Hoje eu vou falar de amor, da delícia que é pra você, mulher, descobrir que o seu marido sabe pintar as unhas melhor do que você. E não, eu não tô sendo irônico, embora isso pode ser legal e pode se tornar uma tragédia. Eu vou contar pra vocês hoje é da tragédia.
Mas não se enganem, porque ainda assim é uma história bastante divertida, cujo nome é Degenerado. ♪ Deixa eu apresentar pra vocês os personagens. Paul é um homem galanteador, um jovem que está descobrindo o amor.
Ele fala pros seus amigos, o segredo pra chegar nas gatas é um olhar bastante sedutor. ♪ Guardem este detalhe, performance é fundamental. Já as moçoilas ali reunidas estão dando as dicas de como atrair um macho.
E antes que você diga, balançando a raba, gente, estamos no início do século XX. De modo que os meios eram outros, ainda que os fins fossem os mesmos. De modo que aqui a nossa protagonista, Louise, aprende com as suas amigas que o importante é se mexer sem parar.
Mexa o cabelo, coloque a mão no joelho, ajuste a saia o tempo todo, banque a presa pra instigar o instinto de caçador do macho, que tá ali na verdade também fazendo teatrinho. Por fim, para atrair o homem, execute o golpe fatal. Mostre o seu belo pescoço pro vampirão chegar ali e dar uma sugada.
É uma dica meio esquisita, mas dá certo. E é assim que Louise e Paul se conhecem. Ah o amor, mas logo vai dar ruim, porque vai começar a primeira guerra mundial.
Gente, esse é só um comecinho de uma história que, de fato, aconteceu. Degenerado é um quadrinho de Chloé Cruchaudet, e saiu originalmente em 2013, trazendo para os quadrinhos uma versão romanceada de um caso histórico, contado no livro La garçonne et l'assassin. Ou para traduzir aqui de uma maneira direta, a Melindrosa ou a Maria Rapaz e o Assassino.
Esse livro foi escrito por Fabrice Virgili e Danièle Voldman, que saiu originalmente em 2010. Esse documento histórico é interessante, primeiro porque, na verdade, se sabe pouco sobre os personagens aqui. Já adianto, eles entraram para a história muito em função de um julgamento, afinal algo terrível aconteceu com esse casal, e mais para o final do vídeo eu vou explicar o que foi.
Mas já adianto, tem a ver com o fato de que Paul se tornou Suzanne, e de um jeito estranho surgiu um triângulo amoroso, entre duas pessoas e três performances distintas. Daí que o esforço do quadrinho aqui é tornar esses personagens interessantes para nós e conseguir trazer mais ou menos as mesmas reflexões que o livro se propõe. Ainda que tome várias liberdades, por exemplo, a gente aqui no quadrinho não vai ter a história do filho do casal, que morreu novinho, com dois anos, inclusive em circunstâncias questionáveis, também vou falar um pouco mais disso lá pra frente do vídeo.
O que interessa agora é a gente acompanhar essa narrativa, mas mais do que isso, acompanhar como essa narrativa está sendo construída. Porque afinal de contas, a história de um homem que se veste mulher, primeiro por necessidade e depois por prazer, é, antes de tudo, uma história também sobre reconfiguração da própria performance na sociedade. Como agir, como performar.
Pô, eu sou um machão, eu tenho que me vestir sempre como um machão, certo? E talvez não, talvez eu não me considere mais o machão que eu acho que eu era. Enfim, por todas essas questões, a própria performance, a própria construção do quadrinho também é fundamental.
Isso é uma parada que eu já comentei aqui. Muitas vezes a gente encara a narrativa como se fosse uma coisa presa a um enredo. Sendo que, às vezes, para uma narrativa funcionar, ela depende muito, absurdamente, de performance, de coreografia, de tudo aquilo que não está da ordem do enredo, mas da gestualidade, da teatralidade, da composição de cena e, no caso dos quadrinhos, da composição gráfica.
Em resumo, toda história veste uma roupa para poder se contar. E é isso que eu vou contar aqui pra vocês, como que Paul acaba construindo uma história sobre si mesmo a partir do momento em que ele precisa se vestir como mulher. A partir deste instante específico onde Paul se torna Suzanne.
Mas não vou parar por aqui, vou comentar por que que isso acaba em tragédia. Vou falar também do contexto histórico da época, que é muito rico. A gente consegue, por meio da história desse casal, entender o que foi a França pré, durante e pós Primeira Guerra Mundial.
Também é muito bom pra gente pensar o que foram os loucos anos 20. E sim, você provavelmente não é tão velho, você teria que ter mais de 100 anos pra ter vivido essa época. Porém, eu que vim de uma máquina do tempo adianto pra você, foi um período muito, muito doido.
Sobretudo na França. Já até dou um spoiler, você poderia estar passando pela praça, sabe a principal praça que tem na sua cidade? Você podia estar passando por lá à noite, de repente, e tá tendo um bando de gente nua se querendo, e você já nem entende mais o que acopla com o que.
É uma espécie de Lego Free, sabe? Qualquer peça tá juntando na outra. Imagina então, que época divertida, que época deliciosa, você podia acoplar qualquer coisa.
Mas claro, eu tô brincando aqui, a coisa não é assim tão romântica. Então todos os detalhes, desde os mais lindos, bonitos, delicados e poéticos, até os mais pesados, adultos, sórdidos e trágicos, eu vou trazer aqui pra vocês, despertando aí o seu prazer em True Crime, e ao mesmo tempo aproveitar as deliciosas dicas de Paul sobre como andar de maneira elegante, sacudindo o bumbum. Porém, antes de continuar essa história de muitas reviravoltas, eu peço que você curta o vídeo se estiver curtindo, se inscreva caso seja novo por aqui e compartilhe.
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Mas vamos pra história. O início do romance entre Paul e Louise acontece no início dos anos 1910, o finalzinho daquilo que se chama de Belle Époque, período esse que vai de 1870 até o início da Primeira Guerra Mundial. A Belle Époque é atribuída com momentos de paz e muita prosperidade na Europa, sobretudo ali na França.
Cabe lembrar, né? Em 1789 teve a Revolução Francesa, ela foi fruto já de tensões crescentes dentro da França e que, por sua vez, gerou também muito tumulto político por quase um século. De modo que depois, quando a coisa dá uma acalmada, quando a política para de encher o saco, a gente vê a sociedade se dedicando a coisas mais mundanas, coisas mais prazerosas.
E não é por acaso que são em momentos assim que costumes, movimentos artísticos e inovações tecnológicas, tudo isso dá um boom, o prazer por viver acaba permitindo que a gente encontre coisas prazerosas. E antes que alguém diga assim: pô, mas é em guerra que a tecnologia sempre avança pra caramba. Porém, é em tempos de paz que essa tecnologia se torna acessível pra nós e, mais do que isso, a gente também começa a inventar uma série de coisas que são muito inúteis pra qualquer batalha, mas que são uma delícia pra rotina da gente.
Coisa boa, poder chegar em casa e ver uma seriezinha, tomando um frappuccino feito numa máquina que faz um barulhinho gostoso quando liga, e com um robozinho que vai juntando a poeira embaixo do seu pé. Ô maravilha, esse é o paraíso das máquinas. Se bem que agora o que tá acontecendo é que todo mundo tá perdendo emprego por causa de IA.
Ok. . .
Enfim, tô perdendo foco. O ponto é que Paul e Louise cresceram nesse mundo e essa geração pouco ou quase nada sabia sobre guerra. Parece muito com os tempos de hoje, meu Deus, como tá difícil manter o foco nesse vídeo.
Esse contexto todo aqui que eu tô dando, ele é importante porque tem uma parada aí que até foi relatada por diferentes historiadores. Quando a França entra na Primeira Guerra Mundial e começa em 1914, ela entra com um otimismo, com uma certeza de que vai se resolver tudo muito rápido. Não esqueçam, um dos mitos construídos sobre a Primeira Guerra Mundial é o papo de que ela era a guerra para acabar com todas as guerras.
Sim, a última, no tanto que depois foi chamada de Primeira Guerra Mundial. Não foi a última, foi a primeira. Então uma imagem comum eram as tropas indo pra guerra e todo mundo com uma cara de nossa, que aventura gostosa.
Os pais felizes de ver seus filhos heróicos indo pra vencer o inimigo. As mulheres entregando flores, as crianças com brilho nos olhos, ai, quando eu crescer eu quero ser assim. Inclusive não é por acaso aqui nesse quadrinho que o único que fala vocês vão se ferrar é um cara mais velho.
E bom, eu não sei se isso é um spoiler, porque afinal isso é um conhecimento básico de história, mas a Primeira Guerra Mundial foi um horror, sobretudo nas trincheiras. Um lugar completamente insalubre, onde as pessoas ficavam meses, às vezes até em alguns casos anos, convivendo com restos, inclusive de pessoas, num eterno jogo de caça e rato com o adversário. Inclusive até o quadrinho brinca com esse contraste.
Os soldados saíram como heróis ovacionados pelo povo e quando voltaram era uma imagem de profundo horror. Pessoas sequeladas de todos os tipos, sem pedaços do rosto, sem pedaços do corpo, isso pra não falar de uma série de problemas de ordem psicológica. É nesse contexto que Paul e Louise se conhecem, se casam, bastante jovens.
Paul vai prestar o serviço militar obrigatório e vai ser quando ele estiver justamente lá que a Primeira Guerra Mundial vai começar. Paul acaba indo pra guerra, muito confiante, muito certeiro de que um pouco tempo depois está de volta, só que daí ele toma um choque de realidade. Inclusive é bastante interessante a maneira como o quadrinho mostra isso.
Lá estão os soldados, triunfantes, felizes. Vira a página e você tem um painel inteiro dessa Europa devastada. A mesma trincheira, cheia de umidade, com seu pé embaixo d'água, os soldados ali comem e fazem cocô.
O pouco que eles têm, eles retiram dos cadáveres, que estão também muito próximo deles. Às vezes esses cadáveres são até mesmo um obstáculo perante o inimigo. Então tudo que você tá ali no meio é profundamente cheio de fezes, necrochorume, ratos.
Paul nesse contexto se depara com um amigo que tá enlouquecendo. Ele simplesmente só diz: mãe, mãe, mãe, eu quero a minha mãe. Paul então dá um discurso motivacional, triunfalista, vamos lutar pela nação, sejam patriota.
Só que isso dá merda. O que acontece é que o amigo, então, sai correndo em direção ao campo de batalha. O supervisor, então, culpa Paul por esse discurso completamente equivocado e manda ele também sair e se expor pra resgatar o colega.
Só pra esclarecer um pouco mais como é esse contexto de enfrentamento ali, típico da primeira guerra mundial. As nações inimigas, cada uma ficava numa trincheira oposta, uma lutando com a outra. E havia essa porção de terra entre as duas trincheiras.
O nome dado a esse espaço era No Man's Land, ou Terra de Ninguém. E essa lógica de trincheira existia porque se você conseguisse avançar e tomar a trincheira do inimigo, você fazia ele ter que recuar um pouco mais, provavelmente pra uma outra trincheira que já estava logo atrás. Então percebam como que esse território comum ali, ou esse território em disputa, era um lugar que só era gente morta, destruição, assim, é uma imagem do inferno.
E é nesse lugar que o Paul precisa correr pra salvar o seu amigo. Os dois acabam conseguindo pular pra dentro de um buraco que foi cavado por uma das bombas, porém o Paul se prende num arame farpado, o amigo tenta ajudar ele, e daí, de uma hora pra outra, esse amigo perdeu a cabeça. E agora não é mais no sentido figurado, é literal.
Paul então fica preso naquele buraco, que não tem ligação nenhuma com a trincheira, ou seja, ali onde ele tá, ele não tem nem como sair. E tudo isso diante do amigo ali, que agora tá sem a parte da cabeça. Paul então começa a delirar, a entrar numa noia muito braba, e percebe o óbvio, eu vim aqui apenas pra morrer.
Daí que ele vai fazer algo que também tem muitas evidências históricas de que vários soldados fizeram, que é se mutilar. No caso de Paul, o que ele faz? Ele corta fora o dedo indicador da sua mão direita.
Sem o dedo indicador, ele não consegue apertar o gatilho de arma nenhuma. Ele então, por um golpe de sorte, consegue sair daquele buraco onde ele tava, volta pra trincheira e vai parar na enfermaria, como possibilidade dispensa, porque agora ele não é mais útil no fronte. Gente, muitos fizeram isso.
Inclusive ali no quadrinho é mostrado um tráfico de pus, ou seja, todos os soldados que estão ali ficavam um infeccionando a ferida do outro, pra que eles não melhorassem e fossem mandados de volta pro fronte de batalha. Então os médicos e as enfermeiras te atendiam durante o dia, e durante a noite todo mundo adoecia junto. Eu cedendo de volta pra você a minha doença, pra que nós dois possamos nos salvar.
Isso dá certo no primeiro momento pra Paul, ele consegue reencontrar Louise, mas vocês lembram daquele comandante sacano, o supervisor do Paul, que mandou ele lá pra terra de ninguém? Pois bem, o cara sacou que o Paul ali tava na malandragem e disse que você vai pra guerra de qualquer jeito. Mesmo sem dedo indicador, você vai voltar pra guerra.
E é nessa que o Paul, numa bela noite, resolve fugir. É a partir daí que ele se torna um desertor. E a pena pra desertão em tempos de guerra você sabe.
É morte. Louise era uma costureira, trabalhava numa fábrica, então com o pouquinho que ela ganhava, ela conseguiu alugar um quartinho de hotel, uma espeluncazinha, que inclusive era bastante estratégica, porque a janela se deparava com uma parede, pra quem tá se escondendo até bom uma janela que dê vista pra uma parede. Apenas a mãe do Paul, a sogra da Louise e a própria Louise sabiam que ele tava lá.
Só que conforme foi mostrado ao longo do quadrinho, o Paul era um cara muito extrovertido. Ele gostava de dançar, de estar entre os amigos, de encher a cara, de contar história, e agora ele precisava passar o dia todo trancado num quartinho de hotel, porque ele havia fugido de uma guerra, que não tinha data pra acabar, e vai saber se algum dia na vida ele seria perdoado pela sua deserção. Com isso ele acaba se tornando alcoólatra.
A Louise vendo que ele tá perdendo a noção resolve não dar mais pra ele vinho nenhum, e daí um dia ele, furioso, resolve pegar a roupa da esposa, sai à noite na rua e, finalmente, liberdade. Foi preciso eu me vestir de mulher pra ir comprar um vinho e descobrir o quanto que é gostoso estar aqui fora. Isso acaba soando uma boa ideia para o casal, porém, Paul saiu à noite, vale aquele ditado, à noite todo gato é pardo.
Ele simplesmente vestido de mulher durante o dia não convenceria que era uma mulher. Daí que o casal pensou, cara, a gente vai precisar aqui radicalizar no disfarce. Louise então consegue pro Paul uma inovação da época, uma máquina de depilação, capaz de queimar a raiz do fiapinho da barba e, com isso, deixar o rosto de Paul super lisinho.
Porém, para além disso, tem outro detalhe, Paul é um homem meio bronco, falta nele uma certa leveza, uma certa graciosidade de uma típica mulher da época. E é aqui que começam a entrar comentários muito interessantes sobre aquilo que autores chamam de performatividade. Esse termo surge principalmente a partir de Judith Butler.
O que é performatividade? É o entendimento que o gênero masculino e feminino, eles são pautados por uma grande performance, por uma construção cultural e social. Veja, isso não tem nada a ver com sexo biológico e tal.
O que eu tô tentando aqui explicar pra vocês é que aquilo que a gente entende como um comportamento típico de homem ou mulher, é um negócio que é construído a cada tempo por cada povo. Não é uma coisa cristalizada, sacou? Pode pegar até a nossa própria cultura.
Coisas que eram consideradas de homem ou mulher há 50 anos atrás já mudou bastante. E eu nem tô entrando em assuntos polêmicos, às vezes eu tô falando de cor. Por exemplo, hoje é associado a homem o azul e a mulher o rosa.
Só que antigamente meninos usavam rosa. Então notem, esse negócio é mega arbitrário. Outro exemplo que até sempre uso em sala de aula.
Do lado ocidental, sempre se dizia que mulher, ela tem um prazer que não é visual. Ou seja, mulher gosta de fazer amor no escurinho. Só que aí tu olha pro Japão e as minas lá adoram boys love.
Adoram ler um mangazinho de homens se pegando. E não por acaso, esses comportamentos mudam, até mesmo por causa do intercâmbio cultural. Hoje, se você disser pra uma mulher que você a entende porque ela gosta de fazer amor no escurinho, você tem uma chance imensa de acabar não tendo nada com ela, não.
Mas voltando aqui pro quadrinho. É muito bacana aqui a personagem da Louise explicando pro Paul como é que uma mulher performa. Como ela mesma diz.
Uma mulher deve ser discreta, contida, manusear os objetos como se eles fossem frágeis. Se mover devagar como se estivesse dentro d'água. Agir como se estivesse sempre com frio.
Paul acha isso tudo muito difícil, inclusive fala: Pô, vou virar boiola agora? Daí que a ideia da Louise é dar pra ele uma bolsinha. E ela explica, olha, com essa bolsinha não tem como você ser bronco.
Você vai aprender a ser delicado na marra. É nessa pegada então que Paul e Louise decidem o seu novo nome. Será Suzanne.
E agora Suzanne vai tentar um emprego. Começando a trabalhar na mesma fábrica de Louise. E é nesse ponto aqui que os problemas vão começar.
Eu vou encurtar aqui uma série de eventos, ok? Mas o lance é que Paul, ou melhor agora, Suzanne, é muito, mas muito popular. Mais popular do que a Louise, que na verdade nunca foi uma mulher que se destacasse muito entre as próprias amigas.
Suzanne então se torna uma mulher que todas as mulheres querem ser. E isso vai perturbando o Louise, que fica naquela assim do tipo: pô, mas nem mulher ela é, sou eu que sei a verdade e eu não posso contar. E por mais que agora Paul se sinta cada vez mais à vontade sendo Suzanne, ele ainda não abandona velhos hábitos masculinos.
No caso, espancar a própria esposa. Então eventualmente, nesses conflitos, ele vai bater na Louise. O que vai fazer crescer um ressentimento muito grande nela.
Poxa, eu te ajudei, eu te salvei, eu te sustentei e você só se encontrou como Suzanne graças a mim. Mesmo com o fim da guerra, Paul precisou continuar sendo Suzanne, porque afinal de contas desertores ainda estavam sendo procurados. E é nesse ponto que começam os loucos anos 20.
Suzanne acaba se tornando uma melindrosa. Ou pra pegar um termo do próprio francês, uma garçonne. Deixa eu explicar isso direitinho.
O termo pra menino em francês é garçon. Sim, o mesmo do bar. Ô garçon!
- Garçon, coffee! Daí que jogar essa palavra pro feminino, o mais próximo que a gente tem em português seria de Maria Rapaz. Ou seja, é uma figura feminina que se comporta de maneira mais masculina.
Só que quando eu tô falando aqui se comportar de maneira masculina não tem a ver com ser uma figura bronca ou coisa assim. Por isso que eu repito de novo, essas noções de performatividade têm um sentido diferente em cada época. No contexto dos anos 20, ser uma melindrosa significa ser uma mulher que não nega os seus prazeres, que gosta de se sentir bem, que gosta de se divertir e que gosta também de fazer sexo.
As melindrosas, então, basicamente eram mulheres jovens que usavam saias curtas, embora pro padrão de hoje até que são saias um tanto longas. Elas também tinham cabelo curtinho, que depois ficou muito associado ao corte chanel, e pararam de usar espartilho, que também foi um evento importante. Pesava também a cena musical, a dança, jazz, charleston, eram ritmos que também embalavam esse corpo mais à vontade.
Isso pra não falar de outras liberdades, como beber, fumar, dirigir, se maquiar bastante sem precisar parecer uma moça arrecatada do lar e, claro, transar casualmente. Não precisa ser mais com aquele cara que eu vou casar. E Suzanne acaba se tornando uma típica melindrosa, uma mulher moderninha dos anos 1920, uma década que cabe dizer que foi extremamente importante em vários aspectos, é a década das principais vanguardas artísticas, e isso tava explodindo na França.
Cubismo, Dadaísmo, Surrealismo, artes e formas de ser que exploravam muito a liberdade, a quebra das regras, o absurdo da própria vida. É nesse contexto, então, quase que surrealista, que um dia Suzanne passando pelo Bosque de Bolonha ou Bois de Boulogne, que eu estou pronunciando provavelmente muito errado, mas é. .
. Enfim, vai ser passeando um dia nesta praça, que daí Suzanne vai se deparar com uma galera se divertindo. Gente adulta, pobres, ricos, que topam se reunir na praça à noite pra curtir do bem bom.
E o fato de Suzanne se despirlar e mostrar que tem uma respeitável criação de jiboia faz com que ela se torne ainda mais popular. Cabe aqui comentar. Paul, em momento algum, se reconhece como uma mulher, porém, ao mesmo tempo, ele se sente bem, ele se sente à vontade consigo mesmo quando ele é Suzanne.
Um episódio que vai ser significativo pra ele próprio ter esse entendimento, ou talvez melhor aqui falando agora, ela própria, vai ser quando finalmente rolar a anistia dos desertores. Diante dessa informação, Paul põe a Suzanne de volta no armário. Ele não precisa mais se disfarçar, ele agora pode ser o machão que ele sempre foi.
Só que o que ele descobre é que ele tá muito infeliz. A relação dele com a Louise não tá boa. Ele inclusive um dia de madrugada, num ato falho, pinta as próprias unhas.
E mesmo que agora ele não aceite mais se vestir como Suzanne, ele ainda usa uma blusa, muito chique, que só mulheres costumam usar. O alcoolismo de Paul piora, a relação dele com a Louise, que já era problemática, ficou ainda pior. E nesse sentido, é até interessante notar, eles tinham momentos bons e momentos muito muito ruins.
Paul, ainda como Suzanne, levou também a Louise no bosque de Bolonha, convidou ela pra participar das brincadeirinhas. Então havia por parte dele/dela, o interesse de trazer Louise pro próprio mundo. Até porque rolava uma cumplicidade.
Paul, enquanto Suzanne, também teve que sofrer assédio na mão de patrão, coisa que deixava ele/ela, bastante incomodado. Porém, ao mesmo tempo, Louise começou a virar uma espécie de rival, de mulher que quer ser mais bonita do que eu, mas eu sou linda, pô. E cabe destacar, essa rivalidade é uma expressão muito típica do machismo, de homem não suportar que a mulher se destaque mais do que ele.
Tipo, até hoje tem cara que acha um absurdo a mulher ser mais alta. Meu Deus, a minha masculinidade está em xeque, a mulher tem 3 centímetros e precisa mais do que eu. Não põe a salto, mulher!
Porque daí vão virar. . .
Quantos centímetros são? Deixa eu fazer as contas. .
. Não! Enfim, por causa disso tudo, Paul acaba caindo na bebida, ele tem muita saudade da Suzanne, mas ele não se aceita enquanto Suzanne.
Ele um dia, completamente alcoolizado, espanca a Louise, chega até a apontar uma arma na cara dela, mas ele se acalma, vai dormir e Louise, ferida, exausta por isso tudo, aponta a arma em direção a Paul e acaba com a vida, tanto dele quanto da Suzanne. Essa história toda a gente acompanha como julgamento, porque do evento histórico que a gente tem, é de fato o julgamento, além de diários escritos pelos dois. O quadrinho, como eu falei pra vocês, ele tá muito interessado em explorar essa questão da performatividade, não por acaso ele abre com o juiz colocando a sua toga.
Até que ponto esse prazer de se revestir de uma autoridade é o mesmo prazer que o Paul encontrava se tornando Suzanne. E isso vai de encontro a um outro pensador aqui chamado Severo Sarduy, que eu gosto bastante porque ele desloca essa discussão sobre, ah, será que o Paul ao ser Suzane é uma mulher de verdade ou não? Ah, mas ele não pode ser mulher de verdade, porque biologicamente isso, isso e aquilo.
Ah, mas não tem nada a ver, porque o feminino é uma questão de performatividade. O Severo Sarduy, pra não cair nessa trincheira do verdadeiro e falso, evoca o próprio conceito de simulacro, que muitas vezes é visto como algo pejorativo, mas não a partir dele e de outros pensadores. Simulacro, antes de tudo, é uma potência em imagem que não tem compromisso com o verdadeiro.
Veja, não é uma falsidade, é uma invenção. E isso é uma expressão muito boa sobre drag queens. Isso, inclusive, você escuta das próprias drag queens.
O objetivo não é se, muitas aspas aqui, fantasiar de mulher, mas de inventar, de criar, inclusive muitas vezes levando ao exagero, tudo aquilo que é condicionado ao universo do feminino. Por isso que é um simulacro, é uma potência criativa dentro de imagens de feminilidade. Imagens essas que também são performáticas.
Daí que histórias como Degenerado são interessantes, porque você consegue evidenciar essa questão performática associada ao que uma mulher deveria ser, quando o homem também busca ser ao encontro do feminino. Vocês entenderam como essa questão é complicada? E aqui cabe uma ressalva, essa noção de simulacro serve muito bem pra pensar drags e até em certa dose travestis, porém pessoas trans já é outra questão, é bem diferente.
Ainda que em todos os casos a performatividade, o teatrinho da vida, acabe sendo fundamental. Nenhum de nós escapa disso, sacou? Nenhum de nós.
Seja você hétero ou gay, seja você uma pessoa cis, uma pessoa trans, seja você uma bonequinha de luxo ou um Jiraya assassino, tudo isso se aplica a nós. Perceba então como Degenerado é uma obra bastante rica, e que consegue dramatizar bem um evento histórico. E agora pra falar um pouco do que aconteceu de fato, a resposta é pouco se sabe.
Um dos detalhes mais sombrios tem a ver com o fato de que no mundo real, eles tiveram um filho, que morreu com dois anos e pouquinho, e ele morreu mais ou menos na mesma época que o Paul morreu. Tudo isso ficou meio estranho. Porém uma coisa comum, tanto no evento real quanto no quadrinho, é que Louise em grande parte acabou sendo inocentada.
Muito se entendeu que ela sofria na mão de Paul, que era um grande Degenerado. Pô, ela era espancada por um marido que se vestia de mulher, viadinho, além de desertor boiola. E de fato, Paul era bissexual, parecia preferir relações heterossexuais, mas também não se importava quando experimentava coisas com outros rapazes, seja na ativa, seja na passiva.
Então tudo isso foi construído pra que Paul fosse visto como um grande vilão. E o que eu acho bacana no quadrinho é que eles não inverteram essa equação. Ah, vamos transformar a Louise na vilã.
Não, ela também era uma mulher que estava sofrendo muito. Ou seja, as coisas sempre são mais complicadas. E essa é a palavra final.
Pare de emitir o seu julgamento idiota diante da vida das pessoas que sempre são muito complexas. Opinião demais é um negócio mais fresco do que o vestido cheio de firula e bobagem que você possa imaginar. Cabe sempre reafirmar, somos todos atores e atrizes nesse teatrinho que é a vida.
Degenerado se é no Brasil, você encontra em livrarias, mas se for pela Amazon, usa o nosso link aqui que ajuda muito. E sugiram outras obras que discutam masculinidade, feminilidade, performance, questões LGBTQIA+, enfim, sugiram o que vocês quiserem aí. E fica a sugestão pra que você veja o nosso vídeo sobre Lady Snowblood, uma mulher criada pra ser delicada, mas que na verdade era mais porradeira que todos os homens da sua época.
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