[Música] Temos tecnologias que vão vivendo a vida no nosso lugar. Até que ponto essa inteligência artificial pode ser benéfica ou maléfica? O brilho da tela, a velocidade da conexão, o acesso instantâneo à informação.
É tudo isso é muito sedutor e realmente a gente entra numa espécie de trânsito. V espiritualidade é aquilo sem o qual a gente não tem mais como viver, mas que ao mesmo tempo não nos deixa viver. Uma vida hiper conectada, de uma hiper exposição, de um culto à imagem.
E a inteligência artificial, ela traz a evidência que o ser humano tem da dificuldade de lidar com os próprio sentimento. O excesso de filtro impede que eu encontre um ser humano verdadeiro por um aplicativo. Será que tudo isso tão bom, tão benéfico como parece?
Gozai por nós, a inteligência artificial entre nós. Tema desta série do café filosófico. A infância é feita de descobertas.
Durante séculos, as crianças exploraram o mundo pelas janelas da imaginação, das brincadeiras ao ar livre, das contações de histórias e das interações sociais. Atualmente, uma nova janela se impõe, a tela, seja pelo celular, tablet ou computador, as telas se tornaram um dos principais filtros pelos quais as crianças compreendem o mundo. O que essa mudança representa em um ser que está em formação?
De que maneira isso influencia a forma como enxergam e interpretam a realidade? Por qual janela a criança olha o mundo? Estamos em tempos em que a velocidade digital faz com que cada vez seja tudo mais rápido.
E quanto mais rápido é tudo, mais impacientes ficamos, porque nós justamente perdemos a possibilidade de atravessar o vazio, de atravessar a dúvida, de atravessar o questionamento que ainda não tem uma resposta. eh atravessar esse momento em que comparece uma falta de sentido entre uma palavra e outra, entre um acontecimento e outro. E a vida ela é feita de sobressaltos e solavancos, de expectativas e de precipitações, de presenças e de ausências.
Mas o que ocorre quando nós passamos a vivê-la desde o paradigma da enchurrada virtual, que é um contínuo interminável. Eu me lembrava de um filme muito lindo, que é o filme O meu tio do Jaqu Stati. Esse, nesse filme que é uma sátira da modernidade, nós temos uma família que vive numa casa futurista, cheia de supostas utilidades eletrodomésticas.
A família composta por um pai que é um rico industrial, uma mãe que parece, como na sua posição de rainha do lar, muito satisfeita em apertar todos os botões das geringonças que tem pela casa. e um menino. Mas eles ficam tão absolutamente tomados por fazer funcionar esses trecos surpreendentes, inovadores, que a vida passa a se reduzir a isso, sem sonho, sem conversa, sem brincar.
Resulta que o tio visita o menino e é um tio sonhador e convida esse menino para dar uma volta de bicicleta pela cidade e vão se encontrando com a autoridade assombrosa das pessoas. eh, e visitam casas que têm muito menos utilidades e são muito menos assépticas, mas que são profundamente amáveis, porque são verdadeiros refúgios que representam quem os habita. E em tempos de hipermodernidade, que a inteligência artificial também pode levar na sua contracara uma innegável potência para a estupidez artificial, quando em nome de um gozo irrefreável da suposta eficácia performática da velocidade da produtividade do consumo, a humanidade pode acabar aniquilando a ela mesma.
Nós temos um risco de fazer-nos instrumento do instrumento. Diante disso, quando a gente começa a falar do mal-estar que a tecnologia carrega consigo, mesmo quando ela vem numa lógica de resolver muitos problemas e introduz outros que antes não tínhamos, isso sempre desperta uma questão, o que fazer? Qual seria a recomendação?
Em primeiro lugar, dando tempo e lugar para produzir questões a partir das nossas vivências. É importantíssimo que não desprezemos o registro dos nossos pequenos acontecimentos cotidianos. E as grandes questões éticas da humanidade diante da tecnologia digital atravessa os atos pequenos do cotidiano.
Por exemplo, como é que se aprende hoje a trocar uma fralda com a vovó ou com um aplicativo? Elaborar esses pequenos, essas pequenas situações do cotidiano, esses pequenos acontecimentos, é crucial para produzir algum saber no qual uma vivência se torne uma experiência. Interrogar-nos é a primeira coisa que a gente precisa fazer.
Que que é isso que a gente tá vivendo? Que que é isso que a gente tá fazendo no nosso dia a dia? Eh, interrogar-se é certamente não ter uma certeza absoluta, mas não é o mesmo do que não saber nada.
Temos vivido tempos em que costumamos ficar perplexos, silenciados, boqueabertos diante dos excessos. Tentamos resistir, mas quando vemos muitas vezes já estamos fisgados. Nós temos vivido essa situação de perplexidade, permanentes surpresos e sem reação diante do excesso virtual.
caímos numa pasmaceira e temos a impressão de que o tempo que a gente levaria para elaborar o que tá nos acontecendo já faz o nosso pensamento nascer obsoleto. O sujeito assim se vê cair como seus gadgets numa obsolescência programada. Por isso, e fazer esse exercício de interrogação, é romper essa condição de perplexidade e adentrar numa outra lógica que é nos interrogarmos pela complexidade do que nos coube viver.
sempre por trás de cada questão, há hipóteses que buscam fundamentar os princípios lógicos de um acontecimento sem pretensão de reduzi-lo. Hum. Por exemplo, diante das crianças e os seus celulares, temos muitas recomendações e entre elas temos recomendações claras que a utilização de celulares antes dos 3 anos é um importante dano.
Isso não era algo dito há 12 ou 13 anos atrás, quando começamos a receber no consultório as as primeiras gerações, os primeiros pequenos que já nasceram quando havia internet sem fio e quando os smartphones com os ícones tinham se popularizado. E nós fomos encontrando efeitos disso na infância, efeitos de cideração com as telas, efeitos de crianças que, em vez de sustentarem a lógica de um diálogo, repetiam pequenos fragmentos de aplicativos sem poder conversar. Crianças que preferiam olhar pro celular do que buscar o olhar do outro.
Hoje em dia não faltam advertências, não faltam recomendações. Mas vejam que interessante, cada vez que eu vou numa escola, via de regra, me perguntam: "Quais são as recomendações, quanto tempo de celular para tal criança de tal idade? " Eu acho que a gente não precisa de mais instruções.
Elas estão aí e elas são muito claras. Mas eh diante desse sujeito contemporâneo que clama por instruções, muitas vezes para não segui-las, hum, bem, eh se trata de reabrir uma pergunta e eu costumo propor o seguinte: antes de pegar o celular quando você tá com o seu filho, ou de entregar o celular na mão de uma criança para que ela não interrompa a conversa, para que ela não corra pelo restaurante? Se pergunte primeiro no lugar do que isso está.
Essa é uma pergunta que parece muito simples na sua articulação, mas ela é central porque ela reintroduz a complexidade do sujeito interrogar-se pelo valor do seu ato em lugar de seguir instruções do outro, né? E é assim que a gente precisa pensar se o celular tá no lugar de olhar a paisagem, se o celular está no lugar de contar uma história, se o celular está no lugar de viver um momento de tédio, de responder uma pergunta sobre a vida, achando que a tela de cristal líquido poderia fazer o trabalho por nós no lugar do que o celular está. No próximo bloco, é muito cômodo é produzir paraa criança essa chupeta eletrônica que silencia os seus deslocamentos, que silencia as suas demandas, os seus questionamentos.
[Música] Como humanos, somos seres racionais, mas também sujeitos de desejo. Sonham, buscamos, inventamos. O ambiente que cerca uma criança é determinante na forma como ela desenvolve sua imaginação e criatividade, sua capacidade de se relacionar e de se tornar sujeito.
Será que o acesso às telas com seus conteúdos prontos e super estimulantes incentiva ou rouba da criança o espaço para sonhar? Desde os primórdios, a psicanálise levava muito a sério as crianças. Freud já afirmava que elas, em seu desejo de saber, em sua pulsão epistêmica, produziam hipóteses sobre temas centrais, de onde vem os bebês, ou seja, qual é a origem da vida e o que que acontece quando morremos, ou seja, qual é o fim, hum, da história de cada um ou até da humanidade.
Freud não falava em achismos, falava em hipóteses, eh falava em teorias das crianças que, assim como as formuladas pela ciência, nos dizia Freud, tem fragmentos de erros e muita verdade também. O real não se reduz ao que está na mira da lupa de um eh cientista. Hum.
Ele é muito maior. Hum. E nesse sentido, as crianças com suas bobagens são bastante mais espertas muitas vezes do que a ciência, porque elas desconfiam que as suas teorias não aprendem todo o real.
E vejam que interessante, porque desde o nascimento da psicanálise, a psicanálise vai recolher essas produções que a ciência dura considerava bobagens. A psicanálise vai recolher os sonhos, os atos falhos, os sintomas, os trocadilhos das palavras que produzem efeitos chistosos, porque é justamente ali que a lógica racional se vê desacomodada por algo que é precioso sempre para um psicanalista, que é a subversão do sujeito do desejo. O desejo ele é subversivo, ele desacomoda a lógica racional.
Freud falava da psicopatologia da vida cotidiana. Eh, e ele nos diz que essas produções X, X, sonhos, atos falhos, esquecimentos, que primeiro parecem uma simples falha da razão, são muito mais do que isso. Ele nos diz que ali aparece uma verdade do sujeito, uma verdade que se revela em falso.
Vejam que interessante, porque ao dizer isso, se rompe uma lógica simplesmente dualista de verdadeiro ou falso. Nós, com as nossas formações do inconsciente, temos produções que revelam uma verdade em falso. Ou seja, é no tropé que o sujeito comparece.
Então, eh, vejam que isso permite que para além das nossas boas ou más intenções, nós possamos nos interrogar que que é isso que eu sonhei? Que que foi que eu disse? Isso produz primeiro um enorme mal-estar porque introduz um sense.
Mas esse não ele coloca um enigma que se nós seguimos a pegada dele, se nós nos perguntamos por ele e se associamos a partir dele, nós nos encontramos com uma sobredeterminação inconsciente dos nossos atos. Hum. Eh, por isso que eh se nós temos um cogeto cartesiano que diz penso, logo existo, o Lacan retomando essa questão vai inverter a lógica e vai dizer: "Sou onde não penso e penso onde não sou".
É nesse tropé que o sujeito se revela, se revela nos seus desejos e nas suas angústias. Mas claro que não basta produzir isso e dizer é inconsciente. É justamente quando nós nos interrogamos, nós podemos eh a partir dali e produzir com isso uma mudança.
É para isso nós precisamos e eh interrogar o trilho dessa sobredeterminação inconsciente. E o trabalho de análise tem a ver com isso. Por isso que o trabalho de análise permite que alguém se sinta melhor no duplo sentido que tem sentir-se melhor, melhorar, resolver problemas, mas também poder registrar-se.
Agora, pra psicanálise tem algo que interessa, que é bom, a gente estuda como alguém se estrutura e estudando como alguém se estrutura, a gente também tá muito atento à circunstâncias de vida que impedem experiências estruturantes, ou seja, ao que a gente chama de fatores patógenos. Que que são os fatores patógenos? diferente do que os fatores patognomônicos que organicamente estão ligados a uma doença.
Os fatores patógenos são esses fatores ambientais dentro dos quais eh fica mais facilitado adoecer. Nós temos que cultivar o que é estruturante paraa infância, o brincar, o conversar, o conviver com o outro no dia a dia, porque senão nós teremos sim mais e mais adoentamento. Então aqui tem um ponto central sobre a educação, que é como se opera a transmissão para as crianças.
Que que acontece com as pequenas crianças? As intoxicações eletrônicas, elas não começam quando se entrega a galinha pintadinha para que a criança não se desloque, não perturbe, não pergunte. É quando diante do choro de um bebê, em vez da mãe eh poder esperar e ler esse choro num contexto em função do que aconteceu antes e do que acontecerá depois, produzindo junto com esse bebê um saber, se dá um clique e se espera que desde a tela venha um sentido do que ali acontece, de algo que tá completamente fora desse contexto.
Por isso me parece tão impactante a escultura de um escultor chamado da Vicerni. É uma série chamada Miminca, em que ele traz a imagem de bebês em cujo rosto há um código de barras. A Bruna Lencara, ela é professora de educação infantil na rede pública de São Paulo e ela diz que ela observa crianças de 2 anos que já são viciadas em celular.
Ela queria um comentário seu sobre isso. Bom, como a gente entende vício, né? Porque vício é algo que a gente não consegue suspender.
A questão é que a criança não foi na loja e comprou isso sozinha. Hum. Por que se entregou esse objeto na mão dela?
É a pergunta que a gente tem. É porque certamente é muito eficaz, é muito cômodo eh produzir paraa criança essa chupeta eletrônica que silencia os seus deslocamentos, que silencia as suas demandas, os seus questionamentos. É bom.
Acontece que uma criança quando desloca pelo espaço, quando faz anjinho no chão da rodoviária, quando é e vai na mesa do lado é perguntar e pegar comida que é do outro, quando os adultos estão conversando e dizem: "E por quê? E por quê? E que que quer dizer tal coisa?
" é, ela desacomoda, mas essa desacomodação ela é estruturante para essa criança, porque ela tá tentando ali justamente entender as bordas reais do espaço. Ela tá intentando entender as bordas simbólicas desse espaço. É, cuidado, não vai aí que você pode cair.
Não mexe nisso que isso não é teu. É que que tal palavra quer dizer? Bem, e a gente na contemporaneidade, numa sociedade narcísica, se tende a pensar que tudo isso que a criança faz incomoda demais.
Hum. Bom, sim, a criança nos tira dos nossos trilhos. Ninguém disse que é fácil cuidar de uma criança.
A criança nos desacomodam, mas nessa desacomodação elas também nos fazem pensar. Porque ao fazer isso, ao entregar um celular na mão de uma criança para que ela coma olhando pra TV, como se fosse um passarinho, eh, ou para que ela fique sentada na mesa, os adultos deixam de abrir lugar também para vocações da sua própria infância. Se a gente senta na mesa com uma criança sem um celular, que que a gente pode fazer?
Dobradura de papel, brincadeira com palitinho, desenhar com giz de cera, se se é uma toalha de papel onde a gente possa riscar, jogar jogo da velha. A gente pode fazer essa série de brincadeiras e muitas vezes quando são adultos que não costumam conviver com crianças dizem: "Eu tinha me esquecido disso. Eu já nem sabia mais que eu sabia isso.
" Vejam como quando a gente põe o celular nesse lugar, a gente deixa adormecida, deixa cair algo que poderia ser transmissível. Hum. algo que poderia operar entre gerações.
No próximo bloco, nós temos vivido uma psicopatologia da vida digital cotidiana. [Música] Uma das vantagens da internet é o acesso a uma grande quantidade de informação a qualquer hora, em qualquer lugar. Não precisamos nem mesmo nos lembrar de nossa agenda.
Nosso celular notifica qualquer compromisso. Mas médicos, neurocientistas e psicanalistas já alertam para os efeitos físicos e emocionais que essa enchurrada de conteúdos e alertas causa no cérebro. Imagine o efeito disso nas crianças que estão em pleno desenvolvimento na fase de estruturação do ser.
Como viver em um mundo sem pausa, sem silêncio, sem espaço para dúvida. O que que acontece quando, diante das questões que assaltam o ser, a resposta está pronta na internet? Mais do que isso, quando o próprio algoritmo introduz as questões que assaltam o ser.
Vou dar um pequeno exemplo disso. No no Instituto Travessias da Infância, uma das disciplinas é a observação de bebês, que hoje em dia, claro, a gente pode fazê-la através de vídeos da vida cotidiana. E num desses vídeos aparece um bebezinho de eh aproximadamente eh 9, 10 meses com umas uma geringonça nas pernas.
E eu pergunto para para profissional que tinha feito a observação, por que que esse bebê tá usando isso? Que que é isso que esse bebê tá usando? Ele não parece ter nenhum problema no movimento, então não parece ser nenhuma faixa para posicionar os seus joelhos.
Não parece nenhuma órtese. Que que é isso? Ah, então é uma joelheira.
Uma joelheira. É bom. Essa mãe acompanhava um um pelo Instagram uma dessas desses e programas de postagem do que esperar do desenvolvimento do bebê a cada idade.
E quando ela tá ali perto dos 7, 8 meses, algoritmo trup baixa uma propaganda de joelheiras. E aí a pergunta passa a ser: Compro ou não compro essas joelheiras? Serei uma boa mãe se não der uma jojoelheira para o meu filho?
E depois que se comprou essa geringonça e a questão passa a ser em que momento eu ponho a joelheira? Ponho a joelheira assim que o bebê acorda, mas com os joelhos cheios de apetrechos, como é que ele vai poder se mexer? ou cada vez que ele fizer um ensejo de engatinhar, eu digo: "Para tudo para eu pôr as joelheiras".
Bom, ainda bem que isso resultou com que a joelheira foi deixada de lado, mas vejam como o algoritmo se impõe e justamente eh nós temos vivido uma psicopatologia da vida digital cotidiana, na qual a sobredeterminação algorítmica eh atropela, produz um curto circuito da sobredeterminação inconsciente. E vejam, isso aparece na vida de todos nós. A máquina lembra por nós.
Então, a gente acorda um dia de manhã e o aplicativo nos diz: "Veja como foi esse seu dia há um ano atrás, há dois anos atrás, há 10 anos atrás, enfim". E depois a gente olha aquilo, ainda mais com uma musiquinha que a gente nunca teria escolhido, eh, e se pergunta: "Mas será que foi isso mesmo que eu vivi de importante nesse dia? " Ou seja, se produz uma eh memória que é onipotente e mas e uma memória que lembra tudo justamente carece de algo central, que é o esquecimento.
Porque com o que a gente lembra e com o que a gente esquece, a gente vai produzindo uma edição do que tem importância pra nossa vida. E, portanto, a gente vê ali como se produz uma memória que é sem o fio do desejo. Será que a máquina também duplica o tempo por nós?
Porque tantas vezes temos a ilusão de que poderíamos não perder nada filmando tudo, fotografando tudo? Quantas vezes ao dar um curso, eu escuto a pergunta: "Dá para fazer EAD em outro momento? porque nesse dia eu estarei em outro curso.
Mas quantas vidas nós precisaremos para poder assistir isso tudo? Eh, então a máquina nos dá ilusão de que poderíamos não perder nada, hum, de que teríamos muitas vidas. E as crianças ao brincar revelam isso.
É um dos meus pacientes em certo momento em que a gente tava brincando e o meu peão ultrapassou dele. Ele disse: "Restart, restart, restart". Ou seja, dá para desligar e recomeçar.
Eh, essa é a lógica dos joguinhos virtuais. Cada vez que se morre, se podere pode renascer indefinidamente, sem nada a perder. Outra das nossas situações da psicopatologia da vida digital e contemporânea são a maneira de dialogar fragmentária que a gente tem.
Nós temos a ilusão de que poderíamos dialogar, ter abertas 50 conversas ao mesmo tempo e nós não conseguimos. eh nós perdemos eh a lógica de do contexto de com quem estamos falando. Tantas são as demandas fragmentárias que a gente tem, que nós costumamos pegar o celular para responder algo rapidinho quando o jantar já tá servido na mesa e falamos para outra pessoa: "É rapidinho, meia hora depois, o jantar esfriou, a outra pessoa já perdeu a paciência.
Finalmente a gente larga o celular e diz: "Mas para que foi mesmo que eu peguei? A gente já não se lembra mais o que a gente foi fazer ali. Carregado pela enchurrada digital.
Não temo mais possibilidade de sustentar vazio algum. Quando não há mais tempo nem lugar, há questões que assaltem o ser. Estas passam a ser impostas pela sobredeterminação algorítmica e vamos caindo em uma barbárida certeza.
Com isso perde o sujeito, porque o sujeito perde esse espaço de enigma aonde ele poderia produzir um novo saber, uma nova nominação inventiva e perde também a cultura porque vão se afunilando as significações do viver. Esse é um outro ponto eh de grande contribuição da psicanálise. Não só a psicanálise, ela e borra a borda entre o normal e o patológico, ao dizer que os sintomas dos graves doentes dos nervos tem uma lógica semelhante a esses a essas formações do inconsciente, t sonhos, atos falhos que a gente produz no cotidiano.
Mas a psicanálise, ela também produz uma outra importante questão no campo da psicopatologia, que é como é que em psicanálise se faz diagnose. Certamente em psicanálise nós eh nos interessamos muito por como alguém funciona, quais são as suas fixações, quais são os seus impulsos, as suas inibições, as suas repetições. Mas nós não nos concentramos apenas nisso.
Para nós é importantíssimo o que tem significância pro sujeito. Cada um de nós aqui tem um sintoma de estrutura que amarra a nossa significação do viver, que articula três registros que não estão amarrados por si só, que é real, simbólico e imaginário. é, sem esse sintoma de estrutura, nós nos despedaçaríamos.
Ou seja, quando isso entra em crise, se isso faz água, se isso é se perturba, nós enlouquecemos, nem que seja por um momento, ou nós podemos produzir uma passagem ao ato. Os nossos sintomas de estrutura são um saber fazer ali com isso, que articulam o nosso desejo a uma realização cultural. Não precisa ser o picasso.
Dá para fazer uma boa massa corrida numa parede e se orgulhar disso. Dá para ser um jardineiro que sabe fazer o momento da poda para uma planta e poder brotar. Não precisa ser o burlemarx.
Bem, acontece que hoje em dia parece que o nosso sintoma de estrutura, os nossos sintomas de estrutura, não t dado conta da virtualidade. A virtualidade aparece aí como um uma quarta argolinha. Para além do real, do simbólico e do imaginário que o nosso sintoma de estrutura busca no dar, a virtualidade é aquilo sem o qual a gente não tem mais como viver, mas que ao mesmo tempo não nos deixa viver, ou seja, nos perturba o tempo inteiro, nos desanoda.
Que que acontece quando nós temos um simbólico totalmente desamarrado dos outros registros? Quando se produz um artifício de uma fala provinda de uma máquina que não paga o valor de ato do que diz com a sua vida. que acontece no registro quando quando essa esse bambolê da eh virtualidade se sobrepõe ao registro imaginário?
Bem, ele passa a imaginar por nós cenários do brincar, por exemplo. Como é que fica a criança em relação à amarração de um sintoma de estrutura? Na infância, os sintomas de estrutura não estão amarrados.
A criança ainda não está plenamente estruturada. Ela ainda não decidiu qual vai ser a sua resposta e para armar laço com o outro desde o seu desejo. Mas na infância, sim, nós temos sintomas estruturantes, sintomas que são próprios da infância.
O brincar do faz de conta é um sintoma próprio da infância. o esculpir, o desenhar, o inventar histórias ou pedir que lhe contem histórias, a curiosidade investigativa. Cada vez que a criança arma essas produções, ela cria uma uma transposição de registro.
Ela viveu algo e brinca disso. E ao fazer transpor essa vivência para uma encenação com brinquedos, ela transpõe o registro. Ela articula a realidade com o simbólico e com o imaginário.
Quando ela então pega algum personagem que ela gosta muito e o sculpe, ela transpõe registro. Quando ela pega essas esculturas e com isso faz um teatrinho, ela arma uma nova transposição quando ela inventa uma história. Então, cada vez que se fazem essas produções, a criança ela tá alinhavando o real simbólico imaginário, ela tá armando produções que lhe permitem posicionar-se subjetivamente diante do que tem a viver.
Então isso permite entreter-se. Entreter-se é uma palavra muito bonita, porque que é entreter-se? Sustentar-se entre uma presença, uma ausência a qual eu não sucumbo e uma nova presença.
Agora, o que que acontece quando já não se cria espaço vazio algum? recentemente numa das falas sobre essa questão, um pai que passa então a se interrogar sobre como é isso de suprimir o tempo e o lugar para que essas transposições de registro possam acontecer. Ele me contou que ia levar o filho num zoo safari, num pamppa safari.
E o filho disse: "Como é isso? " Ah, é como um zoológico, mas os animais estão soltos e a gente passa de carro. Mas como assim os animais estão soltos, todos misturados?
Não, cada um tem um lugar. Eles não se devoram entre si, entre as. Bom, na quarta ou quinta pergunta, esse pai diz: "Rezolvi então mostrar para ele o vídeo comercial do Pampa Zou Safari para que ele parasse de perguntar.
Só que ao fazer isso, hum, na na tentativa de acalmar a ansiedade da criança, é, ele suprime um espaço em que essa criança poderia imaginar como isso ia ser a partir de experiências anteriores e chega lá e talvez surpreender-se ou talvez surpreender-se com as diferenças ou até com as similitudes que encontrou. Outro pai me conta que quando os filhos lhe pedem para que ele conte, dão três ou quatro palavras e então ele lança essas três ou quatro palavras no chat GPT, porque dessa maneira e não fica sem pé nem cabeça. E se uma criança, eu até achei interessante a brincadeira de uma criança largar três palavras e a gente poder juntar uma história e se ficar sem perna nem cabeça?
Bom, isso é a aventura do viver. Nem sempre a gente consegue juntar tudo, mas ao salvaguardarmos disso, nós também estamos elidindo da vida da criança experiências de como nem tudo tá pronto, nem tudo é perfeito, nem tudo é previsível, nem tudo está cerciado. No próximo bloco, ali onde a gente pensa estar muito vívido, porque está online, na verdade está mortificado, porque suspendemos os tempos da nossa [Música] elaboração.
A inteligência artificial e seus algoritmos, apesar de facilitarem a nossa vida, induzem escolhas, comportamentos, compras e até os nossos desejos. O desejo por likes, o temor de ser cancelados, a conquista da popularidade virtual tem se tornado foco de muitos. E essa busca incessante por aceitação no mundo digital tem consequências.
Crianças que já nascem e crescem praticamente conectadas passam a almejar o reconhecimento não dos pais ou dos cuidadores e amigos, mas dessa invisível comunidade digital. O que acontece quando o outro virtual assume o lugar das relações presenciais? Quando permitimos que a tecnologia seja o nosso guia e mentor, modificando até como nós significamos nossos modos de viver.
A virtualidade com seus algoritmos eh e a inteligência artificial produzem produzirão e produziram profundas transformações no modo de nos relacionarmos uns com os outros, de estabelecermos as nossas relações sociais e articulações coletivas na nossa cidadania, na nossa vida amorosa, nas nossas amizades. Mas os laços simbólicos muitas vezes se vêm substituídos pela lógica da conexão e da desconexão, se produzindo e se rompendo com a mesma velocidade do like e do dislike, oscilando imaginariamente entre o seguidor e o hater em um rápido pêndulo do amor ódio. Nós vamos vendo como e essa lógica da aprovação e desaprovação das redes sociais funciona como o espelho da rainha amada Branca de Neve.
Espelho, espelho meu, existe nesse mundo alguém mais bonito do que eu? As crianças nos dizem que quando crescerem querem ser famosas. Essa é a resposta mais frequente quando a gente pergunta pelo futuro, como Instagram ou como youtubers.
E quando a gente lhes pergunta: "E o que que você vai querer comentar no teu canal do YouTube sobre o que que vai ser? " Ah, isso não importa. O que importa é ser famoso.
E aí a gente vê que a lógica da fama ou difamação, essa lógica da plenitude ou da destrutividade imaginária, passa a ser maior do que o interesse simbólico. Eh, que interesse simbólico a gente tem é crucial na vida, porque é isso que nos permite atravessar muitas derrotas, né? Defender os nossos ideais implica muitas vezes mais derrotas do que triunfos, né?
Bom, então vejam como os gadgets eles não são apenas mediadores da relação, eles modificam o modo que cada um tem de se representar no mais íntimo que se passa a na sua vida, como nós significamos os nossos modos de viver. nessa questão íntima eh do da articulação eh entre o corpo e a linguagem eh que acontece nos três primeiros anos de vida. Ou seja, uma criança, ela não nasce apropriada do seu corpo, ela precisará se apropriar do seu corpo.
E ela só pode fazer isso através da relação com outro, na medida em que nós não temos um saber instintivo eh previamente inscrito em nós. Isso é tão radical que uma pequena criança cai. E que que ela faz quando ela cai?
Ela olha pra mãe para saber se chora ou não. Hum. Isso não tá já decidido nela.
E nós fomos nos encontrando com crianças que chegavam ao consultório e não buscavam mais o olhar do outro. Que em vez de buscarem o olhar do outro, em vez de conversarem com o outro, de construírem com o outro as significações do seu viver, ficavam sideradas pelo brilho das telas ou repetiam pequenos fragmentos em geral em inglês, mesmo tendo pais que falavam português e não estando em escolas bilínguas. O iPad ele pode produzir um artifício de que ele fala, mas ele fala.
Se ele fala, o que será que ele quer de mim? Essa é uma pergunta central no início da estruturação psíquica. Que repita.
Porque uma linguagem que é traduzida sem desejo induz alguém a tomar a palavra sem desejo. Ali onde a gente pensa estar muito vívido porque está online, na verdade está mortificado, porque suspendemos os tempos da nossa elaboração. Lacan nos fala de três diferentes momentos: tempo de ver, tempo de compreender e tempo de concluir.
E diante do fenômeno lexical que aconteceu em 2015, que é visualizar, o verbo visualizar passa a ocupar o lugar de ler. Ler é desdobrar um sentido e retroagir no discurso. Mas a ideia do visualizar nos dá ilusão de que basta o tempo de ver para que a gente já tenha pronto uma resposta, colapsando a possibilidade do tempo de compreender, que é o tempo da nossa elaboração psíquica.
E é nesse sentido que a virtualidade, que traz com elas ferramentas tão poderosas, precisa ter uma interrogação ética à altura dela. Porque nós já não estamos mais lidando com um ser humano que cria ferramentas para sobreviver à natureza da qual ele precisaria se proteger. um pouco de uma mecanização na esperança de que as máquinas fariam por nós o trabalho pesado.
Por isso que é tão importante a discussão sobre o algoritmo. Vejam, a gente não tá num saudosismo ou numa tecnofobia. O passado não foi melhor e se a ilusão de retorno fosse possível, a gente cairia num looping do tempo, porque ele nos traria de volta ao presente.
Tampouco estamos numa discussão do natural versus o artificial. Nós não somos seres naturais, nós somos seres de linguagem. O que dizemos decide a nossa vida, porque nós pagamos pelo que falamos.
é uma máquina, não é? Nesse sentido que e nós, diferente da máquina temos pressa em viver porque não temos todo tempo. Então a questão é que rumo à linguagem toma, quando em lugar de abrir lugar para diversidade representativa a partir da elaboração de experiências, se produz uma lógica codificante quando passamos a viver como se tudo fosse um código.
E vejam, as crianças elas disparam comandos. Eu tava um tempo atrás num restaurante e tinha um músico tocando ao vivo. Quando termina a música, a criança menores, um pouco menos de 2 anos, diz: "Alexa, a gente ri, mas ri de desconcerto".
Hum. Porque é aterrorizante que em vez de se referir a quem tá ali como um ser, festejar música, pedir a que ele gosta, ele e produza instruções. Então nós estamos ensinando as crianças esse paradigma de se relacionar com o outro.
também tem se popularizado é que alguns professores, alguns pais e alguns profissionais avaliem as capacidades das crianças dizendo se a criança responde ou não responde a comandos. em que volta sinistra da história começou a se pensar que formar uma criança, que fazer a sua estruturação e a sua educação no sentido amplo é fazer com que responda a comandos. Estamos criando militares, estamos criando robôs.
É isso que nós queremos paraas futuras gerações? Nós tampouco estamos em uma espécie de defesa da subjetividade versus uma suposta objetividade algorítmica. O algoritmo não é objetivo, ele é indutivo.
Ele induz lógicas. induz lógicas de consumo, lógicas de retroalimentação de certezas, lógicas de apagamento da autoridade, afunilamentos de representação que produzem expropriação do vivido. Hum.
e acabam por empobrecer a vida das pessoas com encurtamentos discursivos, já que os enigmas são prontamente respondidos com respostas em apenas um clique. Então, precisamos pensar que lugar daremos a esse artifício, porque o cálculo algoritmo é bastante eficaz para capturar o nosso desejo, transformando-o em demandas de objetos compráveis. Mas isso é o mesmo do que pensar que ele saberia sobre o desejo de cada um?
Eu considero que não. E é por isso que eh nós apostamos a subversão do sujeito do desejo. Eh, sustentamos um marco desde o qual ele possa comparecer, reabrindo perguntas, retomando seus significantes fundamentais, jogando com a policemia, brincando com o humor, que é uma importantíssima formação do inconsciente.
para que alguém possa definir e decidir as significações do seu viver e não para que isso seja imposto pelo outro. Porque nisso, no fim das contas, a sociedade tão tecnológica do algoritmo não é tão distante da ideia de uma sociedade tradicional que decide pelo outro a significação do seu viver. Telas substituem conversas, vídeos entram no lugar de diálogos.
Jogos online acabam com brincar na natureza com os amigos, o gira-gira, o pega-pega. Criança. Quando a criança era criança, andava balançando os braços, queria que o riacho fosse um rio, que o rio fosse uma torrente e que essa possça fosse o mar.
Quando a criança era criança, não sabia que era criança. Tudo lhe parecia ter alma. E todas as almas eram uma.
Quando a criança era uma criança, era a época destas perguntas. Por que eu sou eu e não você? Porque eu estou aqui e por não lá?
Quando foi que o tempo começou e onde é que o espaço termina? Acesse e inscreva-se no canal do Café Filosófico CPFL no [Música] YouTube. Uma pequena paciente que vivia profundamente angustiada, um dia pintou um quadro no consultório.
pareciam faixas de diferentes cores, muitos ícones e umas pessoinhas. E eu lhe perguntei: "Que que é isso? " E ela disse: "Somos eu e a minha família flutuando na tela do computador.