Eu me chamo Lívia mas na boca do tia Arnaldo desde muito tempo era sempre a dos olhos de jabuticaba pretos redondos doces demais para uma Face que já sabia o gosto do sal das Lágrimas tenho 23 Primaveras colhidas no Vale onde moramos onde as casas são feitas mais de memórias que de madeira para detalhar as minhas curvas Ah uma herança da mami quadris largos como cuias de cabaça dois melões amarelos de polpa firme pesados de histórias não contadas os botões no alto deles que aprendia a chamar de gotas de orvalho numa tarde de poesia roubada
eram rosados e inquietos que até eu admirava no espelho Arnaldo já tinha a casa dos seus 48 era um homem feito de nós cegos e madeira Nobre Carpinteiro de mãos sábias consertava tudo cadeiras quebradas relógios parados até o coração da Dona Marta quando o marido a deixou mas seu próprio quebr guardado numa caixa de ferramentas enferrujada sob a cama ninguém ousava tocar viúvo há uma década ele falava consigo mesmo através de parafusos apertados demais e xícaras de café esfriando no parapeito naquele dia o velho televisor da vovó daqueles de tubão Que engolia canais de TV
aberta Voltara a ficar em preto e branco eu o observei ajoelhado no chão da sala as costas curvadas so a camisa xadrez que for Azul outrora agora desbotada como seu sorriso seus dedos acostumados a dialogar com a madeira tremiam diante dos fios expostos deixa eu ajudar ofereci mas ele apenas resmungou testa franzida em sucos que lembravam os do rio na seca não insisti em vez disso busquei o pano de prato pendurado na cozinha aquele que ele mesmo teera para a mãe num dia distante e comecei a esfregar a mesa de Jacarandá meu os movimentos eram
coreografias antigas curvar-se para apanhar migalhas esticar o braço até o Alto da estante deixar que o vestido subisse um centímetro a mais na coxa Arnaldo não olhava mas eu via o ritmo de sua respiração mudar quando me aproximava foi ao me abaixar para pegar um parafuso caído que os melões amarelos roçaram suas costas ele riu Como se eu tivesse desculpa eu disse sorriso de angelical que aprendi no espelho o cabo tá solto aqui minha mão envolveu a dele guiando o ferro de solda até um ponto Qualquer do circuito seus dedos eram ásperos marcados por lascas
de vida inteira mais quentes tão quentes que pensei que poderiam derreter o estanho e meu disfarce lembra quando me ensinou a consertar a cerca do galinheiro sussurrei o hálito tocando sua orelha avermelhada disse que coisa triste precisa de calor para voltar a funcionar Ele engoliu quase travando no seco eu ouvi o movimento do gogô de longe contornei a nuca com os dedos Livres traçando a cicatriz que ele ganhara em seus trabalhos por aí um rio seco em sua pele Lívia tentou voz de cigarra em dia de Ventania calma tô só ajustando a sintonia girei devagar
até que suas costas repousasse contra bom os melões amarelos achat avamse moldando-se a ele como massa de pão fresco os gotas de orvalho endureceram riscando a camisa dele parecendo um código de chave na tela o casal da novela agora se beijava em silhueta sombras dançando guiei suas mãos para o interior do televisor dedos sobre dedos ensinando-o a linguagem que eu mesma inventara ni eletrotécnica das noites Aqui é onde guarda os segredos pressionei um capacitor fazendo uma Faísca saltar e aqui toquei um resistor o lugar que dói quando chove Arnaldo respirou fundo seu cheiro era de
óleo de peroba e mágoa fermentada quando a imagem Clareou de vez revelando um campo de girassóis na tela ele virou o rosto os narizes quase se tocaram pronto anunciou voz rouca de quem descobrira um novo Ofício tá funcionando mas não se afastou seus olhos café frio há tantos anos brilhavam com umidade estranha minha mão procurando o negócio a ferramenta onde o coração martelava contra as costelas como um pássaro preso sempre aguardei por viver esse ensinamento comecei mas ele interrompeu com um dedo em meus lábios chama de Arnaldo corrigi suave só hoje gems R táb vse
peso que não fora dito nainha relógio de pêndulo el trer daade bate sete badal for oav mantra folas de Jatobá e dentro entre o cheiro de solda e jasm ele havia entendido o que eu tanto precisava sem filtros desci ele em pé sorrindo tirei o que estava lá pegando teia de aranha sem usar e comecei a movimentar rápido eu era a profissional do momento enquanto observava para ele uma leve piscada mordisquei e disse hoje você vai aprender de verdade o que eu sei fazer de melhor guiei tudo com minhas mãos ajustei o ponto certo como
quem sabe o cálculo exato ele sorriu ouvindo tudo o que eu dizia sem recuar apoio-me em cima do rck porque pelo tamanho dava para usá-lo enquanto o melão encostava quando mami chegou de madrugada encontrou o televisor desligado e o sofá levemente desarrumado Arnaldo estava em sua oficina martelando um pedaço de Cedro com força Renovada eu na varanda observava as estrelas que ele me ensinara a nomear e pela primeira vez a constelação de Orion parecia sorrir o café tá pronto Lívia ele perguntou da janela voz agora atingida de de algo que não era só ternura Tá
sim Arnaldo respondi e o nome novo que eu havia dado para ele era segredo dali pra frente naquela noite enquanto o vale dormia dois relógios esquecidos em prateleiras empoeiradas voltaram a tiquetaquear inscreve aí viu vou ficar esperando beijos da rainha e até o próximo l