independente a é uma agência individual De algum modo
de cada indivíduo de cada ser humano passaria por esses acordos com essas mediações coletivas não é que constroem a sociedade constrói cada pessoa eh que nasce né no interior dessas sociedad eu acho que uma uma eu queria que o Anderson fal desse falasse de uma alguma narrativa antes se aplicasse o bunto aí eu acho que a narrativa sobre apartar de uso do Nelson mand ela é a narrativa mestra assim geralmente voltam A ela mas se ele tivesse outras narrativas para comentar seria interessante Então o bunto aparece como uma categoria que rege a vida como um
todo nós aqui por não compreendermos vamos sempre procurar narrativas exemplares como é o caso do apartado ou essa fábula completamente falsa de um antropólogo que vai a uma comunidade bota doce para pra gurizada pegar e elas vão todas de mão dadas isso eh São narrativas exemplares que só fazem Sentido para explicar o bunto para quem não vive o bunto então a própria comissão de verdade e reconciliação que aconteceu no na África do Sul pós apartai operou de maneira muito tensa com o bunto que o bunto ali serviu como uma justificativa do perdão aos brancos racistas
que matavam pessoas durante o regime do apad né Lembrando que a constituição e as leis da África do Sul permitiam a pena capital que quando identificados alguns crimes poderiam ser Aplicados as pessoas que foram julgadas como criminosas né E que se utilizou o bunto estrategicamente para perdoar essas pessoas e não condenaras a morte seguindo a própria lei do continente da do da do país da África do Sul né E esse foi um um desconforto por parte importante das Comunidades inclusive não há uma no interior da África do Sul não há um consenso de que Mandela
é um um uma figura eh que participou de maneira Positiva em todos os processos de de ah libertação vamos dizer assim do do do dos povos negros da figura do apartai e que essa mediação do do do Perdão teve inclusive consequências dramáticas né porque não se não se desconstruiu assim essa elite branca né e os desmandos racistas continuaram inclusive depois da da da Comissão de Justiça e reconciliação Então eu acho que esses exemplos que nós temos são sempre muito ruins eh me parece que é mais Interessante tentar compreender o bunto a partir da descrição que
pessoas africanas têm feito da organização das Comunidades como por exemplo eh as comunidades lidam com os conflitos as comunidades regidas pelos saberes tradicionais Você tem uma pessoa que resolveu tomar para si né Resolveu tomar para si uma parte da terra da Comunidade uma coisa que não faz parte eh da organização social desses povos especificamente seja a Terra é de uso Coletivo e o que que se faz quando isso acontece o bunto levaria a a a tentar mediar o conflito tentando não expulsar a pessoa da comunidade mas tentar tentar fazer com que ela repense os impactos
da comunidade uma vez que essa negociação dá certo você perdoa a pessoa porque não teve um impacto negativo na na na comunidade então perdão é parte da dinâmica política Ubunto na medida em que você quer preservar o bom funcionamento da da da comunidade que Vai continuar tendo conflitos vai continuar tendo dissensos mas quando a isso não dá certo quando a pessoa de alguma maneira insiste em lesar não apenas uma pessoa específica mas como quando se lesa uma pessoa se lesa toda a comunidade aí o bunto leva a perspectivas de tentar construir caminhos para evitar que
o dano à comunidade o dano a pessoas singulares continue se isso implicar que a pessoa seja expulsa da comunidade se isso Implicar que a pessoa seja punida por algum tipo de lei local que essa comunidade utiliza Isso vai ser eh operado né ou seja o bunto aparece como uma perspectiva que tenta ver de que maneira quando aparece um conflito o que se leva em consideração é o impacto daquilo que eh individualmente se faz pra comunidade por um lado e por outro a percepção de tudo que atinge de tudo que vulnerabiliza uma única pessoa tem a
potencialidade de vulnerar toda qualquer Pessoa e in com isso a própria comunidade a própria sociedade então a perspectiva Ubunto está muito mais interessada em tentar ver de que maneira preservar o corpo social funcionando de maneira não autodestrutiva né que não seja autodestrutivo e criar e mecanismos de resolução desses conflitos que danem menos a sociedade né que danem menos a comunidade se simplicar em perdoar que seja o perdão mas simp implicar em punir que seja a punição por isso que a as Pessoas há uma uma grande parte do dos pensadores acerca de Ubunto na África do
Sul que tem uma profunda da imagem do Mandela que optou apenas pela perspectiva do perdão e fez com que se oferecesse ao mundo católico ao mundo protestante da África do Sul eh elementos muito confortáveis para não resolver o conflito você ficou só com a parte do perdão mas não não resolveu o conflito Isso foi um problema né pro contexto sul-africano e continua sendo Porque o apart acabou formalmente mas não na prática Esse é o ponto é muito bom porque eu já tava eh sempre a gente acaba escorregando nisso e aproximando o bunto de algum tipo
de cordialidade não tem nada a ver com isso né exatamente não tem nada a ver com a cordialidade tem a ver com a manutenção com os meios de manutenção da vida coletiva eh obviamente isso pode resultar em cordialidade Vai resultar quase que que necessariamente numa hospitalidade num Acolhimento num cuidado mas não num cuidado que tem a ver com abnegação profunda mas tem a ver com o fato de que se nós não cuidamos do coletivo se eu não cuido da pessoa que tá do meu lado a vulnerabilidade que a atinge tá atingindo toda a comunidade e
pode invariavelmente me atingir né O que desestrutura o funcionamento do mundo social não tem a ver então com um espírito de abnegação de cordialidade irrestrita que pode aparecer muito mais Numa numa espécie de caricatura dos Mundos africanos né que parece muito com a ideia do bom selvagem do nosso romantismo não sei se vocês se recordam se vocês CONSEG se vocês veem essa ligação não é que você idealiza as sociedades originárias né E aí também as sociedades originárias africanas para fazê-las dizerem aquilo que te interessa isso é muito muito perigoso que é reducionista e porque é
falso né e eu acho que nesse nesse sentido da Idealização do povo africano tem também uma uma idealização pro outro lado também em vez de ser esse bom selvagem de ver o africano Principalmente quando você vai ver no nos filmes essas coisas assim de ver o povo africano como um povo violento e que não não tá aí pra conversa né tá aí para para pegar em armas e e muito cruel acho que tem essa outra idealização também assim pro lado ruim né que acaba que o bunto traz uma outra uma perspectiva que você vê que
é Bem diferente disso também né exatamente Murilo eu tenho a a a impressão que que o bunto quebra o maniqueísmo que o ocidente normalmente utiliza nos estereótipos ou as pessoas são quase que essencialmente bons selvagens ou elas são essencialmente bárbaras e violentas na natureza Há de tudo as pessoas são plurais elas têm diversos valores e exatamente em função deste caráter dinâmico múltiplo da estrutura mesma da realidade que se se internaliza nos Humanos através de Ubunto nós encontramos também essa pluralidade no no nos povos africanos a partir da perspectiva Ubunto né ou seja Ubunto sempre vai
te lembrar que as pessoas não são uma única coisa e por elas não serem uma única coisa é importante que a gente não as capture né numa categoria homogeneizante que simplifica a experiência que é sempre plural e que sempre nos escapa e e isso é muito interessante o Ramos pensa aqui uma Linguagem Que desse conta de capturar não é ou de pelo menos descrever com o mínimo com o mínimo de precisão ou com o mínimo de proximidade a experiência marcada por Ubunto seria uma linguagem que funciona numa espécie de modo né Ele utiliza essa expressão
para resgatar a a ideia heraclitiana de que tudo flui para tentar encontrar uma linguagem que escreva essa fluidez e essa multiplicidade não é que não seria uma linguagem então que simplifica de modo Maniqueísta em pensar que que essas sociedades ou são boas ou são más ou são civilizadas ou são bárbaras eh elas são muitas coisas e e por isso que é importante tentar entrar em contato com uma linguagem que dê conta né dessa multiplicidade desse conjunto muito diverso de de caracteres que conformam toda a humanidade e essa linguagem reom que o o o Ramos propõe
né seria muito próxima daquilo que nós no ocidente entendemos como poesia e vale a pena Pensar que pras culturas tradicionais africanas de um modo geral em todo o continente Africano eh não há uma distinção entre uma função denotativa e uma função poética da linguagem toda a linguagem é polissêmica e toda a linguagem é aberta em sentidos o que o que faria com que toda a linguagem se nós [Música] experiência que é sempre aberta sempre plural e e nem sempre previsível o que a Gente pode fazer é pensar nos impactos pragmáticos né nos efeitos que tem
a ação nos efeitos que tem a que tem a linguagem paraa experiência coletiva eh das Comunidades e tentar entender de que maneira isso de algum modo pode ser eh utilizado para reduzir os os efeitos do do de uma ação danosa paraa comunidade e para as pessoas pessas né individualmente o Anderson falando me remeteu remeteu a dois livros o retorno do bom selvagem Doha e o espírito da Intimidade da dafu somé assim esse livro particularmente eh conta um pouco da história de um casal que sai de de uma comunidade Africana e vai morar em um país
europeu D dificuldade até em manter a relação porque e tá vivendo uma sociedade muito individualista né onde esse indivíduo único é aquele que sobressai e totalmente o contrário contrário a essa perspectiva né da individuação na cultura nas culturas tradicionais Africanas assim então fui pensando nesses textos assim a gente sempre pergunta sobre né os exemplos como o Maros pergun e eu eu acho interessante o Anderson tá falando do T né e e continuamente me remete a questão mesmo da filosofia da ancestralidade né Essa questão da palavra criadora e e desse encantamento que eu particularmente vejo quando
ess quando fala dessa questão da da linguagem dinâmica aberta né que é essa Questão de você você cuida a partir do momento você cuida do outro e e isso exige que você cuide de si mesmo né Tem um um um respeito maior por você mesma a questão da linguagem é extremamente significante né então a gente tem que ter também esse cuidado com o que se vai dizer porque a palavra ela é Sagrada né nas culturas tradicionais africanas não seria uma pergunta mas comentários é isso é é importante eh Inclusive essa seria uma das minhas Sugestões
de leitura o livro da da da su fusé Exatamente porque ela fala eh desse cuidado com o outro através da palavra e num mundo como o nosso que institucionaliza a lei como um modo de linguagem né a lei é um código linguístico acima de qualquer coisa um código linguístico institucionalizado nós tendemos a simplificar as relações entre as pessoas em função de uma formalização da palavra e ela perde o seu caráter criativo Ou Pelo menos diminui ou restringe o caráter criador da palavra e perde muito da dinâmica das relações humanas o que que acontece não só
quando você não tem a intenção de causar dano mas quando os efeitos desses danos não são mensuráveis pela formalização da palavra e e isso é muito nítido no mundo no mundo individualista né em que eh nós organizamos a a o julgamento da ação através de impactos individuais e nós agora que estamos tentando dar conta No termo sobretudo dos direitos internacionais no que que acontece quando uma ação seja provocado por um sujeito ou por uma comunidade tem danos coletivos seja danos ao meio ambiente seja danos à própria Cultura né através da da perspectiva do epistemicídio em
que você mata conhecimentos e com isso você extermina as pessoas naquilo que elas porque elas também são aquilo que elas conhecem pro mundo tradicional africano Aliás elas só conhecem e na medida em que elas se conectam experiencialmente com aquilo que elas procuram conhecer é o contrário do que a gente pensa no Ocidente que quanto mais distanciado um um indivíduo do seu objeto de investigação melhor ele conhece o continente Africano de corte tradicional pensa ao contrário que quanto mais inserido quanto mais mergulhado nessa Perspectiva da icia naquilo que você procura conhecer o conhecimento é mais Preciso
é mais acurado quando você se desliga disso em termos individuais você cria eh cortes na experiência que são perigosos porque eu não consigo mais avaliar de modo preciso os impactos coletivos da ação e isso Dana a maneira isso prejudica de maneira fundamental as relações tradicionais em que são todas mediadas pelo coletivo em que os erros nunca são apenas erros individuais a a própria comunidade vai se perguntar o que que ela fez de errado para que Aquele erro particular emergisse né Eh pense hoje na discussão sobre a redução da da da maioridade penal isso é um
caso clássico disso né Nós tentamos pensar de modo dicotômico a questão ou o problema é só do Adolescente ou o problema é só da sociedade nunca pensa num contínuo entre essas duas essas duas instâncias do Adolescente pensado como uma figura particular e da sociedade pensada como essa essa rede Que estrutura e que faz aparecer o próprio adolescente como uma Figura individual e como essas eh essas ligações proporcionam não é a entrada de adolescentes no crime ou a a o impedimento de que esses adolescentes tenham uma vida criativa uma vida vinculada com o fortalecimento dos laços
comunitários então quando Nós pensamos apenas de maneira dicotômica entre o coletivo e o individual tendemos a fazer uma uma leitura que responsabiliza apenas um dos pontos e isso é muito complicado para tentar ler Desde a perspectiva Ubunto porque ela vai chamar a atenção de que isso vai ser sempre uma leitura parcial que não vai resolver o problema porque seja se eu esquecer dessa figura individual que é o adolescente ou seja se eu esquecer dessa estrutura coletiva que é a comunidade eu vou deixar Sempre elementos fundamentais de fora né Então como que a gente pensa e
em termos e de articulação essas duas instâncias para poder pensar em casos que não lidem apenas com os sintomas em Vez de lidar com a origem dos problemas e acho que o bunto tá interessado em pensar na raiz dos problemas e o livro da sobonfu somé é muito preciso nesse caso particular em que ela tenta mostrar de que maneira essa esse ligamento entre as instâncias do da da vivência coletiva e o assento no eu individual no eu autônomo no eu livre não eu que seja a fonte dos direitos sendo que pensando o ser humano individual
como sujeito natural de direitos como que isso de Alguma maneira eh barra não é a construção de alternativas mais consolidadas para conflitos que se instanci na na na na dinâmica do próprio individual né e ela é muito cuidadosa em tentar mostrar que o o ocidente tem fracassado em resolver questões importantes por não prestar atenção nesse complexo relacional que nunca é apenas individual e nunca é apenas coletivo não é à toa que o livro se chama o espírito da intimidade e para Pensar na intimidade se fala no coletivo eu queria que o Anderson comentasse eu acho
que ele já falou sobre isso mas sempre implicam isso a relação entre o bunto e globalização sempre usam o bunto como espécie um elemento chave na possibilidade de pensar uma conexão entre o mundial e o local esse tipo de pensamento mais amplo ele vê essa aplicação em termos de relações internacionais o bunto é uma crítica a a pode aparecer como uma crítica às Relações internacionais Exatamente porque a a comunidade ela não é um todo articulado o mundo não é um todo articulado o mundo é um conjunto de famílias diferentes que T práticas costumes linguagens normas
transitórias eh localizadas e a globalização de alguma maneira tenta reduzir os impactos dessas normas dessas culturas locais nãoé em detrimento da Constituição de uma malha maior de uma malha global que Eh ditaria as normas é como se fosse uma espécie de paroxismo desse discurso coletivista só que é um coletivismo Calçado em termos materiais vinculados com a economia que seria uma tragédia pro pensamento Ubunto uma vez que eh a economia é um dos modos de ser que se instanci na raiz do do chão em que se pisa seja a economia seria sempre para atender questões demandas
problemas conflitos locais uma economia global ou uma economia Universal seria uma uma Tragédia porque não seria capaz de visualizar aquilo que a comunidade Pensa a comunidade sempre pensa em termos locais Isso é uma das grandes críticas que se tem feito ao pensamento Ubunto né em tentar pensar que ele é um pensamento provinciana é uma filosofia provinciana à medida que só dá conta daquilo que aquela pequena sociedade pensa mas é mais complicado do que isso o bunto apareceria como uma perspectiva que tem um alcance que se pretende Universal eh Em termos ontológicos mas pensando que essa
ontologia sem sempre se eh atualiza ou sempre se verifica no mundo da experiência em termos locais ah e o ponto é como pensar eh num uma manifestação Universal daquilo que é sempre local sem implicar em violências aos contextos locais que é um dos grandes dramas da da das críticas mais usuais em em acerca da globalização autores como o Milton Santos ou o Boaventura de soua Santos Estão tentando pensar em uma espécie de globalização solidária mas isso tudo impacta ou tem que responder não é ao modo como a gente carrega a economia como modo privilegiado de
entender o que seja a globalização isso seria um problema e o bunto aparece Então nesse cenário como uma espécie de teoria crítica que nos leva a pensar que eh se é verdade que nós somos todas e todos humanos eh em função de fazer parte de uma espécie de grande comunidade Histórica ancestral né não é verdade que essa comunidade se eh movimente ou que ela se atualize eh da mesma maneira em qualquer lugar do mundo e assim como há conflitos internos no interior de uma mesma comunidade haverá também conflitos eh entre comunidades diferentes e essas comunidades
diferentes se prestarem atenção em Ubunto vão evitar exatamente fazer ingerências no local do outro o local do outro de alguma maneira é Inviolável não apenas porque eu não Entendo a experiência desse local por não vivê-la né Eh lembrando daquela ideia do conhecimento apenas eh numa imersão experiencial como o bunto Notaria que a solução para um conflito num determinado local não necessariamente funcionaria num outro eh isso uma solução de um conflito moral de um conflito político de um conflito econômico de um conflito religioso de um conflito epistemológico não funcionaria Necessariamente porque funciona num lugar em outro
então Ubunto apareceria como uma espécie de grande crítica a essa malha universalizante da globalização mas ao mesmo tempo seja um desejo de que essa solidariedade pudesse né que é típica de Ubunto pudesse sim né ser eh mostrada como esse projeto de encontro no meio da pluralidade e da da diferença já que o o bun tem um pensamento sem outro né é um pensamento que não se vincula tanto com a imagem de Alteridade e que seria uma alteridade é quase uma categoria fundamental do pensamento da globalização seja por um acolhimento da da alteridade seja por uma
recusa da alteridade mas alteridade é sempre uma categoria importante pra globalização e não é uma categoria importante para o bunto em função de que se pensa uma primazia do do nós do coletivo se tudo é nós onde é que fica o outro quem é o outro outro no mundo onde tudo é nós né isso tem um impacto muito Importante pr pra globalização embora esse nós possa ser pensado não contiguamente em todo o universo esse nós que aparece eh num local é diferente de um nós que aparece num outro local mas esse nós que aparece no
outro local nunca é um outro com relação ao nós que se instancia no meio local e isso é um é uma crítica muito importante muito consistente a a a esses projetos de globalização que mesmo muito bem intencionados findam por apresentar Consequências muito nefastas paraas organizações locais das culturas tradicionais eu quero vou fazer aqui duas perguntas que são muito polêmicas principalmente na minha área de atuação que na minha área de Formação que eu sou formado em computação eh a primeira é a pronúncia correta é o bunto ou buntu e e a segunda é sobre o a
distribuição Linux que existe que temu nome de Ubunto né O que que você acha dessa distribuição acho que dá vai dar uma certa polêmica Aí né Existem duas pronúncias na na da palavra eh Ubunto a depender se você tá falando em em em lossa ou se você tá falando em Zulu em Zulu é Ubuntu não é em lossa o buntu É como democrácia e democracia né então a depender a depender de que lugar a palavra apareça ela vai ter uma acentuação diferente então eu tenderia a dizer que as duas podem ser válidas a depender de
onde você esteja catando o significado fonético da palavra e ou a pronúncia da Palavra eu tenho uma uma leitura não não convencional da da aparição ou da apropriação de Ubunto pelo sistema Linux se nós estamos pensando né se nós estamos pensando nesse caráter colaborativo nesse caráter que de alguma maneira tenta construir um comum que Facilite a vida do operador individual de um sistema qualquer eh Ubunto parece o sistema Ubunto parece fazer juz não é a a a essa herança não é da palavra dos conceitos Do pensamento africano agora se o que tá em jogo é
apenas uma espécie de instrumentalização técnica né que eh muitas vezes despreza inclusive as experiências locais porque coloca o mto numa rede Universal onde tudo pode contribuir com tudo em qualquer lugar do mundo a partir de qualquer perspectiva eh meramente benevolente aí nós encontramos uma idealização desse Ubunto que apareceria como uma outra forma de globalização no sentido em que a gente Comentava antes seja é possível ver né aspectos interessantes e aspectos desinteressantes no sentido que o bunto aparece nessa distro do Lino né então me parece que se Nós pensamos em seu caráter colaborativo temos aí uma
dimensão interessante se nós temos uma dimensão expansiva universalizante A nós temos uma dimensão problemática que apesar de problemática não seja não chega a ser eh contrária à própria dinâmica do do do Bun no pensamento africano banto porque meu sonho era que nós tivéssemos que pensar em que maneira um um sistema como o Linux eh se universalizou que não é verdade ainda né o Linux e o bunto sobretudo ainda aparece na periferia dos Tratos computacionais e na na na Constituição de sistemas operacionais ainda né embora tenham muitos usuários pelo mundo ainda é periférico ainda é marginal
Então nesse sentido eh essa universalização não chega a ser um Problema né enquanto a gente continua tendo sistemas eh da da Microsoft e da Apple dominando o mercado né E numa comunidade de software livre como o Linux eh não me incomoda de modo algum ainda eu queria ver no mundo onde eh eu precisasse movimentar as categorias para criticar ainda eh o bunto como uma distro do Linux Mas a gente não vive nesse mundo nosso mundo ainda é um mundo competitivo que se divide entre esses softwares proprietários né que ditam a Norma do que muito do
que funciona na na na na informática e nas redes mundiais de computadores e Linux e o bun ainda seguem marginalizados então eu não não não me preocuparia pelo menos por enquanto né com essa apropriação Ocidental no caso do do do Linux da categoria de fundo eu me preocupo muito mais com as apropriações mercadol lógicas da categoria de Ubunto né Se vocês lerem um livrinho que ficou famoso aqui no país que foi o primeiro Livro sobre Ubunto que se se publicou em português chama Ubunto eu sou porque somos né do stepen lundin e do Bob Nelson
foi editado Pela Saraiva Isso me preocupa muito mais porque mostra possibilidade de utilização da expressão Ubunto para tentar sobreviver nesse nesse no mercado de trabalho de uma maneira colaborativa seja eh dito de uma maneira bastante vulgar é como não nos ferraros sozinhos né como criarmos as condições para que o trabalhador siga Explorado né mas com um um contexto solidário né Vamos ser explorados solidariamente essa ideia de colaborador mas que colaborador é esse que continua sendo eh não apenas não determinando Como as empresas funcionam como a a a propriedade dos meios de produção funcionam isso é
completamente estranho e completamente Aí sim perigoso pro contexto do do ah de Ubunto e acho que Ubunto no no Linux é a menor das minhas preocupações acho que essas essas Apropriações que eh fazem uso mercadológico que tentam dizer olha trabalhadora olha trabalhadora em vez de vocês competirem entre vocês colaborem para que a empresa Cresça com isso vocês estariam protegidos não com isso o sistema de exploração do trabalhador e da trabalhadora estaria protegido estaria fortalecido e não o trabalhador a trabalhadora de modo particular porque eh o bunto pode aparecer como aparece no caso do da personagem
central do livro Do do lunden e do Nelson como essa figura que de uma maneira que evoca essa imagem que você trouxe antes Acho que foi o Murilo que chamou a atenção sobre isso de um um um trabalhador uma trabalhadora que eh haja com cortesia que haja com benevolência no interior da empresa que não se revolte contra os os esquemas de opressão que não se revolte que não brigue eh contra a estrutura que explora no interior da empresa Isso me preocupa bastante bastante mesmo na Verdade essa parte final da exposição de o Anderson me remeteu
a gente ter esse cuidado de novo com a questão da fala né porque Às vezes a gente escuta muito o pessoal falar olha Umbu olha Umbu vamos ter né ouvir essa questão do Umbu E aí é são as questões do esvaziar o conceito né entre aspas aí então Acho interessante que a gente Procure viver mais Umbu do que fazer um discurso que muitas vezes é um tanto complicado dentro da Nossa concepção né de querer achei muito interessante a exposição aprendi mais ainda é porque eu não sei se tem o que responder a acho que ela
tá corretíssimo eh eu acho que uma que a gente normalmente pensa que o epistemicídio aparece apenas na forma da negação do pensamento do outro né mas o o epistemicídio pode aparecer de uma maneira muito eficaz numa apropriação destrutiva do pensamento do Outro exatamente tirar o o o pensamento do outro da sua dinâmica originária o que não quer dizer que a gente não possa utilizar né ou ou fazer apropriações criativas de conceitos que tenham sido criados em outras culturas né até porque é o que a gente faz no Brasil o tempo inteiro uma vez que a
gente praticamente não pensa a partir do Brasil mas pensa muitas vezes do contexto da da Europa ou dos Estados Unidos então a gente muitas vezes faz isso mas o ponto é que quando Essa essa alteridade aparece de um modo bastante radical nós podemos destruí-la de maneira muito eficaz dizendo Sim estamos com vocês é preciso ter cuidado nessa apropriação desde fora que não e aí não se trata apenas de fazer um ter um respeito por aquilo que o outro pensa mas em tentar eh não fazer com que o outro suma no contexto daquilo que ele pensa
que eu acho que é o que esse livro fez né esse livro B sou porque somos você nunca mais a partir dele encontra a Dinâmica conflituosa da organização societária ou comunitária A partir daquela perspectiva aquela perspectiva faz com que a a noção constituinte do conflito seja utilizada a favor do mercado e o mercado não fosse algo que devesse ser problematizado com entre todas as outras coisas da da experiência humana A partir dessa leitura feita acho que isso isso é epistemicídio na sua forma mais sofisticada na sua forma mais danosa né que faz com que a
gente mate o Saber do outro não é acolhendo esse saber acolhendo de maneira perversa esse saber bom agora acho que a gente pode partir pra parte das indicações né o Anderson você tem Trouxe alguma coisa aí pr pra gente hoje de indicações trouxe Sim né e tomando em consideração né a esse caráter de Ubunto vinculado com esses contextos coletivistas e a e tentando não fazer dicotomias entre o coletiv e a aparição da da subjetividade singular das pessoas eh eu indicaria Como livros o texto do José castiano que são os referenciais da filosofia africana em busca
da intersubjetiva Ele tá em português o castiano é um é um é um filósofo moçambicano né que tomando em consideração Esse aspecto coletivista da organização da subjetividade né nesse livro ele traz interessantes discussões sobre o pensamento africano e entre elas né o o Ubuntu né Tem um capítulo sobre o buntu ismo que nos ajudam a entender a questão da intersubjetividade aqui eu tô Vou privilegiar os livros em língua portuguesa a outra sugestão de livro é um texto muito bonito da lei da Maria Martins que se chama Agro afrografias da memória né ela parte da discussão
das manifestações do reinado do Rosário em Minas Gerais que é uma das das práticas tradicionais populares mais famosas aqui do do do do centrooeste mais Sudeste mas está muito próximo do centrooeste que tem elementos africanos na nossa cultura não é e a autora reconstrói né as Maneiras como as memórias africanas em sua coletividade trazem coisas que a gente poderia chamar de ponto de ancoragem que mostra esse contínuo né entre o pensamento e as práticas bancas e a nossa cultura no Brasil é bastante interessante é um livro que tá disponível em língua portuguesa também é é
uma autora brasileira o terceiro livro que eu gostaria de sugerir é o livro do shinu o mundo se despedaça né que é um Livro muito interessante que narra eh os impactos coloniais na vida de uma sociedade tradicional africana aqui Não no mundo banto mas no mundo IB na Nigéria né e conta como essas existências coletivistas foram minadas né pelas estratégias eurocêntricas no continente africano sobretudo na relação com a igreja e como o projeto Colonial danificou essa organização societária no mundo tradicional africano e a minha última sugestão de livro é um romance Que assim como do
do Shino cheb também Fala dessas desses conflitos com o mundo tradicional mundo moderno que é o o romance que é o maior romance escrito em língua portuguesa no Brasil da Ana Maria Gonçalvez que se chama um defeito de cor que conta a história da Ke que é uma criança que sai do do do daé ela é tirada ela não sai el é tirada do do do daé durante o tráfico e fala da necessidade de recriar né E essas identidades a sua luta para sobreviver Entre um passado no qual se fizera como parte de seu povo
no seu coletivo a sua identidade era dada por esse coletivo e agora ela tenta refazer isso retomar a sua posição de gente de ser humano atravessando a história do Brasil e das religiões matrizes africanas né na busca de tentar encontrar um novo solo para dar sentido coletivo à vida e não que não seja um sentido coletivo dado por essa estratégia Colonial que refaz os coletivos em termos opressivos essa Seria a seriam as minhas sugestões de livro eh eu trouxe também sugestões de de filmes o primeiro que faz referência explícita a noção de Ubunto que é
um filme do John burman de 2003 se chama em minha terra né que conta a história de uma jornalista americana que vai cobrir as atividades da Comissão da Verdade e reconciliação lá na na África do Sul n tentativa de finalização do apartai e que acaba se encontrando com esses Valores né a partir das das narrativas trágicas não é da da do apartai ela encontra esses valores outros entre eles O bunto nãoé que é muito que mostra essa estranheza pros olhos ocidentais n desses valores frente a esses horrores que o apart provocou um filme que que
ficou famoso inclusive por introduzir a palavra Ubunto no vocabulário cinematográfico norte-americano o segundo filme que eu sugiro é um documentário que vocês Encontram facilmente na internet que se chama o cuidar no terreiro que ele foi feito num parceria entre a rede nacional de religiões afro-brasileiras e saúde e o ministério da saúde que conta sobre a prática do cuidar e do acolhimento nos terreiros eh mostrando que essa forma de integração que é o cuidado e o acolhimento é uma das nossas heranças africanas e ali para quem tava procurando exemplos eh não dramático sobre o bunto nós
encontramos aí uma uma Bela narrativa que passa por diversos lugares do país Maranhão Rio Grande do Sul Bahia Rio de Janeiro né pensando como essas comunidades que conservam heranças africanas através dessa noção de cuidado e acolhimento mostram né O que é o bunto na prática e o último filme que eu sugiro Esse é um filme de 2013 2014 é o o o cuidar no terreiro é um documentário de 2003 2014 e o o último a minha última sugestão de filme é o keita a a herança do gro que é um um É um filme muito
muito bonito que fala da importância das narrativas ancestrais né que contam as histórias dos nossos antepassados das nossas comunidades como partes constitutivas de nós né E esse filme aborda eh ainda o o conflito entre a tradição e a modernidade nos mundos africanos quando nós tentamos ensinar as crianas a se tornarem pessoas nesse conflito né entre aquilo que a tradição lega e aquilo que vem em modelos coloniais um Filme muito muito bonito e que tem essa importância do trato coletivo pra constituição das pessoas Então essas seriam as min as minhas sugestões de filme e eu daria
como duas sugestões de música são duas são duas músicas africanas uma de um cantor ugandense que se chama Ed Kenzo que é a música [Música] [Música] cal can eu falo a po que [Música] que conta sobre a alegria de viver não temendo as perdas né porque as pessoas viveriam numa num conjunto de possibilidade mútua de de auxílio e o outro talvez da uma das cantoras africanas mais conhecidas que é a Miriam makeba uma música bastante conhecida que é o pata pata e e eu gosto dessa dessa música porque a Mir makeba foi uma uma cantora
sul-africana que lutou ativamente contra O apart e essa muito conhecida pelo mundo inteiro você esteja esse pata-pata que é uma dança coletiva que envolve o corpo e como esse corpo se move como que ele promove coletivamente o encontro e a festa e eu gosto dessas duas músicas porque elas são ambas em línguas nativas né seja de Uganda seja da da África do Sul porque a gente tá a ouvir músicas internacionais sej em francês inglês alemão enfim e não se esforçar por entender o que elas Compreendem Talvez seja interessante que a gente tem a curiosidade de
entender como que essas músicas se tornariam compreensivas para nós para entender um pouco das nossas heranças africanas Então essas são as minhas sugestões de música doed Keno e Pata Tem alguma indicação PR gente hoje não por conta do and é OK Marcos Você tem alguma coisa paraar temho sim tem uma indicação aqui eu acho que eu devia a indicação geral assim o programa do Rádio África do DJ sankofa da Educadora FM da Bahia Então quem quiser ouvir o programa pode procurar no site a gente vai colocar o link do site do do da Instituto de
radiodifusão educativa da Bahia aí você vai encontrar todo o arquivo e acervo desses programas da Rádio África o o sanc fo ter um trabalho já de oito oito anos aqui fazendo esse programa e ele tem um acervo muito grande sobre a música africana eu você vai ouvir ele comentando sobre as Músicas se aproximando do do universo das músicas é muito interessante Ah uma sugestão de filme Eu Vou sugerir um filme que eu comentei aqui numa amostra de cinema africano que eu achei muito interessante chamada o filme chama taum fanga poder de saia é um filme
francês de Mali passa em Mali foi filmado em 1997 eh o diretor é a Dama drabo é uma comédia que mostra uma inversão uma comunidade onde que uma comunidade africana onde há uma inversão as Mulheres tomam o poder né Então as pessoas podem rir bastante mas eu espero que elas possam pensar um pouco mais além das risadas E aí você vai ter uma perspectiva Acho que mais cosmológica sobre essa a relação até entre os gêneros também eu achei isso muito interessante nesse filme A outra sugestão de música A Última sugestão de música é uma música
chamada preconceito de um grupo chamado bota fala um grupo de hip hop muito [Música] bom Brasil Africa mão não H preconceito eu sou africano com muito orgulho par no fala não sempre cabeça erguida vamos conquistar estudantes é levados para Europa trazidos para as Américas usados como Cia trabalhando mas agora é a hora da nossa afirmação negro no poder negro no poder PR Eu sugiro para todo mundo que conheça esse grupo de hip hop em São Francisco do Conde tá fazendo muito sucesso esse Grupo e nessa música preconceito Tem uma parte da letra em que um
dos rappers diz assim o Magno ele diz eu sei que eu sei que você precisa de mim assim como Preciso de ti né então o preconceito não faria sentido se você leva em conta essa mútua necessidade e de viver em comum né e eu achei que a letra veio depois que eu percebi que ela rememoram um tipo de conceito um tipo de concepção de de subjetividade diferente Ah só só uma observação sobre o o filme keita A Herança do Grio que eu esqueci de dizer quem dirige e de onde é o filme o filme é
de 1995 de Burkina fao de um Diretor chamado Dani cui só para comentar a referência beleza as informações vão estar todas lá na no post né quem quiser ver eu vou indicar também aqui para vocês usarem o bunto né o a distribuição Linux ótimo bom estamos chegando aqui no final do programa queria agradecer o Anderson por ceder esse tempo aqui pra gente que Foi muito bom aprendi bastante aqui na conversa e o espaço tá sempre aberto também que sempre que você desejar Acho que você vai voltar aqui depois também pra gente falar de outros assuntos
né envolvendo ensino de envolvendo ensino de Cultura Africana e tal de de coisas até envolvendo a conhecimento da África queria abrir o espaço para você que se você quiser divulgar algum trabalho deixar algum meio de contato algum recado para alguém aqui abrir esse Espaço bom Murilo eu gostaria de agradecer a você ao Marcos e a dilben pela interlocução acho que o trabalho de vocês é muito interessante por criar esse esse espaço de discussão filosófica em meios alternativos e interessantes agradeço muitíssimo por poder poder colaborar com esse trabalho e Agradeço também o convite para falar sobre
outras questões e e aceito de pronto essa esse convite e outra coisa que eu queria divulgar para vocês é um Um site que eu criei né como parte da minha pesquisa na Universidade de Brasília que disponibiliza texto sobre a filosofia africana hã vou deixar o link com vocês o site se chama filosofia africana né tá hospedado no ible e filosofia traço [Música] africana.com que traz textos tanto de filósofas e filósofos africanos né traduzidos para o português como textos da diáspora E africana em vários lugares do mundo também em língua portuguesa e deixei também Alguns alguns
vídeos lados que tem como objetivo disponibilizar materiais em língua portuguesa que são muito dificuldade imensa de acesso para que professoras professores estudantes consigam ter um conjunto mínimo de materiais sobre a filosofia africana à sua disposição e depois eu passo então o link para vocês e agradeço a oportunidade de novo Muito obrigado aqui Pela sua presença obrigado pela pelo apoio também aí foi uma conversa muito boa um prazer muito grande ter você aqui com a gente Obrigado obrigado eu peço para você que tá ouvindo comentar no nosso site o filosofi poop.com PBR a participação de vocês
é muito importante é o que dá força pra gente continuar o nosso trabalho se você quiser pode mandar também um e-mail para contato @filatov com.br lá no site a gente coloca todas as referências citadas aqui No episódio e também os links pras nossas redes sociais e página no Facebook se você quiser ajudar a gente você pode compartilhar os Episódios com os amigos e também avaliar no iTunes isso ajuda muito a gente subir na classificação deles e trazer muito mais ouvintes Obrigado a todos e daqui às duas semanas a gente está de volta