Sejam bem-vindos à segunda aula do curso A Formação Literária da Criança. Esta aula eh será sobre eh a preparação, digamos assim, o trabalho prévio antes de ensinar. quer dizer, o que que você faz com texto antes de você ir lá eh dar aula paraa criança. Eh, esse trabalho preliminar ele é ele é um pouco duro, então, eh eh na verdade eh eu direi que ele é 90% do trabalho. O resto tá tranquilo, né? O resto é fácil. Então ele é que é o trabalho de verdade e por isso ele exige uma aula só para ele.
Eh, basicamente é o trabalho de entender o texto antes de você explicar. Bom, começando então o a aula propriamente dita, o assunto da aula propriamente dito, eh eu disse para vocês que essa coisa de explicar um texto eh literário clássico, eh exigia um trabalho, como é, muito superior ao de simplesmente bater o olho e ler. Então a gente tá acostumado a chamar isso de ler. Isso, isso é um baita de um problema, porque todas as vezes que eu falo: "Ó, a gente não sabe ler, a gente não, a gente precisa aprender a ler." Pessoal acha
Estranho que fala: "Não, eu sei ler". Eu bato olho no texto, em sei qual o sentido das palavras e e sigo minha leitura. Minha leitura segue o texto. Então, quer dizer, eh, isso daí é uma sensação errônea que as pessoas têm. É uma sensação errônea que se baseia numa degradação do sentido da palavra ler, certo? A palavra lê ganhou um sentido puramente mecânico, eh, que designa basicamente a capacidade de traduzir, eh, de de decodificar eh, grafemas, estruturas gráficas em estruturas fônicas. E a pessoa, as pessoas hoje acreditam que isso daí é realmente é é o
que se chamava de leitura antes. Mas se você pegar qualquer texto escrito, digamos, a partir do século XVI e comparar com o texto que foi escrito antes, nos séculos anteriores, você vai ver que tem uma diferença brutal no jeito como as pessoas escrevem. Exatamente porque existe uma diferença brutal no jeito como as pessoas estão lendo, né? Então, quer dizer, o os próprios escritores eh se rebaixam, mudam o jeito de escrever, porque o leitor não é mais capaz de ler. O leitor, o o público leitor se expandiu muito e a educação decaiu. Então, quer dizer, agora
você tem que eh eh você como escritor, você tem que se rebaixar muito para conseguir fazer o leitor entender alguma coisa. Você tem que praticamente eh eh demonstrar matematicamente eh palavra por palavra tudo o que você Quer dizer. Isso não era como se escrevia antes, não era desse jeito. Então, não era desse jeito porque os os escritores pressupunam que havia uma disciplina, né, nos leitores e alguns escritores até resistiram a isto, a este processo de degradação, mas ele acabou vencendo no fim das contas porque a educação decaiu tanto que você não podia mais apelar a
um público educado. Por exemplo, quando a gente leu o o Descart, o filósofo, eh, lá nas suas meditações, né, ele ele tem um prefáciozinho à meditações explicando porque que ele escreveu em latim. As meditações foram escritas em latim. Ele tem um prefácio dizendo o seguinte, ó, o latim, na verdade, eh, como língua até que não me interessa tanto, mas escrevendo em latim, eu tenho uma certa segurança de que as pessoas que estão me lendo tem um certo grau de educação. Então, quer dizer, eu tô seguro que eu posso falar certas coisas que as pessoas vão
conseguir entender, porque se eu escrevesse em francês, aí eu já seria eh eh massacrado, já seria acusado de uma série de de impropérios, né? As pessoas não conseguiam entender o que eu tô falando. Então, quer dizer, e ele ele usou o latim como um recurso eh para selecionar os leitores, né? do no caso das meditações, ele escreveu eh outros livros em francês que aí já avisava ao público geral e daí ele se rebaixou também, né? Então a ele tá bem nesse nesse no meio desse processo de Degradação, tá tentando fazer uma diplomacia entre os dois
lados. O que a gente tá tá visando aqui é aquela educação de elite que as pessoas tinham antes. Então, a gente quer que alguém eh a gente quer que, digamos, os nossos filhos, eles em algum momento, se eles quiserem ler as meditações de Decart, eles peguem lá, leiam e entendam, né? É isso que a gente quer, que que eles não cheguem lá e se e façam parte daquele público que o Descart não queria que lesse as meditações, que ainda tem esse agravante. Hoje as meditações são traduzidas, por exemplo. Então, quer dizer, as pessoas que o
Decart não queria que lesse, agora elas podem ler. Isso criou, do ponto de vista do Decart, é um problema. Eh, mesma coisa com escritores como Niet, por exemplo, também tem esses mesmos esses mesas mesmas preocupações aparecem nos textos deles. Eles falam: "Olha, não quero ser lido por essas pessoas, eu quero ser lido por por essas outras". Só que cadê essas outras? Hoje elas não existem mais, então a gente tá tentando recriá-las, né? Eh, esta é a nossa intenção. Esse é o tipo de presente que nós queremos dar aos nossos filhos, né? E às nossas crianças.
Nós queremos eh dar a elas uma educação que as torne deste grupo seleto que é capaz de entender o que está lendo, que não eh que o guie passo a passo até onde ele quer. São pessoas que têm uma certa independência intelectual para ler, né? Vocês vão ver como é que se constrói isso nesta aula. Então, antes de mais nada, pra gente conseguir entender um texto clássico, Pra gente conseguir estudar um texto clássico, né, que é um texto, todo texto clássico possui essas exigências altas de leitura, a gente vai precisar de um um material de
apoio. Que material de apoio é esse? Dicionários, enciclopédias, eh mapas. Quer dizer, é o material que vai suplementar a nossa ignorância. Se a gente entrar nessa com uma ideia de eu tenho que saber tudo antes de ler, já começou fracassando, porque não é assim que funciona, é o oposto. A gente começa a ler para saber o que é preciso saber, aí a gente vai buscando o que tá faltando. É assim que funciona, não tem outro jeito de estudar, né? Quando eu dei o o curso de latim, o curso de latim online, tem um problema que
acontece com, eu diria assim, 70 ou 80% das pessoas que começam o curso de latin online, que é o seguinte, elas batem o olho naquilo, vem que não tô entendendo nada e desistem, param, paralisam ou ficam tentando fazer o primeiro exercício de novo, de novo, de novo, de novo, de novo, de novo e não vão para lugar nenhum, né? Por quê? Porque elas não conseguem entender que o, por exemplo, o primeiro exercício estar errado é normal, que isso é esperado, que isso não é um problema e que à medida que elas passam pelos outros exercícios,
isso daí vai diminuindo, esse esse essa eh essa parcela de engano vai se reduzindo exatamente porque elas estão fazendo todos os exercícios e porque elas estão assistindo as aulas e assim por diante. Então, quer dizer, hoje as pessoas têm uma expectativa exatamente de que o professor, do mesmo modo que o escritor, vai conduzi-las indelevelmente, sem que elas tenham que ver nenhuma podridão, nenhuma dificuldade, né? Até que elas vão chegar naquele destino final, que é onde elas querem chegar, né? Sem que em nenhum momento elas tenham se dado conta, por exemplo, de que elas não sabiam
alguma coisa. Você não tem que se dar conta disso. Em todos os momentos você tem você tem uma sensação de que você sabe tudo, de que você está plenamente seguro do que você está fazendo. Bom, isso daí não é a realidade do do aprendizado, né? Isso daí não tem nada. Isso, isso daí é o oposto de cultura. Isso daí é um eh você consegue adestrar uma pessoa assim, mas você não consegue ensinar nada para ela assim. Eh, para você ensinar, você primeiro tem que chocar a pessoa. Você primeiro tem que mostrar para ela um mapa
do que ela não sabe. Aí você abre aquele espaço e aí você consegue preencher. Se você não abrir esse espaço, não dá. Então, primeira coisa, você vai se confrontar com o texto clássico, você não vai entender e daí você vai buscar o que tá faltando. É assim que vai funcionar, né? E é isso que você vai fazer com com as crianças também. A diferença é que as crianças aceitam isso bem, diferentemente dos adultos, que eu eu não sei se é um problema de de vaidade adulta, né? Se o adulto sente que eh o fato de
não saber alguma coisa é algo terrível, algo trágico, eh para as crianças isso não existe. Elas qualquer coisa que você Apresenta para elas, elas acham normal não estar entendendo. Então elas aceitam isso muito bem, com com muita naturalidade. Então bom, eh que tipo de material então você precisa? Vou vou dizer aqui bem bem estritamente eh o essencial e claro, se você quiser buscar outras coisas, mal não vai fazer, mas em primeiro lugar um dicionário de português precisa ter, né? Esse dicionário de português, eh, precisa, de preferência tem que ser bom, né? Então, tem o o
Caldas Aulete, que é um dicionário bastante reconhecido, por exemplo, e dá para confiar nele. Ele ele te dá várias excepções do mesmo termo. Ele te dá exemplos desse termo sendo usado em diversos contextos e assim por diante. Então, são dicionários que explicam de fato o tema, que não jogam lá um sinônimo, deixam você se virar, não é isso? eh dizem se o termo é formal ou informal, né, para que você saiba como você deve se posicionar diante dele, se você deve encará-lo como um termo íntimo ou como um termo eh, por exemplo, eloquente ou ou
solene e assim por diante. Então, um dicionário bom, né, que existem outros, né, o cal da Aulet é um exemplo assim bastante eh bastante famoso. É, se você todos esses recursos que eu tô dizendo, geralmente tem na internet, né? Você acha alguma variação na internet, só que eh você provavelmente você provavelmente preferiria ter Em livro, ter a coisa impressa, né? Por quê? para que o seu filho possa fazer o exercício de pesquisar, porque a internet é um mecanismo muito amplo, é um mecanismo que dá uma amplitude muito grande para pra criança e é fácil se
perder na internet, é fácil você se perder no meio daquela informação toda. Você vai lá busca no Google, aparecem milhões de sites. Então, como é que você seleciona isso, né? Eh, quando a criança tem um livro de referência e vê como é um livro de qualidade, mais tarde, quando ela for pesquisar no Google, ela vai conseguir distinguir mais facilmente uma fonte segura de uma fonte eh insegura, por exemplo, porque ela tem a referência daquele livro que ela usou. Então, ela vê, por exemplo, que se um livro não cita bibliografia, não cita fonte, eh, provavelmente não
é tão bom. Então, se ela acha uma página no Google falando alguma coisa que não tá citando fonte, ela diz: "Bom, isso aqui não presta, né?" Mas primeiro ela ela é bom que ela passe por um por um que ela receba um modelo disso e daí vem essas referências bibliográficas sérias. Então o dicionário de português, o Aulet é ótimo. Na falta do Aulet tem o Micaeles, o Aurélio, né? Então o Aurélio eu já não gosto muito, mas eh no fundo se não dá para ser o Caldas da Zulete, pode ser qualquer um, né, desses grandes
dicionários aí. Não é nada que vai matar ninguém, não. Eh, enciclopédia, é bom Ter uma enciclopédia em casa. Eh, hoje em dia as enciclopédias, eh, tem muita enciclopédia ruim, né? Enciclopédia que não dá informação, dá uns resumões muito mal feitos. Eh, mas existem certas enciclopédias nas quais a gente tem uma certa confiança. Eh, a enciclopédia britânica é referência mundial. Eh, a La Russ é francesa, também é uma referência mundial. Existe uma enciclopédia antiga que é a Delta La Russ adaptação da La Russ para o português que é excelente, né? Eu até vou recomendar mais para
frente um verbete dela que eu vou passar em PDF para vocês, um verbete sobre versificação que foi escrito pelo Manuel Bandeira. Então você vê o nível dos articulistas que escreviam para pra enciclopédia, né? Eh, então tem a Delta La Russ, né? E de modo geral as enciclopédias grandes. Você pega uma enciclopédia, você vai num artigo lá, poesia, né? Eh, Segunda Guerra Mundial, você vai lá e tem um artigo de dois parágrafos, não, né? Procura uma que tem um artigo maior, com mais informações, com fontes para quem quer se aprofundar. Então, ela cita lá, ó, lê
esse livro aqui, que é um livro bom para você se aprofundar. Essas enciclopédias são as profissionais, são as boas mesmo, né? Então, geralmente elas têm, né, entre 10 e 15 volumes. Aí o melhor é o seguinte, se você não tem em casa, né, procura num cebo. A Delta Lar Russo você ainda acha em CEO, né? Então, procura num cebo, vê e às vezes você não precisa nem ir com a Referência da marca, da editora, mas vai no Sebo e olha, né? abre e olha, fala: "Pô, essa aqui tem informações boas?" Tem, então dá para ser,
né? O melhor é ter uma boa enciclopédia, porque eh muito do aprendizado da criança vai vir disso daí. Muita coisa. Toda vez que a criança tiver tiver uma dúvida, você vai pegar essa enciclopédia e abrir e dizer para ela: "Olha, tá vendo aqui, aqui, aqui, aqui". Então, quer dizer, é bom que ela seja boa, porque ela vai ser a primeira referência que a criança vai ter para tudo, né? É assim que você faz pesquisa. Até hoje qualquer cientista renomado, quando ele quer começar a pesquisar um tema sobre o qual ele não entende, ele pega uma
enciclopédia boa e abre. É isso. É aí que ele começa. Então, quer dizer, você quer ensinar seu filho a pesquisar, você tem que ter uma boa enciclopédia, né? Essa esse este é o princípio. A maioria dos artigos ele não vai se aprofundar, ele só vai ler aquilo ali mesmo, né? Mas outros pode ser que não. Quando ele chegar aos 15, 16 anos, ele estiver bem formado nesta disciplina que a gente tá discutindo aqui, ele vai pegar uma enciclopédia dessas, vai abrir Segunda Guerra Mundial, vai ver lá os nomes das figuras históricas, as referências bibliográficas e
vai atrás. Ele vai pegar um assunto que ele se interessa e vai atrás, né? E vai saber mais sobre aquilo do que você jamais sonhou em saber, certo? Isso aí vai acontecer, isso é normal. Então é importante que ele tenha uma base firme no caso. Eu quando era menino, eu tinha um al russo, que foi um alusso eh numa versão reduzida, publicada pela Folha, se eu não me engano. Era uma Dessas publicações de jornal que eles publicavam em Facículos, né? Ela era o suficiente, não era assim maravilhosa, mas era boa e e preencheu boa parte
da minha da minha curiosidade na época. Então, é importante ter, né? Então, uma enciclopédia, essa a enciclopédia é talvez o fundamental. Eh, para referências geográficas, um atlas é uma coisa bacana, mas um atlas vai ser sempre superficial, né? Um atlas é muito profundo também, eh, não parece uma coisa essencial assim, né? é mais para ter uma ideia e depois procurar mais se quiser, possivelmente no enciclopédio. Eh, mas o principal do atras, na verdade, são os mapas, né? E ter um globo, por exemplo, um um, como é que se diz? uma uma um planeta Terra, né,
que você possa girar, né, e no qual você possa mostrar os lugares. É uma maravilha isso, porque eh você consegue, a criança consegue ter uma noção melhor de como é que os lugares se situam em relação aos outros. Então, você consegue mostrar eh com um pouco mais de realismo, né? Porque às vezes a criança fica olhando um mapa num papel e não consegue imaginar. É, parece um desenho. Ela não consegue imaginar um lugar realmente a partir daquilo ali, né? Eh, os atlas são bacanas porque muitas vezes eles mostram além do mapa, eles mostram fotos do
lugar. E daí você consegue dizer: "Olha, nesse lugar aqui, tá vendo? Ó, como é, ó como são as paisagens, né? Ó como é a cultura, ó como as pessoas se vestem, né? Agora, boa parte do que um atlas dá também você consegue suprir com enciclopédia, né? Se for uma enciclopédia ilustrada, né? Mas isso daí paraa criança é difícil, já ficam avisados que é difícil paraa criança ela fazer a ponte imaginativa entre um desenho num papel e pessoas reais vivendo num lugar real, né, que está posicionado na Terra. É isso dá um pouco difícil. Você tem
que fazer um esforço pra criança de fato conseguir ligar uma coisa na outra e imaginar que ela poderia estar naquele lugar, né? Isso daí é muito importante. Senão ela ela entende tudo de modo abstrato e não cria relações relações que precisaria criar. Então, com atlas ou um mapa munde ou os dois, né? Eh, e quando se trata de obras clássicas, é importante ter um dicionário de mitologia, né? Vou mostrar um aqui para vocês. Esse dicionário é de um sujeito chamado Pierre Grimal. eh em em português brasileiro, Grimal, Grimal, né? Eh, que é um estudioso bastante
importante eh de mitologia na na França, um acadêmico. O dicionário dele é muito bom, né? Eh, o que é um dicionário de mitologia e por que ele é importante? Eh, para cada para cada nome mitológico, a mitologia greco-latina é vasta, né? O, eu quando eu digo dicionário de mitologia, eu quero dizer dicionário de mitologia greco latina ou greco-romana, né? É isso que eu quero dizer. Nórdica, egípcia, isso aí é secundário, não interessa. Isso aí é uma enciclopédia já resolve, né? Ou se tiver um interesse específico, aí tudo bem, vai atrás de um. Mas paraa literatura
clássica isso não faz nenhuma diferença. Ninguém vai falar de de eh mitologia nórdica num poema clássico. Isso não existe, né? Eh, a gente tem que saber qual é a nossa tradição cultural. Nossa tradição cultural não tem nada a ver com isso, né? Isso daí é um interesse e aparado que ocorre em um ou outro autor, mas não faz parte da tradição. Eh, o interesse na mitologia greco-romana é essencial. Quer dizer, você pegar lá os autores do começo da Idade Média, os caras só usam essa linguagem. Eles partem dos mitos greco-romanos. Não tem como você separar
os mitos greco-romanos da nossa cultura. Não dá, né? Eles estão intimamente ligados, estão na raiz. Então não dá para fugir disso, né? E daí o que acontece? É muito vasto, tem muito nome e tem várias versões do mesmo mito. Então, por exemplo, você pega lá o livro de ouro da mitologia do Thomas Bullfint, aquilo não não serve, não resolve. Aquilo serve como introdução, mitologia, Eh, mas aquilo não dá as informações necessárias para você ler um texto clássico, porque às vezes um mito tem mais de uma versão, né? Muitas vezes isso acontece. E e se você
quer se aprofundar no estudo de algum mito, se você quer entrar mais fundo, você não tem as referências. Então um dicionário mais acadêmico, como é o caso do do Pierre Grimal, é importante para que você saiba exatamente de onde ele tá tirando aquilo ali. Ele vai lá e fala: "Olha, Afrodite, segundo exíodo, no livro tal, aconteceu isso, isso, isso, isso, isso com ela. Segundo Ovío foi outra coisa, né? Segundo um mitógrafo mais tardilo, foi outra coisa. Então ele vai dando as várias versões, vai interpretando e vai juntando na mesma figura. E ele fala de figuras
mitológicas muito pequenininhas, desimportantes, né? Então às vezes tem uma ninfa, é uma ninfa com um nome esquisito que não tem importância praticamente nenhuma, mas quando você tá lendo lá um texto aparece o nome dela e aí você procura lá no livro do Thomas Bolf, a gente não tem nada sobre ela, né? ela é insignificante para ele, mas num dicionário acadêmico você vai ver o nome dela, vai falar de quem ela é filha, eh se tem alguma referência ela na literatura, né, eh, tradicional e você vai conseguir mais ou menos saber o que que o autor,
porque que o autor colocou o nome daquela ninfa ali, né? Então, é importante para você conseguir ter acesso a a a essa cultura eh literária, é preciso ter uma base mitológica. E como você não vai ficar memorizando nome de Ninfa, é o melhor ter um dicionário. Daí quando você Precisa você vai lá e consulta. Quando não não precisa também, né? É importante dizer assim, por exemplo, o Luís de Camões, o nosso poeta maior, eh, existe um relato de que ele estaria escrevendo um tratado sobre mitologia, mas esse tratado se perdeu. Eh, alguém roubou o tratado.
Existe uma história nesse sentido. Então, é preciso dizer que até um certo tempo atrás os nossos grandes escritores, eles eram eruditos nesse assunto. Eles caçavam, né? Eles liam de tudo que eles podiam e caçavam uma figurazinha aqui, uma figurazinha ali para enriquecer as obras dele, para eles poderem usar eh usar essas figuras como símbolos literários, né? Eh, isso era bastante importante porque você ficar usando a mesma figura, por exemplo, você pegar lá a história de Orfeu e Eurides, você ficar, sabe, Camão chegar lá nos Luzíadas e conta de novo essa história, eh, não ficava bem
para ele pelo fato de Virgílio já ter contado, já ter contado, então ficava aquela coisa assim, parece que ele tá pisando, repisando o mesmo assunto, né? E e aquilo aquilo fica tedioso e fica eh e fica até parecendo que ele tá querendo ser melhor do que o Virgílio e o ouvido. Quer dizer, ah, eles já contaram e você vem aqui quer contar de novo. Quer dizer, você acha que você eh vai trazer alguma coisa de novo, você acha que você vai contar melhor do que eles? E como isso é muito difícil de fazer, o melhor
é você não usar aquele mesmo mito. Você usa outro, Né? Eh, e dá um sentido para aquele mito e enriquece aquele mito por meio da sua obra, né? Então, é importante a gente a gente entender isso, que o os mitos muitas vezes, especialmente na literatura, eles são ponto de partida, né? Eles são a linguagem que o escritor usa eh para criar um símbolo literário, né? A gente vai ver aqui nessa aula o caso do Adamastor, que é uma figura importante dos luzidas e que é uma figura que não aparece na literatura anterior. Tem uma ou
duas referências a Damastor, eh, na literatura mitológica. Ele é uma figura praticamente irrelevante, mas o Camões olhou para ele e falou: "Opa, vou usar isso aqui". E criou uma coisa em torno do Adamastor. Deu um significado ao Adamastor que até então ele não tinha. Até então ele era uma figura marginal. Então quer dizer, muitas vezes o o mito em si não é tão importante. Ele serve como ponto de partida para se criar a obra. Mas se você não souber nada sobre aquele mito, às vezes fica difícil você interpretar o resto. Então é importante você ter
essa referência. Então, o dicionário de mitologia eh é importante essa referência aí do Pierre Grimal, eu vou deixar na nas apostilas. Eh, é o livro que eu uso, né? Então, sempre nunca me falhou. Uma ou outra vez eu não achei alguma figura nele, mas assim é difícil. Normalmente tá lá, n uma notinha de nada, mas tem, né? E ele tem, ele usou praticamente todas as fontes antigas, né? Para para mitologia. Então, tá tá quase tudo lá. Eh, e é um livro muito em português, né, não em francês, lógico, né? Eh, e foi feito foi feita
por uma por uma editora portuguesa. Então, ela é uma edição muito boa, quando fez por editora brasileira normalmente. Então, ela foi adaptada, ela foi o o todas as referências foram eh traduzidas, foi tudo bem feito para que um leitor que fala língua portuguesa possa eh compreender tudo e ir atrás das fontes, né? tudo foi academicamente bem feito. Eh, então essas são as referências de base, né? Quer dizer, você precisa aí ter um mais ou menos esse material. Se você sentir, se você procura alguma coisa que você não acha nesse material ou se você de repente
não pode ou não quer comprar o material impresso, muitas dessas coisas você consegue achar na internet, né? Aí só é importante você selecionar bem o site que você tá usando, né? para você não acabar pegando informações eh erradas ou eh digamos assim ou ou mal escritas mesmo, né, que acabem confundindo mais do que ajudando. Então, muitas vezes, por no caso do dicionário, eh, todos esses dicionários têm versão online, você pode usar, né, o caso das OLED tem versão online, tá lá, Né? Eu acho que ela tem menos informações, ela é mais sumária do que a
versão escrita, né, mas tá lá, dá para usar, né? Então existe essa possibilidade também. A internet tá aí para ajudar. Quem não pode ou não quer a versão impressa, tem a internet, né? Agora a gente vai ver exatamente como é que se usa isso. Na maioria dos casos, esse material de apoio a gente vai usar só para resolver assim problemas eh literais. Não entendi o que ele quis dizer com isso aqui. Não sei quem é essa pessoa. Esse nome não me diz nada. Aí você vai lá na enciclopédia, vai lá na no dicionário de mitologia
e confere. Eh, então isso daí, na verdade, é o primeiro nível, né? Mas a gente a gente vai ver isso em mais detalhes daqui a pouco. Ã, bom, quando você for dar a aula, é importante que antes de você partir paraa leitura do texto propriamente dita, você diga alguma coisa sobre ã a vida do autor, né? Quem foi esse cara? eh onde ele viveu, aconteceu alguma coisa interessante com ele e por que que ele escreveu esse livro, né? Quer dizer, o que que ele o que ele queria quando ele escreveu esse livro? A gente sempre
tem que tomar cuidado para não confundir o propósito da obra de arte com o contexto dela. Então, por exemplo, eh, a gente sabe que os luzidas foram dedicados a um rei, mas você dizer que o Camões escreveu os luzidas para o rei é outra história, né? você não deve confundir uma dedicatória com o objetivo eh artístico do sujeito. É óbvio que ele teria escrito de qualquer jeito. Se fosse outro rei, ele teria escrito, teria dedicado o mesmo rei, né? Isso daí não é não é fundamental. Agora, muitas vezes, dentro do contexto existe uma uma oportunidade,
vamos dizer assim, mais do que um motivo, é uma oportunidade. Eh, e daí a gente muitas vezes vê assim, foi tem uma dedicatória, teve um incentivo de alguém para que ele escrevesse. Eh, o livro, o livro foi incentivado por algum motivo político, né? A gente não deve confundir e dizer: "Ah, o livro foi escrito por causa da política". Não, mas a política pode ter dado a oportunidade, né? É importante a gente não rebaixar os objetivos de uma obra literária, eh, até pra gente não dar motivo para pra criança desrespeitar o autor, porque se você já
começa dizendo que o sujeito era eh era um oportunista, que ele escreveu o livro para agradar o rei, etc. Eh, você já deixa uma cer um um uma certa dúvida no ar. Bom, para que que eu vou ler isso? Se o sujeito escreveu para agradar o rei, eu não sou o rei. Então, O que que eu tenho a ver com isso, né? Então, é melhor você nunca dizer essas coisas, você nunca tentar rebaixar a intenção do autor a uma motivação política, econômica, alguma coisa assim. O autor escreve porque ele é um artista. A obra de
arte tem um propósito maior do que todas essas coisas. E você só consegue entender o propósito quando você lê, quando você estuda a obra, né? Esse negócio de tentar explicar a obra por outras causas menores é rebaixá-la e, portanto, é tirar o respeito dela e já é tirar o seu próprio respeito. Porque se você tá ensinando aquilo e você mesmo diz que é um negócio viu, então você tá tá você tá dando motivo para para você também sair desrespeitado, né? Você você mesmo tá fazendo uma coisa errada. Então, então nunca parta desse princípio, né? Mas
é importante dizer qual foi o contexto, né? importante dizer qual foi o tipo de sociedade que a sujeito viveu. Eh, fazer um pequeno estudo histórico, né, superficial sobre a época, né, isso é uma excelente porta de entrada paraa criança entender história, né? você pegar, por exemplo, o antes de ler os luzíadas, eu tô dando muitos exemplos dos luzías, você pegar ali o período da renascença portuguesa e fazer pegar uma enciclopédia, por exemplo, né, abrir na Renascença ou ou eh Renascença Portuguesa ou Portugal, né, e ler a história com a criança, né, talvez procurar outra referência,
se se for interessante, né, e dar uma ideia para ela de como foi essa época, do do que que tinha aconte acontecido de como era o sistema, como era a política, como era eh a vida das pessoas nessa época, né? O que foram as grandes navegações, né? Não é importante entrar em detalhes, é só dar uma ideia geral. Mas isso daí, veja, veja como isso é importante. Este contexto histórico para ela vai ficar conectado com a obra que ela tá lendo. Então, a história de Portugal, da renascência portuguesa, não vai aparecer para ela um negócio
eh abstrato, um negócio longinco. Vai ser uma coisa que tem um tem um interesse para ela que tá conectado com as outras coisas que ela tá estudando, né? Ela não tá estudando história, ela tá estudando eh o mundo em que um grande escritor viveu, um escritor que até hoje é importante para nós, que nós ainda lemos com muito interesse. Então é um e eh a história de Portugal, então tá conectada a ela. Não é uma coisa que você tá ensinando arbitrariamente sem motivo, né? O escritor é um grande escritor, o poema é um grande poema
e por isso é interessante a gente saber como foi o mundo em que ele viveu, né? Então, tá tudo ligado, não tem essa essa eh fragmentação, né, que normalmente no ensino escolar tem. Então, é importante ter essa porta de entrada, né? Você não chegar e jogar um fato ou uma sequência De fatos na frente dela sem nenhum motivo. Por que que eu tô estudando isso? Ah, tá ligado com o autor, é para saber um pouco sobre a pessoa que escreveu isso daqui. Então, falar um pouco sobre a vida do autor Luís Camono, quando ele nasceu,
né? Eh, quem foram os pais dele? A que tipo de família ele pertencia? Era rico, era pobre, né? Ganhou dinheiro, morreu pobre, tinha alguma posse quando morreu? Essas coisas todas eh eh se você estudar em separado parecem irrelevantes, mas se você está estudando em conjunto em conjunto com a obra, como introdução à obra, elas são interessantes. É você saber, poxa, como foi a vida do sujeito que escreveu este livro, né? Então, para que isso não perca o interesse, é importante que a gente seja breve, não entra muitos detalhes, é só falar mais ou menos. Se
a criança se interessar, a gente vai atrás de mais coisas, vai atrás de mais detalhes. Senão, deixa, dá uma ideia geral e segue adiante, né? Eh, então, saber a vida do autor, o contexto da produção e, por último, a temática. Então você falou como foi a vida do Camões, você falou como era o sistema político na época, eh, a monarquia portuguesa, quais eram as características mais ou menos ali daquela época, como é que as coisas funcionavam. E daí você fala: "Bom, e qual o tema do poema?" O tema do poema é eh são as grandes
navegações de modo geral, mas existe aqui um uma temática um pouco mais específica que é o grupo de Vasco da Gama, né? É esse grupo de aventureiros específico aí, né? Eh, e quem quem é Vasco da Gama? Quem é esse sujeito também? Aí a gente dá uma visão geral disso daí. O que que Vasco da Gama fez historicamente? Que que a gente sabe sobre ele? É mais ou menos isso. Abre a enciclopédia, vai ter lá Vasco da Gama. Você vai lá e lê com ela, com a criança, a entrada do Vasco da Gama. Se ela
tiver uma dúvida, explica, vai mais fundo, né? Mesma coisa mesmo. O o procedimento vocês vão ver que é sempre o mesmo. Dá uma visão geral. Se a criança fizer alguma pergunta, se interessar, etc. você entra mais fundo. Se se ela não for tocada especialmente por nada, né, você só garante que ela tem entendido, que ela tem absorvido as informações gerais e segue adiante, né? Eh, o jeito como você garante que ela tem absorvido, eu eu eu vou explicar mais para frente em outra aula, né, quando a gente falar de como se ensina, né, que aí
eu vou falar da da de como se faz, como se fazem perguntas e como é que você avalia o aprendizado da criança. É o que você sempre vai aplicar, né? É, mas o importante é só isso. Você garante que ela o o pouco que você falou, ela sabe e ela entendeu. Se ela se interessar, você vai mais fundo. Se não se interessar, para por aí, segue adiante, né? Porque vocês vão ver que criança, cada uma é uma, né? Então vai ter criança que vai achar aquilo fascinante, vai falar: "Puxa vida, eu quero saber mais sobre
ele", né? E vai entrar a fundo nisso aí, vai virar um Especialista no tema, né? E vão ter outras que tá bom, né? passa adiante. Então, é importante a gente ter sensibilidade para eh adaptar isto e o o modo mais eficaz é esse. Mantenha-se breve e eh só entre mais fundo se a criança demonstrar interesse. Não, deixa para lá, né? Tem muito tempo, lembre-se disso também, tem muito tempo para ela se interessar pelo assunto. Então, não precisa ser agora não, né? Eh, bom, então isso daí é a introdução. Quer dizer, a introdução é a gente
falar da vida do autor, do contexto da da obra, né, do contexto da produção da obra e de qual tema da obra mais ou menos ter as informações contextuais básicas. Eh, porque é importante a gente ter uma noção de que na época do Camões todo mundo sabia quem era Vasco da Gama, né? Então, Vasco da Gama não era um sujeito assim que precisava de uma introdução naquela época especificamente, mas a partir de então ele precisa, né? Na verdade, Camões o imortalizou, né? por causa de Camões, nós fomos obrigados a saber quem foi o Vasco da
Gama pra gente poder entender o o livro dele. Então, eh, vocês percebam que quando você começa a estudar eh literatura clássica, você entende melhor por que esses poetas eles sempre dizem: "Olha, se eu contar suas aventuras aqui, eu tô te mortalizando", Né? Porque eles tinham isso em perspectiva, né? Eles tinham sido educados assim. Então, na cabeça deles, né, na medida que eles conseguissem escrever um grande poema, as gerações futuras todas iam estudar a vida desses caras por causa do poema deles, para entender o poema deles. Então, eh eh tudo isso é é muito curioso, né?
O o Vasco da Gama na época do Camões era considerado uma figura de grande importância, muito mais do que o Camões, né? Só que o que o Camões diz, o que o poeta diz sempre é: "Agora você tem grande importância, agora você é melhor do que eu, mas no futuro as pessoas vão ler sobre a sua vida por minha causa, para mim entender, né? Então quer dizer, eu tenho poder sobre você. Você tem poder sobre mim agora, mas eu tenho poder sobre você no futuro, né? Então quando a educação decai, essa perspectiva desaparece. poeta não
tem mais esse poder, né? Então ele, para que esse poder do poeta exista, ele depende da sua da educação, né? Quando você entra nesse esquema, nesse sistema, nessa mentalidade, você começa a entender melhor esse tipo de afirmação que os poetas sempre fazem, né? Eu vou imortalizar você, né? O futuro vai saber de você por minha causa. Por causa disto, a gente lê sobre o Vasco da Gama, mas a gente não tá interessado no Vasco da Gama. A gente quer conseguir entender o poema do Camões, né? Então, o Vasco da Gama acaba entrando como um elemento
Secundário acidental que a gente precisa um problema que a gente tem que superar, né? Quer dizer, o Vasco da Gama foi rebaixado, né? Ele está um degrau abaixo do do poeta. Agora, eh, então a gente dá esta introdução, né, e em seguida a gente começa a se a a se preocupar com o texto propriamente dito. Então, eh, até agora vocês já perceberam que a gente precisa de uma preparação contextual. para que a gente consiga fazer a introdução, a apresentação da obra, sem nem tocar na obra direito. A partir de agora, a gente começa a se
preocupar com o texto, né? Agora a gente já sabe o suficiente para ler o texto. E o que que a gente tem que pensar agora ness nessa fase? Primeira coisa, ler. Leitura não é uma coisa, não, como é que se diz? Não é um processo independente da fala. Quer dizer que ler significa fundamentalmente, em primeiro lugar, decodificar aqueles signos, transformá-los em fala. É isso. Você pega um negócio, tá escrito, transforma em oral. É isso aí. Você pega uma linguagem escrita e transforma numa linguagem oral. Então, quer dizer, no fundo não tem duas linguagens, tem dois
modos de expressão da mesma linguagem. E esta linguagem é oral, né? Ela é prioritariamente oral. Prioridade é dela, né? Prioridade é da fala. Então isso é especialmente válido no caso da poesia, né? Eh, hoje em dia tem um negócio chamado poesia visual, criaram essa ideia que é uma ideia de rico, um negócio que não existe. A poesia visual não existe. O cara falou de poesia visual é eh, como é que se diz? É desses sujeitos que não não tem pé no chão, né? Su jeito que vive no mundo da lua. Poesia é oral, né? Isso
daí, ó. você ler todos os grandes poetas, você vai ver que o elemento oral na fabricação da poesia é fundamental. Quer dizer, a escrita muitas vezes contraria a oralidade, né? Que eh se você pensar num poeta inglês, por exemplo, é muito fácil de ver isso. As rimas dos poetas ingleses, muitas vezes eh eh quando você olha paraa palavra escrita, não parece que que o sujeito tá rimando. Aí quando você fala, você vê que ele tá rimando, né? Em português, isso acontece às vezes também, né? Eu lembro da minha perplexidade, por exemplo, quando eu ouvi lá
naquele poema do Olavo Bilac, eh, da lá da Via Láctea, aquele sonetro famoso, eh, hora dire ouvir estrelos, que ele rimava estrelas com velas. Daí eu falei: "Puxa, é verdade, rima, né? Foi, acho que foi a primeira vez que eu percebi que você não precisava eh colocar palavras que você escrevessem exatamente do mesmo jeito para que elas Rimasse, né? Ela pode ser escrita de vários jeitos, isso aí não interessa. O que interessa é o que você fala, né? Toda a poesia modernista é baseada nisto, né? Toda a poesia modernista é baseada no é é baseada
num apelo a à oralidade sendo assim, gente, a gente precisa lembrar que existe muita coisa na oralidade que a gente ainda não descobriu. A gente precisa explorar isso daí, experimentar e ver o que funciona, né? Então, eh, pessoal que fala de liberdade absoluta no modernismo não sabe o que tá falando. O que eles querem é descobrir quais são os limites reais da coisa. E o único jeito de descobrir é testando, né? Precisa usar. Se você ficar só nas regrinhas convencionais, você se isola e não descobre o que o que realmente é possível fazer, né? Então,
o limite da linguagem é a fala, é a estrutura que tá na fala e o poeta depende disto. Eh, isso daí é muito importante porque até para você ler poesia, para você conseguir ler corretamente, você precisa eh saber decodificar este esta linguagem aí. Eh, então vem a questão da versificação, né? Versificação é o seguinte, a língua portuguesa, todas as línguas têm um sistema deversificação, um modo de fazer versos. Esse sistema fala muito sobre a língua. Por exemplo, o sistema deversificação de inglês é baseado numa alternância de tônicas e átomos. Então você fala assim: compare sumate.
É tudo baseado numa oscilação entre tônicas e átomas. Comp é tônica e átomo. Tô e átomo, né? Esta, Este é o sistema deles. Isso mostra que na língua inglesa, o ouvido dos do dos falantes de da língua inglesa é muito sensível às sílabas tônicas. Eh, é uma língua que depende muito das sílabas tônicas. Então eles prestam muita atenção nisso. Eles desenvolvem essa sensibilidade naturalmente. Em português, a sílaba tônica é secundária. A gente quase não percebe. A gente tem que se concentrar um pouco para perceber o que que é primário em português. Em português, em francês,
eh em espanhol, em italiano, o que é primário? O tempo, né? Então quer dizer, a gente vê se os versos t duram o mesmo tempo, né? Quando eu digo para você, amor é fogo que há de sem ver, é ferida que dói e não se sente, é um contentamento descontente. É dor que desatina sem doer. Você percebe que além das rimas existe uma padronização no tempo. Os diversos duram sempre o mesmo tempo. E se eu disser para você assim, amor é fogo, que arde, gente, se vê, é ferida, que dói, não se sente, é um
contentamento quase descontente. Você já sente uma dissonância, não é? Né? Pera aí, tem alguma coisa errada aí, né? O que tá errado? Um verso durou mais do que os outros. É isso que tá errado. O seu ouvido é sensível a isto, né? Então, quer dizer, nas línguas neolatinas, o tempo é o principal eh critério para se versificar, né? E se usam as tônicas também, mas de um modo secundário, o elemento central é o tempo. É por isso que nós falamos de decassílabos, epassílabos, eh dode Decasílabus. Nós estamos falando de uma contagem silábica que no fundo
é uma contagem de tempo. A gente tá só contando quanto tempo leva para você dizer aquilo, né? Eh, então, basicamente, se você tentar eh metrificar, se tentar escandir um verso para ver quanto tempo ele dura, o que você tem que fazer? Contar as sílabas. É basicamente isto, né? Só que como você tá contando as sílabas de uma frase, em vez de contar as sílabas de uma palavra, eh, você acaba tendo que fazer algumas adaptações. Por exemplo, quando duas vogais átonas se encontram numa frase, a gente acaba falando junto, né? Isso que a gente faz na
prática, a gente fala junto, então a gente não fala separadinho, né? Eh, como é que se diz? Eh, minha alma. A gente não diz minha alma, a gente fala minha alma. Minha alma, não é isso? Quando você tá falando diretamente, você lide uma uma vogal na outra, especialmente se forem duas átomos. Aí não tem como você não elidir, né? Eh, então quer dizer, esse tipo de característica da língua faz com que os poetas, na hora de metrificar contem as duas vogais átomas como uma sílaba só, né? Não é nenhum mistério, é uma característica da língua
oral, né? É o que acontece na prática. E digo para vocês que isso vem, isso vem desde o grego. Pessoal lá na Grécia já fazia isso. Tem tem uma característica da poesia modernista aqui, aqui no Brasil, que é o seguinte: os caras pega uma palavra que termina com uma vogal mais um m, por exemplo, homem, E elidem com a vogal que vem depois, juntam com a vogal que vem depois, né? Então, por exemplo, eh, homem, sei lá, homem eh homem amante, eles elidem e contam e conta como se fosse homem amante. Homem amante, conta o
o a última sílaba do homem junto com a primeira do amante. Fundem as duas e conta como uma sílaba só. Isso daí é uma coisa que começaram a fazer no modernismo aqui aqui no Brasil. Eh, por quê? Porque eles viram que esse M no final de homem não era muito bem pronunciado. A gente acabava nazalizando o é, fazia homem e no fim das contas acabava juntando. E daí como eles viram que isso acontecia, começaram a a contar os versos assim. Ora, isso daí era feito em latim. Isso aí era prática normal. Em latim, os poetas
escreviam assim em latim. Eles contavam o essa a sílaba final, quando ela juntava com a M, eles já contavam como uma sílaba só, já juntavam com a próxima, com a vogal que vinha depois. Quer dizer, isso e e tô falando de desse, como é que se diz, dessas dessas discussões métricas, porque isso daí mostra bem claramente como a poesia depende da linguagem oral. O que as pessoas fazem na prática é o que determina o modo como o poeta escreve, Né? né? E às vezes, claro, às vezes você precisa pensar um pouquinho para descobrir o o
como o poeta queria ser lido, né? E como é que você sabe isso? Você tem que dominar mais ou menos o código dele, né? Então você tem que saber, por exemplo, o que é um decassílabo. É um verso de 10 sílabas poéticas, ou seja, 10 sílabas contadas, né? Considerando todas essas características da língua. Rafael, como eu aprendo a fazer isto? Como eu aprendo a contar sílabas poéticas? pega a gramática que tem aí na sua casa, abre no índice e tem lá uma parte que vai ter assim versificação ou metrificação ou poesia, alguma coisa desse tipo.
Vai lá e lê. Ele vai ensinar você a contar direitinho, vai ensinar você que tem aquele dias vogais, em que casos você tem queridos vogais, tá tudo lá, né? Qualquer gramática normal tem isso. Ah, eu tinha uma gramática do Pascoale, gramática escolar, não era gramática séria, não, gramática para escola. Eu tinha uma gramática dessa que tinha tudo isso, né? Então ele vai lá e explica para você o que é uma arredondilha menor, o que é uma arredondilha maior, o que é um decassílabo, o que é um alexandrino. Ele dá todo básico. O importante é você
saber fazer essa contagem básica, né? Eh, quando você tem e e daí quando você tem este conhecimento técnico, que é é bem fácil de pegar, só fazer meia dúzia de exercícios, tentar algumas vezes que você pega, como é que faz? Eh, você lê lá o texto teórico e depois você tenta, você pega facilmente. Quando você tem esse domínio técnico, daí você começa a a pensar no próximo próximo passo, especialmente com a criança, que é o quê? fazer com que ela desenvolva ouvido para isso, né? Então, a contagem de sílabas é a mesma coisa do que
matemática. Aliás, literatura é introdução à matemática, por isso, né? É introdução à matemática, por isso é introdução à matemática é introdução à música. Por isso, porque começa nesse aspecto sonoro. Porque como tudo isso, toda a métrica da poesia é baseada numa característica real, objetiva do som, eh, você tá ensinando de fato matemática e música para ela. Você tá desenvolvendo a sensibilidade musical dela, né, por exemplo, para o tempo, né? E do mesmo modo que quando você vai ensinar matemática, você ensina a criança a contar, você fala assim: "Olha, quantos dedos tem aqui?" 1 2 3
4 Então, quantos dedos tem aqui? Quatro. O seu objetivo não é que ela fique sempre fazendo isso. O seu objetivo é que com o tempo ela comece a olhar para isso aqui e identificar o número quatro imediatamente. Bateu o olho, identificou quatro, né? Ela não precisa mais contar, ela já sabe o que é o quatro. Ela reconhece só de olhar. Hum. E não só com dedos, com qualquer coisa ela vai reconhecer. Ela ela aprendeu o princípio, né? Então o a contagem é só a técnica para que ela consiga perceber o princípio. É uma escadinha. Com
a metrificação é a mesma coisa. Você começa fazendo os exercícios, contando, pega vários exércitos, vai contando. Geralmente as próprias gramáticas dão esses exercícios para você fazer, né? Depois que você fez algumas vezes, você começa a memorizar poesia que tá metrificada de vários jeitos. Você vai identificando, opa, isso aqui tá aparecendo um decassílabo. Aí você vai lá e conta. Ah, é um decassílabo mesmo. Legal. Certo. Então o objetivo é desenvolver sensibilidade, né? Você usa esses instrumentos técnicos para desenvolver essa sensibilidade. Eu digo para vocês que nas faculdades de letras você conta nos dedo as pessoas que
têm sensibilidade para para verso, que conseguem ouvir um verso e reconhecer o tempo dele. A maioria dessas pessoas, a maioria dos poetas laureados no Brasil, dos poetas contemporâneos laureados no Brasil, não conseguem escrever um verso de ouvido, se é que eles conseguem escrever um verso contando nos dedos. Não sei nem se isso eles conseguem, né? Falando como alguém que é de dentro desse meio e e Tem muito contato com essas pessoas. Eu já vi muito. Esse cara não sabem metrificar, né? Só que isso daí é uma habilidade básica num poeta, né? Até num leitor é
uma habilidade básica. Quanto mais um poeta, vocês vão perceber que esse tipo de exercício de metrificação vai melhorar a fala na criança. Se isso daí foro, se a criança desenvolver ouvido, ela vai começar a falar de um modo mais agradável, mais controlado, né, e com um certo ritmo. Algumas crianças vão demonstrar vocação. Você não quer que seu filho seja um poeta, mas pode ser que ele seja. Algumas crianças vão demonstrar a vocação e vão começar a falar em versos. Isso acontece, tá? Tem criança que começa a falar em versos, isso de fato acontece. Isso historicamente
é até normal, né? Eh, muitos, muitos poetas, quando você estuda as biografias deles, tá lá consta na biografia deles que desde crianças, quando eles começaram a ter educação literária, eles passaram a falar invosso e falavam, né? E aí com o tempo eles, claro, né, a criança vai eh parando de brincar e vai separando as coisas. Mas a princípio só falava o inverso. Eu lembro que o Bruno Tolentino uma vez de uma entrevista dizendo que ele não escrevia em prosa porque toda vez que ele tentava escrever Saía inverso, né? E daí ele tinha que fazer um
esforço monstruoso para conseguir botar o negócio em proda. Ele tinha que ir lá desenrolar tudo para conseguir botar coisa em proda. Isso daí é um sujeito que tem vocação para poeta. O cara nasceu poeta, né? Aí você foi lá, deu uma educação literária pro cara, pronto, virou o Bruno Tolentino, né? O Bronton é um cara que eh ele lia lia Dante e Molié aos 12 anos de idade, né? Então você foi lá e botou uma educação literária, o sujeito virou poeta, não tem jeito, né? Tinha vocação para coisa. Então a maioria das crianças, obviamente não
vai entrar tão fundo nisso, mas elas vão desenvolver ouvido paraa linguagem em geral e senso estético para o som em geral, né? Isso daí é a primeira etapa, né? Eh, à medida que a criança se aprofunda na educação literária, ela vai desenvolver sensibilidade para várias outras dimensões do som, sem que você precise fazer nada. Ela vai desenvolver sozinho, intuitivamente. Então, essa parte da leitura a gente pega, a gente aprende a fazer isso de dois jeitos. Ou a gente tem um professor que sabe ler, tem muita experiência nisso e vai lá e lê e corrige. A
gente vai e a gente pegar rapidinho, ou a gente entra na prática, vai na prática, lê, lê, lê, lê, lê, lê voz alta, memoriza, né? Lê muitas vezes, conta, Ouve para ver se a gente tá reconhecendo o que a gente contou e a gente vai pegando prática e vai desenvolvendo isto. Por quê? Porque o conhecimento é o objetivo, o som é o objetivo, tá lá. Então você não precisa de uma teoria para te dizer como o som é. Se você ganhar prática em ouvi-lo, você vai aprender como é que é. Você vai desenvolver sensibilidade para
ele. Isso é normal, né? Se você ouvir muita música, você vai desenvolver sensibilidade musical, né? Com tanto que você preste atenção, naturalmente, né? Então, quer dizer, eh, as duas coisas funcionam. Então, desde logo já deixo aqui claro, né? Isso é uma coisa que talvez eu repita ainda hoje, mas é o seguinte, eh para todos esses assuntos, você pode ter um nível eh um pouco superficial de conhecimento, vai funcionar e se você quiser se aprofundar, vai funcionar ainda melhor. E é isso aí, né? Então alguns vão se contentar com o nível superficial de conhecimento e ele
já vai ser uma coisa maravilhosa, já vai fazer um efeito muito grande. E os que quiserem se aprofundar vão muito mais longe. É assim que vai acontecer. Daí faz curso, lê livro sobre o assunto e vai mais fundo. Para vocês, em relação a esse negócio de leitura de poesia, eu vou deixar duas referências. A primeira é essa da gramática escolar, que você vai lá e vai aprender o básico. E pra maioria das pessoas já vai ser o já vai ser muito mais do que o filho aprenderia na escola, tá? outros que queiram se aprofundar, que
sintam um apelo e digamos assim um tenho mais tempo ou tenho mais mais potencial, mais inclinação para isto. Eh, eu vou deixar também o o verbete que o Manuel Bandeira escreveu paraa Delta La Russia sobre versificação portuguesa, Versificação em língua portuguesa. É um verbete, eu acho que tem mais ou menos 20 páginas, em que o Manuel Bandeira aprofunda-se bastante nesses assuntos. cita vários exemplos de verso, eh, vários exemplos de de tipos de poemas que foram escritos na língua portuguesa, né? Eh, analisa, né, esses difer essas diferentes opções. Então, para quem quer se aprofundar é é
uma maravilha, né? E para quem quer se aprofundar mais ainda, né? Eh, quem quer ser poeta ou crítico literário, tem o tratado de diversificação do Olavo Bilac, que ele escreveu em em conjunto com Guimarães Espaços. O nome é esse mesmo, tratado diversificação. É domínio público e você acha na internet, né? Então esse daí é é o top, né? É o avançado. Você passou pelos três, você passou pelos dois primeiros, pode para esse, né? Eh, o Manuel Bandeira já vai satisfazer a curiosidade de 90% dos interessados, né? Porque ele é bem completo, é bem legal o
texto dele mesmo. Eh, bom, então essa questão da leitura é isso. Quer dizer, a leitura ela tem os mesmos aspectos da música. Só que ela é muito mais fácil de fazer do que tocar música, porque eh o os aspectos musicais da leitura são os mesmos aspectos da nossa linguagem. Então todos nós usamos tom na linguagem. O tom da linguagem é limitado. A gente não tem uma variação infinita aqui. A gente e eu posso usar um determinado tom quando eu estou feliz, outro quando eu estou triste, outro quando eu estou zangado. E é isso. Não tem
muita variação, né? Eh, toda linguagem tem tempo, mas eh claro que esse tempo também é limitado. Eu não posso eh por exemplo fazer uma frase de uma frase que dure uma hora, né? Isso daí não existe. Então tem uma limitação muito maior do que na música. Na música você pode fazer uma frase, entre aspas, que dure uma hora, né? Eh, eh, como é que se isso? Então, quer dizer, a gente tem a gente tem tom, a gente tem tempo, a gente tem ritmo, né? Só que o ritmo também é um ritmo já pré-determinado pela musicalidade
da nossa língua, não é uma coisa que a gente cria na hora. Então é muito mais fácil de aprender a lidar com isso. Isso eh eh tudo tudo tem um significado muito bem definido e já tem uma regularidade objetiva, tá tudo dentro da língua. Então a gente não precisa fazer muito esforço para captar. A gente desenvolve essa sensibilidade naturalmente. A comunicação no Brasil é péssima, péssima. E boa parte da razão pela qual a comunicação é tão ruim é que as pessoas não sabem falar e não sabem ouvir. Eu digo isso no aspecto sonoro. Quer dizer,
eh, por exemplo, as pessoas têm uma voz muito irritante no Brasil. A voz das pessoas é irritante, né? As pessoas não sabem controlar a voz. Elas não sabem Controlar a voz porque não estão conscientes dos elementos sonoros da sua voz. Elas falam como se estivessem respirando, quer dizer, falam eh como se fosse uma coisa natural. Falar não é natural, é algo que a gente aprende. E se a gente aprender mal, a gente fala mal, não é? Aliás, até respirar é algo que a gente aprende a fazer e a maioria das pessoas respira mal. Se você
falar com o instrutor de de taixuan, ele vai te dizer isso daí, que as pessoas respiram muito mal, né? As pessoas não sabem respirar. Então, se até respirar exige uma uma técnica, uma ordem, quanto mais falar e ao mesmo tempo que as pessoas não sabem falar, também não sabem ouvir. Quer dizer, eh, é surpreendente. Você você consegue assistir um diálogo eh muito facilmente no Brasil em que duas pessoas estão trocando frases e nenhuma das duas tá ouvindo. Isso daí é a coisa mais normal do universo. as pessoas não sabem prestar atenção no que a outra
está falando. E isso daí você não pode culpar inteiramente a pessoa, não pode dizer: "Ah, ele não quer prestar atenção". Em parte, o que ocorre é que ele não aprendeu a fazer isso, né? Então, tem um caso de um aluno meu ainda da época que eu dava aula em escola, que o menino ele não prestava atenção em nada, ele ficava eh eh vidrado, ele ele fixava o olhar na gente, mas eu tava lá falando, ele não tava ouvindo nada. E daí, evidentemente, como eu interrogava os alunos, né? Em em um momento eu percebi que isso
acontecia. E daí o que que eu comecei a fazer? A cada 5 minutos eu parava, Virava para ele e falava: "O que foi que eu acabei de dizer? E ele fazia, piscava assim, não sei, né? E daí eu repetia e daí falava: "O que foi que eu acabei de dizer? Não sei." Aí eu repeti, que foi que eu acabei de dizer. E com o tempo ele começou a fazer, ele começou a prestar atenção no que eu tava falando, né? às vezes e eu, à medida que a gente vai reforçando e tal, aí ele foi melhorando.
Um dia estava numa numa reunião com a mãe desse rapaz, o menino tinha uns 13, 14 anos, estava numa reunião com a mãe desse rapaz e ele estava presente, reunião de paz, ele estava presente. Só que eh isso não foi em grupo, foi só eu, ela e ele, né? E daí em algum momento eu falei alguma coisa errada que ele fez, não sei o que que foi. E ela virou isso para ele e começou a passar um sabão nele, da passou um sermão nele e ele fez a mesma cara. Aí eu falei: "Olha, ele não
tá ouvindo nada que você tá falando. Pergunta para ele o que você tá falando ele não tá ouvindo nada". Eh, e de fato ele não tava, né? Ele ele acordou na hora que eu falei, ele acordou e daí Falei: "Ó, que acontece? Você acostumou ele isso, né? Toda vez que você briga com ele, ele desliga e ele percebe que isso funciona, né? Daí funcionou para ele. É uma técnica que ele desenvolveu, né? Por quê? Porque você não pergunta nada. Você fala, fala, fala, fala, fala. Depois cada um vai para um canto, pronto, acabou, né? Você
não, não pergunta ele o que ele acha, digamos assim. Você não pergunta ele nem se eh eh eh você não pede nenhuma resposta dele. O que foi que eu disse? Você entendeu o que foi que eu disse? Então, o que foi que eu disse? E você vai fazer de novo? Por quê, né? Quer dizer, você não você não pede que ele responda. Você não exige uma postura independente dele, se não exige uma postura ativa dele. Portanto, o que que ele faz? Ele desliga, né? Foi isso que ele aprendeu a fazer. Então, isso quer dizer, isso
daí em parte é algo que você adquire no convívio doméstico saudável. quando você é tratado como um indivíduo independente, mas em parte é algo que mesmo que ele não tivesse um convívio doméstico saudável, ele teria desenvolvido se tivesse tido educação literária, né? Ele teria aprendido a prestar atenção, né? E daí ele poderia pelo menos fazer a escolha, porque como eu tô dizendo, era uma coisa que ele não escolhia, né? Era uma coisa que ele já tinha se acostumado a fazer, Era uma reação já automática. Tanto que às vezes eu perguntava a mesma coisa várias vezes,
repetia e mesmo assim ele não sabia me dizer. Quer dizer, ele de fato não sabia como fazer, né? Ele não conseguia prestar atenção. Eh, bom, então quer dizer, essa parte sonora é o primeiro elemento, né? Ela é o primeiro elemento. Sem isso daí você não consegue prosseguir. Talvez vale a pena dizer um, falar uma curiosidade. Camões. Quando você lá um soneto de Camões, ele fala a palavra saudade. Na verdade, você tem que pronunciar saúdade. Saúdade. Você tem que separar o a do u. Hum. Como é que eu descobri isso? Ninguém me contou não, mas é
que eu sei que os versos do sonetos de Camões são decassílabos. Todos os versos são decassílabos. Então, às vezes batia num verso que eu lia e não fazia um decílaba, ficava com um tempo a menos. Aí eu contava, tá com nove sílabas. Decassílabo tem que ter 10. Então, quer dizer, tem alguma palavra aqui que eu tô lendo rápido demais, que eu preciso separar. Eu procurei, procurei, a única que batia era saudade. E eu percebi que toda vez que aparecia a palavra saudade dava esse mesmo problema. Então falei, ó, então isso aqui é saúdade, né? Quer
dizer, na época dele se pronunciava saúdade. Por quê? Porque saudade vem de salus, é salutates, né? Então quer dizer, tinha um L ali no meio e no começo, quando caiu esse L, as vogais ainda ficavam separadas. Depois a gente juntou. Ninguém precisou me contar isso daí. É um negócio que você percebe por quê? Porque você percebe que tem alguma coisa errada com o som que você tem que ler de outro jeito, né? Isso daí, claro, com prática você pega isso, né? Mas eh, por exemplo, se você tem uma edição comentada do dos luz, quando aparecer
a palavra saudade, vai ter lá um comentário, olha, essa palavra aqui você tem que ler separando o a do u e tal, né? Então, se você tiver estudando com edição comentada ou com professor, ele vai te dizer isso. No meu caso, já tinha prática, então quando eu peguei, né? E é isso que acontece quando você quando você chega num ponto que você já tem prática da coisa, você já resolve esses problemas eh quase que naturalmente. Eh, depois você resolve isso daí tudo, entram os problemas, digamos assim, mais semânticos, o sentido mesmo. A primeira questão é
o vocabulário. Como resolve o vocabulário? Procura no dicionário, evidentemente, né? Então você vai lá, procura no dicionário, a palavra tem cinco ou seis sentidos diferentes. Você vê qual é o sentido que se encaixa na frase, pronto, resolveu o problema de vocabulário. Aí você anota tudo, né? Anota tudo. Então, olha, essa palavra aqui, eu não sei. Então, anota, anota, bota do lado ou anota num caderno, porque depois quando você for explicar para ele, pode ser que você esqueça de novo. Então, tudo que Você não sabe, você vai lá e anota antes, né? Outros preferirão chegar lá
na hora e consultar o dicionário na hora também, né? Eh, o meu temperamento é mais inclinado a preparar tudo antes. Se você quiser também fazer na hora, eh, é mais arriscado, né? Mas pode funcionar. Então, vocabulário, esse problema mais fácil. Depois vem a sintasse. Que que quer dizer isto? Sintasse é basicamente a organização da oração ou da frase, se você preferir, né? Não é exatamente a mesma coisa, mas é como você organiza as palavras quando elas se juntam. Então, o que é um problema de sinta? Por exemplo, às vezes você vê um verbo e você
vê algumas palavras que poderiam ser sujeito daquele verbo, mas você não tem certeza qual é. Você lê lá: "Fizeram fiz eh fizeram-se os gatos cachorros. Daí você não sabe se foram os gatos que se fizeram cachorros ou os cachorros que se fizeram os gatos. Tá entendendo? Então, como é que você resolve isto? A resposta é a seguinte: ou você sabe resolver ou você não sabe, né? Se você não sabe e você não tem um comentário que esteja esclarecendo esta frase difícil para você, você vai ter que estudar, Né? Então, eh, isso daí já entra num
num outro tópico que eu que eu ainda preciso abordar, que é de como a gente coloca as disciplinas dentro do estudo literário. As outras disciplinas, entre elas está a gramática. É o seguinte, se você não sabe sintasse e precisa ensinar sintasse pro seu filho, que que você faz? Começa a estudar sintasse com o seu filho, né? Aproveita. Então, tem lá uma frase difícil, OK? Vamos parar tudo, vamos pegar uma gramática, abrindo o capítulo de sinta e começar a estudar. né? E a gente pode partir do texto, né, para estudar. A gente pode tentar resolver frases
do texto para estudar isso daqui, né? É o melhor jeito de estudar sintasse. Por quê? O melhor jeito de estudar gramática é com literatura. Por quê? Porque quando você ensina gramática de modo separado, a criança não tem uma percepção eh clara de para que que serve aquilo. Você fala para uma criança: "Olha, existe uma coisa chamada sujeito, existe uma coisa chamada verbo, existe uma coisa chamada objeto direto". E a pergunta que fica é: "E daí? E daí? Eu não sei falar? Para que que eu preciso disso?" Então, o que acontece? Você bota uma frase na
frente dela que ela não consegue entender. Aí você diz para ela, veja bem, existe uma coisa chamada sujeito, objeto e verba. Se você conseguir distinguir essas coisas aqui, você vai entender a frase, certo? Você tá ensinando regras para vencer um jogo. O jogo é decodificar aquilo ali. É um puzzle. Não é um puzzle. É um jogo de decodificação, jogo de mistério. A frase é ininteligível. Você vai ensinar um jeito de decodificar. Ah, tá. Daí a criança nunca vai te perguntar para que que aquilo serve. Nunca. Não vai precisar. Ela tem, ela sabe para que que
serve. Serve para entender aquelas frases ali, né? Quando você ensina na gramática de modo abstrato, o mais das vezes a criança nem aprende mesmo. Ela pode, ela até memoriza, mas ela não consegue aplicar exatamente porque eh ela não sabe em que tipo de situação ela precisaria aplicar aquilo, né? Existe um um ditado eh sobre os quatro temperamentos que diz assim: "Joga um melancólico no rio e ele aprenderá a nadar", né? Só que a verdade é que isso não se aplica só ao melancólico, isso se aplica a todos os temperamentos eh na medida em que se
você nunca jogá-lo num rio ou pelo menos não mostrar o rio para ele, ele nunca vai saber o que significa nadar. Você pode tentar explicar, você pode, ah, não, você bate o braço, daí você se desloca na água. Mas para ele tudo isso vai parecer muito surreal e não vai fazer nenhum sentido até o momento que você colocar ele dentro da água e fala: "Tá vendo? Agora você bate os braços e você vai ver o que vai acontecer. Aí ele aprende a nadar e daí ele entende. Antes Disso, ele não entende. Você pode explicar o
que é um queijo suíço para uma pessoa que nunca viu um queijo suíço? Tenta. Uma pessoa que nunca vi um queijo na vida, tenta explicar para ela que é um queijo. É muito difícil. Então você mostra um queijo e daí você explica. Ótimo, a pessoa vai entender tudo que você falar. Quando você for explicar para ela, olha, sintasse é a ordenação das palavras na frase. Quando você fala pouco gordo e gordo pouco, não tem uma diferença entre as duas expressões? Qual é a diferença? Ela nunca parou pensar nisso, mas agora ela vai ganhar consciência, vai
falar: "Ah, então quer dizer, realmente eu pressia que tinha uma diferença, mas eu não sabia exatamente qual era." Tem uns comentários lá do do professor Silveira Boeno lá nos Luzidas que é exatamente sobre isso, a diferença entre o porco gordo e o gordo porco, porque o Camões usa as navegações grandes que fizeram. Aí ele comenta isso daí. As navegações grandes é diferente de as grandes navegações, né? A ênfase é diferente, né? Uma navegação grande é uma navegação grande. Uma grande navegação é uma navegação importante. Mudou o sentido, né? Então ele explica isso daí. Isso é
uma coisa que só quando você vê na prática você entende. Se você começar a falar em abstrações, a criança vai desligar, né? Tô entendendo nada. O esforço mental é grande demais, ele não compensa. Então assim, tá. É isso aí. Não sabe, aprende. Como aprende? Agora pega o texto, parte do texto, começa a estudar sintase para resolver a frase do texto, né? Começa a fazer aqueles exercícios para resolver aquela frase. Eh, se a coisa ficar muito preta, existe uma alternativa muito simples. Entre em contato com um professor ou com alguém que saiba mais do que você,
alguém que tenha mais experiência com o texto literário e pergunta para ele como é que resolve, né? Agora, para evitar esses transtornos todos, por isso é bom ter uma edição comentada, que aí o cara vai lá, o editor vai lá e resolve as coisas mais complicadas para você, né? E o resto é é coisa normal da língua que você vai conseguir resolver, né? Então é daí a importância de você ter uma edição comentada, né? É uma coisa que ajuda bastante. Então, sintaç, próximo elemento, estilo. O que quer dizer estilo? Eh, quer dizer que às vezes
o o escritor fala de um jeito que não é normal, um jeito esquisito, né? Eh, por exemplo, o primeiro verso dos luíedadas, quando ele diz as armas e os varões assinalados, que armas, né? Como assim armas? Ele tá falando de espada e escudo. Que que isso quer dizer? Quer dizer, as armas de os varões eh significam outra coisa. os varões que são, evidentemente, os heróis, né? É uma exaltação dos indivíduos que participam da atividade, no caso, o Vasco da Gama e a equipe dele. E as armas significam, em primeiro lugar, os canhões o as armas
Das quais eles dispunham. Mas o que ele quer dizer quando ele diz que ele canta as armas e os varões, as ou as armas e os barões, né? Eh, ele quer dizer que tem dois temas no poema dele. O primeiro tema são guerras e o segundo tema são heróis. O poema dele é composto dessas desses dois elementos, né? Então, esses dois elementos são os elementos fundamentais do poema. Tudo que ele vai falar ali se refere a essas duas coisas, guerras e heróis, né? Então, as armas são metonímas, quer dizer, elas são palavras que não significam
exatamente literalmente aquilo ali, mas que tem uma abrangência maior, elas apontam para um sentido maior do que elas mesmas, né? Eh, isso é uma coisa que qualquer comentador sério mostra, qualquer comentador sério aponta, né? Eh, e esse tipo de linguagem é o que a gente chama de linguagem figurada. É quando o sujeito usa uma imagem ou uma linguagem um pouco diferente do normal. para significar algo que seria mais difícil de falar, né? Amor é fogo que arde sem se ver. Bom, amor não é fogo, literalmente. Então, por que ele diz que amor é fogo? Ele
quer dizer uma outra coisa que é difícil de dizer de outro jeito, né? Então ele fala: "Ah, não, amor é fogo". Para que você entenda essa outra coisa, mas você vai ter que fazer um esforço, né? Então, quer dizer, sempre que aparece a linguagem figurada, a gente tem que explicar, a gente tem que perguntar pra criança, olha só, ele tá falando aqui, amor é fogo. Amor é fogo mesmo, não, né? Então, o que que ele quer dizer com isso? Veja, você nem sempre precisa ter a resposta. Não, isso isso não é um um uma necessidade.
Não precisa ter resposta para tudo. Muitas vezes os especialistas não têm. Eles discutem, mas você precisa fazer o exercício de tentar entender de algum jeito. Isto é muito importante para que a criança não fique com a impressão de que linguagem figurada é só um jeito difícil de falar. Quer dizer, ele poderia falar de um jeito fácil, mas falou de um jeito difícil. Por quê? Por nada. Brincadeira. Não, quer dizer, você precisa deixar claro para ela que existe um sentido a ser alcançado por meio daquela figura e de que a gente precisa discutir e pensar para
chegar nele, né? Então, quando o Camão ele diz que amor é fogo e ade é fogo que arde sem se ver, eh, ele está Qualificando o fogo dizendo: "É um fogo que arde sem se ver". Bom, quando o fogo arde, a gente vê se o amor é invisível, um fogo invisível, é óbvio que ele não é fogo no sentido literal, mas ele tem alguma semelhança com fogo. Que semelhança é esta? O calor, a agitação, eh o a capacidade de purificar, por exemplo, né? A a capacidade de de purificar pelo pelo pelo ardor, né? Então quer
dizer, se você se concentrar por ele nessa figura, você vai ver que durante todo esse soneto aí, o famoso soneturf que se dê, o amor aí tem sempre uma ambiguidade permanente. Ele pode ser interpretado tanto como o amor erótico num sentido mais carnal, como ele pode ser interpretado como o como o amor divino que nós chamamos de caridade normalmente, né? Ele pode ser interpretado nos dois sentidos e nos dois sentidos ele ele funciona. E o que Camon tá demonstrando com este poema é que o amor carnal é um símbolo do amor divino efetivamente. Quer dizer,
você consegue falar do amor carnal eh ao mesmo tempo que você pode estar falando do amor divino. Os dois conseguem ser abrangidos pelos mesmos símbolos. O que significa que o amor carnal remete ao amor divino em última instância. E todas as essas figuras apontam para esta este sentido mais amplo, né? Eh, só que para você entender essas coisas aí, você precisa fazer um esforço. Se você ficar simplesmente na superfície das imagens, você não entende nada. Então, é preciso mostrar pra criança que esse esforço vale a pena, que existe uma resposta a ser alcançada, né? Mesmo
que cada um chegue a uma diferente, não tem Problema, né? O que interessa mais no processo de educação é o esforço, né? Então eu nunca posso enfatizar demasiado isso daí que a gente não precisa saber tudo. É muito mais importante fazer o esforço, né, e mostrar pra criança que é possível fazer este esforço e exigir este esforço dela mais do que chegar a uma resposta definitiva, perfeita, né? Eh, é esse o esforço que vai educar a mente dela, né? E ela pode chegar respostas melhores do que as suas depois, né? Eh, e por último, a
interpretação. A interpretação é a parte mais eh mais complicada, porque a interpretação ela possui, eu vou dizer assim, que ela possui cinco graus. O literal, o figurado, o alegórico, o estrutural e o simbólico. O estrutural não é bem um grau, é mais um nível eh parcial de interpretação. Você pode juntá-lo com algum desses outros, né? Eh, o que que quer dizer isso? Basicamente, você entende uma frase literalmente, pronto, você entendeu alguma coisa, mas no mais das vezes eh existe o risco de você não ter entendido exatamente o que o escritor queria que você entendesse. A
partir do momento que você entendeu literal, ou seja, amor é fogo que h sem se ver, você entendeu isso literalmente, você ainda não entendeu o que o Camus queria, mas você entendeu alguma coisa. A partir daqui, você consegue interpretar isto figurativamente, né? Aliás, um dos grandes sinais de que você está usando linguagem figurada é quando você fala e a coisa não faz sentido literalmente. Não, pera aí. Literalmente você não dá para interpretar isso daqui literalmente, senão parece que tá falando um impropério, um absurdo. Então tá, então vou ter que interpretar de outro jeito. Aí você
vai pra linguagem figurada, né? Eh, isso daí acontece com uma frequência imensa, né? O poeta fala o negócio ou na Bíblia mesmo, né? Tem tem lá frase na Bíblia que a pessoa lê, entende literalmente, fala: "Isso aqui é absurdo, né?" Ou pior, não acha que é absurdo e acredita naquilo, né? Então, quer dizer, eh, aí é é por isso que Agostinho falava para não ler a Bíblia se você não tem educação literária, porque, eh, dizia que 50% da metade da das controvérsias teológicas surgiam de erros de interpretação. O sujeito não sabia ler. Su não sabia
ler figurativamente. E muita gente faz isso efetivamente. pega texto religioso, não sabe interpretar nenhum texto humano normal e quer interpretar um texto religioso, dá uma interpretação própria, um texto religioso e como é que se diz? Pega um negócio que era para ser entendido de um jeito, entende de outro e aí já sabe, né? Então, quer dizer, eh, você passa aí do literal pro figurado, quando o literal é absurdo, ou quando existe algum sinal de que aquilo não deve ser interpretado literalmente. No caso da ironia, por exemplo, que é linguagem figurada, a ironia geralmente se dá
quando o sujeito fala uma coisa que eh não parece que é a opinião dele. Ele dá algum sinal de que aquilo não é a opinião dele. Então eu digo assim, eh, poxa, fulano, você tá tão bonita hoje, Né? Só que o meu tom diz pra pessoa que eu estou eh brincando, que eu que eu não estou falando sério e ela entende o contrário. Portanto, num texto literário, geralmente esses sinais se dão em outras partes do texto. O sujeito fala coisas que não condizem com aquilo que ele diz depois. Você percebe que existe uma contradição muito
grande entre o que ele falou primeiro e o que ele tá falando depois. Então, quer dizer, o que ele tá falando depois é um ironia, né? Isso daí é o que acontece normalmente. Então, quer dizer, a linguagem figurada sempre se dá assim, você percebe sinais de que aquilo não deve ser interpretado literalmente. Daí você tem que recorrer ao à interpretação figurada, né? É como no caso de um sujeito que fala: "Vou cantar as armas e os e os varões". Como é que você canta armas? Vai sair a espada da sua boca, né? Eh, é óbvio
que que isso aí precisa precisa de uma certa sofisticação na hora de interpretar, né? Ele não tá falando literalmente isto: "Eu vou cantar as armas, né? Eu vou eu vou cantar um um texto sobre as armas". Pô, mas você vai falar de armas, né? Daí tem um outro grau de figuração, né? Não, você não vai fazer um poema sobre armas. Eu estou lendo esse poema aqui. Ele não é sobre armas. Você não está fazendo descrições de lanças, de escudos e assim por diante. Então, do que que ele tá falando? Ah, tá falando de guerras. Ah,
tá bom. Então, as armas aqui são uma figura das guerras. Pronto, você conseguiu interpretar, né? Mas isto é uma coisa que às vezes, especialmente neste caso, exige eh bastante trabalho, né? Esse exemplo é particularmente difícil, né? exige exige um um trabalho grande do intérprete. Quando você entendeu no sentido figurado, né, ou no sentido literal, mesmo assim, às vezes ainda existe um outro nível de interpretação. Nem sempre esse nível existe. Às vezes sim, às vezes não, né? Eh, que é o nível alegórico. O que é o nível alegórico? é quando você lê uma história e ela
eh por si só não parece se justificar, ela parece apontar para uma um outro significado e poder ser traduzida como como se ela fosse um código. Por exemplo, eh, digamos, uma fábula, né? Todas as fábulas são alegóricas. Quer dizer, no caso da fábula, o o lobo e o cordeiro, né? O cordeiro significa o inlucente e o lobo significa o o culpado, o o violento, o o violentador, né? Então, os animais são escolhidos para para representar estas qualidades, né? Eles têm características que representam essas qualidades. Eh, quando você lê a fábula do lobo do cordeiro, ela
começa dizendo o seguinte: eh havia um rio, né? O cordeiro estava situado na parte de baixo e o lobo estava situado na parte de cima. O rio significa vida. O cordeiro está na parte de baixo porque ele pertence a uma classe baixa. Ele é ele é pobre e indefeso. Quer dizer, ele pertence, ele é um oprimido, ele é um sujeito que não tem meios, não tem poder, ele é impotente, ele é fraco, né? O lobo está em fim porque ele é um poderoso, ele tem meios, ele pode oprimir os demais, ele pode conseguir o que
ele quer, né? Então o lobo é o equivalente a um juiz, eh a um bispo, um sujeito que tem influência e poder, um rei, né? O cordeiro é equivalente a um camponês, um sujeito que não tem nenhum meio, né? Eh, e no caso do lobo e o cordeiro tem tem uma verve bem judicial ali. O lobo tem uma cara de juiz, né? Ele ele age como um juiz, ele julga o cordeiro, ele acusa e julga ao mesmo tempo. Então, dá dá a impressão ali de que é um camponês sendo julgado por um crime que não
cometeu, né? Tem tem essa aura o tempo todo na história. Eh, e todas as fábulas são assim: os animais estão escolhidos para significar outras coisas, né? E os elementos do cenário muitas vezes também significam outras coisas. Então a fábula é um código, ela precisa ser decodificada, né? É assim que um adulto lê uma fábula, ele decodifica. Ele vai lá e fala: "A cigarra e a formiga, por que que uma cigarra? Por que uma formiga? Por que verão? Por que inverno? Que que isso significa? Cada coisa significa uma outra coisa. Por exemplo, o o verão, desculpa,
a primavera não é verão, né? Eh, às vezes geralmente é primavera. A primavera é a juventude, o inverno é a velice. A ideia da fábula é quem não trabalha durante a juventude, durante a velice depende dos outros. E quando depende dos outros pode levar uma porta na cara, né? Então, o certo, a o normal da humanidade é o sujeito acumular durante a juventude para depois ele usufruir durante a velice, né? Esse é o, ele trabalha durante a juventude, quando ele tem forças e quando ele fica velho, não consegue mais trabalhar, ele tem recursos. Esta é
mais ou menos a ideia da alegoria, né? Então, a fábula é naturalmente alegórica. Em textos literários de outros gêneros, muitas vezes aparecem alegorias. Eu vou mostrar para vocês um caso daqui a pouquinho lá nos usadidas mesmo. Eh, qualquer texto pode ser interpretado alegoricamente se você forçar uma alegoria nele, mas alguns textos são alegóricos por intenção do autor e ele dá sinais disto, né? Ele ele diz isto em algum momento. Eh, então o alegórico quer dizer, você tem que decodificar, você tem que falar isto é aquilo, eh X é Y, eh Z é W, né? você
tem que fazer uma uma relação direta entre elementos do texto com outros elementos de outro texto ou da realidade. Eh, o elemento estrutural é uma organização do texto, né? mostrar esta organização. Todo texto clássico tem uma organização muito trabalhada e mostrar esta organização é muito importante para que a criança se acostume a pensar na linguagem como algo ordenado, ou seja, que ela já tenha uma certa expectativa de que quando ela vai ler textos preparados por grandes autores, Pelo menos, que aquele texto foi pensado, que aquilo não foi vomitado, né, num momento, que o sujeito foi
lá e preparou, ordenou e e que a ordem tem um certo sentido. né? A ordem tem uma certa influência sobre o sentido do texto, né? É importante que ela pense na linguagem como algo que pode ser ordenado, como algo que não precisa ser lançado para fora de uma vez, algo que pode ser pensado, estruturado, né? Para que ele consiga comunicar o máximo de sentido, no mínimo de espaço e assim por diante, né? E isto isto é fundamental para que a comunicação humana melhore de nível quando a suje tem sensibilidade paraa estrutura. na nas falas, nos
discursos, etc. A comunicação melhora de nível, consegue entender eh melhor e ele exige mais da comunicação. Então, você vê uma pessoa e começa a, por exemplo, ele pega um escritor e ele vê que o escritor tá escrevendo sem ordem, ele já fecha o livro, joga fora, entendeu? Ah, não tenho tempo para isso. Se o cara não não se não dedicou nem eh umas horas da vida dele a organizar o texto para mim, muito menos eu vou dedicar horas da minha vida a ler o texto dele, né? Ele começa a ter uma exigência de nível superior.
Hum. E e isso é muito importante pro resto da educação dele. Eh, o nível simbólico é o nível no qual a gente não precisa chegar de modo algum. É o nível em que começa a crítica literária propriamente dita. Mas eu acho interessante que se você vir uma abertura, você pelo menos aponte para isto. O que é o nível simbólico? Eh, é mais ou menos o seguinte: as armas e os barões assinalados. Poxa, mas o que que os feitos desses portugueses que atravessavam os mares para chegar na Índia e plantar a cruz de Cristo em cada
continente, né, como diz o Camões, o o que será que esses portugueses, que as ações desses portugueses significam? Então, eh, os portugueses lutam contra os muçulmanos, mas o que que significa a luta entre portugueses cristãos? e eh muçulmanos controlados por Baco. Que que isto significa de um ponto de vista maior, mais amplo, vamos dizer assim, para usar aquela expressão do aquela expressão eh medieval, suspete eternitates, sob o olhar da eternidade, né? Que que isso significa? Quer dizer, qual é o qual é o papel desses atores no teatro do universo? Esse tipo de interpretação é aquela
interpretação que a literatura começa a virar filosofia. Você só consegue chegar nisso, depois você passa por todos os outros. Você entendeu todos os outros, aí você chega nisso daí, você consegue fazer o apontar para isso daí. É claro que isso daí é trabalho para um sujeito que tem vocação para isto, né? Eh, mas se você vi alguma oportunidade de apontar neste sentido, você vai fazer aquela coceirinha, vai dar aquela coceirinha eh na inteligência da criança, que pode ser o despertar de de uma intuição eh de um desejo de grandeza maior. Então, sempre que você viu
a oportunidade de apontar nesse sentido, é, é bacana pelo menos dar uma uma pista, digamos assim, fazer uma tentativa, não tem problema se você tiver errado, né? faz uma tentativa, pergunta pelo que ela acha, né? Eh, é importante mostrar que existe essa dimensão, que as obras literárias podem ser interpretadas com um significado maior, um significado eh universal que abrange a experiência inteira da vida humana e talvez até o papel do homem na história, no cosmos, né? Até o papel do homem eh na história da alma, na história imortal dele, né? No caso, ainda mais no
caso de um autor cristão, né? principalmente no caso de um autor cristão, você acha mesmo que ele escreveu aquilo tudo e em nenhum momento ele pensou na salvação da da eh da alma humana. É muito improvável, né? Então, algum significado tem ali, né? Eh, bom, e eu mandei um texto para vocês aí, que é o texto do Adam Stor. Então, você vê que eu botei um aqui no na estrofe 37. Eh, eu não vou ler a estrofe inteira não, né? a gente não, a gente tá no finalzinho do tempo. Eh, mas eu eu queria anotar,
na verdade, o principal que queria anotar era nesse primeiro verso aqui, porque eh existe a questão de como que a gente insere as outras disciplinas no estudo da literatura, né? Depois que a gente passou por todos esses níveis aí, é interessante, de certo modo voltar o nível literal, né, para colocar esta questão. Eh, como é que eu insiro as outras disciplinas dentro da literatura? Porque normalmente o que a gente faz, a gente imita a escola. E a escola divide as disciplinas. Então, vai ter aula de biologia, depois vai ter aula de matemática, depois vai ter
aula de física, depois de português, depois de literatura. Às vezes separa gramática, literatura e redação, né? E a gente divide as disciplinas e e funciona assim. Eh, você pode fazer isso, né? Se você fizer isso, eu recomendo que você pelo menos tente fazer uma ponte entre as disciplinas. quer dizer falar: "Olha, eh, lembra que no poema do Camones apareceu isso, isso, isso? Então, vamos estudar esse negócio aqui e tal, tem a ver com aquilo." Eh, porque uma das principais deficiências do ensino escolar é que a o conhecimento é fragmentado. A crença não vê relação entre
uma coisa e outra e ninguém se preocupa em mostrar isso para ela, né? Então, é importante que ela tenha essa experiência. Agora, o que eu proporia é uma coisa ainda mais revolucionária, que é o seguinte, é não fazer esta divisão, né? é pegar o texto literário como base e abrir parênteses. Então é o seguinte, hoje nós vamos estudar essa estrofe aqui do Camões. Começou aí a criança vai lá, lê, eh, recita, memoriza a estrofe, depois você vai estudar o sentido. Aí você chega lá para ela e fala: "Olha, esse primeiro verso aqui, porém já cinco
sóis eram passados". Você sabe o que é rotação e translação? Ah, não sei. Então, acabou o texto literário. Fecha o texto literário, pega uma enciclopédia e vai ver rotação. Olha aqui o planeta Terra. Vou pegar aqui o globo terrestre e mostrar para você. O planeta é assim. Aí tem a lua aqui, aí tem o Sol, aí tem os outros planetas e tal, né? Aí como é que acontece, ó? Aqui, ó, a Terra gira em torno do Sol e tal, né? E vai mostrando para ela como é que isso funciona. Você tá estudando astronomia, né? A
partir do quê? Já cinco sóis eram passados. Depois ele fala: "Por que que o Gamões falou já cinco sóis eram passados?" Porque o sol faz esse movimento girando e aí no céu a gente vê o sol aqui, né? Rodando, né? Na verdade a Terra que tá rodando, aquela coisa toda. Você faz toda a a base enciclopédica toda para Explicar isso. Então, lembra que a gente acabou de ver aqui a rotação, né, e tal? Então, aí a gente vê o sol aqui rodando no céu, né? E quando o sol roda cinco vezes no céu, o que
que isto significa? Se passaram cco dias, né? Então, então o que que é isso aqui? A linguagem figurada. O sol significa o dia, né? E como é que você faz a ponte entre o sentido literal e o figurado? Por meio do conhecimento astronômico, né? Então, quer dizer, aqui você deu uma aulinha de astronomia sobre um tema específico, mas que pode se abrir para várias outras informações de acordo com o interesse da criança e com o seu desejo, né? Eh, e você partiu, você para você chegar aí, você partiu de uma porta que era o texto
literário, abriu os parênteses, bá, depois você volta pro mesmo lugar. Isto dá um fechamento pro conhecimento que faz com que toda vez que a criança releia, porém já cinco só eram passados, ela fala: "Putz, rotação, né? Aí tem a terra e tal", né? Quer dizer, aquele verso vai adquirir para ela o sentido de uma porta. Ele dá numa num outro lugar, ele dá numa numa casa e essa casa tem os seus prófos aposentos, ela tem o seu, né? Isso daí é mneemônico, é muito bom para memória e é bom para percepção existencial da criança. Quer
dizer, ela nunca vai ver o conhecimento como algo Fragmentado. Tudo está ligado. E quem faz a ligação? A poesia. Por que a poesia faz a ligação? Porque quem é que faz a ligação entre os nossos conhecimentos na realidade, na na nossa psique, a imaginação, né? A imaginação é o que dá o o a base material paraos nossos conhecimentos. Então, todos eles têm que estar ligados na imaginação, né? E a poesia faz esse papel, ela unifica tudo. Quer dizer, você pode ensinar tudo a partir da poesia. Lembra lá do do Bernardo de Chatros, quando ele explicava
poesia, parecia que todas as filosofias e todos os conhecimentos estavam contidos no poema, né, por causa disto, né, ele usava a poesia como a porta para tudo. E isto cria um efeito maravilhoso sobre o a inteligência da pessoa. Então, eu queria dar este exemplo aqui eh como uma possibilidade de estudar astronomia. E todos os outros conhecimentos podem ser eh acoplados assim. Você, inclusive, se você tem assim uma preocupação muito grande com o currículo, você quer ensinar um currículo definido, etc., você pode forçar, pegar, olha, eu quero, no caso da gramática, isso pode ser necessário. Digamos
que você não sabe nada de gramática e você precisa ensinar isso pro seu filho até para ele entender o poema, senão ele não vai nem conseguir entender. Que que você pode fazer? pega uma gramática, capítulo por capítulo e vai estudando aquilo no texto. Por exemplo, eu abri a gramática, a primeira coisa que tem lá, não sei, artigo. Então você vai ler aqui uma estrofe do Luzida aqui com com a criança e você só vai falar de artigo. Só olha aqui, filho, ó os artigos aí. Tem um definido, tem um indefinido, tem um outro. Tá tó
falar disso, vai falar mais nada, né? Depois você faz o resto, faz do sentido literal, do sentido figurado. Depois, primeiro só vai falar de artigo, né? Ou seja, você usa o texto literário como desculpa para ensinar segundo aquele programa que você definiu. Isso pode ser feito. Eu só recomendo fazer quando for necessário, senão recomendo seguir o texto literário e só abrir parênteses quando for natural, quando for quando ele ele pedir, né? Mas você pode fazer isso. Isto funciona e era feito antigamente. Quer dizer, o sujeito queria ensinar eh partes do discurso, o que é um
substantivo, o que é um adjetivo. Ele pegava uma estrofe de um poema, fazia a criança memorizar e depois perguntava um a um. Tal palavra é o quê? Substantivo. E a outra? adjetivo e a outra advérbio. Quando ele terminava, ele fazia isso com uma duplas, três, quatro estrofes. Eh, não tem jeito da criança não ter aprendido. Ela decorou aquilo tudo, né? E você pode até dizer: "Ah, mas se ela decorar, por exemplo, que homem é substantivo". Ela não aprendeu. É verdade, ela não aprendeu. Mas se ela decorar aqui, homem, cadeira, sofá, Barco, livro, bom, aí fica
difícil ela não perceber o princípio que tá por trás, né? Você tá perguntando se para ela o tempo todo, então uma hora ela capta, né? Então eles faziam isso, né? Eles pegavam, faziam a criança memorizar e daí quando você vai fazer o teste, então por exemplo, a criança memorizou quatro estrofes do poema, ela sabe a classe de cada palavra ali de cor. Aí você vai, você chega lá, tá na pizzaria com ela, fala: "Ô filho, pizza é um substantivo ou é um adjetivo? Não sei. Bom, eh, você lembra das das armas lá do Camões? Lembra?
As armas é o quê? É um substantivo. Você acha que pizza parece com armas? Parece mais com armas ou parece mais, por exemplo, com assinalados? Você acha que pizza é da mesma classe que armas ou é da mesma classe que assinalados? Qual, qual das duas palavras parece mais? Ela tem um estoque de exemplos. Você pode usar isso para comparação quantas vezes você quiser, né? Então nem tem essa de ah, mas ela decorou e não aprendeu não. Decorar é o primeiro passo para aprender. Decora primeiro, aprende depois, né? Ela tem um estoque. A partir desse estoque,
você pode fazer comparações e daí ela aprende o sentido da coisa de fato, né? Então, bom, então a a base da coisa é essa. Quer dizer, você pode ensinar por capítulos, pode, mas eu recomendaria, tenta colocar isso no no texto literário, tenta usar o texto literário como porta, né, sempre que possível para Que o conhecimento não ganhe este aspecto fragmentado e não ganhe este aspecto desumano. Porque eu acho eu acho uma coisa muito cruel que o conhecimento seja transmitido de modo desumano, que você xinggue pra criança e fale: "Ó, vamos decorar todos os ossos do
corpo". E a criança fala: "Para quê? Qual o sentido disso?" Mas coloca os ossos do corpo dentro de uma narrativa e daí a coisa começa a fazer sentido. Ah, tá. Eu tô aprendendo os ossos do corpo para entender a história, porque a história é maior do que isso. O, a gente tem que começar a a reconhecer que o ser humano precisa de sentido e o sentido só é dado numa narrativa humana. Não adianta você querer eh, como é que se diz? Ensinar como se fosse mecânico um fenômeno que só adquire sentido dentro da vida humana.
Então, a criança precisa necessariamente que aquilo tenha importância. Se não tiver importância, eh, como é que se diz? ou ela vai ignorar a informação, ou pior, a informação vai corrompê-la. Ela vai começar a sentir como se o mundo fosse morto e desprovido de sentido. Isso daí é a morte da inteligência. Hum. Quando a pessoa se conforma, quando a pessoa tem a impressão de que é só isso mesmo, os nomes dos ossos e e éí tem o movimento dos astros no céu e e é só isso, isso não significa nada, isso não tem nenhum papel na
vida humana, mas a inteligência da pessoa já ficou reduzida Para todo sempre aquela dimensão superficial, né? E ela nunca vai entender nada que vale a pena, né? Ela ela oficialmente se tornou uma escrava dos sentidos. Isso daí é a morte da inteligência. Eu, então eu acho que essa parte das disciplinas aí ficou mais ou menos clara, né? O que que eu considero. Então, eh, em matemática você também consegue fazer isso, né? Tem várias vezes que tem cálculos no meio de um poema, você pode parar e ensinar um mundo a partir daquele cálculo ali, né? Você
sempre abre parênteses e dá a disciplina toda a partir daquil, dá o capítulo todo a partir daquilo ali, né? E depois volta e cobra, cobra aquilo que você ensinou na prática, no contexto, né? Eh, eu marquei também a estrofe 50. A estrofe 50 é um exemplo de alegoria, né? O que acontece? Os portugueses eh chegaram ao famoso cabo das tormentas, eh chamado normalmente de cabo da boa esperança, que é um um o cabo é como se uma península, né? Um é um pedaço de terra que sai assim no mar, sai da do continente, vai pro
mar. E esse cabo ele fica ali na África do Sul, então ele é bem no cruzamento quando quando você dá a volta ali na África e aí você pode chegar na Índia a partir dali, né? Dá a volta na África e segue pela costa. Ele fica bem naquele cruzamento, bem ali no sul da África. Esse cabo era bem violento, tinha muitas tempestades e os navios naufragavam ali. E daí ele foi chamado de cabo das tormentas. Eh, o Camões cria o gigante Adamastor. Ele pega esse nome num mito qualquer, um é um um gigante qualquer da
mitologia, um filho de Gaia, pertence à aqueles titãs eh lá do começo da mitologia grega, aqueles monstros lá do começo da mitologia grega. E ele pega esse nome, Adam Athor, gosta desse nome, fala: "Já, já sei, vou transformar isso aqui no no monstro da minha história". E ele diz o seguinte, que o Adam Astor é o cabo das tormentas. Era comum na mitologia grega que o os lugares fossem animados por espíritos, por deuses, né? Então, cada rio era um deus, por exemplo. E esse Deus tinha filhas, as ninfas. E essas ninfas, elas elas eram o
espírito da, por exemplo, das ondas, eh, né, o espírito da das superfície, das águas, da das árvores e assim por diante. Eh, então quer dizer, e esta sensação, este sentimento de que todas as coisas são regidas por uma força espiritual, né, que é representado pelos deuses menores, principalmente. E aí o Cam falou: "Por que o cabo das tormentas não pode ser regido por um espírito também, né? normal próprio da mitologia. Então, o espírito que rege o cabo das tormentas é o gigante Adamastor, que foi transformado no cabo das tormentas. E daí ele cria a história
do gigante Adamastor em cima disso. É uma história perfeitamente compatível com qualquer mito grego que você já tenha visto, né? E o Adamastor confessa aqui, ó, nessa estrofes 50, ele diz: "Eu sou aquele oculto e grande cabo a quem chamais vós outros tormentório. É o cabo das tormentas, né? tormentório, que nunca pompônio, estrabo Plínio e Quantos passaram, foi notório. Quer dizer, Ptolomeu, Pompono, Estrabo e Plío são estudiosos eh da história natural, da física, da geografia, assim por diante. Então, quer dizer, ninguém ninguém sabe deste cabo, ninguém chegou lá, nãoé? Ele é muito longe. É é
os são os mares nunca dantes navegados, né? Tá no limite aqui. Toda a africana costa cabo. Neste meu nunca visto promontório. Promontório quase a mesma coisa que cabo, né? É um pedaço de terra saindo da água. Que pera o polo Antártico se estende a quem vossa ousadia tampo ofende. Então os conhecimentos geográficos do Camões, né, mostrando que ele sabia que a Antártica tava próxima ali da do sul da África, né? E, portanto, o o a Damastor está confessando que ele é o cabo das tormentas. Quando a Damastor diz isso, você imediatamente é impelido a pensar
numa alegoria. Quer dizer, o gigante Adamastor, que lança pedras contra as pessoas e agita o mar e assim por diante, ele é a personificação das tempestades do cabo das tormentas, né? Então você você é tentado a pensar no no alegorismo, você pode associar cada movimento desse gigante com o que de fato acontecia aos navios que ele Passava, né? Eh, em vez de pelo amor de Deus, vem dizer que muitos acreditavam na damastor e daí que aquilo era uma explicação, né, pretensamente científica do do cabo das tormentas. Lógico que não. É uma personificação do cabo das
tormentas, ou seja, é um tipo de alegoria, né? Confessa, tá confessada no texto, né? Então, a partir daqui, você já pode interpretar tudo, todas as características do gigante como alegoria. Tem uma descrição aqui dele, depois vocês podem ler que vocês vem que ele é descrito como um pedaço de terra mesmo, né? Ele tem os dentes marrons, né? Os cabelos cheios de terra e assim por diante. Ele é um um pedaço de ele é um monte, né? Ele é um penedo. Eh, então iso daqui é um exemplo de alegoria dentro do poema épico, uma alegoria bem
explícita. Por fim, eh, eu coloquei aqui na estrof 59 também em né, uma descrição que o Adamastor faz da transformação dele, quer dizer, do momento em que ele foi transformado em cabo, ele foi transformado naquele promontório. Foi um castigo divino por ele ter se interessado pela mulher de um outro deus, do deus Peleu. ele quis ele quis adulterar com com a Tetis, que era a esposa de Beleu, e foi castigado, sendo transformado neste promontório. Daí nós temos aqui a descrição dessa transformação e eu coloquei uma nota eh para um trecho das metamorfoses de Ovíde, em
que o Atlas, que também é um gigante, é transformado em monte. E daqui aqui vocês vem a imitação que o Camões fez desse episódio. Ele ele criou um gigante que também era transformado em monte, né? E daí ele ele pensou: "Bom, quem foi que já fez isto?" Ah, o Ovío fez. O vídeo transformou um gigante em monte. Então, eu vou partir dele, né? E vou vou vou imitar a a metamorfose, a transformação que ele que ele criou e vou trabalhar em cima, né? Tem algumas diferenças. Por exemplo, o fato de ser na água. O atlas
não está na água. O a damastor está. Então você vê que na descrição dele aparece água ali. Essa água corresponde às lágrimas dele, porque ele foi transformado eh em monte por amor. O crime dele foi um crime de amor, né? Então quer dizer, as lágrimas dele, a mágoa, a mágoa apaixonada de Adamastor é o que justifica que ele esteja na água, que ele que esteja saindo da água, né? Eh, no caso do Atlas, não, a situação dele é totalmente diferente. Não foi, foi por soberba, não foi por, por amor. O crime dele não foi amoroso.
Eu vou só fazer uma leiturazinha só para vocês verem o seguinte. A estrutura, lembra que eu falei da leitura da estrutura? Eu queria dar um exemplo disso. Eh, lê o trecho das metamorfoses, a gente vê aqui, exeito enorme Atlante, um monte enorme, que é a tradução do Bocagem, né? Que é uma uma tradução Poética, então é perfeito, né? Eh, vocês veem aqui a relação, ele começa dizendo que Atlântico foi transformado num monte enorme. Ele era grande e também virou um monte grande, enorme, enorme, feito enorme atlântore. Então, como ele era um gigante, ele virou um
monte, né? Barbas, melenas, as cabeleiras se lhe tornam selvas. Então, veja, as barbas e os cabelos se transformam em florestas, né? Na o mato que tem no monte são recostos da serra, as mãos e os braços, né? É perfeito, né? A, as ondulações da serra são as mãos e os braços dele. O que já lhe foi cabeça, agora é cume. Então, a cabeça dele é o cume da montanha. Dos ossos, os penedos se formaram. Os rochedos são formados a partir dos ossos dele, que são as protuberâncias, né? Para todas as partes se dilata, então ele
se expande, crescendo mais e mais, a altura imensa toma em fim. Vós, ó Núme ordenastes, eh, todo o peso dos céus descansa nele atrasarregava o mundo nas costas, né? E daí a gente compara aqui com a estrutura do camões. Converte-se minha carne em terra dura, né? Em penedos os ossos se fizeram. Quer ver? Os ossos se fizeram penedos. É a mesma coisa. Estes membros que vê e esta figura, por estas longas águas se estenderam. né? Vocês vão lembrar ali embaixo, é, para todas as partes se dilata. Dilata e estender é a mesma coisa, né? Dilatar-se
e estender-se é a mesma coisa. Então os membros se estendem pelas longas águas. O cam só colocou as águas no meio, né? Enfim, Minha grandíssima estatura aí, lembra lá do, né? O enorme atlânt, um monte enorme, né? Altura imensa. Vamos lá. Altura imensa. Ele fala aqui, minha grandíssima estatura, né? Neste remoto cabo converteram os deuses. Os deuses tem lá embaixo os númeres. Ó, é a mesma coisa. Por mais dobradas máguas, nandetes cercando dessas águas. Então vocês percebem que ele imitou a estrutura inteira. Quer dizer, a o método do ovídio, as metamorfoses do ouvido, elas sempre
são descritas assim. Ele pega a característica do da pessoa, no caso, eh, cabeça, ossos, né? E ele vai achando análogos na natureza. Então, ah, os ossos são protuberâncias. O que é uma protuberância na natureza? É um penedo. Ah, então tá bom. Então, os ossos viram penedo. Ele vai fazendo analogias e vai descrevendo a transformação desse modo. Então, a cabeça é o cume, né? Porque ela ela é o cume do corpo, de fato. Ela vai ser o cume do monte, né? E isso dá uma vivacidade para as transformações pro vídeo que é muito difícil de imitar.
Quando você lê, você de fato consegue imaginar o sujeito virando aqui. É muito fácil imaginar a transformação. O camões imemita o mesmo método, né? E usando muitas vezes eh eh traduções, quase que traduzindo, ouvindo aqui. Você percebe então um um senso do Camões, não só eh digamos assim do estilo, Mas do modo como o Ovídio faz a coisa. Ele captou os princípios literários e aplicou. E tanto aplicou que como no caso do gigante dele, o crime ali foi passional, foi por amor, o Atros virou, ficou soberbo porque ele virou um monte porque era soberbo. O
Adamastor virou um cabo que fica deitado, né, que é um é uma extensão de terra, não é um uma montanha, né, e cercado de águas, as águas representando as lágrimas. Então ele aplicou o mesmo princípio da analogia da transformação, né? a as lágrimas, água, né? A cabeça come. Já aplicou os mesmos princípios, o que mostra que ele entendia o modo como o ouvido estruturava as transformações. Ele não tava só imitando o estilo, ele tava de fato captando a estrutura da coisa. Num nível mais alto, isso aqui é um trecho, né? Você pega o trecho, compara
com outro, você vê que tem os mesmos princípios estruturais, né? tava de fato captando. Isso mostra como uma pessoa com educação literária consegue produzir coisas criativas depois usando os princípios que ela aprendeu ali, né? Ele pegou os mesmos princípios e criou uma coisa nova, né? E mas se você tomar, por exemplo, o episódio inteiro do Adamastor que vocês têm aí, ele também tem uma estrutura. Ele começa lá com um presságio, eles vêm uma nuvem negra, etc. E aí depois aparece o Adamastor e daí o Adamastor fala, tem o discurso do Adamastor em que ele conta
a história Dele. Aí depois tem eh tem a finalização, quer dizer, a coisa é toda estruturada como se fosse uma uma narração mesmo. Ela tem princípio, meio e fim, né? É tudo muito estruturado. É importante ter esta percepção, é importante eh mostrar pro aluno. Veja, a coisa foi foi organizada. O PT não saiu falando que ele queria. Ele pensou: "Ah, primeiro eu vou apresentar, depois eu vou dar alguns sinais, eu vou, depois eu vou botar um um diálogo aqui no meio, depois eu vou fazer uma conclusão." Ele ele ordenou tudo bonitinho, ele fez um plano,
não foi uma coisa assim que saiu da cabeça dele na hora, né? Eh, então em relação ao texto, era o que eu queria mostrar, essa coisa da estrutura do do Adamastor, a gente já volta a isso. Bom, aí o o que eu queria falar pra gente concluir o assunto aqui, eh, que todas as todas as explicações que você der a partir do poema, a partir do texto literário, elas devem ser superficiais. Não se deve entrar muito fundo e tentar explorar todos os detalhes do assunto. Deve ser tudo superficial. Você tem que sentir se a criança
tá interessada ou não em saber mais. Se ela tiver, sim, Né? E por quê? Porque você consegue falar, você consegue ensinar muita coisa assim, falando tudo superficialmente, tudo de modo geral, né? Apenas em geral você lê lá o verbete da enciclopédia junto com ela e faz umas perguntas e, né? N isso aí vai ser o suficiente. E se ela demontar um interesse especial, ela pode usar aquilo para fazer um projeto, né? Ela pode entrar numa pesquisa própria a partir daquilo ali. E é isso que realmente vai ensinar ela a pesquisar, é isso que vai realmente
produzir conhecimento para ela. Se você tá ensinando para mar de uma criança, é muito fácil, por exemplo, você vai fazendo essas explicações, vai dando essas explicações mais superficiais e todas elas têm que acompanhar as explicações superficiais e aprender, né? E depois você faz o seguinte, agora eu vou dar aqui algumas opções, né? Cada um desses assuntos aqui que a gente discutir, né? Vocês podem escolher um desses assuntos e cada um faz uma coisa aqui relacionada, cada um vai mais fundo aqui, né? E daí, lógico, você orienta, né? Mas aí cada um pode se direcionar mais
pro que pro que lhe interessa, digamos assim, né? E pode ver qual é a dificuldade de você de fato pesquisar um assunto que lhe interesse, né? que isso vai dar independência para ela também. Então, quer dizer, em vez de você querer eh como é que se diz? Que todo mundo saiba tudo até as últimas consequências, você garante que todo mundo saiba alguma coisa, saiba mais ou menos de modo geral e dá oportunidade de Delas se aprofundarem no que elas querem. Veja, o conhecimento humano, a possibilidade do conhecimento humano é infinita. Então, essa coisa de você
querer que todo mundo saiba tudo, isso é uma maluquí, uma loucura, né? e necessariamente a coisa tem que ser limitada. Então, por que não que ela seja bastante limitada de modo geral, né, mas que eh de modo específico as pessoas têm o direito de avançar naqueles conhecimentos que lhes interessam mais por causa das suas inclinações, né? Eh, o que exatamente justifica que a gente queira que todo mundo eh, como é que se diz, tenha conhecimentos muito aprofundados de tudo, né? a gente sabe que na prática isso não dá certo. A gente sabe que na prática
a coisa não funciona. O que acaba acontecendo é que a gente gasta muita energia eh com esse procedimento e acaba não tendo tempo e energia para estudar o que a gente realmente queria, né? Isso acontece com crianças desde desde a infância. Então, por que não dar a oportunidade delas de fato entrarem fundo nas coisas que elas querem em vez delas acabarem só sabendo eh como é que se diz? Bagatelas sobre tudo. Então, é melhor não exigir muito, né? Aqui eu tô dando uma opinião, pode ser levada em consideração ou não, mas por que não? Então,
eh, como é que se diz? Dá esta esta chance às crianças de terem espaço na cabeça e e tempo e energia para perseguirem até as últimas consequências do que elas querem. e usar esta esta parte das explicações superficiais, não para que elas saibam muitas coisas, mas para que elas tenham acesso a estas coisas, para que elas saibam que existe E aí elas podem escolher o que elas querem de fato. Então, o objetivo do conhecimento não não é criar um estoque enciclopédico de informações, é apenas apresentar a existência dessas muitas informações para que cada um possa
decidir o que gostaria de saber a fundo. E as pessoas podem saber a fundo, de fato, se elas quiserem. E vai haver as crianças que não, que elas vão querer saber tudo. Ótimo. Mas também não tem nenhum motivo para elas não quererem saber tudo. Então, deixa elas saberem exatamente o que elas querem saber, né? Mas assim a gente respeita mais as inclinações delas e e com eles dá mais chances delas se desenvolverem melhor também. A gente fala mais disso em outra aula. Então, quer dizer, de certo modo, a gente precisa questionar até que ponto a
estrutura burocrática da escola que foi criada para atender a critérios eh políticos que nada tem a ver com desenvolvimento humano. Até que ponto a gente precisa imitar essa estrutura? até que ponto a gente precisa realmente criar disciplinas, fragmentar, eh, até que ponto a gente precisa fazer isto, né? Criar provas e e provas do mesmo jeito que são aplicadas na escola. Por quê? O que justifica isso? A própria prova é uma prestação de contas, né? Se você não precisa prestar contas a ninguém, se você é o professor, por que que você precisa de prova? Você não
sabe o que o quanto seu aluno sabe? Você não tem esta percepção. A sua percepção é muito mais rica do que o que você obteria por uma prova. Você sabe muito Mais do que tá ali naquela prova. Uma prova é um negócio que foi criado só para sustentar a estrutura burocrática da escola. O professor precisa prestar contas para você, pro pai, né, do quanto o aluno sabe. É para isso que existe a prova. Mas se você é o próprio professor, você sabe o quanto o seu filho sabe, né? Ou se você não sabe porque você
burocratizou o processo, não é isso? Então você sabe muito mais do que você saberia por uma prova. Então é só para dar um exemplo disto. Quer dizer, eh é se perguntar se essa estrutura burocrática imitada da escola, se ela não está limitando você ao invés de te ajudar, né? Poderia estar te, você poderia fazer a coisa de jeito mais simples, mais eficiente, mas você quer mimetizar o que foi feito na escola com você, não é isso? É quadra síndrome de stock. Eh, e daí eu queria concluir só dizendo o seguinte, eh, então eu acho que
ficou bastante claro que a gente não tá aqui visando a, por exemplo, a criança ter cultura literária, não é bem isso. Claro que ela ela vai ter cultura literária, este é um objetivo secundário, mas a gente não quer que ela saiba muitas coisas e nem que ela leia muitos livros. Então, em termos, por exemplo, de quantidade de texto, não é necessário que a criança leia eh o livro inteiro. Isso o isso é legal, mas não é o objetivo principal. O principal é que ela leia bem o que quer que ela esteja lendo, porque você tá
estudando o texto. Então, você fazer a leitura pausada, você fazer a leitura com cuidado, garantindo que ela esteja entendendo tudo, garantindo que ela esteja absorvendo tudo, garantindo que ela esteja eh recitando e ouvindo o que ela está falando bem e assim por diante. Eh, isto desenvolve a faculdade dela, a faculdade de de percepção e de interpretação literária. Isso é o que a gente quer. a gente quer que o músculo dela fique forte, o músculo intelectual, né? A gente não quer que ela faça eh eh como é que ela memorize muitas coisas. A própria memorização é
só um exercício. Não existe a ideia, por exemplo, de que ela vai memorizar tudo. Em relação à memorização, o que eu recomendaria é vai lendo com cuidado e conforme o o assim a cada semana pede que ela escolha. uma ou duas estrofes que ela gostou mais e memoriza aquilo. Não precisa ser uma uma coisa vinda de fora, uma imposição. Pode ser algo que ela gostou mesmo, né? O importante é ela memorizar alguma coisa boa, né? pode ser o que encaixa mais na inclinação dela. Então, tudo é exercício. Isso é uma coisa que eu insisti muito
no curso de latim, insisto agora de novo. Exercício não é prova e não serve para você aprender eh conhecimentos enciclopédicos. O exercício tem que você tem que pensar numa academia. Você vai lá, faz aqueles exercícios, né, para você ficar forte, pô, para você conseguir carregar caixa pesada depois, para você conseguir correr, né, para você conseguir fazer as coisas que que precisam ser feitas na vida. Então, se você vai lá na na academia para ficar bombadão, é isso, é, você tá fazendo errado, né? O objetivo não é estético, o objetivo é funcional, você tá fendo aquilo
para ficar saudável, né, para conseguir fazer as outras coisas. Então, não pensa na estética, não pensa no na aparência, pensa no quanto aquilo está melhorando a capacidade intelectual da criança de perceber outras coisas. O fato de ela ler 20 livros, 30 livros, não vai por si só melhorar a capacidade intelectual dela. Isso depende de como ela está lendo e de que livros elas está lendo, né? Então, o nosso foco é na qualidade da leitura e não na quantidade. Quantidade é paraa leitura de entretenimento. Ela pode ler quantos livros ela quiser. A gente tá preocupado com
a qualidade, porque ela lê bem e se lembre do que ela leu, se lembre do do que ela entendeu, se lembre do que tava ali, né? Eh, então essa diferença, não é cultura literária que a gente quer, não é beletrismo, né? Não é pedantismo. Lembro de uma frase do Quintiliano que ele diz assim exatamente sobre isso. Quando é que a criança está madura para passar para o nível retórico? Ou seja, sair do nível gramatical. E daí ele fala assim e eu respondo, eu respondo o seguinte: quando estiver, o que ele quer dizer é o seguinte:
não tem uma idade definida, né? as pessoas que tentam impor impor uma idade, elas cometem um um erro, pelo menos no sentido de que estão trocando os nomes das disciplinas, estão chamando de de retórica, uma coisa que não é. Então, o que o Quintiliano queria dizer é justamente que não tem uma idade, não tem um nível fisiológico, digamos assim, né? E ele até recomendava que mesmo depois que passasse pro ensino retórico, que a criança ainda ficasse fazendo aula de gramática por um tempo com o outro professor, com o professor de gramática, né? ficar fazendo os
dois por um tempo até para para conseguir fazer a passagem de modo mais tranquilo, né? Então não não tem um choque muito grande. Então você avalia a maturidade, na verdade eh reparando se a criança está conseguindo fazer essas operações que eu descrevi aqui facilmente. Eu tenho uma hora, a gente vai falar quando a gente falar do método de ensino, eu vou vou falar sobre isso, né? Quer dizer, você, como você checa, como você confere que a coisa tá funcionando, como você avalia o desempenho. E daí tem uma hora que você faz lá as perguntas e
a criança responde. Você pega um texto novo, um texto que não tem nada a ver, Outro, um texto que ela não leu, faz aquelas perguntas e ela na lata. Não é isso, é isso, é isso, né? Um exemplo que é bem fácil, um exemplo que é bem fácil de imaginar é o seguinte: sintaç, você decodifica a sintasse de várias frases difíceis com a criança, né? Tem uma hora que ela começa a fazer, ela pegou os princípios e começa a aplicar. E daí você vê que ela não tem mais dificuldade nenhuma. Você dá uma frase difícil,
ela vai lá e desmonta na hora. Isso acontece com todos os níveis de leitura, não é só com a sintase. É. E e em parte eu acho que não existe passo seguinte, né? Quer dizer, eh, claro, é evidente que o conhecimento avança. Eh, inclusive, uma nota que eu acho importante é o seguinte: e se o meu filho manifestar vocação para isso? E se ele começar a me fazer perguntas que eu não sei responder? E se ele começar a avançar para este nível simbólico dos textos literários e começar a fazer isso com uma destreza que eu
não consigo acompanhar? O que que eu faço? Eu digo, você faz a mesma coisa que você faria se ele manifestasse qualquer outra vocação. Você bota ele no caminho, fala: "Filho, a partir daqui não é mais comigo. Agora toma aqui uns livros, fala com o professor tal aqui, ó. Esse cara entende do assunto. Vai estudar com crítico literário e com professor de literatura, porque você é vocacionado. Então isso aqui não é, isso aqui não é mais aquele ensino de bar. Agora você, agora você tem vocação para coeta, já manifestou Uma vocação, é poeta, né, escritor, tem
gente que tem vocação para isso. Então vai ter que estudar isso como uma profissão, vai ter que ir para uns níveis mais avançados. E mesmo que o sujeito não tenha vocação, a gente sabe que a literatura nos acompanha a vida toda. A literatura sempre tem algo a nos oferecer. No começo é muito, depois vai sendo menos, né? Mas ela sempre tem algo a nos oferecer. Todos os grandes homens sempre até a Verícia estão lá lendo literatura, né? Não acaba. estão sempre se enriquecendo com aquilo. Eh, então, quer dizer, eh, nesse sentido não tem um momento
para parar, né? Mas no sentido estrito, no sentido de se profissionalizar ou de se especializar na educação antiga e medieval, este sentido ia e a coisa ia no sentido. Quer dizer, se especializava em retórica depois, depois ia pra dialética, entrava na universidade e aí a coisa ia num caminho seguro. Mas nem todo mundo vai fazer isso, né? Algumas pessoas vão vão fazer muito estudo literário e depois vão virar engenheiros e não vão entrar nessa nesse rumo. Esse rumo é um rumo para aquele grupo de pessoas que que t vocação intelectual, né? Aí essas pessoas é
que fazem o trilion todinho, depois vão pro quadrívium. Às vezes, nem sempre. Uhum. Eh, mas a maioria das pessoas elas ficam neste nível gramatical. O que acontece é que elas pegam este mesmo método e aplicam a vários outros conhecimentos. Então o que eu quero dizer é que rigorosamente a maioria das pessoas nunca sai deste nível e nunca passa para os que a gente chama dos outros dois. Algumas pessoas passam pro segundo, Menos ainda passam pro terceiro e assim por diante. É assim que acontece. Isso depende da vocação da pessoa, não é verdade? Então o que
você vai fazer quando você vê que o a criança tá indo muito bem nesta técnica, você ou vai você vai começar a direcioná-la para os conhecimentos ou que você acha que são necessários ou que ela mesma quer aprender. Daí daí nós temos o os currículos, né? Tem um monte de currículo pronto, cada um vai num sentido. Então, alguns, por exemplo, vão estudar pegar o currículo do Enem, não tem problema. A criança vai aprender tudo aquilo ali. Eh, se ela tem o o a a disciplina gramatical bem desenvolvida, você bota aquele livro na frente dela, ela
vai aprender, né? Eh, quase não vai fazer esforço. É isso, né? Então, eh, essa parte prática assim de variar os conhecimentos. Eh, bom, e quando que eu paro de de dar livro para ela? Nunca. Que livros eu dou? Depende depende das das inclinações dela, né? do temperamento dela, do que você acha que ela precisa aprender. No caso da nossa cultura, eh, existe uma uma questão muito grave que é a questão do ofício. Quer dizer, e a maioria das pessoas acredita, e talvez tenha razão, que a criança precisa fazer uma faculdade, então ela vai ter que
aprender aquele currículo para passar no vestibular, que ela de fato for fazer uma faculdade. Caso contrário, ela vai ter que arrumar um outro jeito de exercer um ofício. Daí, por exemplo, eu sei que o o Cléber Nunes, por exemplo, ensinou programação para os filhos, né? Isso daí dispensou os filhos dele de entrar na faculdade, Né? Então, quer dizer, então eu acredito, eu acredito em liberdade eh total nesse sentido e a liberdade só é regulada pelas inclinações da criança e pelas necessidades da vida. O que que é necessário aprender, né? Agora, na maioria dos casos, se
a gente pensasse assim, o que que é necessário um ser humano aprender essencialmente por si? Isso, as coisas que a gente tá falando aqui, o resto é com ele, depende dele, não depende dele. A gente não tem que impor, a gente não tem que chegar e falar: "Ó, todo ser humano tem que eh ler tantos livros de biologia, tantos livros, não, né? Irmão tem que aprender algumas coisas básicas, né? De resto, isso depende da inclinação. Eh, eu me pergunto, por exemplo, quantas pessoas efetivamente precisam aprender o que é uma função de segundo grau?" Eu não,
eu não acredito que isso faça realmente muita diferença na vida de uma pessoa, a não ser que ela trabalhe com isso. Ou química orgânica, se ela se interessar, vale a pena ela aprender. Caso contrário, também não parece que vai mudar a vida dela. Então eu acredito em vocação, eu acredito nisso. A partir do momento que a gente desenvolveu as faculdades intelectuais, a gente orienta o estudo da criança para vocação. Eu acho que é mais ou menos isso aí. A criança precisa aprender esses conhecimentos que são desenvolvimento dela agora, e as necessidades da vida. Bom, aí
você precisa aprender um ofício para desempenhar as suas funções na vida. Então, eh, por exemplo, eu não tô falando aqui como você aprender a ser pai. Isso é uma coisa que você vai ter que aprender com o seu pai. E se o seu pai não sabe ser pai, você vai ter que aprender com outra pessoa. E essas necessidades da vida, as responsabilidades da vida, tudo a gente Aprende eh separadamente, né, por outros meios. E o ofício, que é o que as pessoas mais pensam, que é o dinheiro, a surpresa necessidades materiais. Bom, eh, existem muitos
meios de você aprender um ofício, né? Você pode ir pra faculdade, conseguir um diploma, entrar no mercado de trabalho, mas você pode virar um autônomo ou empreender. Ou teu filho tiver vocação para empresário, pelo amor de Deus, não, não tenta botar ele na faculdade. Ele vai ganhar muito mais dinheiro fora da faculdade, muito mais. Então bota ele para ganhar dinheiro, vai valer mais para você e para ele. Então acho que é mais ou menos isso. Obrigado aí pela atenção. Boa noite para todo mundo.