Aí galera que curte engenharia clínica hoje eu vou falar pra vocês sobre um tema muito interessante que é o preparo contra desastres. Qual é o papel da engenharia clínica nesse contexto de preparo contra uma situação de desastre? Antes de a gente começar é bom a gente entender quatro coisas importantes.
Primeiro, os desastres podem ser naturais ou podem ser produzidos pelo homem e eles podem também ocorrer fora do hospital ou dentro do hospital. Alguns desastres afetam a estrutura interna do hospital e outros afetam a estrutura externa e, invariavelmente, acabam necessitando de um hospital. Por isso a gente tem que entender que um hospital que é dito "seguro contra desastres", ele não somente consegue se manter em operação, mas também ampliar a sua capacidade de atenção.
Dois pontos importantes: quando vocês forem estudar textos na língua inglesa vocês vão encontrar o termo "Safety" e o termo "Security". Então, "safety" é aquela segurança contra os riscos acidentais, riscos não intencionais que é o caso de "security". Então o indivíduo roubar um veículo dentro do hospital é uma questão de security.
Por isso que no preparo contra desastres, a ação do hospital tem que ser sistêmica, tem que envolver organizações como, por exemplo, defesa civil, corpo de bombeiros, polícia e outras que na região onde o hospital existe estejam atuando. Para controlarmos ou diminuirmos o impacto de uma situação desastrosa, vamos dizer assim, é preciso envolver todas as partes interessadas e não somente engenharia clínica. Cada pessoa, cada ambiente de trabalho tem uma, vamos dizer assim, uma condição de risco que a gente pode encontrar e por isso a gente deve envolver todos.
Então diretoria, diretoria médica, diretoria administrativa, financeira, chefe de centro de custo, os níveis gerenciais, supervisão, coordenação. Somente assim a gente vai poder garantir que todos os problemas possam ser endereçados, ok? Então não é uma coisa que se faz sozinho.
É claro que em hospitais mais organizados existem várias contribuições como da segurança do trabalho, núcleo de segurança do paciente, controle de infecções hospitalares. Então você acaba envolvendo toda uma equipe de profissionais que vão tratar de fazer um plano para ajudar o hospital a se encontrar numa situação preparada contra desastres. Eu vou falar cinco etapas.
A primeira delas é saber reconhecer uma fonte de risco e o seu mecanismo de ação. Nesse ponto, nós da engenharia clínica podemos contribuir muito com a identificação dos riscos que são associados aos equipamentos médico-assistenciais. Os engenheiros hospitalares, os riscos de infraestrutura, os engenheiros de segurança do trabalho, por exemplo.
Os riscos associados às atividades ocupacionais de cada trabalhador. Então quando você junta esse conjunto de pessoas e de profissionais para poder reconhecer e saber que o risco existe é a primeira etapa. Identifique todos os riscos dentro, fora e relacione.
Por isso é importante conversar com as autoridades. Normalmente elas têm histórico de risco para aquela região onde o hospital está inserido. Então a primeira pergunta é essa: quais são os riscos que eu encontro aqui neste hospital que podem levar a uma situação desastrosa?
Na segunda etapa a gente tem que medir o risco e avaliar a magnitude dele. Alguns riscos a gente consegue medir sistematicamente como a iluminação, ruído (que é a pressão sonora), temperatura, mas alguns riscos a gente não tem um parâmetro muito objetivo para essa medição como, por exemplo, a falta de oxigênio. Qual é a probabilidade de faltar oxigênio nesse hospital?
Uma coisa é se o hospital está na região onde a fábrica de oxigênio se encontra. Outra coisa é se o hospital está a uma distância muito grande dessa fábrica, o que vai acabar mexendo nesse plano. Então avaliar a magnitude do risco é importante que o pessoal da engenharia clínica contribua com esse conjunto de informações que vai permitir o comitê trabalhar com mais segurança.
Na etapa 3 é importante priorizar os riscos. É incomum que a gente tenha todos os recursos para endereçar situações de todos os riscos. Então esses riscos devem ser priorizados de modo que a gente possa cuidar daqueles que podem gerar fatores de insegurança maior do que outros, ok?
Então não esqueça de priorizar risco. Você pode utilizar vários critérios, mas o importante é que saia em consenso desse comitê qual o risco é mais importante e endereçar soluções. Na etapa 4 é importante definirmos quem é o responsável por esse plano e os recursos que vão ser disponibilizados para que esse plano possa ser desenvolvido, possa ser implementado, os profissionais do hospital sejam treinados para reagir adequadamente a uma situação desastrosa e também a comunidade porque, como eu disse, alguns riscos ocorrem fora do hospital.
Um exemplo é o desastre natural, que no Brasil é muito comum, que é o alagamento. Acaba afetando a vida das pessoas no entorno do hospital. Ou incêndio, que dependendo da distância do hospital para as edificações, tudo isso é importante a gente considerar para levar nossa contribuição para o comitê que vai desenhar o plano de preparo do hospital contra situações de desastre.
Terminado isso, o que precisamos fazer? Testar o plano. Quanto mais frequente for o teste, maiores serão as chances de a gente ter um resultado bem-sucedido frente a uma situação de desastre.
Nós tivemos aqui esse ano pelo menos dois incêndios relacionados a hospitais. Felizmente os hospitais estavam preparados, as equipes de combate a incêndio, brigada contra incêndio ou bombeiros civis deram conta do recado, fizeram o que tinha que fazer e esse incêndio não passou mais do que uma situação prática para nós podermos avaliar o risco. Então em situação de desastre nada como está preparado.
É importante lembrar que o plano é dinâmico, ele vive, ele repulsa, ou seja, quando eu mudo de tecnologia, trago um equipamento novo, trago uma nova fonte de risco, trago uma organização nova para trabalhar dentro do hospital, tudo isso vai levar a modificação, atualização e adaptação do plano de emergência, de preparo contra situações de desastres no seu hospital. Bom, vocês vão encontrar várias literaturas que vão ajudar vocês a estudar isso. Os próprios guias das organizações de acreditação já endereçam bastante esse problema.
É uma questão de você responder já ajuda bastante, mas quanto mais a gente de engenharia clínica estiver ciente das fontes de risco e dos mecanismos de ação de um hospital, melhor. Nesse sentido, eu quero apresentar aqui para vocês o "Manual de Segurança no Ambiente Hospitalar", que foi escrito em 1993/1994 e foi publicado em 1995 pela Anvisa, mas a Anvisa não colocou o índice, não colocou as referências bibliográficas, o índice remissivo, enfim, e nós acabamos escaneando esse manual, então nós temos ele escaneado e desse modo as pessoas podem pesquisar, facilitar a pesquisa, consultar as referências bibliográficas. Embora tenha sido publicado em 1995, muita coisa que está aqui é atual e vale a pena estudar para fortalecer nossa capacidade de identificar riscos, saber como se mede a magnitude do risco e a proposição de medidas de controle.
Então se você quiser receber esse manual, manda um email para escola@engenhariaclinica. com com a linha de referência: "Manual de Segurança no Ambiente Hospitalar" que a gente vai mandar para você, disponibilizar isso para você estudar e facilitar o seu aprendizado nessa questão de segurança no ambiente hospitalar. No mais, é isso que eu queria dizer para vocês e obrigado pelo seu tempo!