Olá, moçada! Tudo bem? Bom dia para quem é de bom dia, boa tarde, boa noite para quem é dessas coisas da tarde e da noite.
Como eu prometi a vocês, eu vou aqui fazer um comentário não muito estendido, espero, inspirado na introdução do nosso livro, do Diário Histórico, na qual os autores fazem um comentário geral sobre a natureza da seleção dos textos que eles fizeram. Hoje, dia 31 de dezembro, amanhã a gente já começa com os textos dos filósofos, né, propriamente ditos. Então achei interessante essa introdução para nos situarmos um pouco em relação ao que nós vamos encontrar aí pela frente.
Eles dizem o seguinte: "Os Diários íntimos de um dos maiores imperadores de Roma; a correspondência pessoal de um dos melhores dramaturgos e mais sábios a dizer opinião de Roma; as palestras de um ex-escravizado e exilado, transformado em influente professor contra todas as probabilidades. E, a passagem de cerca de dois milênios, esses documentos incríveis sobrevivem. E como sobrevivem?
O que eles dizem? Poderiam essas páginas obscuras realmente conter alguma coisa relevante para a vida moderna? " A resposta, segundo se revela, é: sim, elas contêm parte da maior sabedoria na história mundial.
Juntos, esses documentos constituem o alicerce daquilo conhecido como estoicismo, uma filosofia antiga, outrora uma das disciplinas cívicas mais populares no Ocidente; igualmente praticada pelos ricos e pelos empobrecidos, pelos poderosos e por aqueles que batalhavam na busca por uma boa vida. Eu já disse isso em diversas ocasiões, inclusive lá na sociedade da lanterna. Nós estamos vendo em profundidade exatamente o estoicismo.
O estoicismo surge numa conjuntura histórica muito precisa: pós-alexandrina, pós-Alexandre, numa situação de muita dificuldade para o homem, especialmente para o homem grego de modo geral, acostumado à ideia de ser uma espécie de espelho da pólis, né, de celebrar a sua existência dentro de uma cidade na qual ele se reconhecia. E com Alexandre, a ideia de pólis é basicamente dissolvida e acende, portanto, a ideia de uma Cosmópolis, ou seja, o Cosmos é a de todos. Alexandre pretendia, como ele acabou construindo, o Império de proporções mundiais, e ele queria essa mistura, né?
Ele queria essa experiência de uma pólis que se mistura com o próprio Cosmos. Isso deixou especialmente o homem grego muito confuso, muito distante do seu horizonte de reconhecimento, que era a cidade. Portanto, a filosofia passa a ser uma filosofia mais voltada para o bem viver, menos dada àquelas altas especulações metafísicas, teorias do conhecimento, como a gente viu nos grandes sistemas lá de Sócrates, de Platão, de Aristóteles.
E agora você tem uma dimensão mais em mesm da filosofia, gente pensando a existência num momento de crise. Talvez por isso o estoicismo e as suas correntes irmãs, deste período da história da filosofia chamado período helenístico, talvez por isso faça tanto sucesso hoje, porque a gente se sente realmente meio deslocado. A gente está meio que numa crise, tentando se encontrar, tentando buscar valores que para nós façam sentido.
E essa filosofia, especialmente a estóica, mas não só ela: a filosofia epicurista, a filosofia cética, né, o ceticismo foi uma corrente helenística também, o cinismo, né, a filosofia do cão, tá aqui, ó, o meu ídolo, né, o Diógenes, o cínico. Essas correntes filosóficas são marcadas por essa característica da busca pela imperturbabilidade. A busca pela imperturbabilidade, a busca por uma vida na qual a felicidade se repropõe, a alegria se repropõe.
Mas uma alegria. . .
alegria nem é um bom termo. Felicidade sim, porque é um termo técnico nesse sentido. Mas a felicidade como aquilo a que nós podemos chegar.
E como é que nós podemos chegar a essa felicidade? Então, o estoicismo tem essa característica, como as outras correntes filosóficas do período. E, como eu disse, talvez por isso ela seja hoje tão popular e estejamos todos muito atentos ao que dizem os estóicos.
Pois bem, ao longo dos séculos, porém, essa maneira de pensar, essencial para tantos no passado, lentamente desapareceu de vista, exceto para aqueles que buscam sabedoria com mais avidez. O estoicismo é ou desconhecido ou mal compreendido. Muita gente, infelizmente, associa o estoicismo a essa coisa do coach, né?
O coach é entendido em sentido vulgar, em sentido baixo, como qualquer coisa, como uma autoajuda de filósofos antigos. E é bem mais do que isso. Eu espero que a gente tenha condições de ver isso durante o ano inteiro.
É bem mais do que uma mera questão de autoajuda ou de uma terapia, vamos dizer, de baixo nível. Aqui estão envolvidos sistemas filosóficos, e vai ser muito difícil para mim, como professor desse troço, não me estender nos comentários diários e fazer 365 aulas de 10 horas sobre cada um desses trechos aqui, porque é muito sedutora a filosofia estóica. De fato, é muito sedutora.
E tudo que a gente não quer para quem lida com isso é que essas filosofias sejam mal compreendidas ou compreendidas de maneira tortuosa. De fato, seria difícil encontrar uma palavra tratada com maior injustiça nas mãos da língua inglesa, no caso da língua portuguesa, do que estoica para as pessoas em geral. Essa maneira de viver vibrante, orientada para a ação e transformadora de paradigmas, tornou-se taquigrafia para "sem emoção".
Em português, frequentemente você vê pessoas que utilizam mal o termo estoico para dizer alguma coisa como "modorrento", exatamente como ele: sem emoção, sem vibração, sem o suco da vida, né? O suco essencial da vida. .
. alguma coisa do tipo: "Olha, filho, baixa a cabeça, aguenta o sofrimento e morre o quanto antes. " Está muito longe disso!
O estoicismo e as correntes helenísticas de modo geral estão muito distantes disso. É basicamente uma repropositura. Durante o ano aqui, dado que a mera menção à filosofia deixa a maioria nervosa, ou.
. . Entediada, filosofia estóica soa aparentemente como a última coisa que alguém gostaria de aprender, muito menos do que precisaria urgentemente na vida cotidiana.
O vulgo, né? As pessoas vulgares, o populacho, o povo lá fora, têm muito preconceito com relação à filosofia, fundamentalmente porque ninguém gosta daquilo que ignora, ninguém gosta daquilo que não entende. Então, se você não entende matemática, a tendência é que você diga: "Eu não gosto de matemática".
E, muito provavelmente, é porque você não entende matemática. Você não pode gostar daquilo. "Ah, eu não gosto de música clássica, não gosto de música erudita".
Você não entende nada disso! Então, é fácil não gostar daquilo que não se entende. Assim, a filosofia é um tanto vítima da preguiça mental das pessoas, da ignorância, né?
Do apedeusismo, como eu digo sempre, né? Esse apedeusismo que as pessoas nutrem como se fosse uma virtude, né? Gostam de ser ignorantes.
Então, quando você se dispõe a conhecer um pouco mais, você vê: caramba, filosofia é uma coisa extraordinária. E não só extraordinária, especialmente quando eu vou para elementos da minha vida no sentido ético da palavra, né? Quero dizer, eu trago as reflexões filosóficas para o meu cotidiano, porque nem toda reflexão filosófica é marcada por essa utilidade que tem quando a filosofia trata da política, quando a filosofia trata da ética.
A filosofia trata de outros elementos que cuidam do conhecimento pelo conhecimento, sem uma aplicabilidade cotidiana, e as pessoas olham para isso, né? "Ah, então se eu não vou usar, para que? ", engano!
Mas é claro que, quando eu trago isso de maneira mais intensa, como na filosofia estóica, isso vai, na verdade, nos aproximar mais da filosofia. Que triste destino para uma filosofia que até um de seus críticos ocasionais, Arthur Schopenhauer, descreveu como o ponto mais alto que o homem pode alcançar pelo mero uso da sua faculdade da razão. Parecer de Schopenhauer: o ponto mais alto que o homem pode alcançar pelo mero uso de sua faculdade da razão.
A opinião do Schopenhauer sobre o estoicismo. Nosso objetivo neste livro é devolver o estoicismo ao seu lugar de ferramenta na busca do autocontrole, da perseverança e da sabedoria, algo que usamos para levar uma vida excelente, não um campo esotérico de pesquisa acadêmica, né? Alguma coisa lá própria dos muros das universidades, para ficar lá sendo conversada e debatida entre especialistas.
Não, restituir! E por isso eu trouxe esse livro. Tá, restituir ao estoicismo esse seu elemento da vida cotidiana, do nosso dia a dia, trazer essas reflexões estoicas para o nosso dia a dia.
Certamente, muitas das grandes mentes da história não só compreenderam o estoicismo pelo que ele realmente é, como também o procuraram. E aí, ele cita alguns grandes nomes da história que frequentaram as escolas do estoicismo com grande avidez em muitos casos: George Washington, Whitman, Frederico, Grande de La Croix, Adam Smith, Emmanuel Kant, Thomas Jefferson. E aí ele cita uma série, Roosevelt, uma série de outros nomes.
Cada um deles leu, estudou, citou ou admirou os estóicos. Esses e tantos outros, os antigos estóicos, nada tinham de indolentes. Os nomes que você encontra neste livro: Marco Aurélio, Epicteto e Sêneca, essa grande tríade do estoicismo tardio, pertenciam, respectivamente, a um imperador, Roma, Marco Aurélio; a um ex-escravizado que triunfou para se tornar um influente conferencista e amigo do imperador Adriano, que é o Epicteto.
Epicteto foi escravo! Então, o que ele tá querendo mostrar aqui é esse grande espectro, né, que o estoicismo abraça. Não é uma filosofia de uma aristocracia financeira ou de uma classe social fulana ou sicrana, não, mas que pega desde imperadores a ex-escravos, passando por um famoso dramaturgo e conselheiro político.
A referência óbvia é Sêneca. Inclusive, ontem eu comentei aqui uma frase do Sêneca que abre esse livro, que é lindíssima, sobre a vida filosófica. Havia estóicos como Catão, o jovem, que era político admirado.
Zenão era um próspero comerciante. Como muitos estóicos, C era um ex-boxeador que trabalhou como carregador de água para poder pagar os estudos. Então, ele continua nos exemplos, né?
Os estóicos tinham as mais diversas funções na vida social, das mais diversas classes. Crisipo, ou Crisipo, se vocês preferirem, cujos escritos estão hoje completamente perdidos, mas contavam mais de 700 livros, treinava como um corredor de longa distância. Como um corredor de longa distância, Posidônio serviu como embaixador.
Mônio Rufo era professor, e tantos outros que se dedicaram às coisas do estoicismo, entende por que eu acho que é muito interessante trazer o estoicismo para uma plataforma como essa, que nos serve a todos. Então, não importa a sua profissão, não importa o que você faça da vida ou deixe de fazer da vida, o estoicismo certamente vai te trazer uma formação, uma visão de mundo interessante. Hoje, o estoicismo encontrou um público novo e diversificado que varia desde as equipes técnicas do New England Patriots, do Seattle Seahawks, ao rapper LL Cool J.
No caso, não tenho a menor ideia de quem seja esse rapper, ou seja, ele está citando times de futebol americano, provavelmente, jornalistas e tal. Então, tá meio que para todos os lados: administradores de fundos multimercados, o que tem dessa galera, CEOs, gente de empresa que adora citar os estóicos. Mas é o grande problema, né?
Não adianta você ficar decorando frases estóicas se você não entende a razão de ser da frase e todo o arcabouço filosófico que está exatamente a dar-lhe sustentação. Artistas, executivos, homens e mulheres públicos. O que todos esses grandes homens e mulheres encontraram no estoicismo que outros deixaram escapar?
Muita coisa. Enquanto os acadêmicos costumam ver o estoicismo como uma metodologia antiquada, de interesse menor, foram as pessoas dinâmicas do mundo que descobriram que ele fornece muito da força e da energia necessárias para a vida desafiadora delas. Então, assim como o estoicismo é tratado.
. . Na universidade, de maneira estritamente técnica ou como uma coisa datada de interesse meramente histórico, houve essa retomada do ismo como uma coisa da vida, quando o jornalista e veterano da Guerra Civil Americana Ambrose Bierce advertiu um jovem escritor que estudar os estóicos iria lhe ensinar, cito, a ser um "Digno conviva à mesa dos Deuses".
Um "Digno conviva à mesa dos Deuses". Ou quando o pintor de Cro, famoso pela sua pintura "A Liberdade Guiando o Povo" — todo mundo tem na memória, né? Se não tem, puxa aí no Google — a "Liberdade Guiando o Povo" chamou o estoicismo de sua religião consoladora.
Eles falavam por experiência própria, quer dizer, filosofia aplicada, assim, direto aqui no músculo para viver melhor: filosofia do Bem Viver. Então, a gente não precisa ter esse medo de falar assim: "Ah, não, eu vou entrar aqui numa filosofia especulativa que não vai conversar diretamente comigo. " Vai conversar diretamente com você, com seus dilemas, com seus problemas diários, com seus problemas cotidianos.
Agora, já faço essa advertência desde já: a partir de uma perspectiva racional que frequentemente vai incomodar seus elementos sentimentais, emocionais, o seu misticismo, o modo como você quer ver o mundo. Então, prepare-se, de vez em quando, para tomar umas sapatadas na cara. Como precisa ser, o processo de aprendizagem é, e tem que ser, doloroso, incômodo, porque, senão, não é aprendizado.
A aprendizagem implica desconforto. "Ah, eu pensava uma coisa, mas eu tô vendo aqui. Puxa, mas como é difícil abandonar isso que eu acreditava.
" E aí ele cita, então, uma série de outros que foram influenciados. Mas é para o campo de batalha que o estoicismo parece ter sido particularmente bem concebido. Em 1965, quando o almirante James Stockdale, futuramente agraciado com a Medalha de Honra, saltou de paraquedas de seu avião abatido sobre o Vietnã para o que viria a ser meia década de tortura e encarceramento.
O cara, imagina: saltou de paraquedas num lugar pouco propício, caiu em campo inimigo, os inimigos o pegaram, ele ficou meia década sendo torturado, preso. Qual era o nome que estava em seus lábios? Epicteto.
Qual foi o pensador que o salvou dessa situação desesperadora? Epicteto, assim como Frederico, o Grande, que cavalgou para a batalha com as obras dos estóicos em seus alforges, também fez o fuzileiro naval e comandante da 1ª Divisão de Fuzileiros Navais, General James "Mad Dog" Mattis, que levou as Meditações de Marco Aurélio com ele em deslocamentos no Golfo Pérsico, no Afeganistão e no Iraque. Novamente, eles não eram professores, mas praticantes.
E, enquanto filosofia prática — eu adoro esse termo porque esse termo é aristotélico, filosofia prática — o estoicismo lhes parecia perfeitamente adequado para os seus propósitos. Claro que Aristóteles não cunhou esse termo pensando no estoicismo, que veio logo em seguida à sua própria filosofia, mas filosofia prática como essa filosofia que você reflete para viver; reflete tanto que um dos grandes filósofos helenísticos, que, em termos de peso de escola, rivalizava com o estoicismo, que é o Epicuro, falava: "A reflexão só faz sentido se você puder aplicar à sua vida. " Claro que ele estava num momento histórico que indicava esse caminho.
Não é? Antes, no Período Clássico, não era diferente: você não precisa pensar em filosofia necessariamente como as coisas só aplicáveis à vida, mas chegou um momento histórico no qual o Epicuro disse isso: "Não, cara, essa negócio de ficar especulando sobre coisas que nos escapam, não quero saber. Seguinte: pensar da melhor maneira possível para viver da melhor maneira possível.
" E, assim como o epicurismo, o estoicismo surge com essa marca, com essa marca constitutiva fundadora. E aí vem um ponto essencial aqui, né, que vocês precisam saber para levar adiante o nosso projeto diário. O estoicismo foi uma escola de filosofia fundada em Atenas por Zenão de Cítio, no início do terceiro século antes de Cristo.
Quando nós falamos de Epicteto, Marco Aurélio e Sêneca, que são as nossas três grandes referências nesse livro, nós estamos falando de um estoicismo já tardio. Porque, como eu já cheguei a referenciar, eu acho que no vídeo passado, alguns historiadores vão dividir o estoicismo em três grandes correntes: primeiro estoicismo, segundo estoicismo e estoicismo tardio, ou estoicismo imperial. Enfim, são momentos.
. . Foi, são 500 anos.
Durante 500 anos, acontece muita coisa, e o estoicismo, então, foi se reconfigurando dentro desses 500 anos. Seu nome, né? Estoicismo deriva do grego "stoa".
Deixa eu pegar meu quadrinho, que tá sempre me acompanhando aqui. Eu nem pensei que eu fosse escrever alguma coisa nele, mas, como ele tá aqui do lado, vamos nessa. Estoicismo vem do grego.
Eu vou colocar transliterado em português — não em português, mas em caracteres latinos: "stoa". Vem daqui, "stoa", por isso "estoicismo", nome grego que significa "pórtico", "pórtico" frontão, porque era ali que a princípio Zenão ensinava seus alunos. Ficava lá no Pórtico de Atenas, lá num lugar da cidade um pouco mais afastado, conversando com as pessoas sobre a sua filosofia, a filosofia que declara que virtude, significando principalmente as quatro virtudes cardeais: autocontrole, coragem, justiça e sabedoria, é felicidade.
Então, aquilo que eu disse no começo aqui: nós estamos em busca da felicidade. Esse é um elemento fundamental para o estoicismo, assim como é para as correntes helenísticas de modo geral, para o cinismo, para o epicurismo. Só que felicidade, a gente vai ver.
Às vezes, não vai dizer a felicidade como a gente entende hoje. Essa felicidade que não é felicidade, é escravidão. Eu preciso ter, eu preciso correr atrás disso, eu preciso.
. . Eu não consigo dormir à noite.
As paixões que me tomam. E você? Não respira!
Desde quando isso é felicidade? Desde quando isso é felicidade? Você acorda todo dia atrás de um negócio que você chama de felicidade, que te deixa feliz quando você alcança por exatos 5, 10 segundos.
Depois já te frustra novamente e você já tá atrás de uma outra coisa. Sempre numa constante insatisfação, o que talvez nos leve a pensar que a gente tá olhando para a coisa errada como felicidade. E esses filósofos vão dizer: vocês chamam de felicidade algumas coisas bem esquisitas.
O estoicismo nos ensina sobre a percepção das coisas, em vez de. Essas percepções são as. .
. é aquilo que realmente nos causa os maiores problemas: o modo como nós percebemos as coisas. Então, todos nós estaremos ou ficaremos doentes um dia.
Todos nós, não tem como escapar. Aí entra em jogo o modo como. .
. E isso que fofoca, né? Que fofoca!
O meu pequeno Ioda, presente de uma queridíssima membro da sociedade da lanterna, né, Dr? [Música] Hum. .
. então, se todo mundo vai ficar. .
. todo mundo vai ficar doente, vai chegar aquele fatídico dia pelo qual todos nós vamos passar, de uma maneira ou de outra, no qual você vai sentir um negócio assim. O médico vai falar: "É esse troço aqui que vai te levar pro buraco.
" Aí você vai perguntar para ele: "Eu tenho muito tempo? " Aí você vai ficar louco, você vai gritar, você vai chorar, ou você vai dizer: "Ah, sim, é inevitável, portanto eu vou lidar com isso de maneira diferente. " Não é tentar mudar algo a que você está condenado, é mudar o modo como você percebe as coisas, das mais pueris às coisas mais importantes.
O estoicismo ensina que não podemos controlar ou contar com algo que esteja fora do que Epicteto chamou de nossa escolha racional, nossa capacidade de usar a razão para decidir como categorizamos acontecimentos externos, como reagimos a eles e reorientamos a nós mesmos em relação a eles. Ah, eu posso mudar isso e nunca ficar doente? Não.
Eu posso mudar o fato de que um dia morrerei? Não. Eu posso mudar o fato de que nasci no Brasil, de que sou.
. . sei lá.
. . mineiro e que nasci no século X, passagem pro século XX?
Não. Mas eu posso mudar o modo como eu percebo isso, o modo como eu lido com isso, a partir de uma escolha racional que não seja fruto de emoção. Porque senão, alguém vai pensar: "A partir de agora eu quero pensar que eu não vou morrer.
" Não é disso que os estoicos estão falando. Assim, você vai. .
. é o modo como você lida com a ideia de que você vai morrer que está em jogo. O estoicismo dos primeiros tempos era muito mais próximo de uma filosofia abrangente, como tantas outras, como as outras escolas antigas, cujos nomes sejam familiares a vocês.
Já citei aqui Epicurismo, Cinismo, etc. Os proponentes falavam a respeito de diversos tópicos. O que ele tá querendo dizer aqui, trocando em miúdos, é o seguinte: nos primeiros.
. . o estoicismo, ele tinha uma dimensão muito forte de especulação sobre a natureza, de especulação sobre outros aspectos da vida.
E que, vamos dizer, estavam no horizonte da reflexão filosófica, que lembram muito aquilo que fazia Platão. Então, em Platão, você vai encontrar ética, política, física, que é o estudo da natureza, metafísica, que é o estudo, para Platão, de uma realidade que se coloca para além dos sentidos, estudos sobre a alma, estudos sobre a arte. Você encontra tudo isso em Platão.
Em Aristóteles, encontra tudo isso. Num primeiro momento, o estoicismo estava meio por aí, estava mais próximo dessa ideia de uma escola filosófica mais ampla nos seus interesses. Então, tinha lá cosmologia, tantas outras coisas.
À medida que avançou, no entanto, o estoicismo se concentrou basicamente em dois tópicos: a lógica e a ética. À medida em que ele foi passando ali no tempo, ele foi focando mais nesses dois ramos. Ao viajar da Grécia para Roma, tornou-se ainda muito mais prático para se adequar à vida ativa e pragmática dos industriosos romanos.
Como Marco Aurélio observaria tempos depois: "Fui abençoado quando me interessei pela filosofia por não ter caído na armadilha dos sofistas nem me afastado para a escrivania do escritor, ou passado a dissertar com pedantismo ou a me ocupar do estudo do céu. " Marco Aurélio celebra o fato de ter travado contato com o estoicismo, que é exatamente uma filosofia que não era ficar olhando pro céu e pensando o que existe para além do que eu estou vendo. Para esses caras, desculpe o meu latim, dane-se, é o que tá aqui no meu horizonte, no que eu posso fazer.
"Ah, ainda bem que eu não mexi com essa outra coisa que os caras faziam. " Essa é a filosofia que eu queria ter feito. Marco Aurélio, dizendo: "Em vez disso, ele, assim como Epicteto e Sêneca, concentraram-se numa série de perguntas não muito diferentes daquelas que até hoje fazemos a nós mesmos.
Qual é a melhor maneira de viver? " Olha que coisa linda! Isso!
Qual você acorda todos os dias? Você nunca se fez essa pergunta? Não é assim um tanto vergonhoso isso?
Eu passei uma vida. . .
tem gente que passa uma vida inteira sem se perguntar qual é a melhor maneira de viver, de fato. Não o que me foi vendido como tá ou como eu acho que é. Como é?
O que devo fazer em relação à minha raiva, às minhas frustrações, aos meus medos? Eu tenho obrigações para com os meus semelhantes? Sim.
Não. Quais são? Como posso lidar com as situações difíceis que encontro?
E como nós encontramos situações difíceis na vida? E cada um. .
. preta da man. .
. Deixa eu contar um parênteses aqui para vocês: agora, na noite de Natal de 2024, a gente saiu. A gente foi passar o Natal na família da Bárbara e nós saímos de lá meia-noite, meia-noite e pouco.
Na hora que eu pego a estrada para voltar para Uberlândia, que eu coloco o carro na pista, um cachorrinho desse tamanhozinho. . .
Que a raça que eu te falei, amor, tipo um shitso no meio de uma tempestade, uma chuva. . .
e eu bati o farol e o shits, assim, perdido na pista. Ele, naquela noite, gente saindo bêbada, pegando estrada, caminhão, carro para todo lado. Eu ainda pensei no estoicismo, sabia?
Nessa situação, eu parei o carro, pisca alerta, maior perigo, cara saindo de um trevo, correndo. Aí chamei ele, ele não veio, mas ficou parado. Dei ré, andei uns 100 m no meio da pista, a miséria.
Fiquei mais perto dele ou dela, não sei. Aí eu chamei ela no canteiro central da pista e eu, no acostamento. Na hora que eu chamei ele ou ela, hum, sumiu pro outro lado.
Isso, em outras pessoas, podia não ser nada. Gente, quantas pessoas passaram por ali, nem esboçaram parar. Mas eu amo bicho e aquilo me pegou, me pegou.
Achei horrível aquilo, só que aí você tem que lidar historicamente com isso e pensar assim: Quais são as minhas circunstâncias? O que eu posso fazer nessa situação? Você tem que ser racional, tem que ser racional.
Eu tô ali, numa situação com a minha esposa dentro do carro, correndo um risco horroroso de um acidente, bêbado para todo lado, uma menina sozinha dentro do carro, correndo na pista, risco de ser atropelado. Cara, tem coisas que você consegue fazer e tem coisas que você não consegue fazer. E você tem que lidar com as suas frustrações.
E você tem que lidar com um negócio que você vai pensar naquilo, eventualmente, o resto da sua vida. É o modo como você vai ter que lidar com isso, não só aquilo que acontece. Então, não são perguntas, mas é o modo como você vai lidar com o que acontece.
Essas não são perguntas abstratas. Em seus escritos, na maior parte das vezes, cartas pessoais ou diários, e em suas palestras, os estóicos esforçavam-se para propor respostas factíveis e reais. Eles acabaram por formular sua obra em torno de uma série de exercícios em três disciplinas críticas, e isso vai dar o norte do livro: a disciplina da percepção, que é como vemos e percebemos o mundo à nossa volta; a disciplina da ação, o que significa dizer as decisões que tomamos e ações que empreendemos e com qual finalidade; e a disciplina da vontade, como lidamos com as coisas que não podemos mudar, como alcançamos julgamento claro e convincente.
E chegamos a uma verdadeira compreensão do nosso lugar no mundo, o que eu fiz com relação ao cachorrinho, uma compreensão do que eu consigo mudar, do que eu não consigo mudar, do que eu consigo fazer naquele momento e do que eu não consigo fazer. Ao controlar nossas percepções, dizem-nos os estóicos, é possível encontrar clareza mental a orientar nossas ações de maneira apropriada e justa. Seremos eficazes ao utilizar e alinhar nossa vontade, encontraremos sabedoria e perspectiva para lidar com qualquer coisa que o mundo nos apresente.
Eles acreditavam que, fortalecendo a si mesmos e a seus conterrâneos nessas disciplinas, poderiam cultivar resiliência, propósito e até alegria. Eu usei alegria ali atrás; eu não gosto muito desse termo porque parece uma coisa meio de abobada, 'vou ficar alegre'. Não é isso exatamente, mas até alegria, mas está mais pra felicidade.
E a felicidade, ela tem um horizonte, digamos, mais filosófico, mas é extraordinário. Alguns de nós, já caminhando pro finalzinho aqui, alguns de nós estão estressados, outros sobrecarregados. Talvez você esteja tendo de lidar com as novas responsabilidades da paternidade, por exemplo, ou com o caos de um novo empreendimento, ou já é bem-sucedido e está lutando corpo a corpo com os deveres do poder e da influência, engalfinhando com vício.
Às vezes, você está profundamente apaixonado ou passando de um relacionamento fracassado para outro, está se aproximando dos seus anos dourados ou desfrutando os espólios da juventude, está ocupado, ativo, morrendo de tédio. Não importa o que estiver atravessando, a sabedoria dos estóicos pode ajudar. Pode mesmo, de fato, em muitos casos, eles abordaram o assunto em termos tão explícitos que são espantosamente modernos.
De fato, aliás, eu, como professor de filosofia antiga, né, essencialmente um professor de filosofia antiga, frequentemente estou falando com a galera lá da Sociedade da Lanterna e os meninos falam assim: "Como é possível que esses caras tenham pensado isso, dito isso? Parece que estão falando com a gente hoje, nesse momento, parece que leram o jornal hoje e vieram fazer esse comentário. " Recorrendo diretamente ao cânone histórico, a essa arquitetura da filosofia estóica, apresentamos uma seleção de traduções originais das mais importantes passagens das três principais figuras do estoicismo tardio: Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio, junto com alguns ditados escolhidos de seus predecessores históricos.
Algumas passagens de Zenão, Cleanthes, Crisipo, Mônio, Ecato, que são figuras de um estoicismo anterior, com algumas. . .
vamos dizer, não é. . .
tá longe de ser a presença majoritária desses filósofos, mas fundamentalmente daqueles três desse período tardio: Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio. Como eu disse, aí tem, acompanhando cada citação, está a nossa tentativa de contar uma história, fornecer contexto. Então, os autores fazem comentários.
Eu já sugeri aqui a vocês que nem sempre concordo pessoalmente com esses comentários. Em algum momento, discordo frontalmente dos comentários, mas claro, vou procurar ser bastante gentil com o trabalho que eles fizeram, porque, afinal de contas, é um tesouro você ter aqui, uma vez por dia, um texto bem selecionado desses filósofos que nos antecederam. O objetivo último, parágrafo: o objetivo desta abordagem prática à filosofia é ajudá-lo a viver uma vida melhor.
É nossa esperança que não haja uma palavra nesse livro que não possa ou não deva, parafraseando Sêneca, ser transformadora em obras. Então, fica o meu convite para que vocês levem essas reflexões como eu procuro levar. Como eu disse, né, eu passei por aquele negócio ali.
Mas eu constantemente passo por coisas que estou sempre me retroalimentando, até porque eu vivo disso. Mas, nem sempre, às vezes a pessoa vive da filosofia, mas ela não traz a filosofia pra vida dela. Eu tento trazer filosofia pra minha vida constantemente, e o estoicismo, nesse sentido, é um baita de um amparo para decisões que você tenha que tomar, para momentos bons e nem tão bons pelos quais nós passamos na vida.
Porque não é só uma resposta aos problemas; é uma resposta também a muito do que você considera hoje ser bom, sem que isso seja bom de fato. Amanhã é dia primeiro de janeiro, e a gente começa a nossa leitura propriamente dita. Beijão para vocês e até amanhã!