[Música] he a memória do passado Depende muito do momento presente quem tá interessado é em em saber como as pessoas eh se lembram sobre o passado sobre narrativas de experiências pessoais sobre o passado vai trabalhar com história oral a história oral é uma manifestação eminentemente democrática porque você para exercer a história oral precisa ter direito de falar direito de gravar de ouvir os outros Sapopemba zona leste de São Paulo estamos em uma ONG que atende crianças e famílias carentes do [Música] bairro Este foi o local escolhido por para conceder uma entrevista Marcela Bon é historiadora
e esta entrevista faz parte de uma pesquisa de história oral o filho né ele chegava em mim ele falava assim eu já tô cheio de ficar nesse lugar Quero passear eu quero sair com meu pai e minha mãe um domingo o dia inteiro um sábado o dia inteiro quero ficar fora daqui a história dela é uma história assim triste porque ela teve três filhos os três filhos dela acabaram e se envolvendo com drogas muito jovens e dois dos filhos dela foram assassinados né foram mortos em situação de violência e mesmo assim que é o que
eu acho mais admirável ela continuou trabalhando com adolescentes com jovens que passavam por esse tipo de de experiência Marcela pesquisou em seu mestrado Mães de jovens em conflito com a lei Mas por que este tipo de entrevista é usado em uma pesquisa histórica vamos supor que ela não fizesse Essas entrevistas como é que a história poderia fazer este trabalho com os dados policiais do menino que foi preso só onde estaria a voz do menino onde estaria a voz da mãe quer dizer se eu não entrevistar essa gente eu não tenho recurso para mostrar um outro
lado da questão e a questão sempre tem um outro lado eu verifico que no meu trabalho eh Talvez o os pontos mais importantes sejam esses além de ter essa possibilidade de produzir documentação para futuras pesquisas de poder valorizar esse tipo de experiência que é uma experiência que outras formas de conhecimento não tem valorizado né que não isso é é um trabalho bem característico da história oral Quer dizer então que a história oral pode ser base para pesquisas históricas assim como os documentos tradicionais acontece que com o passar do tempo eh o próprio conceito de documento
entra em crise e em particular nos anos 60 nós vamos ter na contracultura toda uma valorização de outras referências documentais a fotografia por exemplo a pintura por exemplo o gesto enfim há todo um um conjunto de outras manifestações que passam a questionar a exclusividade da validade da escrita é aí que nós vamos ver um reforço da valorização das tradições orais da de toda a a forma de busca através de Mitos que eram transmitidos oralmente e a história oral eh entra exatamente nessa corrente única coisa que sabia do Brasil é p isso fica na América do
Sul que tinha Rio Amazonas que era maior do mundo mas o o meu pai leu pfr que que o governo distribuiu e achou que era ótima ideia a história oral é uma metodologia de pesquisa que se dedica a registrar a narrativa da experiência humana né ela nasceu na universidade de Colúmbia exatamente 1948 quando um professor eh decidiu acolher depoimentos de pessoas a partir da gravação da das narrativas Sônia Maria de Freitas foi uma das responsáveis por organizar o acervo de entrevistas do Miss e também do Museu da imigração de São Paulo Sônia mostrou trechos de
entrevistas realizadas por ela nos anos 90 para o projeto de acervo de história oral do Memorial do Imigrante no Museu da imigração a vida cotidiana da Fazenda foi dura é muito dura Inclusive a minha família não estava acostumada a lava é uma uma entrevista muito especial que eu fiz com a dona mits Kawai porque pela trajetória dela é possível conhecer a hisória da Imigração dos Japoneses para São Paulo [Música] a dona mitsuko chegou nos anos 30 Mas é por é um exemplo da trajetória de outros imigrantes gostou essa experiência de chegar de da vida dura
né na fazenda de café adaptação a estranheza e depois eh a Constituição da família e e conquistar o espaço né no Brasil senhora citou o trabalho do do Museu da imigração queria entender é por que que a a ferramenta a metodologia história oral é a mais apropriada para construir essa história desses Imigrantes pelo fato dela d dar vozes a pessoas comuns a pessoas anônimas o projeto foi pensado desde o início com esse objetivo né de buscar pessoas de diferentes levas de diferentes etnias e de diferentes idades se não fosse dessa maneira essa memória se perderia
a história oral no Brasil ela vem se desenvolvendo desde os anos 70 né Principalmente e na área acadêmica e e em alguns museus e eu citaria por exemplo o Museu da Imagem do som depois ela passou a ser desenvolvida também nos anos 70 no na criação dentro da Fundação Getúlio Vargas que é o CP dooc centro de pesquisa e documentação o o cpdoc foi fundado em 1973 dois anos depois a professora Aspasia camarco que era né Eh membro do cpdoc começou a fundar né a formar esse programa de história oral 1975 bastante inspirado em práticas
que estavam sendo desenvolvidas nos Estados Unidos e na Europa num primeiro momento o projeto de pesquisa era acompanhar a trajetória do desempenho das elites políticas brasileiras desde 1930 eh em 1975 a gente ainda estava na nossa ditadura militar e naquele momento era importante saber como nós tínhamos chegado àquela situação né então por que entrevistar elites políticas brasileiras né É como Aspasia professora Aspasia sempre dizia é importante saber como o poder funciona né Então ela foi acompanhando a trajetória das pessoas que tiveram né lideranças políticas tanto os revolucionários de 30 que eram tenentes na década de
20 depois participaram da Segunda Guerra Mundial e depois também participaram do golpe de 64 Um dos lugares mais importantes do cpdoc é a sala de consulta como explica a pesquisadora Vanessa Cavalcante cpdoc hoje tem entrevistas eh disponibilizadas em áudio e em vídeo em texto para download onde o usuário pode consultar da sua própria residência e e em livro temos também a entrevista e de Ernesto gisel a entrevista do gisel foi uma entrevista de quase 38 horas de duração várias sessões de entrevista desde o final da década de 70 até meados da década de 80 essa
entrevista foi realizada num projeto né e intitulado eh 1964 regime militar e deu origem a um livro né de mesmo nome né Ernesto gisel e foi organizado pelo Professor Celso e pela pela pesquisadora Maria Celina de Araújo já tem hoje em dia entrevistas em vídeo por exemplo disponíveis no portal de cpdoc usuário e que são disponibilizados na íntegra o usuário não precisa mais vira o cpdoc esse projeto por exemplo e intitulado futebol memória e patrimônio e é um projeto que Visa e resgatar a memória né do futebol brasileiro a partir de ex jogadores jogadores técnicos
de futebol que participaram de copas do mundo então muda um pouco o perfil da das entrevistas do próprio dessas pesquisas de de história oral mudou um pouquinho em relação a antes políticos e e e agora já tá olhando mais para essa questão cultural também verade com certeza Na verdade nesse projeto do futebol por exemplo temos entrevistas com eh O Dadá Maravilha que foi uma um jogador de futebol que atuou na década de 70 né na Copa de 70 essa entrevista é de quando é foi no final do ano passado dezembro meu pai me botou no
sam serviço de assistência a menores depois fe bem funabem quem tá interessado eh em em saber como as pessoas eh se lembram sobre o passado sobre narrativas de experiências pessoais sobre o passado vai trabalhar com história oral Independente de ser uma pessoa que já deixou um livro publicado ou que seja uma pessoa que não teve oportunidade de deixar registro né quer dizer né Você pode eh trazer à luz trazer para nós para nosso conhecimento eh experiências dessas pessoas isso é evidentemente uma vantagem da história oral né o tema memória me levou a uma entrevista que
fiz em 2009 com Jan Marie ganban autora do livro lembrar escrever esquecer concluí que para se lembrar do passado é preciso acionar a memória mas como uma pessoa seleciona O que é importante sobre este passado a memória do passado Depende muito do momento presente Isto é a memória é uma faculdade que reenvia o passado sim mas que não pode ser compreendida se não se reenviar também o presente daquele que lembra isso dá a questão da memória uma tonalidade muito mais digamos assim polémica o fato de a história oral usar como base a memória pode torná-la
menos confiável que outras fontes de pesquisa a sua pergunta eu devolveria com a seguinte questão eh o Peron se casou com evita e há uma certidão de casamento só que foi descoberto posteriormente que aquela documentação aquele documento foi forjado qualquer documentação dita como oficial ele também pode ser manipulado a história oral é muito mal aceita para esses grupos que estão discutindo bem mas é falível hoje você fala isso amanhã você fala aquilo a data que você deu não é exata o navio que você disse que o Fulano veio não nunca esteve no Brasil mas é
Exatamente isto que interessa pra oralidade ou seja esses vazios que compõe a história que compõe as narrativas da vida que é a nossa matéria mais importante entende quer dizer por que alguém que conta um conto aumenta um ponto isto é que é ótimo eu quero saber não só Qual é o ponto aumentado Mas por que foi aumentado então a distorção sobre o passado ou a memória falha eh ela não deve ser vista como uma coisa a ser jogada fora porque não não me não me serve essa memória falha porque não é não corresponde aos fatos
né não é nesse sentido Não não vou jogar fora uma informação porque ela eu eu preciso dela para entender como que essa sociedade se vê e vê o seu passado e lembra a respeito do seu lembra seu passado Nossa memória humana ela é digamos assim caracterizada por essa ligação entre linguagem memória história tempo isso nos diferencia certamente dos animais Mas isso faz também que nós que nós temos uma memória mais inconsciente e uma memória mais consciente Ela nos permite construir a nossa história