A professora Daniela, eu quero que você me diga por que você falou que era preciso ter bastante coragem, para, no momento, você deixar o curso de Arquitetura, interromper e decidir fazer Letras; da coragem de fazer um curso de formação de professores e ser professora. Então, quero que você fale um pouquinho sobre por que veio a essa escolha de ser professora. E sim, só que a realidade exige coragem, né?
Power Wellies, a dança é Roberto, porque o magistério é desvalorizado na mentalidade de um jovem. Ele não quer reproduzir aquilo que, até ele, às vezes acaba desvalorizando. Então, no cenário atual, no nosso país, lógico que me formei faz bastante tempo, mas isso historicamente está se repetindo há algum tempo.
Está ocorrendo que ser professor é, às vezes, uma segunda opção para quem não teve oportunidade, para quem não pode pagar um curso mais caro. Infelizmente, a gente precisa sim militar e mostrar que não é isso, né? Porque, a partir do momento que a gente ingressa no curso de formação de professores, a gente se apaixona e ali a gente se encontra.
Você com certeza está saindo muito bem. Eu quero que você, por favor, retorne um pouquinho àquela questão das atividades teatrais que você normalmente desenvolve com os seus alunos. Você tinha as aulas de Literatura Inglesa com a professora Fernanda, participou de algumas montagens, né, com o ensino de Literatura, e aí, você como professora, quando sentiu que seria interessante começar a desenvolver essas atividades?
Porque, olha, eu acho que quando você trabalha com alguns tipos de texto, por exemplo, teatro, ele já exige essa experimentação, porque é feito já um texto produzido para ser atuado, né? A própria grande tradutora de Shakespeare no Brasil, Bárbara Heliodora, já dizia: "Shakespeare é contemporâneo". Ele traz ali um homem atual, com todas as suas marcas, dificuldades, lacunas, traz as sete cidades do homem; e isso, em um texto com turnos e falas, fica enfadonho discernido como se fosse um romance.
Outro gênero ele tem que ser experimentado mesmo pela troca de turnos, pela troca de olhares, pela movimentação. Então, eu percebi um desenvolvimento melhor e um interesse maior dos alunos pela leitura desses textos a partir da proposta de fazê-lo e atuá-lo. Acho que isso deu bem no começo, porque, como já disse, os meus professores inspiradores faziam-nos propunham isso; eu também observava bons resultados nas aulas de Literatura Infanto-Juvenil ministradas pelo professor Roberto, onde os alunos ganhavam um certo protagonismo de elaboradores de suas próprias histórias.
Despontava ali, surgia ali sempre um diretor mirim que, às vezes, a pessoa nem percebia e acabava atuando como diretor e outros papéis que iam sendo assumidos. Na vida real, na vida prática, não fossem possíveis. Por exemplo, um aluno muito tímido, quando ele encena, ele tem ali a sua possibilidade de externalizar emoções que no plano real não faz parte de sua situação.
Vários alunos também acho que começam a perceber isso quando se envolvem com teatro, e o texto, na verdade, é um artefato que só dá um pontapé inicial. O trabalho seguinte é todo totalmente do próprio aluno que vai ganhando esse protagonismo e se agenciando para melhor fazer aquele texto. Houve algum momento em que você percebeu que aconteceu alguma coisa que chamou a atenção nesse sentido?
Sim, inclusive, além de utilizar os textos e a performance, o teatro nas aulas de Literatura, eu também utilizo essa proposta na parte de formação de professores. Por exemplo, enquanto formadora do PIBID, do Programa de Iniciação à Docência, tínhamos lá as reuniões de formação e, de vez em quando, eu distribuía papéis. Hoje, você é a diretora da escola, você é a professora X, e vocês são os alunos.
Porque muitas vezes a gente observa o erro do outro, observa uma lacuna no outro, mas a gente se esquece, na verdade, desse exercício reflexivo de se colocar no lugar do outro e a troca de papéis. A troca de papéis é a possibilidade de conversar, dialogar, trocar, ganhar protagonismo. Isso daí é algo que vivemos um salto na formação docente.
No interior do PIBID, eles gostavam bastante no começo. No início, gerava um pouco de desconforto: "Ah, mas eu não sei se quero fazer isso. " Mas aí, conforme foram percebendo o que aquilo possibilitava para exercícios reflexivos sobre a prática, eles traziam impressões e marcas da escola pública, às vezes ainda em desenvolvimento.
Nas reuniões de formação, a gente fazia essa performance. Mais atualmente, a gente tem tido bons trabalhos de chip de Shakespeare, porque os alunos têm curiosidade. Eles trazem também muitas representações; eles acham que o texto de Shakespeare vai ser extremamente difícil, que vai necessitar de um grande cenário, de grandes produções.
E quando eles começam a analisar aquele texto e estudá-lo de forma mais sistemática, eles vão derrubando essas crenças que têm e vão percebendo o quanto Shakespeare é popular. Na verdade, trazem suas famílias, cada vez mais impressionados, que percebem que não há necessidade de se produzir grandes cenários, porque Shakespeare trabalha com a linguagem, com a fantasia, com o imaginário. Aí está a beleza e a riqueza de Shakespeare.
Então, essa curiosidade também tem sido despertada, porque quem acabou de fazer com vida, o aluno calouro envolve, existe um envolvimento, uma interação entre os colegas. Também recentemente fizemos Hamlet e, pelo bom resultado, eles representaram agora em agosto. Mas eu acho que, repito, na retomada, uma coisa que já comentei no primeiro bloco: nem tudo é o produto.
Hamlet, eles mesmos, os próprios alunos avaliaram como bom o produto, mas na verdade, é o processo, eles terem se conhecido, eles terem amadurecido. Relação: o próprio texto ter tido ali uma pessoa com mais experiência no mundo do teatro possibilitou aos outros uma nova releitura. Então, o processo vai ser sempre em que, com dor, o produto seja melhor aceito.
Dani, você, no momento, dá a orientação que eles precisam; em um momento, você faz a proposta, a orientação que você dá para que eles desenvolvam essas ações. Primeiramente, escolher um bom tradutor, né? Eu sempre digo: Hueller, Bárbara, Heliadora, Millôr Fernandes.
Às vezes, me solicitam e me questionam: “Podemos fazer a nossa versão? ” Claro que podem! Isso também é um processo criativo; isso também agencia e dá protagonismo.
Mas é importante que eles tenham como base o texto original. Durante as aulas, a gente trabalha com trechos originais. Então, o trabalho ali é a ironia de Hamlet, e, quando vou mostrar esse aspecto, trabalho o texto original porque, às vezes, na tradução e dependendo do tradutor, essa riqueza se perde.
A gente sistematiza algumas questões características de cada autor; por exemplo, os monólogos interiores de Virginia Woolf, os monólogos interiores do teatro Cheio, a característica de recusa de Emily Dickinson. Então, a gente tem que trabalhar algumas categorias e, depois, o aluno, quando começa a se apaixonar por esses critérios pré-estabelecidos, na verdade, não são critérios, mas conduções é o Samsung Dias para eles conseguirem ir além de uma leitura muito superficial. Eles já começam a se envolver com o texto.
Então, tem preparo, sim, na sala de aula, né? A gente faz algumas análises de excertos, de trechos; a gente também faz interpretações dessas análises. Certo.
Ótimo. Você é uma pessoa que sempre gostou de teatro, certo? Bastante, mas nunca sentiu necessidade de ter um curso para desenvolver essas atividades em sala de aula.
Na verdade, eu não tenho essa formação. Sempre que posso, assisto, vou ao SESC, vou a São Paulo assistir ao que consigo. Mas, assim, a formação na esfera teatral ainda me falta.
Ainda, mas nem é necessário; o aluno faz muito sem ter visto teatro na vida também, né? Não aconteceu já? Você conversando com eles, não assistiram a nenhuma peça?
Normalmente não é muito, não assistiram e fazem coisas maravilhosas. Acho que acontece. Não é isso?
Eu digo porque você uma vez já falou isso, também é verdade. Então, acho isso muito incrível, né? Quer dizer, há muitos professores que às vezes têm medo de começar uma atividade desse tipo achando que precisam ter a formação teatral, né?
Mas o professor não necessariamente, porque ali não é para formar tanto, né? Na verdade, muitos não acontecem nessa conta. É mais necessário.
Não, você está trabalhando ali, terá, sim, muito bom. E você, dentro dessas atividades, percebe que a família está presente? Acabou de falar agora, né?
A família está muito presente. E também essa interação, você já sentiu isso quando fez também, né? Ficou clara nessa experiência de ensaiar na casa dos colegas uma peça.
Quando o professor nos procurou o trabalho “Sábado de Aleluia”, a gente claramente não tinha gostado; a gente queria fazer uma outra proposta, um texto mais atual. E aí, começando a ler aquelas coisas cotidianas de uma tradição que a gente já não assiste mais, a gente já não vê mais. "De malhar o Judas" foi muito divertido.
E a gente traz essas lembranças, essas recordações até hoje, que vamos constituir enquanto professores, enquanto colegas. Eu acho isso muito importante; acho que os nossos alunos também percebem. Em uma roda de conversa, no começo do semestre, nós tivemos diversos depoimentos em que eles falavam sobre suas experiências no teatro desenvolvido nas aulas de literatura infantojuvenil.
Eles começavam, assim, dizendo para os calouros: "Olha, vocês terão várias tarefas, vários teatros para fazer. Não se assustem, depois de um tempo vocês vão se acostumar e vão adorar. " Eu fiquei pensando: coitados desses calouros!
Mas os depoimentos foram bastante ligados a essa experiência que tiveram durante a graduação, principalmente das pessoas que estavam ali formando. Voltar e ver o quanto o teatro era constitutivo daquele momento em que elas traziam suas emoções para falar do curso, né? Falavam do curso de Letras com bastante emoção, e na fala de quase todos os alunos tinha ali a questão do teatro.
A gente quer dizer, menos que talvez no começo não tivesse bastante medo de falar em sala de aula, né? Nós percebemos muito isso. Acontece que, de repente, estavam ali falando calmamente, tranquilamente em público, nesta fase de depoimentos.
Aquele depoimento que cuidaram, só pensam agora do ramo Leite, né? Seus alunos fazendo apresentação de literatura inglesa. Parece que demonstrou isso também, não é?
Essa alegria em ter participado daquela peça, do grupo, da emoção. Como você vê aquela forma também no depoimento que eles fizeram? Porque eles são desafiados a fazer uma peça, que não é fácil; ela é complexa, no meio do semestre, em que eles têm outras atividades simultâneas.
E depois, René, a releitura para uma reapresentação. Ao final, nós ouvimos os diferentes depoimentos, mas que todos recaíam sobre os mesmos aspectos de terem se desenvolvido amplamente, de terem gostado do trabalho. Acho que isso é importante também; ter gostado do momento da atividade criativa deles, tanto do processo quanto do produto.
Quando faz aqui, por exemplo, a atividade com eles, uns 15 anos, muito bem. Pois é, não é? Realmente, a forma como você acredita muito nele ajuda demais, né?
Então, por enquanto, vamos passar para um próximo bloco, onde você vai falar um pouco mais a respeito da sua vivência atual enquanto coordenador.