Bom, eu sou o Fernando Nicolazzi, eu sou professor do Departamento de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e também sou membro do Laboratório de Estudos sobre os Usos Políticos do Passado (Luppa), que é vinculado ao Departamento de História aqui da UFRGS. Para a pergunta, se o "Brasil Paralelo" faz história, a minha resposta seria bastante simples e direta. Eu acho que ele faz história, ele produz uma narrativa histórica sobre o nosso passado, e disso eu não tenho a menor dúvida.
Talvez a questão que a gente possa colocar para complexificar ela é nos perguntarmos que tipo de história o "Brasil Paralelo" faz sobre o nosso passado, que tipo de narrativa ele oferece sobre o nosso passado e, acima de tudo, tentar pensar como essa narrativa sobre o passado funciona no nosso tempo presente, funciona dentro da nossa sociedade, no espaço público contemporâneo. E, talvez, para a gente compreender melhor esse tipo de narrativa que o "Brasil Paralelo" oferece seria importante entender como o "Brasil Paralelo" iniciou seus trabalhos, como ele atua dentro do nosso debate contemporâneo em torno do passado, em torno da história, em torno, também, da política, que me parece que é um eixo definidor da atuação que eles fazem. Bom, o "Brasil Paralelo" começa em 2016, a partir da iniciativa de alguns empreendedores de Porto Alegre.
E ele funciona. . .
É uma iniciativa que está muito ligada a um conjunto, a uma forma de curadoria de palestras e também da produção de material audiovisual, sobretudo documentários de caráter histórico, que são disponibilizados em vídeo, sobretudo em plataformas digitais. Bom, o "Brasil Paralelo" foi definido já por um jornal, o "Estado de São Paulo", como parte dessa máquina barulhenta que a nova direita vem atuando na internet, no Brasil. Então, de uma certa maneira, essa iniciativa desses empreendedores porto alegrenses se insere dentro do conjunto de posições políticas cuja intenção é combater o que eles consideram como "viés esquerdista" dentro das universidades, dentro das escolas.
. . Então eles atuam decisivamente dentro do espaço político, mas também a partir de uma ideia de uma formação do que a gente poderia chamar de uma "educação histórica".
Então a atuação política deles está intimamente ligada com essa narrativa sobre o passado, com essa história que eles produzem e que eles oferecem ao público. E, dentro combate ao que eles chamam de "viés de esquerda", então, o que eles propõem, no limite, falando também de uma forma muito simplificada, é colocar um viés de direita no lugar disso eles estão questionando. Então, ideologicamente é muito nítido isso, eles se posicionam dentro do variado espectro político que nós temos atualmente, no que poderia ser dito como "direita".
Então não se trata de uma narrativa neutra, não se trata de uma narrativa marcada por neutralidade, por objetividade ou por imparcialidade. Ela é nitidamente uma forma de escrita, de produção historiográfica, de viés de direita. O "Brasil Paralelo" ele inicia suas atividades em 2016, a partir do chamado "Congresso Brasil Paralelo", que foi uma tentativa de intervenção no nosso espaço político.
. . Isso dentro de um contexto que envolvia o impeachment da presidenta Dilma, então era um contexto muito acalorado em termos de discussão política no Brasil.
. . E a pretensão deles é de fato intervir, no sentido de compreender a crise política, a crise social que marcava a nossa sociedade naquele contexto.
E esse "Congresso Brasil Paralelo" ele conseguiu, de uma certa maneira, aglutinar uma série de perspectivas que nós vemos aí atuando, desde as manifestações de 2013 e mais intensamente a partir dos grandes protestos 2015 e do impeachment consumado da Dilma em 2016, que é o MBL, é o "Programa Escola sem Partido", são políticos de direita, como o Jair Bolsonaro, o Ronaldo Caiado. . .
Um outro personagem que é recorrente nas iniciativas do "Brasil Paralelo" é o Olavo de Carvalho, que é alguém que vem instrumentalizando a atuação política e também a atuação intelectual de uma série de iniciativas, como essa do "Brasil Paralelo", de intervenção do espaço público. O "Congresso Brasil Paralelo", de 2016, capacitou financeiramente o "Brasil Paralelo" a realizar novas iniciativas de documentários, de projetos de audiovisual, e talvez o que nos interesse aqui mais fortemente é a série "Brasil - A Última Cruzada", que é uma série dividida em seis episódios, que é uma tentativa de narrar a formação histórica, do Estado e da nação brasileira, desde os primórdios da civilização ocidental até, sobretudo, o fim do Império e o início da República, culminando ali, então, talvez em meados do século XX, com o governo de Getúlio Vargas e as consequências políticas e sociais que teve este governo. Algo que chama a atenção no empreendimento do "Brasil Paralelo" é o fato de eles terem feito uma estratégia de marketing muito agressiva, muito incisiva, e aí se valendo de um filão, digamos assim, de mercado, que foi aberto alguns anos antes, talvez até alguma, pelo menos uma década antes, por propostas como a do "Escola sem Partido" e pelas intervenções também de Olavo de Carvalho e de outras pessoas que consideravam que estava havendo uma doutrinação de esquerda nas escolas e nas universidades brasileiras.
Então algumas das propagandas que o "Brasil Paralelo" veiculou tinham claro um intento de esvaziar o espaço das escolas como lugares de produção do conhecimento, como lugar de divulgação, de disseminação do conhecimento, no sentido de que essas escolas não só ofereciam uma perspectiva, sobretudo no campo das ciências sociais e sobretudo no campo da história. . .
Mas que oferecia uma perspectiva de viés ideológico que eles consideram como "esquerdista", e aí ligada às inúmeras formações do que eles entendem como esquerda: comunismo marxismo, gramscismo, digamos assim, e assim por diante. . .
Então essa estratégia de marketing ela tentava esvaziar esse espaço da escola a partir de uma acusação feita aos professores. Então não foram poucas as propagandas deles que diziam que aquela série vai desbancar o seu professor de História, ou, algo que me parece um pouco mais violento, do ponto de vista simbólico, "essa série vai desmentir o seu professor de História". Ou seja, eles partem do pressuposto de que os professores, dentro do espaço escolar, que é um espaço formal de educação, eles mentem para os seus estudantes.
A história narrada pelo "Brasil Paralelo", me parece, ela pode ser pensada a partir de uma chave interpretativa que articula uma perspectiva monarquista, uma perspectiva monárquica, como também uma defesa do liberalismo econômico. Então, o que a gente consegue notar vendo os episódios da série "Brasil - A Última Cruzada" é que é um elogio claro à monarquia portuguesa, que depois se transforma num elogio à família imperial brasileira, ao mesmo tempo que há também um elogio ao liberalismo econômico. Então, de uma certa maneira, o "Brasil Paralelo" ele se insere dentro desse grande chavão, ou desse grande tópico que a gente vê recorrentemente na boca de vários desses personagens, que é "eu sou conservador nos costumes, mas liberal na economia", como se de fato uma coisa pudesse existir correlata a outra, como se, por exemplo, o liberalismo não pudesse pegar esses costumes ditos como "morais" e transformar em uma mercadoria para ser consumida sem nenhuma moral, digamos assim.
Bom, obviamente, esse elogio da monarquia e esse elogio do liberalismo ele é feito a partir de uma série de omissões históricas, então acompanhando os episódios a gente nota também que atores históricos importantes, como os indígenas, as mulheres, eles não têm uma presença tão constante e tão intensa dentro dessa narrativa. . .
Então os indígenas praticamente não aparecem, algumas mulheres aparecem, sobretudo a Imperatriz Leopoldina e a Princesa Isabel, então a gente está na chave do que se poderia chamar de "heroínas históricas". . .
Mas, talvez, a grande omissão, que me parece que é mais grave, é o lugar que é concedido dentro dessa narrativa histórica sobre o nosso passado à escravidão. A escravidão ela aparece no "Brasil Paralelo", na série "Brasil - A Última Cruzada", apenas como um fenômeno de caráter moral. Ou seja, eles enfatizam muito isso, que a escravidão foi uma ferida aberta, uma chaga aberta dentro da civilização ocidental, foi uma mancha dentro da nossa longuíssima história de desenvolvimento, dessa civilização ocidental no mundo, e não leva em consideração o fato de que a escravidão era um processo social, era um processo econômico, era um processo político que amparou o desenvolvimento do capitalismo no Ocidente.
Então essa me parece uma omissão bastante grave, pelo fato de que é possível pensar a escravidão como algo estruturante da nossa sociedade. Então, quando eles deixam de lado algo que estrutura nossa sociedade e estão pensando a formação da sociedade, estamos falando de alguns esquecimentos, de alguns silenciamentos que parecem bastante importantes e bastante significativos. E aí, nesse sentido, eu diria que a narrativa historiográfica oferecida pelo "Brasil Paralelo" ela se insere no que alguns debates contemporâneos na historiografia chamariam de "história pública".
E aí, nesse sentido, eu considero que é uma bem sucedida forma de história pública porque há um estudo sobre o público para essa história, então eles são muito cuidadosos nesse sentido, eles conseguiram mapear um nicho de mercado onde eles vão atuar, então ao mesmo tempo que eles sabem o público para o qual estão falando, eles também estão constituindo esse público, então é sempre um caminho de mão dupla. . .
Mas dentro dessa forma de história pública, é possível também notar, isso que nos interessa dentro do Laboratório de Estudos sobre os Usos Políticos do Passado, é pensar como isso também se manifesta enquanto uso do passado. Então não é à toa que esse esvaziamento de atores históricos importantes, como os indígenas, as mulheres, as pessoas negras, esse, digamos assim, esquecimento do que foi, de fato, a escravatura no Brasil, ela se dá justamente no momento em que esses atores históricos estão realizando uma série de demandas políticas na nossa sociedade, e aqui no espaço universitário a gente vê isso de uma forma bastante intensa, mas não só aqui na universidade, na vida pública brasileira isso é muito evidente. .
. Não é à toa, então, que esse esvaziamento acontece quando esses atores históricos despontam como atores políticos importantes, haja vista a importância das várias vertentes de movimentos negros no Brasil, haja vista recentemente um grande movimento "Ele Não", que nós podemos perceber a força desse movimento que também articulou vários feminismos também ali na mesma movimentação política. .
. A gente pode pensar nos debates em torno de cotas raciais, cotas, por exemplo, como nós temos aqui na UFRGS, cotas para pessoas trans, cotas para pessoas indígenas. .
. Então quando eles oferecem uma narrativa e você desconsidera o papel desses atores históricos, eles estão falando sobre o passado, mas eles estão agindo intensamente, politicamente, no presente. Então é dessa maneira que a gente pensa essa forma de um uso político do passado.
. . E esses vários atores históricos eles estão atuando politicamente, mas, ao mesmo tempo, eles estão atuando a partir de uma demanda de uma nova forma de se narrar a história: narrar a história por um viés menos eurocêntrico, por um viés menos patriarcal, por um viés menos centrado nos grandes fatos notórios, definidores, de uma possível essência nacional, uma identidade nacional.
. . E pensando formas plurais de se narrar a história.
E, nesse sentido, a resposta que o "Brasil Paralelo" oferece a esse conjunto de demandas é voltar a um modelo de história eurocêntrico, um modelo de história singular, patriarcal, nesse sentido, os grandes heróis são, sobretudo, pessoas brancas, sobretudo são homens e sobretudo tem o que a gente pode chamar de uma ideologia europeia ou de um ideal europeu de vida. . .
Então eles atuam nesse sentido. E aí eu avançaria um pouco mais nessa interpretação, dizendo que o gosto do "Brasil Paralelo" pela família imperial brasileira é um gosto pelo século XIX, e esse gosto se manifesta também no modelo de historiografia que eles oferecem. Eu diria que é um modelo de historiografia que lembra muito o que historiadores escreviam no século XIX e a forma como esses historiadores escreviam no século XIX.
Ou seja, um modelo de história marcado por uma ideia de uma essência nacional; um modelo de história marcado pelo privilégio ao se chamava naquele contexto de os "grandes varões ilustres da pátria", ou o que o "Brasil Paralelo" chama de os "grandes heróis nacionais"; e, sobretudo, um modelo que omite essa demanda de uma pluralidade histórica que é tão recorrente nos debates políticos contemporâneos. E por fim, talvez um último ponto que parece bastante importante, e é algo que se manifesta claramente nesse modelo de história produzido pelo "Brasil Paralelo", é a ideia da história como uma prática moralizadora da sociedade. Então se eles pensam ou se eles tentam pensar uma crise política e social, que é também uma crise dos costumes na nossa sociedade, a chave para explicar isso é a história, mas a chave para também oferecer uma solução para isso é esse recurso ao passado.
Então a história acaba funcionando como uma prática moralizadora dentro dessa grande narrativa histórica oferecida pelo "Brasil Paralelo". Bom, ainda é difícil avaliar com precisão os efeitos que uma narrativa como essa pode ter dentro da nossa sociedade, dentro do nosso espaço público contemporâneo. .
. Evidentemente, tudo o que eu falar aqui vai ser muito marcado por um impressionismo, isso demanda uma pesquisa, uma espécie de "survey" com as pessoas que, de fato, assistem essa série, que acompanham esse tipo de narrativa. .
. Mas, talvez, uma das mais evidentes e das mais preocupantes consequências disso, é algo que eu mencionei, que é o esvaziamento desses espaços formais de educação, como espaços legítimos de produção, de difusão, de divulgação de conhecimento histórico produzido, e, sobretudo, na nossa sociedade, a escola e a universidade. Então quando eles fazem um ataque a esses espaços, eles estão, de uma certa maneira, questionando esses espaços como mecanismos de mediação entre a casa e a rua.
Ou seja, entre o indivíduo e a sociedade, ou, no limite, entre o espaço privado e o espaço público. E a escola serve para isso, a nossa Constituição prevê que a educação é um dever tanto do Estado quanto da família, então uma coisa não se sobrepõe à outra. O público e o privado ele tem que se articular de uma forma complementar e não antagônico.
Então se a gente insere essa iniciativa do "Brasil Paralelo" dentro dessas demandas sobre "Escola Sem Partido", sobre o privilégio da família e a instância privada como instância, por excelência, da educação, acho que isso é bastante preocupante, pelo fato de que, dentro de um contexto em que recentemente estivemos discutindo "homeschooling", ou seja, inclusive a não obrigatoriedade das crianças e adolescentes irem para uma escola, ou seja, terem uma educação dentro de um espaço de sociabilidade também, isso me parece muito preocupante, e o fato desse empreendimento ou dessa iniciativa se valer dessa estratégia é algo muito significativo nesse sentido. Talvez um outro ponto que possa interessar pesquisas historiográficas futuras é notar como a iniciativa do "Brasil Paralelo" manifesta também, digamos assim, uma espécie de movimento neomonarquista revigorado. Não é à toa que várias das pessoas entrevistadas, e que atuam inclusive nos bastidores desse empreendimento, são membros da família imperial brasileira, descendentes da Princesa Isabel.
. . A gente vê isso nos vídeos.
Então acho que esse é um ponto também que a gente conseguiu perceber desde as manifestações de 2013: um retorno desses movimentos monarquistas, que são movimentos também que a gente pode situar no espectro político como movimentos conservadores, de direita, e com alguns ideais que podem ser questionados de diversas maneiras. O "Brasil Paralelo" funciona a partir dessa ideia de uma curadoria de palestras, então se a gente pensar onde reside a legitimidade dessa narrativa histórica que eles oferecem está nos palestrantes. Então, do ponto de vista de uma análise teórica e metodológica sobre essa produção historiográfica, a gente pode questionar vários pontos dessa narrativa.
Por exemplo, eles não apresentam as fontes históricas sobre as quais eles estão baseando uma série de asserções, então a gente tem asserções que beiram quase que a insanidade, ou beiram o equívoco histórico, por exemplo, chamar o fascismo de esquerda, como é dito em um dos episódios pelo Rodrigo Constantino. Então eles oferecem uma série de interpretações, mas muitas delas a gente pode questionar qual é o respaldo documental que têm. Mas, tirando isso, seria difícil também dizer que há um equívoco histórico no que eles estão oferecendo.
Eles estão oferecendo uma interpretação sobre o processo histórico de formação da sociedade brasileira. Então o que é possível questionar dentro dessa interpretação, por exemplo, é que dentro dessa chave monarquista-liberal, é uma chave cristã também. Então quando eles vão falar do islamismo, o islamismo tem uma data de nascimento muito clara, ele começa em algum momento e se espalha, ou, melhor, tenta se espalhar pela Europa.
O cristianismo não, o cristianismo é tomado como algo que existe desde sempre, então ele é naturalizado. Ao mesmo tempo que algumas coisas são naturalizadas, outras coisas são historicizadas dentro dessa narrativa. E por que o islamismo é historicizado e o cristianismo não é historicizado nessa narrativa?
Essa é uma pergunta que pode ser colocada. A mesma coisa a própria ideia monárquica, isso não existiu desde sempre, ela surge em algum momento, mas a maneira como ela é narrada nesses documentários, ela é naturalizada, como se desde sempre existisse. .
. E não à toa que quando eles vão interpretar a instauração da República no Brasil, é como se aquilo fosse não apenas um golpe militar que foi realizado, mas é como se fosse um caos dentro da ordem, então a ordem é representada por essa dimensão monárquica-cristã, e quando isso se arruína é a própria ruína da sociedade que a gente tá vendo.