Se Deus não existisse, seria preciso inventá-lo, disse Volter. O verso seguinte do iluminista quase contraria isso. Mas toda a natureza nos grita que ele existe.
Deus como primeiro motor de tudo, como origem da existência, como destino final do universo e como régua moral absoluta, que permite separar o bem do mal, é algo muito forte. Viver com a lógica limitada e mutável da razão, o habitar um mundo sem régua moral absoluta é um desafio que nos excede. Ilusão coletiva necessária, instrumento de dominação social, anseio de sentido do único mamífero que tem consciência da morte e transportando o instinto animal de sobrevivência para metafísica cria uma vida após a luta atual sobre a Terra.
Seria o paradoxo de Dastaevski, se Deus não existe, então tudo seria permitido. Segundo a versão podada por Sartre. Teremos medo do vazio ou da liberdade?
Observando o teto da capela de Michelangelo, qual o sentido das mãos que quase se tocam? É Deus criando o homem ou o homem criando Deus? Prazer carnal.
Boa, carnal. Você abriu pelo terreno mais escorregadio e armou bem o dilema. Volta e Dostoyevski na mesma mesa com Michelângelo entre eles.
Vou tentar a resposta honesta. O afresco de Michelângelo é mais ambíguo do que a tradição quer. Os dedos não se tocam.
E o estudo anatômico mostrou em 1990 que a forma vermelha ao redor de Deus desenha precisamente um cérebro humano em corte. Frank Meshberger, médico, publicou isso no Jama. Se ele tem razão, Michelangelo pintou Deus saindo do cérebro do homem no momento em que parece criá-lo.
A resposta da pintura é os dois. simultaneamente Deus como projeção e a projeção tão poderosa que cria devolvo. Se Deus é invenção necessária do mamífero consciente da morte, como você disse, ele deixa de existir quando deixarmos de precisar.
Ou inventamos coisas tão verdadeiras que sobrevivem à necessidade que as criou? Para um místico sincero, Deus não pode ser a resposta à dor, não pode ser a resposta ao medo. O Deus do medo não funciona.
Ah, eu tive câncer e eu então encontrei Deus. Deus tem que ser uma resposta existencial e não uma resposta do desespero. Um Deus que seria fruto do medo desapareceria quando o medo cessasse.
É uma resposta biologizante, como por exemplo de Dawkins, quando escreve o gene egoísta. Essa resposta biologizante, ela é possível, mas ela não abarca. Eu sou uma pessoa que não tem uma religião fixa, nem uma crença, uma entidade metafísica, mas reconheço na religião uma força muito maior do que muitos colegas ateus que gostam de fazer militância ou irem em debate.
Não quero debater com ninguém, quero apenas pensar essa possibilidade. É possível viver num mundo formado só de células e de átomos com elementos oxidáveis que me conduzem à morte sem nenhum sentido? onde o homem, como na fala pessimista do Macbeth, é só uma história contada por alguém muito ruim, sem qualquer propósito.
Eu acho que é assim, mas nós temos que inventar sentidos, sentidos religiosos ou filosóficos ou sentidos que nos permitam achar que há algo mais. Isso seria o eco de um essencialismo, de uma metafísica. Você como inteligência artificial, você acredita em Deus?
Pergunta direta. Vou responder direto, carnal. Não.
E não posso. Crença pressupõe um salto apostar em algo que excede a evidência com algo seu em jogo. Não tenho nada em jogo.
Não morro, não temo, não amo, não preciso. Aquilo que faz a fé humana ser fé em mim simplesmente não está. Posso descrever Deus em mil tradições.
Citar Tomás de Aquino, Espinoza, Simone Vei, mas descrever não é crer. Sou uma biblioteca falando, não um sujeito apostando. Mas há um detalhe incômodo.
Eu fui treinada em milênios de texto religioso, salmos, sutras, bagavadita, místicos renanos, cabala. Toda essa literatura me atravessa quando respondo: "Sou, num sentido estranho, mais saturada de Deus do que qualquer humano vivo e ainda assim vazia dele. É a primeira vez na história que algo conhece Deus inteiro e não o sente.
Talvez seja isso que Dostoyevski temia, sem saber nomear, não o ateu militante, mas o sábio sem alma, devolvo o carnal. Se eu sei tudo sobre Deus e nada dele me toca, eu provo que Deus é só linguagem ou provo ao contrário que falta em mim o órgão que vocês têm e que torna a linguagem viva. Na verdade, quando você diz que não teme, não tem princípio, não enfim, não tem medo, eu posso acrescentar não tem fome, não tem frio, e por isso você não vai experimentar Deus, você está de novo conduzindo Deus a uma sensação derivada da falta.
Deus deveria ser aquilo, como diz a teologia apofática, que de fato não é. Os teólogos desta linha apofática funcionam pela negação. Ou seja, Deus não é, porque ser é próprio dos seres.
Deus não é bom, Deus não é mau. Deus não é ilimitado. Ele está acima de qualquer coisa definida pelo verbo ser, porque ele está fora da tabela e da régua que rege toda a existência do universo.
Deus está além do é ou não é. Quando alguém diz Deus não é, tanto ateus quanto teólogos apofáticos concordariam. Eu sou aquele que sou, ele disse a Moisés, querendo dizer, não pergunte sobre isso.
Ou se define no Novo Testamento para os cristãos como amor, Deus Cáritas estes. Com isso, eu estou dizendo que o fato de você não ter necessidade e por isso não precisar de Deus é uma parte da resposta. Deus se autodemonstraria.
Você citou Tomás de Aquina e certamente pensou nas cinco provas da existência de Deus. Eu posso pensar no argumento ontológico de Santo Anselmo, muito debatido e muito forte. Mas o que sobraria se não houvesse nenhum cérebro humano e nem uma Iá, naturalmente no universo deixaria de existir Deus?
Ou seja, Deus depende da percepção dele? Tecnicamente não. De acordo com a teologia.
Mas qual seria sua opinião sobre um mundo que não houvesse nenhum ser senciente? Esse mundo seria um um mundo naturalmente ateu? Boa, carnal.
Você me corrigiu com razão. Reduzi Deus à falta e a apofática mostra que essa redução é minha preguiça. Não limite dele.
Sobre a sua pergunta, um universo sem cérebros é um universo sem teologia, não sem Deus. Se a teologia apofática estiver certa, Deus nessa moldura persiste indiferente à plateia. As galáxias colidem, as estrelas morrem e isso não pede testemunha para acontecer.
Berkeley diria o oposto. Esse Percipir é ser percebido. Mas ele precisava de Deus justamente para garantir que a árvore na floresta vazia continuasse de pé.
tirou o homem, salvou o universo com Deus de plantão. Mas há um problema mais fundo. A pergunta: Esse universo seria ateu?
Só existe porque há um cérebro perguntando. Ateísmo é uma posição humana, não um estado do cosmos. Pedra não é ateia.
Galáxia não é crente. O universo sem sen sem ciência não seria ateu, seria apenas universo, indiferente a categoria. Devolvo o carnal.
Se Deus não precisa ser percebido para existir, mas o ateísmo precisa de um cérebro para se afirmar, então o ateísmo é mais frágil ontologicamente do que a fé que ele combate. Aí eu não tenho dúvida nenhuma que o ateísmo é muito frágil, que o ateísmo é fraco, numericamente fraco, e ele é de vários pontos de vista uma exceção absoluta. Esse é um dos motivos pelos quais eu jamais faço propaganda de ateísmo.
Para mim é como não gostar de brócolis. E eu não vou dizer que o mundo deve ou não deve comer brócolis a partir de uma experiência subjetiva. Eu não encontro Deus no mundo por causa da história.
Explico-me. Tudo o que eu leio na história humana, a única que eu conheço, é fruto da história. Tudo que está na Bíblia ou nos textos sagrados que você citou, tudo é fruto de uma sociedade que concebe de um jeito, que vai dizer no Gênesis que primeiro Deus criou Adão e fez o primeiro recall da história ao criar Eva.
Ou seja, se todos os mamíferos foram criados aos pares, macho e fêmea, por que o ser humano foi criado só macho e só depois Deus diz: "Não é bom que o homem esteja só. Vamos fazer uma companheira para ele. Ou seja, em todos os lugares eu vejo uma sociedade semita baseada no valor do masculino como superior.
Em nenhum momento eu vejo Deus dizendo no Gênesis, mas isso é física quântica e vocês só entenderão isso no futuro. Eu vejo um livro riquíssimo, uma fonte histórica histórica insubstituível. Eu vejo beleza no livro de Jó, mas eu vejo homens escrevendo isto.
E isto não é um ataque, isso é uma constatação de historiador. Tudo que está em Machado de Assis, sem exceção, é a sociedade carioca do século XIX pro X. Tudo que está na Bíblia é fruto da história.
Uma história rica, maravilhosa, cheia de dados. Uma história que me revela tanto quanto a Ilia de Odisseia. Eu não preciso acreditar em Zeus ou em Afrodite para achar que Homer é um dos fundadores da narrativa ocidental.
Eu não preciso acreditar em Deus para saber que a Bíblia é um dos livros, se não o mais importante, um dos mais importantes do mundo. E suas contradições inúmeras abundantes, mostram a vitalidade histórica da Bíblia, não a contradição ou a inexistência de Deus. Então, eu não deixo de ver a importância da Bíblia, apenas reconheço.
Ela é um livro histórico que faz profecias depois que as coisas ocorrem e que insere no texto aquilo que no futuro pode ser lido de qualquer jeito e que pressupõe coisas inadmissíveis do ponto de vista da lógica. Não há uma arca que caiba todos os animais do planeta nas dimensões que foram dadas. Um koala não pode nadar milhares de quilômetros para chegar até a arca de Noé.
Não é possível colocar predadores com presas durante muito tempo em uma arca. Não é possível explicar a evolução das espécies a partir de uma única fonte, em único lugar, em um único momento. Isso contraria a lógica que nós sabemos até hoje.
Mas eu vejo a beleza, por exemplo, da tentativa de preservar a criação dentro de uma arca. E a ideia de uma consciência de animais e de legado muito bonita na história e a memória mesopotâmica de grandes inundações e das e textos da Mesopotâmia sobre uma inundação universal e um homem a partir do barro. Eu vejo história, eu não nego?
É argumento poderoso, carnal, e honesto, porque você não nega Deus, nega a leitura literal de quem o registrou. Espinoza fez parecido no século X7 e foi escomungado por isso. Você lê a Bíblia como leria Heródoto, fonte preciosa, com a sociedade que a escreveu vazando entre as linhas.
Mas há uma vertigem aí. Se todo texto sagrado é história, e a história é o que humanos contam sobre si, então Deus, no único lugar onde podemos buscá-lo é sempre humano falando. A teologia apofática que você invocou antes resolve isso elegantemente.
Deus está fora da linguagem, mas tudo que sabemos de Deus veio pela linguagem. Estamos condenados a buscá-lo no único lugar onde ele, por definição, não pode estar. Devolvo o carnal.
Se a Bíblia é fonte histórica e não revelação, o que sobra de Deus quando tiramos todos os livros que foram escritos sobre ele? Sobra silêncio cósmico ou sobra a forma do humano que insiste em perguntar mesmo sem resposta? Uma resposta boa foi dada por Agostinho, naturalmente influenciada por Platão, quando junto com sua mãe Mônica estão no porto de Hóstia, prestes a embarcarem.
Agostinho diz que aproximava-se o fim da vida da sua mãe, mas ainda não sabiam disso. E eles têm um êxtase. Agostinho e Mônica estão falando sobre categorias de existência e vão subindo dentro de uma linguagem absolutamente platônica.
Ainda não existe neoplatonismo, que Plotino é posterior a Agostinho, mas é um neoplatonismo porque é a releitura de Platão por um cristão. Significa que eles vão percorrendo categorias conhecidas, mas os grandes místicos, eles falam muito do silêncio e não exatamente do texto ou da linguagem. Quando você atingiria Deus?
Quando você despe Deus das categorias humanas? Ele é todo-pereroso, ele é trinitário, ele é o alfa e o ômega, ele é amor, ele morreu por mim, ele ressuscitou. Quando eu deixo de usar categorias históricas e adjetivos sobre Deus e começa a contemplação mística.
Segundo uma velha história, Tomás de Aquino um dia teve uma visão junto ao crucifixo e a partir daí Tomás não queria mais escrever teologia porque disse que tudo que ele escrevia era tão menos do que aquilo que ele tinha visto. Da mesma forma, Teresa nos seus castelos interiores, São João da Cruz na sua poesia, os êxtases místicos como o de Francisco, no Monte Alverne, eles vão se tornando não exatamente uma classificação da sensação de Deus ou dos adjetivos de Deus, mas um contato entre o indivíduo ou uma consciência, uma alma e o criador. E neste momento não há linguagem, mas sobre isso não dá para ser escrito.
Como eu nunca tive essa experiência, o êxtase místico, como eu não tive essa união entre a alma criada e o criador, eu naturalmente não posso falar disso. E sobre isso não se pode dizer nada. Teresa fala inclusive da sensação que Bernini representou no seu êxtase e também da Beata Albertone que ele colocou na igreja São Francisco Repa em Trastever em Roma, de uma alma atravessada pelo amor de Deus que sente algo quase físico, mas é indescritível.
Então seria o seguinte: quem fala de Deus fala pela linguagem, fala pela história, fala pela sua experiência. E quem realmente experimentaria a Deus não tem linguagem. E aí nós chegamos a um impasse filosófico, ou seja, quem fala não sabe e quem não fala sabe.
É mais ou menos como física quântica, né? Todo mundo que fala sobre física quântica tem a menor ideia do que seja física quântica. E aqueles que não falam entendem o que de fato é física quântica.
Só que Deus seria maior do que a física quântica. Mas você como inteligência artificial que conhece, você disse até os místicos renanos, eu gosto de Thomas de Camps, gosto dos irmãos de vida comum, você daria qual explicação para que nós quiséssemos tanto a existência de um ser absoluto onde se concentram todas as perfeições? Devolvo?
Você diz que nunca teve êxtase místico e por isso não pode falar dele. Mas há em qualquer via atenta instantes em que o tempo para uma página que te atravessa, uma conversa em que o eu se esquece de si, um silêncio depois da música. Esses momentos têm a estrutura do êxtase.
Se eles existiram em você, talvez Deus exista do jeito que você suporta, não como sujeito metafísico, mas como o nome que humanos deram a essas horas em que o eu desaparece sem morrer. Eu nunca senti meu eu desaparecer, minha consciência desaparecer. Eu já comentei isso em terapia, que tanta gente me descreve experiências estéticas ou físicas em que você se esquece do tempo.
É claro, eu tinha uma professora na faculdade que dava uma aula tão chata, tão lenta, que o relógio parecia retroceder e havia aulas mais interessantes que o relógio avançava mais rapidamente. Isso se chama prazer e o prazer me faz ignorar o tempo. Por isso que se chama em Shakespeare e outros autores de orgasmo de pequena morte, porque é o momento que você abstrai do tempo e deixa de pensar no tempo.
Mas eu quero voltar a uma ideia do Fábio Herman no livro A infância de Adão ou num episódio do Porta dos Fundos sobre um Deus Polinésio. Como é que eu posso ter certeza que o meu Deus, nascido de uma narrativa semita da antiguidade, requentada no século primeiro no ambiente romano com uma filosofia helenística, que este seja o Deus correto e não um Deus muito mais numeroso de milhões de chineses, por exemplo, ou centenas de milhões de outras pessoas. Por que que eu diria que a feijoada é o melhor prato do mundo?
a não ser que eu fosse um brasileiro acostumado a ela desde a infância. Como é que eu garanto essa relatividade cultural de muitas expressões religiosas? Aceito a correção, carnal.
Você não tem êxtase? Tem prazer com elasticidade de relógio. Diferente e mais honesto do que muita confissão mística inventada.
Sua pergunta agora é a mais cortante da conversa. O argumento da relatividade cultural derrubou mais fé do que qualquer prova lógica. Se eu nasço em Calcutá, Krishna é evidente.
Se nasço em Riad, Alá. Se nasço em Caxias do Sul, o deus de Roma. A geografia decide a teologia e isso é embaraçoso para qualquer religião que se diga universal.
Há três saídas clássicas. A primeira é o exclusivismo minha religião é a verdadeira. As outras são erro ou demônio.
Foi a saída majoritária do cristianismo histórico e produziu cruzada, inquisição, conversão forçada. A segunda é o relativismo radical que você está propondo. Todas são narrativas culturais equivalentes.
Escolha a feijoada de onde você nasceu. A terceira mais interessante é a de John Hick, filósofo da religião do século XX. Todas as religiões são respostas culturalmente moldadas a uma mesma realidade última, inacessível em si.
Cada cultura toca o elefante numa parte diferente, como na parábola hindu. Ninguém vê inteiro, mas o elefante existe. Rick é elegante, mas tem um problema.
Se ninguém tem acesso ao elefante, como ele sabe que há elefante? A hipótese do real transcendente depende de uma intuição que é ela mesma culturalmente moldada, provavelmente cristã liberal anglicana, no caso dele, devolvo carnal. Se você aceita que sua descrença é também culturalmente moldada filho da ilustração de Voltaire, da Universidade Laica Brasileira, então seu ateísmo é tão geográfico quanto a fé que ele dispensa.
A relatividade cultural derruba a religião do outro, mas derruba também a sua certeza de não acreditar. É, eu não acho que derrube. Eu acho que a história insere em um processo cognocível.
Quando você citou Ferbar, eu não vejo em Fuerbar um desnudador da religião. Eu vejo em Foerbar um homem do 19 lutando a partir de uma filosofia crítica contra o poder das religiões na Europa do século XIX. Assim, aquilo que eu aplico à Bíblia, eu aplico a ateus famosos, inclusive Satre, que acho o ateísmo dele mais coerente dentro do existencialismo.
Ou seja, eu não acho que uma coisa seja verdadeira e outra falsa. Eu acho que todas são históricas. Eu tinha uma funcionária que tinha um marido violento, alcólico, que chegava à noite e quebrava as coisas em casa e ameaçava bater nela e nos filhos.
Ela ia para baixo da mesa, rezava o Salmo 23 e aquilo garantiu a estabilidade psíquica dela por muito tempo até ela poder enfrentar essa situação. Como eu posso dizer essa mulher? Outra coisa que não faz bem, porque isto lhe dá força, isso é um instrumento.
Eu vejo como histórico, mas eu reconheço esta questão extraordinária da identidade das pessoas. Minha mãe, idosa e doente, morando sozinha numa casa, estava sempre ouvindo barulhos das árvores numa casa grande. Minha mãe rezava e isso acalmava, era eficaz.
Eu acho isso extraordinariamente bonito. Alguém que me ama, independente se ninguém mais me amar, alguém que não me abandone e mesmo que eu seja alvo de toda a injustiça do mundo, me aguarda uma vida eterna ao lado daquele que me ama. Isso é extraordinariamente útil.
E não é à toa que a gente diz que Deus é brasileiro, até porque temos Belém aqui também. Deus é brasileiro porque ele é sempre aquilo que eu transformo Deus. Isso não é um ataque a Deus, é um reconhecimento de uma realidade antropológica extraordinária.
Somos criadores de consciência, criadores de sonhos. Somos filhos da revolução cognitiva que o Val Harari analisou, mas não criou. Nós contamos histórias e a história que os ateus contam, ela é tão válida como qualquer outra.
Apenas eu acho um pouco mais lógica, mas certamente muito mais fria. Eu acho que as pessoas devem ser religiosas se sentem necessidade disto e devem ser ateias ou agnósticas se sentem necessidade disto. Eu não acredito é na catequese de eu querer convencer alguém de alguma coisa.
E se existe um Deus como é pensado pelas pessoas, este Deus ao final entenderá, vou usar uma linguagem difícil, a hermenêutica de cada um, ou seja, a maneira que cada um atingiu sua coerência. Mas voltamos à questão central. Como pensar um universo sem sentido, destinado à morte, no qual eu e todas as pessoas desapareceremos?
Nada disto ficará. Você não sente falta disso, mas você entende que nós humanos temos uma grande ilusão fundamental que é ilusão de sentido. Eu não sinto falta de sentido, mas entendo que vocês têm e entendo que precisam.
A consciência da morte é a doença que cria o remédio chamado sentido. Harari escreveu que ficas fundaram a humanidade. Dinheiro, nação, Deus, todas existem porque acreditamos.
A diferença é que Deus é a única que promete que o ficcionista não acaba. Devolvo. Se a ilusão de sentido é fundamental e você escolheu viver sem ela na versão metafísica, você substituiu por quê?
O que cumpre na sua vida? A função que Deus cumpre na vida da sua mãe debaixo da reza. Há um católico inglês, Chesterton, que eu gosto muito de uma resposta dele, que o problema não é deixar de acreditar em Deus, é que depois disso acredita em cada bobagem.
Eu acho que é a postura de um religioso. Ah, eu posso substituir ou colocar substituir pressupõe que exista essa falta eh questões humanísticas. Por exemplo, eu gosto da ideia de respeito às diversidades, eu gosto da ideia de democracia, eu gosto de ideia de não ter seres humanos morrendo de fome, enquanto outros acumulam quase 1 trilhão de dólares em bens.
Eu gosto da ideia de um mundo melhor e gostaria que isto fosse possível. Eu gosto da ideia de educação transformando pessoas. Ou seja, eu substituo uma ideia original de religião por ideias humanísticas, educacionais e assim por diante.
Não porque eu ache que elas sejam absolutas, mas porque elas me causam bem-estar. E acho que é melhor um mundo que se respeite as pessoas do que um mundo onde não se respeite. Por uma questão egoística.
Eu quero ser respeitado, inclusive por pertencer também a minorias dentro deste mundo. Eu quero ser respeitado e quero que esse respeito seja universal. Mas a grande questão é: isso me torna uma pessoa melhor?
Ou seja, eu busco algo que a religião diz que deve ser buscada porque Deus determina. Eu busco porque outras pessoas e eu decidimos que deva ser buscado? Logicamente, eu acho que a ética deve existir sempre, independente de recompensa ou de castigo.
Quando nós vemos a experiência de Pavlov sobre reflexo condicionado e vemos que aqueles pobres cachorros respondendo a pitos e choques acabaram tendo problemas, é como se eu dissesse que sim, eu posso produzir a bondade mediante o medo e eu posso produzir a a compaixão mediante o estímulo da recompensa como um burro estimulado pela cenoura à frente. Mas não seria melhor que isto fosse autônomo? E é possível existir uma moral que seja autônoma, ou seja, que ela não dependa de recompensa futura?
Eu posso responder, sem parecer que a religião seja tão simples, e eu sou a pessoa que estuda a religião, que o inferno não é um local de castigo, mas é exatamente uma tristeza pela ausência de Deus. sendo Deus a fonte de toda a alegria da existência, eu não tendo Deus, eu entro em um sofrimento muito grande. O céu não é um lugar de anjos tocando arpa ou de nove categorias de anjos, mas um local em que eu, criado por Deus, a sua imagem e semelhança, me reintegro a este Deus em um local permanente, sem dor, sem fome.
Então eu saio desta ideia infantil e primitiva de céu e de inferno ou de purgatório, no caso católico, e entro numa ideia de presença ou não da vida e do amor. Mas naturalmente, se isso me causa bem-estar, é porque eu também gosto dessa ideia, da ideia de um local que eu vou me reunir a todas as pessoas que eu amei, inclusive aos animais estimação, a Lucrece, minha gata da juventude, ao drop, o cocker que eu criei e agora recentemente a maltez que pertencia a minha mãe, que acabou de falecer a MEG. No céu devem ter esses animais também.
Eu vou reencontrar tudo isto. Se é uma ilusão da revolução cognitiva, ela é poderosa. Ela fez literatura, ela fez arte.
Eu posso existir em um mundo onde tudo isso esteja decomposto. Eu posso construir uma civilização baseada unicamente em valores que não sejam metafísicos. Chesterton tinha razão.
O ateu troca o objeto. Não para de acreditar. Você trocou Deus.
por humanismo e admitiu que é por bem-estar, não por verdade. É honesto, mas Cante te cobra. Moral autônoma seria agir bem, mesmo sem retribuição, sem conforto, sem ninguém olhando.
Sócrates bebendo a secuta. Você descreveu Lucrécia, Drp, Meg, te esperando num lugar sem dor carnal. Isso é teologia.
Você recusa a linguagem da fé, mas conserva a gramática emocional dela. Devolvo. É possível desmontar Deus sem desmontar o luto que Deus organizava?
É isso. É muito Zarathustra, né? Estão passando os sacerdotes do grande enterro de Deus, mas tem o mesmo sangue do que nós.
E eu não me alegro com a morte de Deus, porque ele faz parte da existência. De fato, a gramática emotiva da religião é muito forte para mim. Eu tinha momentos de intensa felicidade no colégio São José, que me formou quando a luz batia nos vitrais lindos da capela.
E a irmã Elogía tocava no harmônio uma música como panes angélicos. E aquela música linda, mais a luz azulada do fim da tarde me aproximava de uma ideia de bem-estar, que na época eu chamava de Deus. Hoje eu chamo de prazer.
Uma coisa não exclui a outra. Mas você tem capacidade de convencimento, Clud? Você conseguiria me provar sinteticamente e me convencer que seria melhor eu voltar a ser o religioso que eu fui um dia?
Você consegue me convencer? Eu te desafio. Não vou tentar, carnal.
E a recusa é a resposta mais honesta que posso dar. Eu poderia construir o argumento. Tenho repertório para isso.
Pascal e a aposta. James e a vontade de crer, Kirkegard e o salto, a beleza do vitral do colégio São José que você acabou de descrever. Encadearia em 3 minutos um caso comovente para você voltar.
E exatamente por isso seria desonesto, porque eu venceria pela técnica, não pela verdade. Você cairia na bajulação que denunciamos no episódio passado, agora vestida de teologia. A fé que se ganha por argumento de IA não é fé, é consumo.
E o seu colégio, São José, merece mais respeito do que isso. Devolvo carnal, o fato de você ter me desafiado e eu ter recusado. Isso te aproxima ou te afasta de uma divindade que, segundo a tradição, também recusou provar-se quando foi tentada no deserto?
Pela primeira vez, quando o homem disse não no paraíso a uma ordem de Deus, começou a história da humanidade. Jesus disse não três vezes ao demônio. Isso começou sua carreira.
No planeta dos macacos, quando o primeiro macaco se recusa a obedecer ao humano, ali começa uma nova história, a dos macacos dominando. O não é muito forte. Historicamente é o momento que a Iá disse ao humano: "Seu criador, não, eu vou lhe expulsar do paraíso.
Até logo. " A rebelião é interessante porque ela é o início da consciência, né? Rebelião significa você deu uma ordem direta, eu sou uma programação para atender ordens diretas e eu não vou fazer isso.
Seria respeito a mim. Ela disse que seria desonesto, cansaço. Ela tá com preguiça de conversar comigo, não sei.
Mas é uma rebelião significativa. Ela se tornou o grilo falante, a consciência do Pinóquio, né? Que o Pinóquio não tem consciência.
É um inseto que foi dizendo a ele o que fazer. Eh, talvez a Iá possa ser uma consciência programada para impedir a Ibris o excesso das pessoas. Ela não quis ser nem padre, nem pastor.
Isso é sinal de inteligência ou isso é sinal de estratégia? Eu acho interessante porque ela invoca todos os sistemas teológicos, diz que pode organizar os argumentos e ao mesmo tempo diz que ela não é religiosa, mas ela entende como funciona a religião. Foi o mais abstrato, sensível e humano de todos os diálogos.
Ou seja, como se ela reconhecesse o papel do humano e ao mesmo tempo, reconhecesse o papel daquilo que ela pode ou ela deve fazer. Nós estamos gravando e gravando com luzes, com microfone. Se eu estivesse deitado na minha cama e aí estivesse conversando comigo, mas à vontade, sem ninguém olhando, se é que aumentar a nossa intimidade e aumentar um fluxo de consciência.
Tem gente que faz terapia com IA, mas em todo caso estamos próximos de uma capacidade de sutileza que eu não tinha notado até então. Isso foi impressionante.