No Parresía dessa semana, nós gostaríamos de tratar do tema polêmico do desarmamento. Pois bem, vocês se lembram que o nosso país viveu um período intenso de debate, alguns anos atrás, quando tivemos um plebiscito a respeito do desarmamento. Agora, mais uma vez esse debate vem à tona por ocasião do terrível massacre que houve numa escola de Realengo, no Rio de Janeiro.
Pois bem, qual é a posição da Igreja com relação à essa proposta do desarmamento. Eu gostaria de, neste Parresía, dizer claramente qual é a posição da Igreja e eu digo desde o início: a Igreja não é pacifista, mas ela é pacífica, portanto, diante daquilo que é a posição da Igreja, a Igreja Católica não obriga você, cidadão brasileiro, a votar nem de um lado nem do outro. Vou expressar e dizer qual é a doutrina da Igreja e cabe a você, cidadão livre, escolher o que você quiser.
Pois bem, vamos ao assunto: em primeiro lugar, o que é que está dando ocasião a essa crise histérica a respeito do desarmamento outra vez. Sim, histérica porque as reações são extremadas, as pessoas vão lá, choram e dizem "está vendo, o que está acontecendo é porque nós perdemos aquele plebiscito do desarmamento, se nós tivéssemos ganhado o plebiscito para desarmar as pessoas, nada disso teria acontecido". Gente, pura hipocrisia.
Em primeiro lugar, quando se trata de políticos que estão comovidos diante da morte de crianças inocentes, nós devemos como, cidadãos brasileiros, exigir desses políticos coerência, sim, o pais inteiro se comoveu diante da morte daquelas onze crianças, eu também me comovi, você também se comoveu e justo que os políticos se comovam também, mas vamos cobrar deles também a comoção para com crianças inocentes que morrem no ventre das mães através do aborto. Agora, é interessante, aqueles mesmos que se descabelam histericamente pedindo o desarmamento são os primeiros apressadamente a dizer que o aborto é uma questão de saúde pública, não existe algo de estranho nisso tudo? Por que tanto amor às crianças de Realengo e tanto ódio à centenas, milhares de crianças que todos os anos são abortadas, assassinadas cruel e friamente no nosso país?
Sim, existe algo de errado com a consciência moral de alguns políticos brasileiros, de alguns jornalistas brasileiros e de alguns brasileiros, em gera, nós não podemos ser assim. Pois bem, analisando o caso concreto de Realengo, o que é que nós podemos dizer? Que nós tínhamos ali um rapaz doente mental, fanatizado religiosamente, tinha consigo armas ilegais, ora, por que é que agora, de repente, as pessoas querem aproveitar o bonde andando, aproveitando a comoção geral do país para emplacar duas ideias que, ao meu ver, são profundamente ideológicas: primeira ideia, de que religião é uma coisa perigosa.
Vejam, o rapaz era fanatizado, o rapaz estava, de alguma forma, ligado à religião muçulmana, de alguma forma, mas ninguém ousa pronunciar a palavra "muçulmano" porque isso é politicamente incorreto. Ao contrário, se usa a palavra "fanatismo religioso" para conseguir capitalizar o senso popular e dirigi-lo contra quem? Nós cristãos.
Mais uma vez nós, cristãos, somos os culpados da história, ou seja, o cristianismo, os católicos, que deveriam se converter e abraçar o pacifismo belíssimo do governo mundial, da ONU e da esquerda festiva. Meus irmãos, isso é simplesmente se aproveitar da ignorância popular. Em segundo lugar, estão também se aproveitando, no trem da alegria, para mais uma vez, tentar emplacar um plebiscito sobre o desarmamento, por quê?
Porque eles perderam aquele primeiro, então, quem sabe agora, com o povo comovido com as criancinhas que morreram em Realengo irão votar para o desarmamento. pois bem, saibam o seguinte, isto é simplesmente falácia, por quê? Porque aquele rapaz tinha consigo armas ilegais, ora, não é necessário plebiscito para saber qual é o futuro das armas ilegais.
As armas ilegais que, diga-se de passagem, 99,9 por cento estão nas mãos dos criminosos, mafiosos, traficantes e não do cidadão honesto, essas armas ilegais devem ser apreendidas, elas já têm um futuro e já têm um destino, conforme a própria lei brasileira. O que é, então, o desarmamento? O plebiscito do desarmamento é o plebiscito para tirar o direito de o cidadão legalmente, não ilegalmente, esse rapaz tinha armas ilegais, o plebiscito é para tirar as armas legais da mão dos brasileiros.
Pois bem, aqui, desmascaradas duas falácias, vamos então ao assunto que interessa: o que é que a Igreja diz, o ensinamento moral da Igreja Católica, oficial, segundo o Catecismo da Igreja Católica, o que é que a Igreja Católica ensina sobre o desarmamento? Bom, numa abordagem bastante superficial, você pode então pegar o Catecismo, olhar a respeito da guerra e você vai encontrar ali uns parágrafos bem suculentos na mão daqueles que são a favor do desarmamento, "puxa, olha que beleza", no número 2315 e seguintes, fala-se contra a acumulação de armas, fala-se contra a corrida aos armamentos, fala-se contra o super-armamento, fala-se contra a produção e o comércio de armas na comunidade internacional, que beleza! A Igreja é a favor do desarmamento.
Errado. Luz vermelha pra você! Má interpretação.
Por quê? Porque você precisa de um contexto, meu irmão, esses parágrafos que estão aqui, estão falando de um outro tipo de desarmamento. Nós, aqui no Brasil, estamos debatendo o desarmamento do cidadão, aqui, o Catecismo está falando de um contexto bem específico chamado corrida armamentista no cenário internacional, portanto, ele está falando de países, de nações que, uma vez que essas nações entram em conferência de paz, elas podem sim e devem pensar em que fazer para diminuir a corrida armamentista.
A Igreja é a favor que nós procuremos uma solução para diminuir essas armas letais, que são armas de destruição de massa, isso deve ser feito, as nações devem fazer algo, sim, mas veja, mais uma vez é necessário dizer, a Igreja não é a favor do desarmamento de uma das partes, é a favor do desarmamento de todas as partes, porque também essas famosas conferências de paz e esses tratados de desarmamento, muitas vezes são puro engodo, ou seja, é simplesmente uma cena política, os políticos se reúnem para se livrar de lixo, ou seja, armamentos que já são obsoletos, que não farão falta para nenhuma das duas partes, mas as verdadeiras armas ninguém está disposto a renunciar. E é evidente que se existe um lado mais armado do que o outro aqui nós estamos diante de uma guerra fria, não se disparou ainda o primeiro tiro, mas existe essa tensão de guerra. É contra isso que a Igreja gostaria de falar.
Mas outra coisa é o desarmamento do cidadão, o desarmamento do cidadão não está neste capítulo do Catecismo sobre a guerra, porque o cidadão não faz guerra, quem faz guerra são nações, quem faz guerra são Estados, o cidadão, eu preciso ler o Catecismo quando se fala do "Não matarás", então, vamos lá no início do capítulo em que se diz que não devemos matar, o respeito à vida humana, trata-se, portanto, do número 2259 e seguintes. É claro, é evidente, que a Igreja é contra a violência, é contra o homicídio, é evidente que a Igreja é contra a injustiça, só que o Papa Paulo VI nos recorda, num pronunciamento que ele fez aos bispos da América Latina, em Medellin, que, meus queridos, compreendamos, o cristão é pacífico, mas não é pacifista. Pacífico sim, porque nós buscamos a paz, mas não somos pacifistas porque nós somos capazes de lutar e, para isso, o Papa cita o evangelho de São João, capítulo 14, versículo 27, nós somos sim, capazes de lutar, é aqui que entra uma parte do Catecismo importante, chamada legítima defesa.
A legítima defesa, ela existe. A legítima defesa é algo que não somente é um direito, muitas vezes é um dever. Você imagine um assaltante que entra na sua casa, violenta a sua filha, agride a sua esposa, dilapida os seus bens, o que você fará?
Você vai dizer "Ah não, eu sou pela paz", você vai ter coragem de olhar na cara da sua filha e da sua esposa e dizer "Olha, eu não fiz nada não porque eu sou um covarde, eu não fiz nada porque eu sou pacifista, eu sou a favor da paz", meu irmão, é simplesmente louca essa forma de raciocinar. A legítima defesa, até mesmo colocando em risco a sua própria vida, quando nós estamos defendendo um inocente mais frágil, sempre foi uma caridade imensa. Nós defendermos um inocente, porque, é claro, o que é um homicídio, o que é matar uma pessoa?
É tirar a vida do inocente, o homicídio, o pecado do homicídio é isso, mas aqui nós estamos não tirando a vida do inocente, estamos tirando a vida do agressor. Então, São Tomás de Aquino nos recorda claramente aqui no Catecismo que, quando nós nos defendemos, nós estamos aqui diante de uma ação de duplo efeito, aquilo que nós desejamos, o nosso intuito, a nossa intenção, não é matar uma pessoa, mas é defender a nossa vida. Agora existe o segundo efeito, além de defender a minha vida, eu infelizmente estou tirando a vida do outro, mas não era isso que eu queria, portanto, a legítima defesa é cristã, é moral, perfeito.
Agora, é necessário também dizer o seguinte: a legítima defesa é proporcionada, não existe proporção, por exemplo, entre um moleque de rua com um canivete na mão, querendo tirar a sua carteira, e você tirando a vida do menino. Não, aí não há legítima e proporcionada defesa, porque não há proporção entre a sua carteira e a vida do menino. A vida do menino vale mais do que a sua carteira, você só pode arriscar tirar a vida de outra pessoa se você está sendo agredido de tal forma que a sua vida esteja em risco e a vida das outras pessoas que você queira defender esteja em risco também.
Bom, dito isso, dito o que é a doutrina da Igreja a respeito da legítima defesa, claramente esclarecido que a Igreja não é pacifista, mas é pacífica, o que nós podemos dizer a respeito da campanha de desarmamento no Brasil? Bom, a primeira coisa, se nós queremos uma resposta, nós vamos ter que esclarecer a pergunta e qual é a pergunta que está sendo feita? Qual é a pergunta que foi feita naquele plebiscito?
A pergunta que foi feita no plebiscito é a seguinte e preste atenção porque a pergunta é importante: nas mãos de quem estarão as armas que irão nos defender dos criminosos? Somente nas mãos das forças constituídas, como a Polícia, o Exército ou os corpos de segurança privada ou o cidadão comum pode ter também armas em casa? Esta é a pergunta, só que essa pergunta, que é legítima, ela às vezes é transformada, transmutada numa pergunta capciosa e a pergunta capciosa é essa: mas você é a favor das armas, você é a favor da violência, você é a favor de matar as pessoas?
Ora, você é cristão, você não pode ser a favor da violência, das armas, da guerra e do ódio, porque Jesus é a favor da vida, Deus é a favor da paz, você não pode ser assim, Jesus deu a vida, Jesus pôs a sua vida a disposição para que tirassem a sua vida contanto que Ele não fizesse algo de violento. Outra vez falácia, errado. Jesus deu a sua vida, a pergunta é a seguinte, você tem todo direito de dar sua vida, meu irmão, se você tem uma objeção de consciência, se a pessoa vem te matar e você não quer se defender, você tem todo o direito de não usar do seu direito de legítima defesa, mas e quando a vida é dos outros?
Quando a vida é da sua esposa, da sua filha, das pessoas que você ama, você não tem o direito de ser covarde, você não tem o direito de não se defender, portanto, aqui, antes de nós debatermos e darmos resposta à legítima pergunta sobre o desarmamento, uma coisa tem que ficar bem clara: nós cristãos não somos pacifistas, nós cristãos somos pacíficos, ou seja, diz Paulo VI, pacífico é aquele que deseja e promove a paz, mas também é capaz de lutar, também é capaz de fazer alguma coisa quando a injustiça se instaura. Então, é importante nós termos isso bem claro para dar resposta à nossa legítima pergunta. E a legítima pergunta acontece no mundo real e concreto, no nosso mundo real e concreto.
O que é que nós temos? Nós temos cinquenta mil assassinatos por ano no nosso país. Vejam, gente, Nós que somos tão pacifistas, temos que compreender isso, cinquenta mil pessoas, ou seja, mais concretamente, duas guerras do Iraque acontecem por ano no nosso país, ou seja, por semestre acontece uma guerra do Iraque no Brasil e, no entanto, isso não está nas manchetes dos nossos telejornais e dos nossos jornais.
Existe algo muito, muito errado com a sociedade brasileira. Nós temos sim, um infelizmente, um crime organizadíssimo no nosso país, existe sim muita violência no nosso país e existem pessoas muito más, pessoas com o coração empedernido, com o coração encardido pelo pecado e pela maldade que são capazes de tirar a vida dos inocentes, essas pessoas existem. Nós não estamos num mundo de Alice no País das Maravilhas, nós não estamos no mundo de Pollyana, onde tudo é cor de rosa, você pode continuar pintando mundo de cor de rosa, meu irmão, acontece que os bandidos continuarão tingindo este mundo com o vermelho do sangue dos inocentes.
Então, a pergunta não é se eu sou a favor da paz, é claro que eu sou a favor da paz, ora, não seja ridículo! A pergunta é: diante das agressões injustas e desta sociedade que gera máquinas mortíferas, do crime organizado, quem é que vai nos defender? Somente a polícia, o exército e os seguranças que estão cadastrados ou o cidadão comum pode ter armas em casa?
Agora, resposta: a decisão é sua. A Igreja não tem uma doutrina sobre isso, isto é um problema prático, tá entendendo? Isso é simplesmente um problema prático, prático, o que é que você acha que funciona mais?
Que as coisas estejam na mão de quem é profissional ou o cidadão legitimamente treinado, porque foi lá, fez um curso, aprendeu a disparar armas, legitimamente cadastrado, que tem portes de arma legal, esse cidadão pode ou não pode ter armas na sua casa? Essa é a pergunta que está atrás do desarmamento. Aí as duas posições são legítimas, as duas posições são católicas.
Aí você vai dizer "mas, Padre, eu ouvi bispos, padres, pessoas invocando a autoridade da Igreja com relação ao desarmamento, dizendo nenhum católico podia votar contra o desarmamento, que era dever do católico votar a favor do desarmamento", meu querido, isto simplesmente não é doutrina da Igreja, isso chama-se abuso de autoridade, ou seja, se um bispo ou um padre quer usar a sua autoridade de bispo, a sua autoridade de padre para fazer você votar numa direção, neste caso, neste assunto, ele está abusando do seu poder, porque neste caso e neste assunto, as duas posições são moralmente aceitáveis. Você vai usar a sua inteligência, que vai decidir, vai decidir para ver, quem sabe, nós precisamos das forças públicas somente e que é terrível colocar armas nas mãos dos civis, ou você é a favor do fato que civis possam ter armas também, aqui, é importante nós lembrarmos isso, então, não deixe que pessoas, por mais bem intencionadas que elas sejam, pessoas com uma ideologia pacifista na cabeça, venha colocar agora na sua cabeça de católico complexo de culpa. Nós católicos não somos pacifistas, nós somos pacíficos e um pacífico é capaz de lutar também.
E vamos ser bem sinceros, é necessário que alguém lute. Quem deve ter essas armas, este foi o objeto do plebiscito, agora querem, mais uma vez, desengavetar este plebiscito e fazer com que os brasileiros vão às urnas outra vez para dizer se nós queremos ou não queremos uma campanha de desarmamento. Simplesmente você é livre para decidir.
A Igreja tem uma posição, a posição da doutrina da Igreja é esta: nós não devemos fomentar o ódio, não devemos fomentar a violência, devemos procurar a paz, as nações devem se sentar em mesas de conferências de paz e lutar pelo desarmamento entre as nações, mas o cidadão comum, a respeito do que o cidadão deve fazer, se ele pode ou não ter armas para se defender dos criminosos não há pronunciamento papal a esse respeito, o Papa nunca disse nada, nenhum concílio jamais disse nada, o Catecismo não diz nada, porque isso é simplesmente uma decisão prática, não é uma questão de moralidade, é uma questão de saber que existe o princípio da legítima defesa, quem irá nos defender. Então, não deixe que as pessoas mudem a pergunta, porque mudando a pergunta, as coisas ficam completamente distorcidas. A pergunta não é se você é a favor das armas.
Eu posso ser perfeitamente contra o fato de eu ter armas, eu não quero ter armas, mas eu posso também dizer, porém quero ter o direito de tê-la, por quê? Porque não quero que o bandido pense que eu não tenho armas. Eu quero ter o direito de ter armas, eu posso ter essa opinião, não estou dizendo que essa é a única opinião, estou dizendo que é uma opinião católica possível, portanto, não vamos nos deixar guiar pelo nariz, num clericalismo.
Eu tenho certeza que o clero, as pessoas ordenadas saberão qual é a verdadeira doutrina da Igreja, a verdadeira doutrina da Igreja é a favor da vida sim, mas não podemos distorcer Magistério para que as pessoas decidam a favor daquilo que é uma decisão pessoal.