Vamos falar de Nausicaä do Vale do Vento, ou para falar bonitinho, Nausicaä. Apesar de muita gente falar que é do estúdio Ghibli, não é, porque o estúdio Ghibli veio depois, mas ele entra ali em uma espécie de anime do estúdio Ghibli que não é do Ghibli, isso por causa da presença do Hayao Miyazaki, no sentido original Miyazaki Hayao, e ele é um clássico que eu nem me dei conta, percebi isso agora vindo gravar o vídeo, que ele é do ano que eu nasci, é de 1984, fez 40 anos. Estou fazendo um vídeo homenagem aos 40 anos do Nausicaä.
Eu nem tinha pensado nisso, mas virou. E eu revi ontem para poder fazer esse vídeo, e mais uma vez eu me emocionei, porque é muito bonito, é de uma força poética absurda, as imagens têm força. Às vezes a gente aqui no YouTube, nesses debates mais corriqueiros, fica muito em cima de enredo, de roteiro, do porquê do arco do personagem X, Y, e vai meio que apreciando a complexidade narrativa de certas histórias.
Dk, isso faz parte. Mas tem outras histórias que a narrativa não é tão complicada. O que é interessante é a força das imagens, a força dos sons, a força das palavras, e isso transborda em Nausicaä, é um troço muito intenso.
Inclusive algo que ficou mais evidente agora vendo a história é a dimensão humana, porque como ele tem um desenho um pouco mais fofinho, digamos assim, ainda assim ele consegue trazer uma dimensão de violência, que é terrível. A primeira vez que eu assisti não me bateu isso, agora revendo isso ficou óbvio, o quanto a gente vê para lá e para cá pessoas em trânsito, mulheres com bebês de colo. Sei lá, eu acho que quando eu vi a primeira vez Nausicaä, o mundo não estava tendo tanta guerra.
Agora que guerra virou uma coisa que a gente consome todo dia na notícia, essas imagens ganham outro peso, elas têm uma outra dimensão. Inclusive, eu vou falar aqui para vocês do anime. Eu tenho o mangá.
Está saindo agora no Brasil pela editora JBC, inclusive aquela coisa de sempre, vão em lojas de quadrinhos, mas foram pelas abas o nosso link aqui para ir atrás. Inclusive o manga veio antes do anime, o manga começa a sair em 82, mas ele seguiu saindo e o anime saiu em 84, o manga foi até 94. Vamos falar da história para quem nunca viu, vamos situar o enredo.
Estamos no ano 3000 e ao que tudo indica ocorreu um ecocídio. A espécie humana destruiu a natureza. Caso as pessoas não saibam, nós fazemos parte da natureza, então quando você destrói a natureza, você também inviabiliza as condições de vida da humanidade.
Só que o anime não dá muito contexto do que de fato aconteceu. Ocorreram os sete dias de fogo, o que dá entender que foram sete dias de profunda guerra. Gigantes foram construídos e utilizados para lutar contra a natureza, contra seres colossais que se colocavam contra a humanidade, porque essa vai ser a descoberta da história, que a coisa não foi bem assim.
Seja como for, houve guerra, destruição e morte em massa. Enfim, apesar dessa coisa indefinida, o lance é que agora no ano 3000 as pequenas comunidades humanas resistem, e a gente acompanha o povo do Vale do Vento, que tem esse nome porque é um vale e lá venta. Mas tem a ver com o fato de que pelo lugar que eles estão, eles não estão à mercê do Mar Podre, que também às vezes é chamado, eu já vi também ser chamado, dependendo da legenda, dependendo da versão, da tradução de Nausicaä, de Mar da Corrupção, que eu acho que tem um peso poético maior.
E esse Mar Podre, apesar do nome Mar, porque a água é contaminada, tem a ver mais com uma onda. Então vai se criando uma série de, sei lá, me falta vocabulário da área de botânica, que vão brotando uma espécie de ervas daninhas, ou cogumelos, ou coisas do tipo que vão tornando o ar extremamente tóxico. E a gente já vê isso logo no começo, acompanhando o personagem do senhor Yupa, que é um veterano, um grande guerreiro, e por onde ele passa, ele vê morte.
Inclusive, aí entra a dimensão humana desse anime, porque é sutil. Mas logo no começo ele chega em uma casa, onde as pessoas estão mortas, a gente não vê nada muito explícito, mesmo os elementos mais grotescos são um tanto suaves, ou mais lúdicos. Mas é na sutileza que mora a crueldade, porque ele pega um brinquedo de criança no chão, então já tudo dá a entender que naquele lugar não sobrou ninguém, nem as crianças e assim, todo mundo morreu.
Obrigado, Argeu. Valeu. E o Vale do Vento está mais ou menos isento disso, pela posição que ele está, então ali eles conseguem viver.
E o que eu acho engraçado, e vem um elemento já do anime, é que ele também tem um pouco de uma certa linhagem Disney, porque a gente tem na história três princesas e o embate entre essas três princesas. A principal é a nossa protagonista, é a Nausicaä, que é a princesa ali daquele reino, do Vale do Vento. E os outros dois povos que a gente vai acompanhar na história, que é o povo Pejite e o povo de Tolméquia, ambas são apresentadas também muito a partir das suas princesas.
A princesa de Pejite morre logo no começo e a de Tolméquia se torna a antagonista, que é Kushana. Você está assistindo a um corte de uma live exclusiva para os apoiadores e membros do Quadrinhos na Sarjeta. Então, caso você queira debater comigo filmes que ninguém mais dá bola, se torne um apoiador.
Além disso, curta, se inscreva e compartilhe esse vídeo, que ajuda bastante. E quem é a Nausicaä? Quem é a nossa protagonista?
Bom, ela de cara já se mostra como uma menina extremamente fascinante. Ela é bonita. Eu acho bem safado por parte dos animadores terem feito ela com uma calça cor nude, porque no primeiro momento eu jurei que estava vendo a bunda dela.
Eu disse, meu Deus, estão desenhando essa mina voando sem calcinha, mas não, é a calça dela, só que a cor é meio parecida com a cor da pele, será que eu estou maluco pensando nisso? E tem uma coisa ali que ela voando, enfim, são imagens muito poéticas tudo isso, mas que dialogam diretamente com a ficção científica francesa dos anos 70 e ali você já vê as referências do Miyazaki. Nausicaä voando lembra muito Arzach de Moebius.
Inclusive os figurinos ali que a gente acompanha também são muito próximos do Moebius. E, aliás, dá uma brincadeira aqui, porque o Moebius gostava muito de desenhar desertos e aqui o que Nausicaä traz é também um deserto, só que no caso um deserto verde, um deserto onde não há vida ou a vida que há é extremamente ameaçadora. E uma coisa que desde pronto é mostrado a respeito da Nausicaä é que ela é curiosa, ela investiga.
Inclusive isso vai ser desenvolvido mais ao longo da história, ela faz experiências com as plantas, ela é uma verdadeira botânica. E é ela quem começa a descobrir que a vegetação, o bolor, o Mar Podre só existe porque ele cresce em cima da água e da terra contaminada, ou seja, sinais da poluição desse ecocídio que aconteceu séculos atrás. E daí ela percebeu que o tal do Mar Podre não é podre quando cresce em uma água e em uma terra limpa, daí que aos poucos ela vai sacando que a coisa é mais complicada.
Outro traço muito forte na Nausicaä é a empatia dela. Isso é mostrado desde o começo, ela é curiosa, mas ela é empática, ela tem um cuidado, ela tem um carinho com seres vivos e ela procura, inclusive, evitar a todo custo que qualquer ser vivo sofra. E aqui, galera, vem a parte que começa a tornar a Nausicaä muito interessante, porque os animais que a gente acompanha, tem vários tipos de animais, alguns são mais fofinhos, mas os principais que se colocam, inclusive, como ameaças são insetos gigantes.
Inclusive, o principal é os Ohms, que são uma espécie de trilobitas gigantes e que lembram demais os vermes gigantes lá de Duna. Eu acho que uma certa sensualidade faz parte e, até sendo bem franco, eu acho que ajuda na história. Isso se dá dessa forma porque o tempo todo ali o que está se buscando é reconquistar a sensualidade, a experiência sensível com a natureza e essa experiência sensível não é só da iluminação divina, extracorpórea, aí é um ranço meio cristão nosso.
Essa iluminação é uma iluminação que se dá dentre as coisas, então aqui tem algo mais budista. Aliás, esse anime tem muito de budismo, porque tem a ver até mesmo com as referências. Uma outra referência muito forte em Nausicaä do Vale do Vento é o conto chamado Mushi-mezuru Himegimi, ou A Moça que Amava Insetos, escrito no século XII, período Heian.
E esse conto fala de uma mulher da alta sociedade que começava a se descuidar dos seus afazeres, das suas obrigações, inclusive em termos de como ela deveria se portar, como ela deveria se vestir, e passava a se sentir fascinada por insetos, a ponto, inclusive, de nomear os empregados com nomes de insetos. Algo que tudo indica isso era uma referência a um figurão da época, um figurão político, mas também é preciso lembrar que o período Heian foi o período onde o budismo chegou com muita força no Japão. Então havia também um componente de crítica à aristocracia, de crítica a certas futilidades dos nobres.
Obviamente o Miyazaki conhece essa história e deu uma mexida nisso, porque a Nausicaä não se coloca como uma figura fútil. É justamente o contrário, ela está aqui para reafirmar esse princípio budista, que tem a ver com o reconhecimento da vida nas coisas, mas também, e esse talvez seja um dos motos principais, o mal não é algo exterior, o mal não é um demônio, o mal é humano, o mal brota da ignorância, o mal é criado dentre os próprios seres humanos. E se vocês forem ver o anime ao tempo todo isso, Nausicaä lutando contra o mal, afirmando a vida diante do vazio da morte.
Só que ao mesmo tempo, e aí que amarra com o budismo, reconhecendo a potência no próprio vazio. O vazio da morte também é o vazio regenerador, é o vazio que também a partir dele a forma é possível. E esse é o processo da própria natureza, as coisas passam, elas se desfazem para dar lugar a outras coisas a partir dos restos anteriores.
Sim, mas aqui com a diferença é que a Nausicaä não mata eles, não conserva eles de maneira a aliená-los do seu próprio ambiente, ou não faz experiências cruéis ou coisa assim. Exato, inclusive a beleza dela, é uma beleza infantil, ela é delicada, ela é doce, então também serve para contrastar com esse mundo que é extremamente horrível. E o anime é consciente desse messianismo, porque aqui eu já posso dar um senhor spoiler, mas convenhamos, isso é meio óbvio.
Você está vendo o anime e já sabe o que vai acontecer. Eles começam falando que tem uma profecia de que vai vir uma figura messiânica que vai salvar a vida de todos, que seria um homem que viria dos céus e andaria em um campo dourado e ele estaria com uma roupa azul. E a gente já saca que isso depois vai virar Nausicaä.
Mas o contexto em que isso acontece é muito bom. Mas voltando aqui para a história da Nausicaä. Se a gente for ver, o enredo mesmo é só um imbróglio ali entre outras nações, outros grupos e cada um querendo ter mais poder.
E tudo assentado na disputa do domínio da terra, que é a história da humanidade. A história das grandes merdas da humanidade até hoje é isso aí, assim como, óbvio, a busca por recursos. Daí que tem aquela invasão, que é bem pesada, do povo de Tolméquia.
Inclusive eles acabam matando o pai da Nausicaä e é aquele único momento onde a Nausicaä se mostra o Rambo, porque ela pega e mata geral e depois ela se sente muito mal pelos soldados que ela matou. Inclusive algumas das imagens mais chocantes vêm dessa invasão, das pessoas com criança correndo, sendo reunidas em uma praça, eles achando que vão ser massacrados. De novo, tem no estilo do anime uma certa delicadeza, mas os temas são pesados.
Aliás, ele só não é insuportável justamente porque ele é delicado na forma de tratar esses temas. Eu também tenho essa mesma relação com ele, tanto que toda vez que eu revejo, eu volto a lembrar do enredo, ah, acontecia isso e tal. O que fica é o lirismo, não é a narrativa, não é o drama, não é o drama que fica, é a lírica.
Mas seguindo esse imbróglio político. A Princesa Kushana está ali porque o avião do outro povo, o Pejite, caiu lá, onde morreu a outra princesa deles e eles estavam portando o que seria o embrião de um dos gigantes, aqueles que colocaram fogo no mundo todo. E tem uma briga entre os dois grupos, os Tolmequianos querem ressuscitar o gigante para que ele possa fazer com que eles triunfem contra a natureza, porque esse bolor, esse mar podre não para de se espalhar, o que vai gerar mais guerra, além do que já rola.
E o povo de Pejite entende que não, esses gigantes são um problema. Só que isso não faz o povo de Pejite os mocinhos da história, pelo contrário, eles também são capazes de grandes crueldades. A gente descobre que eles pegaram um bebê ohm, fizeram horrores com esse bebê, torturaram o bebê.
A gente olha e não consegue ter muita empatia porque é um trilobita. Mas a Nausicaä tem e tudo eles estão fazendo para que os insetos sejam atraídos e se voltem contra os Tolmequianos. Então, basicamente, está todo mundo errado.
Só o pessoal do Vale do Vento, que estava ali na sua. Muito por causa da liderança da Nausicaä, ali o pessoal estava fazendo a coisa mais certinha. Mas o resto estava fazendo muita merda.
E eles ali, que tinham uma vida pacata, se veem no meio dessa confusão toda. Eu gosto muito do fato de o anime ter pegado esses insetos para os nossos principais referenciais de animais ameaçadores, mas que demandam um exercício de empatia. Porque vamos combinar, fazer eles fofinhos, ia ser muito fácil ter empatia com eles.
Se eles parecessem um coelhinho, um cachorrinho, um gatinho, a empatia já está pronta. Aí que eu gosto do desafio aqui, são insetos, são seres repugnantes e grandes com os quais você não consegue encontrar um ponto nenhum de identificação. Nós, mamíferos, somos muito diferentes desses bichos, então no momento em que eles possam parecer ameaçadores, só mata.
Isso a gente faz no dia a dia, passou uma aranha aqui, a gente não sabe se a aranha é venenosa ou não, já mata. E a Nausicaä não. A Nausicaä é aquela que está buscando meios e meios e meios para se comunicar com esses animais, para estabelecer com eles uma ligação e evitar todo o custo que precisa sacrificar.
Aliás, eu fiquei até pensando nisso na história, o que a Nausicaä come? O que dá a entender que o pessoal ali do Vale do Vento são inclusive vegetarianos. Exato, e é uma compreensão da impermanência, que também é uma coisa muito cara ao budismo.
Você entende que está tudo em trânsito, não tem nada assim fixo. Eu quero buscar imortalidade, você não vai buscar isso, você não tem nem por que buscar isso. Mas se tiver tecnologia.
. . Por que você quer isso?
A vida é impermanente, a vida está sempre em trânsito, a vida está sempre mudando, só há vida porque as coisas dão espaço umas para as outras, a vida prolifera porque ela precisa de espaço, ela precisa de vazio. Outra referência também que aparece na Nausicaä, que vale comentar, é a Nausícaa da Odisseia, que sinceramente eu não vi muitos pontos de contato, exceto que a Nausícaa mítica é uma figura de hospitalidade, e aqui eu acho que sim, aí sim eu começo a ver nexo, porque a Nausicaä do anime também é uma figura de hospitalidade, mas não no sentido de receber estranhos na sua casa, mas de entender que todos nós habitamos um mesmo mundo e que todos nós temos o nosso espaço, todos nós podemos conviver, todos os seres vivos são bem-vindos. E uma figura que depois vai se somar a ela no meio de uma série de embates aéreos.
. . Aliás, como tem embate aéreo, isso eu não lembrava, agora eu revendo e ficou tão óbvio que tem muito embate aéreo.
Inclusive, leis da física, algumas vão para o espaço. Mas nesses 500 embates aéreos, é aí que aparece a figura do Asbel, que é do povo de Pegite, tem a mesma idade da Nausicaä, então é quase ali um casalzinho, e que depois, inclusive, vai se voltar contra o próprio povo para salvar ela e vai entender basicamente pelo que ela está lutando. Sinceramente, é perda de tempo ficar falando tanto do enredo aqui, porque, no final das contas, a força está nos momentos e nas imagens produziadas por esses momentos.
A Nausicaä e o Asbel vão parar em uma areia movediça e depois ela cai e ela descobre que existe uma espécie de floresta embaixo do Mar Podre. E essas florestas são de árvores mortas, mas elas ainda carregam água, e é aí que ela entende que, no final das contas, é a natureza se curando, a própria natureza está purificando a terra, está purificando a água e está, com isso, germinando vida. Inclusive, já dando todos os spoilers do mundo, a última cena, a final é de mostrar que, naquele lugar onde a Nausicaä passou, finalmente está crescendo uma árvore, finalmente está brotando algo vivo, limpo, saudável.
E o que encanta, o que pega são os vários momentos do maravilhamento da Nausicaä perante a vida. É contagiante o entusiasmo dela, a alegria dela, a felicidade que ela tem por estar sempre diante de vida, mesmo olhando para os lugares mais sombrios. E eu acho que essa foi muito a proposta desse anime, de conseguir compartilhar com a gente um maravilhamento, um encanto.
A Nausicaä é uma princesa encantada, mas de um jeito muito diferente. Talvez é uma princesa encantadora, porque força a gente a partilhar a visão dela e, com isso, também ter uma outra visão da relação nossa com a natureza. Mas, assim, só para explicar um pouco os meandros da história, esses conflitos entre grupos vão se tornando cada vez mais violentos.
E o que a gente entende é o seguinte: os ohms, aqueles trilobitos gigantes, são uma espécie de guardiões da natureza. Então eles estão ali não porque eles são o resultado de uma praga, ou eles são a encarnação da praga. Não, eles estão mais, justamente, como a linha de frente, aquilo que resiste perante a destruição da natureza que os seres humanos causam.
Ou seja, eles são basicamente figuras monumentais que se opõem ao mal, esse mal interior, que é fruto da ignorância, da ganância, da raiva humana. E aí aquela cena, mais para o final, quando o filhote ali de trilobita está sofrendo, está sangrando. .
. Cara, aquela cena é muito boa, porque naquele momento, se você embarcou no anime, naquele momento você já olha para esses bichos de outra maneira. Você já vê neles algo além, simplesmente, dessas figuras ameaçadoras e desumanas.
Então o sofrimento da Nausicaä perante aquele filhote sofrendo daquele jeito, cara, é avassalador. E daí tem aquela cena que eles caem em uma ilhota em volta de um rio ácido ali, sei lá, e o bicho não saca, é um bicho. Ele quer fugir dali e ela está segurando ele e ela queima o pé no ácido, cara, que cena angustiante.
E ali tem uma sacada, porque ela está com uma roupa rosa e ela vai ficando azul do sangue do bicho. E aí vocês lembram da tal da profecia depois, que vinha o messias de azul? Então esse messias está tingido de azul porque é azul de sangue, só que no caso, sangue de um outro animal.
E daí que esse salvador é aquele que, tingido do sangue de outro animal, não é porque ele matou esses animais, mas porque ele estava ocupado cuidando. Nota aí a ênfase na ideia de cuidado, na ideia de zelo pelo outro e esse zelo pelo outro, como um zelo de si, que afinal de contas estamos todos ligados, ninguém é separado um do outro, ninguém vive em uma bolha separada, ainda mais quando a gente pensa na natureza. Exato, dava para levar isso para a dimensão mais simples, ou seja, pessoa branca que já desumaniza uma pessoa negra, que foi o que aconteceu.
Então daí o desafio desse anime de fazer essa desumanização, não só com aquele que é diferente de você, mas ainda é um ser humano, mas é com um inseto, é um bicho que todo dele é asqueroso. Sim, ela também é um avatar de paz, ela várias vezes se coloca uma figura de interrupção do conflito. E é interessante que a personagem lá da Kushana, que é uma escrota.
. . Inclusive, mostra que ela tem esse ressentimento todo porque ela perdeu parte do corpo por causa do Mar Podre.
Ela aos poucos vai reconhecendo a liderança da Nausicaä. Ela vai vendo na Nausicaä uma força, uma potência que ela não tem. E é muito interessante isso, até a nível pessoal de todos nós, onde é que vira a chave da inveja para a admiração, onde é que vira a chave daquela pessoa que você fala: não, ele tem muito poder, ele ganha muita atenção, esse é um escroto, eu não gosto dele, de repente você fala, quer saber, merece ganhar atenção, também vou dar essa atenção, também vou admirar essa pessoa, também vou celebrá-la, também vou exaltá-la.
E o arco dela é um pouco isso. Ainda que isso não fique 100% resolvido. A história meio que termina ainda sem fechar a história dela.
Mas o arco dela é cada vez mais reconhecendo na Nausicaä algo que ela talvez quisesse ter e talvez não precisasse ter, a Nausicaä já tem, então já está bom. E depois quando ele ganha aquela forma, a gente entende o que aconteceu na humanidade, que foi uma coisa horrorosa. Porque ele está lá ainda não plenamente desenvolvido, mas ele é ressuscitado pela galera de Toméquia para se contrapor à invasão dos ohms, que foram levados por aquele filhote que estava sofrendo, foram conduzidos pelo povo pejite.
E quando esse monstro que está ali se despedaçando. . .
Inclusive em técnicas de animação é muito interessante a cena. Ele solta uns raios, explosão nuclear, é um bicho atômico. Basicamente o que a humanidade fez foi criar armas de destruição em massa humanizadas ou humanoides.
Não fica claro o que aconteceu no passado. Só dá a entender que nós criamos coisas muito destrutivas. Só que são muitos ohms, então ele consegue matar alguns, mas não consegue matar todos e ainda assim está lá se desfazendo.
Então não dá certo. Daí que a estratégia da Nausicaä para interromper tudo aquilo, porque os ohms estão indo em direção ao povo ali do Vale do Vento, que naquele momento já estava exilado. .
. Aliás, essa história traz muito isso, pessoas em exílio. O povo pejite também está em exílio.
Está todo mundo em trânsito, que é uma coisa muito típica de guerra. As pessoas não param no lugar. As pessoas não conseguem construir uma família, não conseguem construir um lar, porque estão sempre no meio de um conflito, sempre precisam escapar para lá e para cá.
A maneira que a Nausicaä de tentar interromper com isso é se colocando no meio daquela multidão de ohms. Basicamente ela vai morrer, mas ela está com o filhote ali. E ela basicamente está meio que conclamando a empatia também dos bichos.
Está dizendo: tenho aqui um filhote de vocês, parem. No primeiro momento não dá certo. Dá para dizer que ela morre e daí vem a ressurreição.
Então sim, tropos cristãos aqui também estão presentes. E aí vem a visão dela como essa figura messiânica, porque o campo dourado, que era uma imagem associada a esse messias. Bom, aí são os tentáculos ali, um termo daqui do negócio, que saem dos homens e conseguem curar ela, conseguem regenerar as feridas dela.
E aí amarra também com alguns flashbacks, que eu acho bem interessantes, porque mostra que ela era uma criança que desde cedo tinha uma paixão por esses insetos. O pai dela tirou isso dela, claro, querendo cuidar dela, querendo garantir que ela não fosse atacada, mas isso fez ela sofrer muito. E engraçado que essas imagens mostram ela em um campo dourado.
Enfim, esse papo é messiânico da Nausicaä para mim é uma coisa mais telegrafada em termos de roteiro. Inclusive nem acho que eles queriam fazer surpresa, estava na cara já desde sempre que ia ser isso. Inclusive no início do anime que tem imagens de tapeçaria, que dão a entender o que aconteceu na terra, tipo, cara, já vê ali que a figura alada é a Nausicaä.
Então o anime vai muito mais em uma direção, sei lá, de um filme a al Profecia. Você já sabe que o menino é o diabo. Você está vendo mais ou menos como é que esse processo vai se dar.
Então ali já se sabe que a Nausicaä é a salvadora, é uma figura angelical, uma figura que voa de asas brancas. Então agora a questão basicamente é como ela consegue trazer a paz, como ela consegue trazer a boa nova, que em grego quer dizer 'euangelion'. .
. o evangelho de Nausicaä. É basicamente isso que está aqui em jogo.
Isso é uma coisa que pouca gente se dá conta, Moebius foi muito influente em uma geração inteira de mangakasas. Essa geração dos anos 80, eles são muito influenciados pelo Moebius. Outro cara que foi muito influenciado pelo Moebius foi o Katsuhiro Otomo do Akira.
E muito dessa invasão japonesa, porque essa invasão japonesa no ocidente nos anos 80 e obras como Nausicaä, obras como Akira foram fundamentais, pois bem, tudo isso tem ali o dedo do Moebius. Se fosse fazer uma lista de top 10 quadrinistas mais influentes de todos os tempos, o Moebius está em uma das primeiras posições. Muita coisa que a gente nem se dá conta, existe porque tinha gente que curtia Moebius na parada.
Tem uma parada que rola no anime, que eu acho que talvez possa fazer com que alguns vejam como um problema, é o quanto esses personagens coadjuvantes parecem tão incompletos. O Yupa parecia ser um personagem que ia ser muito mais desenvolvido, não foi. O Asbel tem sua redenção quando ele ajuda a Nausicaä, mas também azar.
A Kushana, como eu já disse, também tem um arco próprio que fica meio inconcluso. A única personagem que realmente tem um arco próprio, a única personagem que inclusive nos convida a ver os outros personagens com outros olhos é a Nausicaä. Isso, dentro daquelas fórmulas de roteiro, é ser um papo de não é bom, está faltando, viu como não é perfeito.
Já eu sinceramente acho que isso é sinal de muita maturidade, de pegar esses personagens e dizer: cara, vamos trabalhar eles no que importa, a gente não precisa fechar o arco deles, a gente não precisa resolver eles, eles estão ali dentro da função narrativa deles que cabe. E voltando a lembrar, o nome do negócio é Nausicaä do Vale do Vento, a nossa protagonista é a Nausicaä, é isso que interessa. Nesse sentido eu acho até que está bastante claro, o Mar Podre é uma consequência da relação predatória com a natureza.
Dá para a gente pensar isso como mudança climática, porque ali são os insetos, são os ohms atacando, mas troque ohms por furacão, por tsunami. Nós estamos intervindo a natureza, estamos bagunçando, estamos cometendo um ecocídio e a natureza reage, normal. E daí a gente cria mecanismos e instrumentos ainda mais violentos para lidar com essa resistência, o que por sua vez provoca mais resistência.
E aí chega uma hora que não sobra nada. Quem sai perdendo? É óbvio que é a humanidade que sai perdendo esse processo.
Eu nem veria na perspectiva de culpa, não acho que o que tem aí é culpa. Por isso que eu falo, eu continuo achando que tem aqui um budismo muito forte de fundo. Eu não sou especialista em budismo, então pode me corrigir aí, mas o que para mim fica muito evidente é que todo o mal é um mal humano.
O próprio discernimento de bondade e maldade cabe ao humano e é a ignorância a fonte do mal, inclusive a ignorância desse discernimento moral. Então por não reconhecer o mal que fazia à Terra, o mal que fazia a si mesmo, fez com que esse mal só proliferasse, se mantesse, inclusive no ano 3000 ali naquela disputa ali entre nações, entre grupos. E o bem diante deles, o bem que estava o tempo todo ali só a Nausicaä é capaz de apontar.
Por isso que ela é uma figura de evangelho de boa nova. Ela está basicamente dizendo: gente olha só, aquilo que a gente vê como mal não é tão mal assim, talvez seja o bom, e aquilo que a gente acha como é bom, isso sim é o mal. Ela está ali trazendo uma novidade, por isso que ela é muito angelical, ela veio dos céus para trazer a notícia.
Só que aí entra esse componente que não é mais tão cristão. Tudo aqui tem muita fisicalidade, inclusive sensualidade. Não é uma figura angelical andrógina ou coisa que fosse, não.
A Nausicaä é uma menina bonita, e beleza é fundamental neste mundo que quer reconhecer, inclusive, a beleza dos insetos, a beleza de todas as outras coisas. Então, enfim, é um ode à beleza também. Sabe aquele papo clichê, a natureza é bela?
Pois bem, aqui isso está valendo. Tem um detalhe que eu acho bastante curioso, que é o fato de que a visão desse futuro onde uma liderança vai nos guiar para o mundo melhor, ou seja, toda essa imagem do messianismo é fomentada na história por uma mulher cega. O que eu acho maravilhoso.
A visão é de uma cega. Inclusive é ela que legitima quando vê a Nausicaä ali toda de azul, no campo dourado. Na verdade ali é Drsons.
É ela que diz: está aqui, está aqui a prova, ela é a escolhida, ela é o messias, ela que vai nos salvar. E essa relação com a cegueira, tem gente que pode enxergar isso como fé cega, mas aqui eu acho que tem muito mais a ver com a capacidade de enxergar para além do óbvio, de construir uma visão que não é aquela de imediato do sentido. E eu nem diria que está em uma dimensão espiritual, ainda que possa ser pensado assim, mas de entender que ver o mundo significa abarcar coisas que não é só da ordem do visível.
E esse é o ponto ali fundamental da Nausicaä. Ela está o tempo todo encontrando conexões, pontos de contato com seres que não são expressivos, que à vista não manifestam qualquer emoção. Ou seja, a Nausicaä já é aquela capaz de ver além do óbvio, de modo que ela talvez seja a continuidade de uma tradição dessa anciã cega, aquela que desde sempre foi capaz de conferir uma visão a esse povo que está além do óbvio, do evidente.
Sim, porque esse também é um outro componente aqui muito forte em Nausicaä, nada de bom pode vir da destruição. A ideia de uma destruição regeneradora para que depois disso a gente faça uma sociedade melhor, basicamente aqui a Nausicaä está dizendo, não vai rolar, não dá certo. Cara, isso aparece em vários animes, em vários mangás, aí é uma coisa também muito cultural ali, japonesa.
Cruzamento de budismo, constituísmo, até mesmo com o confucionismo, que é o entendimento de que: olha, qualquer tipo de violência que você fizer para depois disso constituir algo melhor, não vai dar certo, porque já começou ruim. Você já criou ali uma condição de causa e efeito que vai fazer com que os efeitos sejam contaminados pela causa. Por isso que a Nausicaä também é uma figura de iluminação, que consegue interromper uma sansara, que consegue por fim ao sofrimento, estabelecendo um novo momento, conseguindo ser com isso uma figura guia de um novo estado de relações com a natureza.
Dá para falar também da trilha, que é lindíssima, delicada, no tempo certo, quando precisa nos dar um soco no estômago. Mas para não ficar me repetindo aqui, a palavra é essa: Nausicaä é bela. O anime é belíssimo, não só porque são imagens bonitinhas, mas porque consegue nos convidar.
E, pelo menos no meu caso, eu consegui embarcar mesmo em uma contemplação, em uma reconsideração da própria vida a partir de um estado de beleza e de conseguir realmente nos convencer do quanto, um, não somos separados da natureza, não existe esse papo homem e natureza, humano e natureza, e dois, tudo é vivo a nossa volta, de modo que a nossa relação com a vida não é uma relação só com a própria vida, mas sim de uma vida que só é possível de maneira ecossistêmica, daí que todo o ecocídio é também um suicídio. Eu acho que isso é uma visão muito cristã, Eduardo, porque, ok, a Nausicaä acaba se sacrificando de fato, mas a ênfase ali não está no sacrifício dela. Ela não se torna um demarcador de virtude por ter se sacrificado.
Eu acho até interessante isso e mostra um certo descompasso cultural nosso em virtude de estar vendo um anime, uma produção japonesa. É que o sacrifício demanda a gente pensar em alguma coisa que foi morta propositalmente para que, a partir disso, houvesse uma regeneração. E esse componente do ser morto propositalmente, isso não tem Nausicaä.
As coisas morrem porque elas precisam morrer. Eu não preciso apressar esse processo. Eu não preciso interpor nele.
Eu não preciso de um sacrifício para entrar em conexão com Deus. Esses sacrifícios já se dão, porque a natureza funciona assim. Então por mais que a narrativa traga esses eventos, a Nausicaä, enquanto heroína, enquanto figura de uma novidade, enquanto uma figura angelical, a mensagem dela ainda é outra.
Por isso que eu trocaria a ideia de sacrifício e colocaria no lugar a ideia de vacuidade. O vazio do eu é a afirmação do nós, talvez até seja difícil falar em termos de nós, porque é o reconhecimento de uma vida que não se limita, não dá para dizer que começa em mim e termina no outro. Não tem esse papo.
Existe um contínuo e esse contínuo tem buracos, tem vazios e desses vazios brotam outras coisas, algumas coisas deixam de existir, formem vazios sempre em consonância, o que é uma coisa muito, muito budista. Mas é isso, gente, então assim, sinceramente, fica só a sugestão. Quem não viu, vai ver Nausicaä.
Quem já viu, olha de novo. É uma obra que, como eu falei no começo, já fez 40 anos e segue atual, terrivelmente atual. Queria eu dizer, cara, que papo ultrapassado, a gente não tem mais esse perigo, mas a gente, na verdade, está ainda mais próximo dessa distopia que Nausicaä traz.
Então para encerrar, vão ver Nausicaä do Vale do Vento. Vão chorar, que nem eu chorei.