Vidas Secas romance de Graciliano Ramos diretor de dublagem Gustavo Lisboa Capítulo 6 o menino mais velho Deus se aquilo Porque sim a Vitória não conversou um instante com um menino mais velho ele nunca tinha ouvido falar e me inferno estranhando a linguagem de sim aterta pediu informações tinha Vitória distraída aludiu vagamente a certo lugar ruim demais e como o filho exigisse uma descrição encolheu os ombros O menino foi à sala interrogar o pai encontrou o sentado no chão com as pernas abertas desenrolando um meio de sola bota o pé aqui a ordem se cumpriu e
Fabiano tomou medida da alpercata deu um traço com a ponta da faca atrás do calcanhar outro adiante do Dedo grande skol em seguida a forma do Calçado e bateu Palmas a renda o pequeno afastou-se um pouco mas ficou por ali rondando e timidamente arriscou a pergunta não obteve resposta de cozinha foi pendurar-se a saia da mãe como é sim a Vitória falou em Espetos quentes e fogueiras a senhora viu aí sim a Vitória se zangou achou o insolente e aplicou-lhe um cocorote o menino saiu indignado com a injustiça atravessou o terreiro escondeu-se debaixo das catingueiras
murchas à beira da lagoa vazia a cachorra baleia acompanhou naquela hora difícil repousava junto a trempe cochilando no calor À Espera de um osso provavelmente não o receberia mas acreditava nos ossos e o torpor que a embalava era doce mexia-se de longe longe punha na dona as pupilas negras onde a Confiança brilhava admitia a existência de um osso graúdo na panela e ninguém lhe tirava esta certeza nenhuma inquietação lhe perturbava os desejos moderados às vezes recebi a ponta a pé sem motivo os pontapés estavam previstos e não dissipavam a imagem do osso naquele dia a
voz estridente diz sim a Vitória e o cascudo no menino mais velho arrancaram baleia da mudorra e deram-lhe a suspeita de que as coisas não iam bem Foi esconder-se num canto por detrás do Pilão fazendo-se miúda entre cumbucos e cestos um minuto depois levantou o focinho e procurou orientar-se o vento morno que soprava da Lagoa fixou-lhe a resolução esguerou-se ao longo da parede transpôs a janela baixa da cozinha atravessou o terreiro passou pelo pé de turco topou o camarada chorando muito infeliz a sombra das catingueiras tentou melhorar-lhe o padecimento saltando em roda e balançando a
calda não podia sentir dor excessiva e como nunca se impassentava continua a pular ofegando chamando a atenção do amigo Afinal convenceu de que o procedimento dele era inútil o pequeno sentou-se acomodou nas pernas a cabeça da cachorra Poxa a contar-lhe baixinho uma história tinha um vocabulário quase tão minguado como do papagaio que morreram no tempo da seca valia-se pois de exclamações e de gestos e baleia respondia com o rabo com a língua com movimentos fáceis de entender todos o abandonavam a cadelinha era o único vivente que lhe mostrava simpatia afagou-a com os dedos magros e
sujos e o animal encolheu-se para sentir bem o contato agradável experimentou uma sensação como aquele dava a cinza do borralho continuou a acariciar aproximou do focinho dela a cara enlameada olhou bem no fundo os olhos tranquilos estiver a metido no Barreiro com o irmão fazendo bichos de Barro lambuzando-se deixar o brinquedo e fora um desastre a culpada era assim Aperta que na véspera depois de curar com reza a espinhela de Fabiano soltaram uma palavra esquisita chiando o canudo do cachimbo preso na gengivas banguelas ele tinha querido que a palavra virasse coisa e ficar resultado quando
a mãe se referir a um lugar ruim com espetos e fogueiras por isso regenera esperando que ela fizesse o inferno transformar-se todos os lugares conhecidos eram bons o chiqueiro das Cabras O Curral o Barreiro o pátio o bebedouro mundo onde existiam seres reais a família do Vaqueiro e os bichos da Fazenda além havia uma serra distante e azulada um monte que a cachorra visitava caçando preás Veredas quase imperceptíveis na Caatinga moitas e capões de Matos impenetráveis bancos de Macambira E aí fervilhava uma população de Pedras Vivas e plantas que procediam como gente esses mundos viviam
em paz Às vezes desapareceram as fronteiras habitantes dos dois lados entendiam-se perfeitamente e auxiliavam-se existiam Sem dúvida em toda a parte forças maléficas mas essas forças eram sempre vencidas e quando Fabiano amansava bravo evidentemente uma entidade corretora segurava-o na cela indicava-lhe os caminhos menos perigosos livrava-os espinhos e dos Galhos nem sempre as relações entre as criaturas haviam sido amáveis Antigamente os homens tinham fugido à toa cansados e Famintos sim a Vitória com o filho mais novo escanchado no quarto equilibrava o baú de folha na cabeça Fabiano levava no ombro a espingarda de pederneira baleia mostrava
as costelas através do pelo escasso ele o menino mais velho caíra no chão que ele torrava os pés escurecer a de repente o chique chiques e os mandacaruz haviam desaparecido mal sentia as pancadas que Fabiano lidava com a bainha da faca de ponta naquele tempo o mundo era ruim mas depois se consertar para bem dizer as coisas ruins não tinham existido no geral da cozinha arrumavam-se mantas de carne seca e pedaços de Toicinho a sede não atormentava as pessoas e à tarde liberta a porteira o gado miúdo corria para o bebedouro ossos e seixos transformavam-se
às vezes nos entes que povoavam as moitas o morro a serra distante e os bancos de Macambira como não sabia falar direito o menino balbuciava expressões complicadas repetia as sílabas imitava os berros dos animais o barulho do vento o som dos Galhos que rangiam na Caatinga roçando-se agora tinha tido a ideia de aprender uma palavra com certeza importante porque figurava na conversa de sim aterta e a decorá-la e transmiti-la ao irmão e a cachorra baleia permaneceria em diferente mas o irmão se admiraria invejoso inferno inferno não acreditava que Um nome tão bonito servisse para designar
coisa ruim e resolver a discutir com sim a Vitória se ela houvesse dito que tinha ido ao inferno bem tinha Vitória impunha-se autoridade visível e poderosa se houvesse feito menção de qualquer autoridade invisível e mais poderosa muito bem mas tentar a convencê-lo dando-lhe um cocorote e isto lhe parecia absurdo achava as pancadas naturais quando as pessoas grandes se zangavam pensava Até que a Zaga delas era a causa Única dos cascudos e puxavantes de orelhas esta convicção tornava o desconfiado fazia observar os pais antes de se dirigir a eles animar-se a Vitória porque ela estava bem
disposta explicou isto a cachorrinha como abundância de Gritos e gestos baleia detestava expansões violentas estirou as pernas fechou os olhos e bo para ela os pontapés eram fatos desagradáveis e necessários só tinha um meio de evitá-los A Fuga mas às vezes apanhavam na de surpresa uma extremidade de alpercata batia ali no traseiro saía latindo e a esconder-se no mato com desejo de morder canelas incapaz de realizar o desejo aquietava-se efetivamente a exaltação do amigo era desarazoada tornou a estirar as pernas e bocejou de novo seria bom dormir o menino beijou e o focinho úmido embalou-a
a alma dele fosse a fazer voltas em redor da Serra azulada e dos bancos de Macambira Fabiano dizia que na serra havia tocas de sussuaranas e nos bancos de Macambira rendilhados de espinhos surgiram cabeças chatas de jararacas esfregou as mãos finas gravatou as unhas sujas pensou nas figurinhas abandonadas junto ao Barreiro mas isto lhe trouxe a recordação da palavra infelizmente espírito aquela curiosidade funesta imaginou que não fizera a pergunta não receberá Portanto o cascudo pergunta não receberá Portanto o cascudo levantou-se via a janela da cozinha o cocô de sim a Vitória e isto lhe dava
pensamentos maus foi sentar-se debaixo de outra árvore avistou a serra coberta de nuvens ao escurecer a serra misturava-se com o céu e as estrelas andavam em cima dela como era possível haver Estrelas na Terra a cadelinha chegou-se a os cheirou lambeu-lhe as mãos e acomodou-se como era possível haver Estrelas na Terra entristeceu Talvez sim a Vitória dissesse a verdade o inferno deveria estar cheio de jararacas e suçuaranas e as pessoas que moravam lá recebiam cocorotes puxões de orelhas e pancadas com bainha de faca apesar de ter mudado de lugar não podia livrar-se da presença de
sim a Vitória repetiu que não havia acontecido nada e tentou pensar nas estrelas que se acendiam na serra inutilmente aquela hora as estrelas estavam apagadas sentiu-se fraco e desamparado Olhou os braços magros os dedos finos Posse a fazer no chão desenhos misteriosos para que sim a Vitória tinha dito aquilo abraçou a cachorrinha com uma violência que a descontou não gostava de ser apertada preferia saltar e espojar-se farejando a panela franzia as ventas e reprovava os modos estranhos do amigo um osso grande subia e descia no caldo esta imagem consoladora não a deixava o menino continuava
abraçá-la e baleia encolhia-se para não magoá-lo sofria a Carícia excessiva o cheiro dele era bom mas estava misturado com emanações que vinham da cozinha havia ali um osso um osso graúdo cheio de tutano e como alguma carne