Você já ouviu falar na trégua olímpica? Antes de cada olimpíada na Grécia antiga, era anunciada uma trégua. Mas, ao contrário do que muitos pensam, isso não significava que guerras eram interrompidas.
A trégua servia para garantir o livre trânsito de atletas e impedir invasões na cidade de Olímpia, onde os Jogos aconteciam. Os gregos acreditavam que o evento tinha o poder de promover a paz até mesmo entre competidores em guerra. Na criação dos Jogos Olímpicos modernos, este valor também está presente.
A ideia é deixar as rivalidades de lado e ver que há mais coisas que nos unem do que nos separam. Mas, na prática, os Jogos Olímpicos são megaeventos que atraem a atenção do mundo todo e, muitas vezes, são palco dessas grandes disputas geopolíticas, seja na briga pelo quadro de medalhas até em casos de violência. Neste vídeo, vou lembrar alguns momentos em que guerras e conflitos estiveram presentes nos Jogos e mostrar a linha tênue em que o Comitê Olímpico Internacional tenta se equilibrar.
Os Jogos Olímpicos modernos chegam a reunir atletas de 206 países diferentes, sem esquecer da equipe especial de refugiados. É verdade que, em Paris, em 2024, Rússia e Belarus foram banidos. A gente já vai falar sobre isso, mas meu ponto aqui é a dimensão global do movimento olímpico.
Para vocês terem uma ideia, a ONU reúne 193 Estados-membros. Desde a criação dos Jogos Olímpicos modernos pelo francês Barão de Coubertin, no fim do século 19, havia a intenção de criar um mundo melhor, de paz, com base na compreensão mútua. Isso faz parte do conceito por trás do espírito olímpico.
No entanto, o mundo passou por muitas guerras desde então. A Primeira Guerra Mundial cancelou os Jogos Olímpicos que seriam realizados em Berlim, em 1916. Os países que perderam o conflito – Alemanha, Hungria, Áustria, Bulgária e o Império Otomano – foram excluídos dos jogos de 1920.
A Alemanha também não foi convidada a participar da edição seguinte em Paris, em 1924. Em 1936, os alemães organizaram os Jogos em Berlim, três anos antes da Segunda Guerra Mundial. Quem estava no poder era o ditador nazista Adolf Hitler, que queria usar o evento para passar uma ideia de superioridade racial.
Mas o plano naufragou diante do desempenho espetacular do americano Jesse Owens, que ganhou quatro medalhas de ouro no estádio Olímpico. Essa estratégia de usar os Jogos como um evento midiático seria repetida por outros países nas edições seguintes. Os Jogos Olímpicos foram interrompidos por doze anos devido à Segunda Guerra, voltando a acontecer em 1948, no Reino Unido.
A Alemanha e o Japão foram banidos da competição. Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos e a União Soviética disputavam a hegemonia no mundo, e competiam para ver quem liderava o quadro de medalhas. Os Jogos Olímpicos, com seu poder de criar heróis e revelar histórias de superação, funcionavam bem nesse contexto.
Mas, muitas vezes, os países criavam esquemas sofisticados de doping para conseguir mais medalhas. Ainda durante a Guerra Fria, nos Jogos Olímpicos de 1980, em Moscou, 66 países, liderados pelos Estados Unidos, decidiram boicotar o evento devido à guerra soviética no Afeganistão. Em 1984, em Los Angeles, foi a vez dos soviéticos fazerem o mesmo contra os americanos.
No meio dessa disputa de potências estava Thomas Bach, um esgrimista medalhista de ouro da Alemanha Ocidental, país que boicotou os Jogos de Moscou. Atualmente, ele é o presidente do COI, o Comitê Olímpico Internacional. Thomas Bach participou da decisão de banir Rússia e Belarus dos Jogos de 2024 em Paris, mas permitir que os atletas participem como indivíduos neutros.
Isso significa que símbolos nacionais, como bandeiras, times e hinos desses países estão banidos. Mas os atletas podem competir individualmente, desde que não sejam membros das forças armadas e não tenham apoiado ativamente a guerra na Ucrânia. Assim, o COI evita punir atletas que não participam da guerra e, ao mesmo tempo, elimina a possibilidade da Rússia usar o evento para propaganda, algo que o regime de Vladimir Putin sempre fez.
Outro conflito atual com repercussão em Paris é o confronto entre israelenses e palestinos. Embora sem um Estado oficial, os palestinos têm um comitê olímpico reconhecido desde 1993 e vão competir este ano em diversas modalidades. Esse conflito já repercutiu outras vezes no maior evento esportivo do mundo.
Em 1956, Egito, Líbano e Iraque decidiram boicotar os Jogos de Melbourne, na Austrália, em protesto à invasão israelense da Península do Sinai. Um dos momentos mais brutais dos Jogos também está ligado a essa disputa. Em Munique, em 1972, um grupo de terroristas palestinos invadiu a vila Olímpica, matou dois israelenses e manteve outros nove como reféns.
O sequestro foi transmitido ao vivo e terminou com a morte de todos os israelenses sequestrados. Foi uma catástrofe olímpica que revelou o despreparo da polícia alemã para lidar com a situação. Outro caso relevante é o da África do Sul.
Não foi uma guerra, mas um conflito interno que levou o país a ser banido dos Jogos de 1964 até 1988. Era o período do regime do Apartheid, um sistema de segregação racial. O governo havia determinado que somente atletas brancos poderiam representar o país.
Isso ilustra a linha tênue em que o Comitê Olímpico Internacional tenta se equilibrar. Essas decisões de banir países são baseadas nos valores olímpicos, como solidariedade, inclusão e não discriminação. Mas, ao mesmo tempo, a Carta Olímpica inclui a chamada Regra 50, que estabelece que posições pessoais podem ser expressadas em coletivas de imprensa e mídias, mas não em locais de competição.
A ideia é proteger a neutralidade dos Jogos e garantir "paz e harmonia". Vamos continuar acompanhando este assunto. A Deutsche Welle é a rede internacional de notícias da Alemanha.
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