[Música] bom hoje eu vou falar um pouco sobre o último dos copistas que é um romance do Marcílio França Castro publicado agora no início de 2024 pela Editora companhia das Letras inclusive esse exemplar que eu tenho aqui em mãos me foi enviado pela Editora em parceria e na verdade eu me referi a este livro agora como sendo um romance mas é muito complicado ã colocar um rótulo definitivo neste Último dos copistas tendo em vista que trata--se de um texto híbrido que Oscila entre o ensaístico e o romanesco para tratar de uma figura que por si
só também ocupa uma posição intervalar entre o fato e a ficção trata--se de um copista grego que viveu entre a Itália e a França no século X e que se tornou inclusive eh copista oficial do Rei Francisco io da França o nome desse copista era Ângelo vergé eh e aí como soia acontecer com essas figuras meio míticas a vida do tal vergé é cheia de lacunas e um dos interesses de uma das personagens aqui deste livro do Marcílio é justamente tentar preencher essas lacunas históricas sobretudo aquelas referentes a uma possível filha desse copista ocorre que
essa recuperação de uma figura do século X não serve para que o autor reflita ou não serve apenas para que o autor reflita sobre o passado mas também para que ele tente entender o que é que significa escrever no século XXI e o fato de partir de um personagem praticamente desconhecido é muito interessante para que a gente pense sobre esse mito segundo o qual nós estamos vivendo na época da informação então a gente pode acessar qualquer tipo de informação da mesma maneira isso e eu achei curiosa essa essa reflexão que eu fiz porque Procurar dados
sobre a vida do tal do Ângelo vergo não é lá uma das tarefas mais fáceis né pelo menos não em português e isso a despeito do fato de que esse copista foi uma das inspirações por exemplo para o Claude gar Ramon Ah que por sua vez deu origem ao estilo a fonte de letra gamon que a gente tem ou gamon né enfim que a gente tem até os nossos dias então por exemplo em meio a esse questionamento sobre como certas informações chegam ou não até nós o narrador ele se pergunta em dado momento se há
lugar para o acaso em uma realidade cada vez mais comandada pelos algoritmos E aí é que entra em cena um modo bastante Arrojado como o marsílio costura o factual e o ficcional uma vez que esse romance ele começa como um ensaio cujo autor que não necessariamente é o próprio Marcílio afirma ter conhecido a história do Ângelo vergo meio que por acaso enquanto navegava na internet o que nos induz a pensar ou pelo menos me induziu a pensar que seria relativamente fácil esbarrar com alguma coisa relacionada a esse copista ã pela internan afora o que não
é bem verdade né então quando eu vi esse ensaio que abre o romance eu pensei que seria muito fácil esbarrar com coisas sobre o Ângelo vergess na internet e na verdade eu tive bastante dificuldade de encontrar alguma coisa sobre ele em português né então é muito interessante perceber como essa essa provocação Inicial já coloca em cheque a maneira como nós lidamos com a informação hoje e isso tudo em um livro que fala sobre um copista e o copista tinha como uma de suas funções preservar determinadas informações conforme então menciona alguns dados biográficos e bibliográficos sobre
o vergo o autor desse ensaio que não por acaso tem o mesmo nome do do livro faz toda uma reflexão muito interessante sobre o próprio gênero ensaio A partir dessa noção de algo que não se resolve de algo que não se fecha de algo que abre cada vez mais portas que faz cada vez mais perguntas sem necessariamente se comprometer com respondê-las né E aí sobre isso entre as páginas 23 e 24 esse narrador diz o seguinte esse daqui foi um dos trechos que eu achei mais interessantes nesse nesse ensaio Inicial então é dito o seguinte
Isto é um ensaio e se é um ensaio é permitido provocar e recuar afirmar e desdizer e conjecturar a vontade se isto é um ensaio é permitido gaguejar pesar e repes tentar e corrigir incendiar e PSE em fuga é permitido imaginar e duvidar E isso se pode fazer de forma explícita ou camuflada como puro Exercício fabul atório reflexivo se isto é um ensaio é permitido não ter autoridade como não tem autoridade os apontamentos e os rabiscos em um caderno se isto é um ensaio cada frase é uma pergunta cada passagem cada cena é uma pergunta
cada peripécia ou argumento é uma pergunta sempre uma pergunta disfarçada e todo o ensaio é um manto de perguntas e seu único compromisso é com perguntar e retificar a pergunta de modo que não se conclua se isto é um ensaio não é como a construção de um andim uma armação garantida pelo cálculo e pela verticalidade com a função de sustentar quem aos poucos se eleva se isto é um ensaio é preciso lê-lo como quem entra em um jardim noturno tateando o vulto das flores e dos Bichos e sim cria ilusões precárias e sucessivas com o
único propósito de perder-se nelas ou testar o seu alcance ou de saltar de uma para outra ou a qualquer momento despencar de tal maneira que enfim flerte com a verdade naquele ponto em que sem prova o documento só a Alucinação é capaz de atingir o centro nervoso da descoberta eh me parece que essa ideia de algo Ah inacabado e de algo que não necessariamente está comprometido com uma verdade factual ã isso já dita o tom de todo o livro que por conta disso mesmo adquire esse caráter ensaístico por mais que aqui nós tenhamos anotações ensaio
cartas cartões postais etc etc etc esse espaço da dúvida do inacabamento é pertinente então para se pensar na própria noção do que é um copista e sobre como essa função foi sendo deslocada e ressignificada ao longo do tempo então por exemplo durante a idade média o copista ocupava um lugar interessante na medida em que por um lado era ele quem compila um determinado texto de modo a preservá-lo então um texto que não fosse copiado teria mais chances de se perder Teoricamente só que aí por outro lado a gente pensa aqui que o copista que ao
qual o título do livro se refere ã ele foi esquecido pelo tempo né então é muito interessante pensar nessa relação entre permanência e impermanência a partir dessa imagem do copista e por outro lado muitas vezes ainda na idade média o copista acrescentava ou modificava de algum modo O texto original ou seja o cista era também uma espécie de editor o que levanta toda uma discussão sobre a autoria de determinados textos Além disso eh muitas vezes essas modificações feitas essas edições feitas pelos copistas medievais tinham algum interesse teológico ou Eclesiástico posto que os copistas eram em
sua grande maioria monges e padres e isso por sua vez levanta uma segunda discussão dessa vez focada na ideia de originalidade O que é um texto original por outro lado hoje em dia o copista é aquele que não possui traços de autoria ou de originalidade já que via de regra pensando por exemplo no no âmbito escolar o copista é aquele que copia de modo automático né então por exemplo pensando no aluno copista eh o aluno copista é aquele que escreve mas não reflete sobre aquilo que escreveu que aliás é uma coisa de que todos os
professores hoje em dia reclamam né Veja essa mudança na noção do que é um copista do que é copiar é uma mudança muito interessante para que a gente Pense também no modo como nós lidamos com o conhecimento hoje afinal de contas entre os copistas medi ais e os alunos copistas de hoje em dia existe um tempo consideravelmente grande e no meio do caminho coisas como a indústria cultural entraram nessa equação quando a gente pensa não só em como determinados saberes ou discursos circulam mas também em como esses mesmos discursos e saberes são produzidos visando justamente
essa circulação E aí sobre isso convém lembrar que o dorno e o alheimer Ah eles têm um texto de 1944 chamado Justamente a indústria cultural o esclarecimento como mistificação das massas ã eu tenho esse texto aqui neste livro intitulado dialética do esclarecimento que é um livro meio incontornável em se tratando dessa dupla de autores né mas enfim nesse texto de 44 chamado a indústria cultural Ah o Adorno e o alheimer eles refletem sobre a interferência da aplicação de métodos industriais no campo da cultura e da arte em dado momento eles dizem que a indústria cultural
faz a faz da imitação algo absoluto na medida em que tudo passa a ser produzido em larga escala daí essa ideia do imitar né O que talvez nos ajude um pouco a entender esse novo sentido que o termo copista adquire em nossos dias adquire contemporaneamente mais ou menos nessa mesma direção proposta aqui pelo Adorno no no texto de 44 vai o famoso a obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica que é o ensaio que o Walter Benjamin escreveu entre 1935 e 1936 né que eu tenho aqui nessa edição das obras escolhidas do autor
chamada magia técnica arte política que é uma edição bem velhinha já diga-se de passagem Ah mas enfim nesse texto de de 35/36 o Walter Benjamin fala sobre como a arte foi aos poucos se submetendo à lógica do capital e assim ela foi aos poucos também perdendo a sua aura que nada mais é do que o valor simbólico que faz com que um determinado objeto artístico seja autêntico e singular seg segundo o autor a modernidade ela inaugurou um modo de reprodução mecânica e acelerada que faz com que a arte não seja mais do que uma mercadoria
a ser reproduzida e vendida várias vezes e aí em um outro texto dessa vez de 1936 que também é um texto muito famoso chamado o narrador considerações sobre a obra de Nicolai leskov o Walter Benjamin e esse texto também tá aqui nesse nesse volume né da obra escolhida do Walter Benjamin Mas enfim nesse outro ensaio de 36 o autor pensa em como a imprensa e o romance como gênero literário impossibilitaram a narrativa tradicional tendo em vista que esses dois elementos o romance e a imprensa não permitem o compartilhamento da experiência sendo que para o autor
a experiência é aquilo que liga o indivíduo a uma determinada tradição E aí veja bem eu fiz toda essa volta todo esse prolegômeno Porque a partir aqui de Último dos copistas o autor nos convida a refletir sobre como a imagem do copista dialoga ou não com determinadas tradições ainda mais em um contexto contemporâneo no qual termos como indústria cultural ou produti bilidade técnica já estão bastante assentados digamos e veja bem tanto no texto aqui do Adorno e do War Heimer quanto nesses ensaios do Walter Benjamin existe todo uma dicção ligada a uma ideia de finitude
a indústria cultural e a reprodução mecânica imposta pelo capital a arte são sinais do fim de um jeito trad ional de produzir e de consumir determinados objetos artísticos e essa ideia de finitude também está presente aqui no romance do Marcílio França Castro quando a gente pensa que o Ângelo vergo era um cista mais de 100 anos depois da invenção da prensa móvel pelo Gutemberg Ou seja quando o vergo era copista essa profissão já era o ultrapassada por isso o título ser o último dos copistas Então se o copista antes era um fantasma em termos platônicos
de algo que produz uma cópia depois do Gutemberg ã Esse aspecto fantasmático do copista Se Liga a uma ideia de algo ultrapassado de algo morto pois bem toda essa recuperação do vergo que acontece no ensaio Inicial desse romance serve como pretexto para que nos capítulos seguintes o autor narre o desenvolvimento da amizade entre um revisor e uma ilustradora que foram contratados por uma editora independente nos idos de 2019 Se não me engano e aí o que acontece é que existe uma equivalência entre aquele copista que no século X li dava com uma forma de arte
em declínio e esse revisor que no presente ocupa uma função que está cada vez mais ameaçada entre muitas aspas pela internet e por coisas como a inteligência artificial e aqui o autor faz uma defesa muito bonita dessa dessa profissão né do revisor ao dizer que revisar não se resume a aspectos gramaticais ã esse esse trecho diz o seguinte isso que eu vou ler está na na página 147 essa defesa né do do do revisor diz o seguinte se você pensar bem a internet veio derrubar muitos mitos em torno da língua deu uma sacudida nas regras
no purismo e Em certas ideias de correção trouxe esse monte de ferramentas de escrita e de tradução alguém pode achar que o revisor saiu perdendo que logo não haverá mais trabalho para ele que os programas de computador vão corrigir tudo sozinhos Talvez esteja surgindo um novo papel para nós um papel Redentor o de restaurar a dignidade das palavras remover o gesso que está sendo forjado para contê-las eu achei esse trecho particularmente muito bonito né pensando nessa defesa da profissão do revisor e se essa equivalência entre o copista do século X e o revisor do século
XX é verdadeira então o título do romance também poderia i a ser o último dos revisores e tanto em um caso quanto no outro tanto no caso do título real quanto nesse outro que eu acabei de inventar agora eh ambos os casos me fizeram lembrar de um outro título muito famoso que hoje em dia é até uma expressão né que é o Último dos Moicanos veja você não precisa ter lido lá o livro do século XIX nem ter assistido ao filme mas ainda assim você já deve ter escutado essa expressão em algum momento da sua
vida e você sabe que nós a usamos ao nos referirmos aquilo ou aquela pessoa que é valiosa que é raro né então O Último dos Moicanos é aquele que sobrevive é aquele que resiste a tudo e a todos nesse sentido pensando nessa recuperação me parece que tanto a a figura do revisor quanto a figura do copista acaba sendo valorizada né A partir dessa ideia de ser o último de sua categoria tudo isso acaba reforçando essa dicção meio Apocalíptica do romance e que também já esteve presente lá tanto nos ensaios do Walter Benjamin quanto no ensaio
lá do Adorno e do orimer e isso por sua vez quer dizer essa dicção Apocalíptica por sua vez me fez lembrar bastante de Dublin esca que é um romance do Henrique vilam matas publicado em 2010 sobre o qual já tem vídeo aqui no canal o link vai estar na descrição e esse é um Romance no qual vilam matas ã cria essa figura de um editor que tem que lidar com o Apocalipse com o fim da era de Gutemberg e aí como diz o Vila matas em dado momento aqui ou melhor dizendo como diz o narrador
em determinado momento aqui deste Dublin esca contemporaneamente o fim do mundo existe apenas como paródia o que de certa maneira nesce aqui também neste romance do Marcílio França Castro e aí é claro né pensando aqui nessa imagem do revisor como protagonista de um livro não tem como não lembrar deste outro romance aqui dessa vez o romance do Saramago que é o história do circulo de Lisboa de 1989 e que tem como protagonista também um revisor Se não me engano chamado Raimundo Silva né já tem vídeo para este livro também no canal o link vai estar
na descrição E aí a última coisa sobre a qual eu gostaria de falar aqui nesse vídeo é que assim como esse revisor fica obsecado pela história do copista a ilustradora de quem ele é amigo fica também obsecada pela história da filha ou da provável filha desse copista do século XV e essa filha de do do do copista é uma figura importante porque segundo diz ela fazia as ilustrações nos manuscritos copiados pelo pai E isso também estabelece uma relação de eh de de proximidade ou de correspondência entre essas duas figuras femininas a ilustradora do presente e
a ilustradora do século X movida por essa obsessão a ilustradora do presente parte em uma viagem à Europa para fazer os passos do copista do século X e assim quem sabe descobrir mais detalhes sobre a filha dele e durante essa viagem essa ilustradora envia ao narrador alguns cartões postais que não apenas contribuem para a fragmentação e para a polifonia aqui desse texto como também aparecem reproduzidos ao longo do livro de modo que esses cartões postais ilustram o romance desempenhando o papel dessa personagem que os envia para o correio e pelo correio e que é portanto
ilustradora né então assim como essa personagem ilustra os livros Nos quais ela trabalha ela de certa maneira é responsável por trazer essas ilustrações aqui para o corpo do texto não sei se vai d para vocês verem aí mas ao longo do livro Existem várias só porque eu quero agora não vai aparecer nenhuma ao longo do livro Existem várias fotografias que supostamente foram retiradas desses desses cartões postais Enfim então de certa maneira existe algo de metalinguístico nessa personagem ilustradora que ilustra o livro que nós estamos lendo né e do qual ela faz parte eu achei muito
interessante esse jogo aqui por tudo isso fica a minha forte recomendação de leitura deste O Último dos copistas eu fiquei pensando em várias coisas conforme eu fui lendo este livro e principalmente eu indico aqui este este texto pras pessoas que gostam sei lá do Vila matas que gostam do Borges quer dizer que gostam desses textos que T algo de ensaístico certo enfim eu vou deixar na descrição certinho os links para esses vídeos que eu fui citando deixarei também ah as referências para esses textos e por fim constará na descrição também o link para o meu
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