exclusivo. Um jovem foi preso em São Paulo depois de ser confundido, segundo a família dele, com um criminoso. A vítima de um boa noite Cinderela procurou pelo golpista em uma rede social e o rapaz, que tinha os dois primeiros nomes iguais aos do ladrão, foi apontado como suspeito.
Esse é só um dos absurdos que envolvem a investigação. Veja agora a reportagem completa de Simone Queiroz com a produção de Marcos Guedes. Centro de detenção provisória.
Aqui está preso Isaac Rodrigues de Miranda. Guarde bem esse nome. O rapaz é acusado de aplicar o golpe boa noite Cinderela, ou seja, de dopar uma vítima para roubá-la.
Isaac tem 25 anos e deficiência intelectual. Ele é neurodivergente, tá? Então ele tem uma dificuldade mental.
Se você conversar com ele por alguns minutos, você percebe, ele jamais teria capacidade de bolar um crime assim desse jeito aí que estão acusando ele. O golpe foi no dia 8 de novembro do ano passado e aconteceu nesta boate que fica no centro de São Paulo. Segundo a vítima, um turista russo, ele estava aqui com um amigo, haviam consumido álcool quando de repente um terceiro homem se aproximou e ofereceu cocaína, o que ele prontamente aceitou.
Ele então se dirigiu ao banheiro com esse homem que ele nunca havia visto antes, só que ao consumir a droga teria desmaiado. E quando recobrou a consciência, minutos depois, ele estava sozinho e o celular e o cartão bancário dele haviam sido roubados. A vítima apresentou à polícia imagens de câmeras de segurança da boate e identificou este homem como golpista.
O rosto não aparece. Foram feitas compras com o cartão do russo numa maquininha registrada em nome de Isaque Rodriguez D. Repare que o nome está incompleto, como mostra esta foto de um extrato fornecida pela vítima.
De acordo com o advogado que defende Isaac gratuitamente, os policiais não requisitaram de forma oficial o documento à administradora do cartão. A maquininha não foi encontrada e não foi sequer tomada qualquer providência no sentido de saber se existe um junto de qualquer uma dessas empresas que fornecem máquinas, né? Se existe uma maquininha em nome do do Isaac registrada em nome dele, né?
O russo, por conta própria, acessou as redes sociais e, entre vários perfis, em nome de Isaac Rodrigues, apontou que esse era o criminoso, desprezando dois detalhes fundamentais: a divergência de nome e a cor da pele. Sergei Maligin registrou o boletim de ocorrência em novembro e forneceu as informações. Qu meses depois, sem nada além nas investigações, policiais armados foram à casa de Isaac para prendê-lo.
Uma pessoa que que já estava alcoolizada, aceita e usar droga com um desconhecido no banheiro. Como ele ia ter capacidade de reconhecer alguém? No dia da prisão, submeteram Isaac ao reconhecimento pelo russo, que detalhe, estava na Europa.
Fizeram um vídeo, uma videochamada, apresentaram cinco fotos, dentre elas a foto do Isaac, o Sergei, a vítima e a testemunha, teriam reconhecido o Isaac, identificado ele como sendo o autor. O procedimento adotado é um flagrante desrespeito ao Código de Processo Penal. O reconhecimento tem que ser feito necessariamente com a pessoa colocada no mesmo ambiente, com outras pessoas com características físicas de fato parecidas com aquela pessoa.
Se não for desta forma, onde há a chamada tipicidade para aquela prova, a prova é nula. Não dá para dizer que a polícia e os juízes não sabem disso, né? Superior Tribunal de Justiça tem assumido uma posição muito importante no sentido de se anular a prova obtida desta natureza, porque essa prova obtida viciada como é, propicia o erro judiciário.
Com sorte, os acusados, nessas circunstâncias são soltos depois, o que não apaga a injustiça. caso de Isaque, a família não se conforma com uma investigação que teve como prova apenas a versão do russo. E a palavra dele valeu mais do que a palavra de um menino de família, um menino trabalhador, um menino que nunca se envolveu com nada.
A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo disse que enviou dois ofícios à Boate, onde ocorreram os fatos solicitando documentos e imagens, mas que ainda não recebeu resposta. Mesmo assim, não explicou por Isaque foi preso.