o meu médico falava que eu não podia ter filhos porque eu tinha endometriose era uma informação muito difícil de engolir porque desde os meus 14 anos eu sonhava em ser mãe eu queria ser mãe de um menino e ele tinha até nome Bento até que um dia quando eu tinha 23 anos eu senti uma pontada em cima do colo do útero eu fiz as contas e vi que a minha menstruação estava atrasada o médico disse para eu não contar para ninguém até os 5 meses de gestação porque a minha gravidez era de risco mas eu
já estava toda animada arrumando o quarto comprando roupinhas pensando em todo o enxoval a contrário de todas as previsões a minha criança nasceu perfeita e foi motivo de muita alegria e foi nos primeiros anos de vida da minha criança que eu percebi que tinha alguma coisa de diferente ele amava tudo que era tipicamente feminino e pedia muito para colocar vestidos mas não era só isso era uma criança de 3 anos me dizendo que lamentava não ter nascido menina que seria tão mais legal eu não fazia ideia do que estava acontecendo Me sentia muito perdida e
as coisas ficaram ainda mais complicadas quando eu fui na primeira psicóloga ela disse que eu era vaidosa demais para ser mãe de um menino que era minha culpa porque eu usava salto alto e maquiagens eu senti muita vergonha me senti um verdadeiro fracasso logo eu que desejei tanto ter um filho homem estava sendo incapaz de criar um menino e foi só quando a minha criança fez 4 anos que eu entendi o que estava acontecendo no dia da festinha eu recebi um artigo que falava sobre crianças TRANS e listava comportamentos que podiam ser notados a partir
dos 2 anos de idade na hora a minha ficha caiu e eu me dei conta a minha criança é uma menina e não um menino e aí eu descobri o luto o luto do nome que eu tinha escolhido aos 14 anos o luto de chamar a minha criança de filho o luto dos sonhos que eu imaginei viver com aquele menino o luto de uma maternidade validada me tornei a mãe maluca segregada apontada que não era convidada para mais nada a mãe julgada inconsequente que não sabia o que estava fazendo era tudo muito solitário eu não
tinha informações nem referências A minha filha foi a primeira pessoa trans que eu conheci na minha vida muita coisa se passava pela minha cabeça e se eu gostasse mais da minha filha do que um dia eu cheguei a gostar do meu filho será que eu estaria traindo ele como é que eu amo alguém que matou a pessoa que eu mais amava foi muito difícil mas teve um dia que eu estava muito muito triste e a felicidade dela me fez feliz e aí eu parei e pensei eu acho que eu amo essa menina são dois amores
completamente diferentes o amor que eu tive pelo meu filho era um amor romântico mas também muito dominador pautado no eu sei o que é melhor para você já o amor que eu tenho pela minha filha é um amor visceral eu mato e morro por ela mas é um amor construído na base da parceria da escuta me conta o que você precisa que eu vou atrás ser mãe da Agatha me fez fundar uma ONG para ajudar outras famílias com acolhimento atendimento e informação e também para lutar por políticas públicas que melhorem a qualidade de vida das
mães das crianças e adolescentes trans das famílias e de todas as pessoas trans afinal ninguém solta a mãe de ninguém