Ver cenas de adolescentes falando da sua sexualidade lhe causa alguma surpresa? I’m a pansexual, apparently. Quem não me conhece, eu sou o Lucas, e eu sou gay!
Eu sempre fui gay. Isso é um fato. Ou você é daquelas que levanta a sobrancelha quando filha, também adolescente, anuncia nas redes sociais que não se enquadra no padrão hétero-normativo?
Gay? Desculpe, você é hétero? Eu não me encaixo nesses tipos de rótulos.
Você se achava mais descolada né? Mas calma! Não precisa quebrar aquela plaquinha que está lá na sua sala dizendo que toda forma de amor vale a pena.
E nem se achar reacionária por causa disso. Se você é millennial, como eu, provavelmente já está habituada a um mundo onde gêneros e orientações sexuais são mais diversos que isso. É provável também que na sua adolescência, sexo fosse um assunto falado só entre os amigos, aqueles mais próximos, quando não houvesse qualquer adulto por perto!
E ainda que nesse grupo, as pessoas lésbicas, gays ou bi só tenham revelado sua orientação sexual para a família depois da fase adulta, né? ! Pois é, a grande diferença entre a gente e os adolescentes de hoje é que além de eles falarem mais abertamente sobre a sua sexualidade, eles falam para a internet toda ouvir.
Como se assumir para a família e para os amigos? Trouxe uma pessoa que é gay! Gay, homossexual, viado, bicha.
E que pode falar sobre isso. Agora é meu relato, minha vez. Eu já gostei de meninas quando eu era criança, sim.
Mas eu já gostei de meninas. Eu acho que eu gostei. Eu acho, porque eu só escolhi não aceitar que eu gostava, entendeu?
Quando a minha filha falou para mim foi um baque, um choque muito grande, por criar uma expectativa em cima dos filhos. Eu acho que a gente cria. E eu tinha muito isso construído na minha cabeça, mesmo jovem, mesmo convivendo, eu tinha essa construção de que tinha família, de que, pra gente, seria mais normal; uma família de um relacionamento heterossexual.
Chamada de z, a geração de quem nasceu entre a metade dos anos 90 até a primeira década dos anos 2000 trata as questões de sexualidade e gênero de forma muito aberta, principalmente se comparada com as gerações anteriores, meu caso. Por exemplo, em uma pesquisa feita nos Estados Unidos 1 em cada 6 jovens nessa faixa etária se declararam LGBT. E no Brasil, só agora mais da metade da população se diz favorável ao casamento homoafetivo.
Um direito conquistado há 10 anos. Isso tudo é muito recente, mas a luta do movimento LGBTQIA+ começou de forma organizada no Brasil nos anos 70, em meio à repressão da ditadura militar no país. Se era difícil viver sua sexualidade de forma livre em espaços públicos, imagina então o que era ter essa conversa com a família para as pessoas daquela época?
Muita gente não contava né? Mas foi essa história construída pelas gerações anteriores que pavimentou um caminho para que a geração Z pudesse se definir como fluída nos dias de hoje. Basicamente hoje vou me assumir para os meus pais.
Me assumi para minha família. Agora você deve estar então se perguntando: se as gerações anteriores chegaram nessas terras dos direitos sociais quando tudo isso era mato, por que é que hoje, os adolescentes de hoje é que são considerados mais livres? O que foi que mudou?
A internet tem um peso muito grande - e até determinante, para geração Z. A gente está falando de pessoas que já nasceram com internet. Elas não tiveram Orkut, não sabem o que é o ICQ e dão risada quando a gente diz que vai postar uma foto no Face.
Mas crescem em contato com uma rede infinita de informações e que está sempre presente na palma da mão. Existir em um mundo no qual basta você pegar o celular para ver outras formas de ser e de viver tem um impacto em como as pessoas dessa geração enxergam e problematizam, ou não, as suas sexualidades. Era muito mais difícil antes, em outras gerações, no passado, porque a gente não tinha essa noção que existia essa possibilidade.
Às vezes, você poderia sentir um desconforto e falar ‘nossa, não é bem isso que eu quero’, mas você não sabia nominar. E acho que tem uma potência em nominar o que você é. E quando a gente tem esse acesso à internet, a gente consegue ser coisas diferentes.
E acho que isso influencia em as pessoas se assumirem mais pansexuais, bissexuais, não binárias, gays, porque a gente vê outras vivências. E isso é muito importante. Porque é muito importante enquanto uma pessoa LGBTQIA+ você se reconhecer, você se ver.
Claro que não é porque uma pessoa tem mais acesso à internet que ela vai se tornar pansexual, bissexual, hétero. Nada disso! O que a internet faz é servir como um espaço de interação muito aberto para os adolescentes, sejam eles LGTBQIA+ ou não.
Afinal, a sexualidade é uma orientação, e não uma escolha que a gente faz depois de ver um vídeo de Pabllo Vittar. Ok! Mas é essa a justificativa que os conservadores usam quando tentam banir a educação sexual do programa escolar ou fazem campanhas pela abstinência sexual.
Isso não nasceu num insight, numa loucura de uma ministra fundamentalista, radical, moralista. Não! Sim, estou falando sério!
Teve gente bem adulta que achou que deveria banir tudo que se refere ao aprendizado de sexualidade no ambiente escolar para não influenciar os alunos. Agora, no novo programa nacional do livro didático existe uma limpeza, como os próprios membros do governo falam, em relação a todos os tipos de, entre aspas, ideologias que eles poderiam trazer. Então, tanto as questões que trazem uma questão histórica, crítica, política sobre a ditadura ou sobre questões assim, quanto livros que usam termo gênero ou termos de orientação sexual, etc.
Então, existe em todas as políticas, de forma sistemática, esse retrocesso. A ausência de se falar do que tem de conhecimento sobre diversidade sexual, sobre estudos de gênero é uma coisa muito grave, muito ruim, porque a gente fica sem ter ali um amparo, uma estrutura, um material. E isso, assim, eu vejo como uma perda, mas que não faz o efeito que se quis quando tirou isso, porque o debate não sai da escola.
Isso está na vivência dos alunos. Não tratar da sexualidade na escola por um posicionamento ideológico não faz com que essa vivência deixe de existir. A pessoa é o que é, não porque um gênero tá na moda.
Isso não existe. E esconder o assunto e deixar os adolescentes mergulharem nessas descobertas sem qualquer orientação pode ter efeitos bem negativos para pessoas de todas as orientações sexuais. Porque a internet, como nós sabemos, tem muita desinformação também.
Por exemplo, uma pesquisa mostrou que 44% dos adolescentes não usaram preservativo na primeira relação sexual. E a maioria deles disse nem saber como usar uma camisinha. Essa falta de informação sobre sexo se reflete em um aumento de infecções sexualmente transmissíveis.
É o caso do HIV que teve um aumento de mais de 60% entre os jovens, nessa faixa etária, nos últimos 10 anos. Justamente para os estudantes que têm menos estrutura familiar, de assistência em casa para poder discutir esse assunto e para poder se desenvolver plenamente vai ser pra quem a gente vai ofertar uma educação fechada, uma educação com menor formação, uma educação com menor acesso à informação e ao debate e ao acolhimento em relação a esse tema, que é um dos temas mais importantes no desenvolvimento, inclusive, adolescente, que é uma fase muito voltada para essa descoberta de si, de quem eu sou, da minha sexualidade, dos meus relacionamentos e como eu me relaciono com o mundo. E isso é perverso.
Mais do que assumir uma postura surpresa ao ouvir que um adolescente se define como pan ou trans ou se admirar a fluidez com a qual eles transitam entre os gêneros é importante também que a gente esteja mais preocupada em criar um ambiente de apoio a esses jovens. Por mais que eles sejam destemidos quando o assunto é se definir sexualmente, eles ainda são pessoas em construção, que estão descobrindo o mundo e si mesmos. Então, eu acho que eu escolhi o amor.
Eu quero ela do meu lado, eu quero conviver com ela, quero estar em todas as fases da vida dela. Gostou desse vídeo? Então, curte, compartilha, e envia para todas as pessoas de todas as gerações que vão gostar dessa discussão.
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