Boa noite, Dom. Meu nome é Víctor Souza e passei mais de 10 anos sendo o principal líder de uma congregação simples que ficava numa região tranquila. Não pretendo mencionar o lugar exato onde tudo aconteceu, nem fazer alarde sobre o nome do templo antigo. O que posso dizer é que me dediquei de coração ao trabalho religioso desde muito jovem. a ponto de me tornar referência para as pessoas ao Redor. Quem me via de terno e bíblia na mão não imaginava que, por trás da aparência de homem sério, havia um ser humano lutando contra as próprias fraquezas.
No início, eu pregava para meia dúzia de pessoas na garagem da casa dos meus pais. Não havia cadeiras adequadas, púlpito bonito, nem equipamentos de som. Minha Bíblia era quase toda arremendada e o violão que eu usava para cantar desafinava em quase todas as músicas. Mesmo assim, aquelas Reuniões simples tinham algo que eu só compreenderia plenamente anos depois, sinceridade. Cada palavra minha nascia de uma convicção verdadeira, sem preocupações, com elogios ou fama. Conforme as pessoas foram chegando, fizemos algumas adaptações. Um dos irmãos ajudou a colocar um pequeno toldo para proteger do sol e da chuva. Alguém
doava uma caixa de som usada, outro trazia uns bancos de madeira. Foi dessa forma que a congregação cresceu aos Poucos. E com ela eu também me sentia crescendo. Recebia convites para pregar em outros lugares. As pessoas comentavam que minha voz transmitia firmeza. Aquilo tudo me motivou a aprimorar meu estilo de discurso. Com o passar do tempo, as redes sociais começaram a ter um papel importante. Sempre aparecia alguém filmando meus cultos, postando trechos online e algumas pessoas elogiavam meu jeito de falar. Aos poucos, fui percebendo que a pregação deixava de ser Apenas um encontro entre pessoas
que buscavam paz espiritual e se tornava uma espécie de espetáculo. Meu nome ganhava destaque e fui me acostumando a ser chamado de pastor Víctor, como se fosse uma figura especial. A certa altura senti que havia algo em mim além de um simples dom. Eu me achava quase intocável. Toda essa atenção aumentou quando Raul, um rapaz esperto, ofereceu ajuda na área de comunicação. Ele tinha jeito para marketing e propôs criar Páginas para o templo. Pastor, o senhor precisa aparecer mais. Seus cultos são cheios de frases impactantes. Isso atrai muita gente. Ele gravava tudo, editava, incluía legendas
de trechos musicais como fundo e colocava títulos chamativos. Resultado, mais gente nos cultos, maior quantidade de curtidas e sem que eu percebesse, maior ênfase na minha imagem pessoal. Foi nesse período que comecei a notar uma mudança em mim. Deixei de lado aquele tom humilde que eu Usava nas reuniões de garagem e passei a impor minha voz com mais intensidade. O volume era alto, os gestos eram marcados e eu me dirigia à congregação como se estivesse numa batalha. Frases de efeito se tornaram meu maior trunfo. As pessoas reagiam com entusiasmo. Algumas diziam que eu tinha uma
autoridade especial, que os males se agitavam quando eu orava. Confesso que gostei dessas afirmações e deixei que fizessem morada na minha mente. O Problema é que, em paralelo à minha imagem de homem fervoroso, eu levava uma vida bem diferente quando estava longe dos olhares do público. Chegava em casa esgotado, largava a gravata e me refugiava em distrações que eu mesmo condenava em sermões. Estava sempre buscando algo que me fizesse esquecer a pressão de manter uma aura de santidade. Eu me justificava dizendo que eram pequenas falhas, que bastava orar e pedir perdão na manhã seguinte, mas
lá No fundo eu sabia que havia uma brecha se abrindo dentro de mim. Minha esposa Lídia foi a primeira a perceber que meu comportamento mudava. Ela comentava que minhas orações na mesa do café soavam mecânicas, que meu humor ficava instável e que eu me fechava em silêncio quando devia conversar. Eu respondia de forma seca, alegando excesso de trabalho. A verdade é que não me sentia mais confortável na presença dela, por saber que meu interior estava afundado em Contradições. Numa sexta-feira à noite, eu saí de uma reunião com alguns líderes do templo e resolvi passar na
congregação antes de ir para casa. Lídia me mandou uma mensagem perguntando o que eu queria jantar. Respondi de qualquer jeito. Quando estacionei, vi algo estranho encostado na lateral do prédio. Havia uma pequena caixa de madeira envolta num pano avermelhado e algumas velas apagadas ao redor. Parecia uma espécie de ritual. Fiquei parado alguns Segundos, sentindo um desconforto que não conseguia explicar. Minha reação imediata foi pegar o celular e ligar para Raul. Você tem condições de vir aqui agora? traz a câmera e um microfone de mão. Acho que podemos fazer um vídeo de alerta. Eu não tinha
sequer tocado no objeto, mas já imaginava como faria. mostraria o pacote, diria que era uma obra do mal e que eu, como líder ungido, pisaria naquilo sem medo. Construiria uma narrativa perfeita para gerar Engajamento nas redes. Queria que todos vissem o quanto eu era corajoso diante do que considerei uma oferta do inimigo. Raul chegou em poucos minutos trazendo o equipamento. A chuva estava fraca, mas mesmo assim mantinha a caixa úmida. Ele montou rapidamente um tripé improvisado. Entramos no templo, ligamos algumas luzes e posicionamos a caixa bem no centro diante do altar. O pano vermelho parecia
ter manchas antigas e dentro havia uns objetos cuja natureza eu não Conseguia identificar com clareza. Entretanto, minha preocupação não era entender o que era aquilo, mas sim como transformar tudo num momento marcante. Ele me deu o sinal para começar a falar. Tomei fôlego e comecei a discursar com o mesmo tom que usava nos cultos, denunciando forças contrárias, exaltando como eu estava acima daquilo tudo. Agi como se fosse um show. Cheguei a chutar a caixa e anunciar que aquilo não tinha nenhuma influência sobre mim. Uma parte De mim, bem pequena, sussurrava para eu não fazer aquilo,
mas meu orgulho falou mais alto. Quando tudo terminou, Raul ficou entusiasmado com o vídeo. Pastor, isso vai bombar nas redes. A forma como o senhor falou dá até arrepio. Assenti com um sorriso forçado, mas senti um aperto esquisito no peito. Antes de sair, reparei que uma senhora da congregação, dona Paola, estava no fundo do templo, sentada num banco lateral. Ela me olhava com uma expressão Que não era de espanto, mas de certa preocupação. Quando passei por ela, ainda com as luzes meio apagadas, ela balbuciou algo como: "Tem coisas que não se chutam, mesmo que não
sejam suas. Fingi que não ouvi. Estava tão certo de que nada poderia me afetar que menosprezei o que ela disse. Fui para casa com o vídeo gravado e a cabeça cheia de planos. Lídia tentou puxar assunto no jantar, mas eu quase não falei. Subi para o quarto e fiquei Olhando a edição que Raul fizera. Ele cortou alguns pedaços, inseriu legendas chamativas e colocou uma música densa ao fundo. O título anunciava que desmascaramos um ritual estranho na porta da igreja. Fechei o celular satisfeito, mas também com uma sensação desconfortável que não me saía da garganta. Deitei
e tentei dormir. Tive a impressão de que estava inquieto demais. Passei boa parte da noite sem pegar no sono direito. Quando cochilei, tive Sonhos que não faziam sentido claro, mas me deixavam confuso. Via pessoas entrando no templo com o rosto encoberto. Ouvia risada sem saber de onde vinham. Acordei exausto, sem vontade de levantar. No dia seguinte, me esforcei para agir como se estivesse tudo normal. Mas alguns acontecimentos quebraram essa tentativa. No ensaio musical antes do culto, o microfone, que sempre funcionava bem começou a falhar nos Momentos em que eu tentava falar algo importante. Uma das
lâmpadas do teto estourou e a equipe de limpeza levou um susto. Não sou de dar atenção a coincidências, mas não consegui evitar uma pontada de medo. Raul, que estava no templo para ajustar a iluminação, comentou: "Pastor, isso aqui está estranho hoje. Não tem um clima bom, sabe?" Dei de ombros e fingi não concordar, mas percebi que enquanto ele mexia nos cabos, dava umas olhadas ao Redor, como se procurasse entender de onde vinha uma sensação incômoda. Conforme a semana avançou, pequenos incidentes foram se multiplicando. Algumas pessoas próximas, que sempre ocupavam os primeiros bancos, avisaram que precisavam
dar um tempo da igreja. Não deram justificativas claras. Era como se todos sentissem que havia algo diferente no ar. Entre as pessoas que pararam de frequentar estava dona Paola. Tentei contato com ela por mensagem, mas Ela só respondeu que não estava se sentindo bem para participar. Não insisti. Lídia também começou a ficar mais calada em casa. De vez em quando ela perguntava: "Víctor, você acha que trouxe algo ruim para dentro do templo?" Eu desconversava usando argumentos decorados sobre a fé que vence qualquer mal. Só que dentro de mim começava a crescer a ideia de que
talvez eu tivesse precipitado as coisas. Ao mesmo tempo, eu já não tinha coragem de admitir isso Em voz alta. Certo domingo, durante o culto principal, aconteceu uma cena que me marcou. Eu estava pregando sobre perseverança, usando minha voz de sempre, quando senti um cansaço repentino. Minha garganta secou e o copo d'água ao lado do púlpito parecia morno, apesar de o salão ter ventiladores ligados. Tentei prosseguir, mas as palavras não saíam com a mesma convicção. A voz embargou. O olhar da Congregação me deixava desconfortável, pois percebi que não transmitia a mesma confiança de antes. Para piorar,
no exato momento em que tentei retomar o ritmo, as caixas de som emitiram um ruído forte, como um zumbido estridente, e depois ficaram mudas. O silêncio foi tão incômodo que eu ouvi gente na plateia murmurando coisas do tipo: "Isso nunca aconteceu antes. Tive de continuar sem microfone. Me senti exposto, pois estava acostumado a amplificar minha Fala. Quando acabei, muita gente levantou e saiu sem esperar o fim dos avisos. Meu temperamento já balançado piorou depois do culto. Reuni os obreiros numa sala ao lado e tentei entender o que ocorrera. Um deles, mais velho, disse que aquele
som de interferência parecia alguma espécie de microfonia, mas que não sabia a causa. Outro comentou que enquanto mexia na mesa de som, escutou ruídos parecendo vozes abafadas. Achei aquilo absurdo, Mas notei que ele estava pálido. Não era o tipo de pessoa que brincaria com algo assim. Saí de lá irritado e confuso. A atitude de Lídia em casa continuava fria. Eu me enfurnei no quarto, abri redes sociais e fiquei vendo os comentários sobre o vídeo que Raul postara dias atrás. Alguns elogios, mas também havia quem perguntasse se eu não estava exagerando, transformando as coisas em espetáculo.
Li uma crítica que mexeu comigo. Alguém dizia que a Verdadeira fé não precisava de shows e que eu havia perdido a essência. Desliguei o celular me sentindo incomodado, mas não queria admitir que havia um fundo de verdade naquela afirmação. Com o passar dos dias, percebi que meu ânimo diminuía de forma preocupante. As noites eram turbulentas. Raramente eu tinha pesadelos explícitos, mas acordava sempre sem descanso, como se algo me perturbasse por dentro. Eu já não abria a Bíblia para ler com a mesma Frequência. Quando tentava, não conseguia fixar a atenção e a mente vagava. Era como
se eu estivesse ali, mas sem mergulhar nas palavras. Foi nesse período que um obreiro de confiança, Sandro, veio me procurar para dizer que alguns membros tinham comentado, sentir uma sensação de incômodo no salão, principalmente perto do altar. Parece que as pessoas não conseguem se concentrar nas orações. Andam dispersas, sem Motivação. A resposta que dei a ele foi seca. Elas precisam orar mais. Se estivessem cheias de fé, não estariam sentindo nada de anormal. Depois que ele saiu, meu coração pesou. Eu sabia que não era apenas falta de fé dos outros. Algo havia mudado e, no fundo,
eu não podia culpar ninguém além de mim mesmo. Em meio a tudo isso, Raul continuava com as gravações, mas eu notei que seu entusiasmo também estava menor. Ele chegou a me dizer que os vídeos mais Recentes não estavam tendo tantas visualizações, que as pessoas pareciam menos impactadas pelos meus discursos. Pastor, não quero ser desrespeitoso, mas o senhor tem estado diferente. Parece cansado, não tem mais aquelas frases fortes. Fiquei irritado e mandei ele parar de gravar por uns dias. Eu mesmo não queria mais me ver nas telas. Era como se eu evitasse encarar o que estava
me tornando. Em casa, Lídia e eu quase não conversávamos. Ela dormia cedo e eu Ficava no quarto com a luz do abajura acesa, pensando em mil coisas que não faziam sentido. Uma madrugada, achei que houvi um som de passos no corredor. Abri a porta para verificar e não vi nada. Mesmo assim, fechei rapidamente e voltei a me deitar, agoniado. Não quis comentar com ninguém. Já bastava toda a atenção que eu vinha gerando. Um dia resolvi ligar para dona Paola. Sentia que ela tinha algo a dizer sobre aquela caixa que encontrei. Marquei de ir até a
casa Dela na tarde de uma quarta-feira. Quando cheguei, ela me recebeu com gentileza, mas notei no olhar dela uma mistura de pena e preocupação. Sentamos numa varanda modesta com cadeiras de plástico. Ela serviu um chá e falou sem rodeios. Aquilo que o senhor chutou não foi feito para a igreja. Acredito que o destino era outra pessoa, mas quando o senhor resolveu usar como espetáculo, foi como dar combustível a algo que já estava se enfraquecendo. Permaneci Calado, sentindo um aperto no peito. Ela continuou. Não vou dizer que aquilo é o responsável por todos os problemas. Na
verdade, só escancarou uma porta que o Senhor já tinha aberto por conta própria. Aquele comentário doeu, me lembrou dos meus hábitos ocultos, do meu orgulho, das atitudes incoerentes. Minha vontade foi levantar e ir embora, mas segurei a compostura. Ela terminou dizendo: "Se quer um conselho, procure entender o que tem dentro do Senhor que Está corroendo tudo. Isso sim é o que alimenta qualquer mal." Voltei para casa com essas palavras martelando na cabeça. Passei a noite revendo lembranças que eu vinha ignorando. Pensei em todas as vezes em que deixei minha vaidade tomar o lugar que era
para ser da fé genuína. Rememorei os momentos em que Lídia tentava conversar sobre nossa vida e eu a silenciava com discursos prontos. De certa forma, eu suspeitava que meu maior inimigo não era algo externo, mas minha Própria conduta. No entanto, perceber isso não significava saber o que fazer. Eu me sentia num abismo incapaz de chamar pelo socorro divino. No domingo seguinte, a congregação estava claramente esvaziada. Quando subi ao altar, a cena me doeu. Mais da metade dos bancos vazios e os poucos presentes pareciam desanimados. Tentei conduzir o culto de forma normal, mas tudo saiu mecânico.
Ao final, ninguém se aproximou para cumprimentar, a não ser Sandro, que Me lançou um olhar de solidariedade. Foi aí que resolvi tomar uma decisão que nunca imaginei tomar, procurar ajuda fora da minha zona de conforto. Havia um homem conhecido no bairro chamado Seudário, que trabalhava com práticas espirituais bem diferentes das nossas. Ele tinha um pequeno lugar onde as pessoas iam buscar conselhos e rezas. Por muito tempo, eu o considerava uma espécie de adversário, evitando até passar na mesma calçada. Mas me lembrei Da frase de dona Paola sobre procurar entender o que estava dentro de mim.
Talvez se eu falasse com alguém completamente alheio à minha realidade, conseguisse uma resposta. Na tarde de uma segunda-feira, criei coragem e bati no portão de ferro que dava acesso ao local onde seu Dário atendia. Um rapaz me reconheceu e me deixou entrar. Não senti medo, mas um desconforto, pois percebi que eu estava entrando num território que até então eu Condenava. O ambiente era simples, sem elementos exagerados. Havia um cheiro de ervas queimadas que incomodavam pouco e eu ouvi uns cânticos distantes, mas não distinguia as palavras. Fiquei esperando até que seu Dário viesse falar comigo. Ele
apareceu trajando roupas comuns, com um olhar tranquilo, como se já soubesse que eu viria. Sentei num banquinho de madeira, respirei fundo e disse: "O senhor talvez me conheça. Eu lidero o templo aqui perto." Ele fez que sim, com Uma expressão de quem não se surpreendia. Eu sei em que posso ajudar. Não tive coragem de omitir nada. Contei sobre a caixa, o vídeo, o desânimo da congregação, meus comportamentos escondidos. Falei do desequilíbrio que vinha sentindo, da incerteza sobre estar ou não sob alguma influência maligna. Ele me ouviu com calma. Quando terminei, ficou alguns segundos em silêncio,
como quem medita. Em seguida, disse algo que ficou Marcado. Existem trabalhos que perdem a força se não são alimentados, mas o Senhor alimentou essa coisa ao usar como troféu. Só que, mais importante do que isso, quem alimentou foi a sua própria vaidade. Um coração dividido abre portas sem nem perceber. Aquilo soou como um golpe. Eu me dei conta de que não adiantava culpar a caixa ou quem quer que a tenha colocado ali. A verdadeira brecha vinha de dentro de mim. Seu Dário me olhou firme e arrematou. Se quer Realmente limpar seu altar, comece limpando sua
vida. Objetos são só objetos. A força vem de quem os agarra. Saí de lá com a certeza de que meu maior desafio seria admitir meus erros e mudar. Percebi que por muito tempo eu alimentara o orgulho e agora estava pagando o preço. Não havia uma solução mágica. Eu teria que enfrentar tudo isso sozinho, com sinceridade e sem teatro. Naquela noite, quase não dormi. Lidia Anotou meu abatimento, sentou-se ao meu lado e perguntou: "Você quer me contar alguma coisa?" Ela não estava brava, apenas triste. Segurei a mão dela e confessei. Tenho agido como se fosse mais
importante do que realmente sou. Eu menti para mim mesmo, dizendo que era forte. Fiz pouco caso dos sinais ao meu redor. Ela me ouviu em silêncio. Ficamos assim por vários minutos, sem dizer nada, só com os corações expostos. Ali foi o começo de uma Reconciliação, embora eu ainda precisasse percorrer um longo caminho. No dia seguinte, tomei a atitude mais difícil da minha trajetória. Chamei Raul e pedi que ele deletasse grande parte dos vídeos que tínhamos postado. Mas, pastor, são vídeos que deram muito alcance. Eu sei, Raul, mas não quero mais que as pessoas assistam aqueles
momentos fabricados. preciso recomeçar sem esse aparato todo. Ele ficou surpreso e insistiu que eu Reconsiderasse, mas permaneci firme. Não era simples apagar o que me deu fama, mas eu sentia que era um passo necessário. Também mandei mensagens para algumas pessoas que tinham se afastado, oferecendo um pedido de desculpas pelas vezes em que exagerei ou falei com arrogância. Nem todos responderam, mas alguns agradeceram meu contato e disseram que precisavam de tempo para ver se tudo aquilo era mesmo real. Foi duro ouvir, mas Compreensível. Eu construí uma imagem pomposa e deixei de ser autêntico há muito tempo.
Voltei ao templo numa noite em que sabia que estaria vazio. Não liguei as luzes fortes, nem levei microfone. Andei pelos corredores, observando os bancos empoeirados. Aquela falta de movimento doía, pois me fazia lembrar dos cultos cheios de aplausos. Sentei no altar num degrau de madeira e fechei os olhos. Fiquei ali sem palavras, sentindo o peso das minhas Escolhas. Após alguns minutos, algo dentro de mim pediu para orar, mas não com a voz que eu costumava usar. Foi uma oração silenciosa, na qual confessei tudo o que guardava, meu medo, minha vergonha e meu arrependimento por ter
levado algo estranho para dentro do templo e ter abusado da boa fé das pessoas. Nos dias seguintes, tomei a decisão de fechar as portas para a reforma. Anunciei que passaríamos por um processo de Reestruturação. Não falei em vídeo, apenas comuniquei por mensagens e por um pequeno cartaz na porta. Durante esse período, deixei de lado qualquer postura de líder absoluto. Pedi a um grupo de obreiros que me ajudasse na limpeza do local. Lídia também participou, organizando objetos antigos e papéis que estavam empilhados. Enquanto limpávamos, encontrei num canto do depósito o pano vermelho que envolvia a caixa
que chutei. Alguém o havia recolhido, mas Ali ele ficou largado. Olhei para aquilo e senti um frio interno ao lembrar do modo como tratei a situação. Resolvi queimá-lo do lado de fora, não como um ato de desafio, mas como uma forma de me desfazer de uma lembrança ruim. Não houve manifestação, nem ruídos estranhos. Foi apenas uma queima simples e eu encarei aquilo como um símbolo de que precisava virar a página. Depois de algumas semanas, reabrimos o templo com um novo nome, casa da verdade e do Cuidado. Nada extravagante, apenas algo que transmitisse a essência que
eu agora procurava. No culto de reabertura apareceram poucas pessoas, talvez umas 20. Preparei-me para falar, mas não com o tom espetacular de antes. Segurei um folheto com uns versículos escolhidos e comecei a contar com honestidade o que se passara comigo nos últimos meses. Não exagerei, não aumentei nada. Contei que estava sendo consumido pela vaidade, que me deixei levar pela fama e que acabei Misturando meus conflitos internos com um objeto que apareceu na porta. Expliquei que o problema maior não era a tal caixa, mas o que estava dentro de mim. Algumas pessoas ficaram surpresas, outras me
olharam com certa desconfiança, mas vi no semblante de Lídia um brilho de esperança. Conforme eu falava, senti que não precisava gritar ou usar frases de efeito para ser ouvido. Quando terminei, não houve aplausos, mas um momento de reflexão em Silêncio. Duas senhoras se aproximaram e disseram que entenderam o que eu quis dizer. Um jovem me agradeceu pela sinceridade. Aquilo para mim já era um começo. Algum tempo depois, dona Paola voltou a frequentar os cultos. Num dos encontros, ao final, ela se levantou e fez uma oração curta, pedindo que toda a arrogância fosse dissipada e que
apenas a verdade florescesse. Foi uma oração simples, sem nenhum grande alarde. Agradeci com o coração em paz, pois Sabia que eu precisava daquela bênção. Raul também voltou, dessa vez sem câmera. Disse que sentia falta das reuniões e que compreendia o meu propósito atual. Não conversamos muito a respeito do passado, pois já estava claro que não seguiríamos mais o mesmo modelo de antes. Hoje ele participa de vez em quando, cuidando apenas do som ambiente, sem transmissão. Sobre Seudário, eu nunca me tornei próximo, mas não voltei a Enxergá-lo como rival. Passei pela rua dele algumas vezes, cumprimentei-o
de longe e ele retribuiu com um aceno. Acho que ambos entendemos que cada um tem o próprio caminho e que respeito pode existir mesmo entre crenças distintas. Atualmente, minha relação com Lídia está se reconstruindo. Ela me acompanha em alguns trabalhos sociais que a pequena congregação realiza. Não somos grandes, não temos holofotes e isso não me incomoda mais. Eu prefiro lidar com meia Dúzia de pessoas dedicadas do que atrair multidões com promessas vazias. Se me perguntam o que mudou, eu diria: "Quase tudo." A principal mudança aconteceu dentro de mim, quando percebi que muito do que eu
considerava ataque espiritual era consequência do meu orgulho. Não vou dizer que tudo se resolveu da noite para o dia. Ainda tenho dias difíceis, inseguranças e dúvidas. Mas o ambiente voltou a ser leve e as pessoas já não falam de fenômenos estranhos ou Microfones quebrando na hora certa. É como se ao limpar meu interior eu tivesse limpado também o lugar onde piso. Numa manhã encontrei com dona Paola no corredor de entrada e ela comentou: "Que bom ver o pastor rezando sem alarde, sem gritos. Assim a gente percebe que é de verdade. Eu apenas sorri. Não precisei
dizer nada, pois estava aprendendo que nem sempre é preciso discursar para provar minha fé. O que ficou de mais importante nessa História é a lição que levei sobre o ego. É fácil achar que somos especiais quando as pessoas nos aplaudem. É fácil usar a fé como um pretexto para esconder o que há de errado dentro do nosso coração. Mas tudo isso só sustenta uma fachada frágil. Quando surge algo inesperado, seja um objeto numa caixa, um ritual na porta ou até uma crítica nas redes, essa fachada se rompe, revelando as rachaduras que fingíamos não ver. Hoje
eu olho para aquele Episódio como um divisor de águas. Entendi que a verdadeira luta não é com o mundo lá fora, mas com as inclinações que carrego. Se eu não estivesse tão envolvido em mim mesmo, aquela caixa de pano avermelhado teria sido apenas um acontecimento curioso, sem força para me desestabilizar. Mas a minha soberba a transformou em um gatilho para desencadear a queda. E foi preciso despencar para perceber que meu orgulho era o real inimigo. Meu nome continua Sendo Víctor Souza. Mas se algum dia me chamarem de pastor, que seja porque veem a sinceridade do
meu caráter e não porque eu faço um espetáculo no altar. Agora deixei de buscar holofotes e estou trabalhando para ser apenas um servo fiel, disposto a ouvir e a cuidar de quem chega em busca de alívio. A casa da verdade e do cuidado segue pequena, porém limpa de artifícios. E sinceramente é tudo o que desejo. Antes de irmos para o próximo Relato, se você é novo por aqui, não se esqueça de se inscrever no canal e ativar o sininho para receber as próximas histórias. Sua presença é importante e seu apoio é essencial. Bem, vamos continuar.
Boa noite, Dom. Meu nome é Raquel Duarte. Sempre tive convicção de que meu propósito de vida era ser mãe. Quando eu era criança, passava horas brincando de cuidar de bonecas. Aninhava almofadas no colo, fingindo que eram bebês. Sonhava Em sentir um filho crescendo dentro de mim. Eu me casei cedo aos 23 anos, mas demorei muito para conseguir a estabilidade que eu e meu marido julgávamos necessária para formar família. Eu trabalho como costureira em casa e Sérgio, meu marido, presta serviços em uma pedreira da região. Não temos muito, mas somos esforçados e nunca nos faltou o
básico. Com o tempo bateu aquela certeza de que era hora de tentar. Eu e Sérgio passamos por todo Tipo de recomendação médica que os postos de saúde podiam oferecer. Fizemos exames, acompanhamentos, mas nada apontava um problema definido. Os meses foram se arrastando, um ano, 2 anos, 3 anos, sem sucesso. E na nossa pequena comunidade rural existe uma espécie de tradição de recorrer a chás, infusões e benzimentos quando a medicina não resolve. Toda senhora mais velha tinha a sua receita miraculosa e eu, na ânsia de engravidar, passei a testar qualquer Indicação que me dessem. Preparei banho
com folhas de laranja, chá de alecrim, de boldo, de arruda, de guiné, tudo. Em algumas manhãs, eu acordava com a boca amarga, pois a véspera tinha sido dedicada a engolir receitas estranhas. Alguns vizinhos sugeriam até banhos de pétalas e velas acesas no quintal. Fiz sem reclamar, só para não escutar depois que fui teimosa e deixei de tentar algo. Mas no fim nada mudava. Eu continuava sonhando em ver um resultado Positivo no exame de farmácia que nunca vinha. Em uma tarde quente, enquanto eu vendia umas peças de artesanato na feirinha da vila, uma mulher que eu
só conhecia de vista, chamada Fernanda, se aproximou com um semblante de quem tinha segredos importantes. Há no povoado alguém capaz de resolver seu problema. Ela não usou a palavra bruxa, mas fez menção a uma senhora conhecida por atender mulheres que não conseguiam engravidar. garantiu Que a tal pessoa não cobrava caro, mas que era preciso ter fé. Eu ouvi com atenção, mas não queria criar expectativas. Ainda assim, anotei o endereço em um papelzinho. Contei a Sérgio sobre a conversa. Ele me olhou com desconfiança. Já tínhamos tentado tantas coisas e tudo parecia inútil, mas no fundo nós
dois estávamos exaustos da espera e a ideia de alguma ajuda extra, mesmo que fosse duvidosa, começou a nos rondar. Ele acabou cedendo quando Percebeu que ao menos eu pararia de me culpar caso desse errado outra vez. No dia combinado, ele me levou até as proximidades do lugar, mas não pôde ficar comigo. Precisava trabalhar e havia mais de uma hora de caminho para voltar. Prometi que me viraria sozinha. Fiquei lá diante de uma casa simples de madeira envelhecida, cujo quintal tinha bananeiras e galinhas ciscando. No alpendre, algumas mulheres esperavam, aparentavam cansaço e Expectativa. Entrei na fila
sem saber direito o que aconteceria quando chegasse a minha vez. Enquanto aguardava, eu quase não conversava com ninguém, mas à minha frente havia uma moça muito comunicativa que não sossegou enquanto não puxou o assunto. O nome dela era Iara, tinha mais ou menos a minha idade e se apresentava como manicure na vila próxima. Conversamos sobre nossas tentativas de engravidar, sobre exames e consultas frustradas. Ela Me disse que sabia de outra mulher que tivera sucesso com essa benzedeira, que era milagreira. Naquele dia, a fila estava imensa e fazia um calor insuportável, mas acabei me sentindo menos
sozinha com aquela companhia. Quando finalmente chegou a vez de Iara, ela me desejou sorte e entrou na casa. Cerca de 20 minutos depois, saiu um pouco abatida. Aproximei-me para saber como tinha sido, mas ela não disse muito. Só fez um sinal De que me esperaria do lado de fora. Entrei então cheia de perguntas na cabeça. Lá dentro, a dona da casa, que se chamava Raimunda, me recebeu. Era uma senhora de pouco mais de 60 anos, pele morena, cabelos grisalhos presos em um coque baixo. O ambiente cheirava a incenso misturado a mato queimado. Ela pediu para
eu contar um pouco da minha história e eu falei das minhas dificuldades para engravidar. Ela apenas a sentia enquanto me ouvia, mexendo num Punhado de ervas sobre a mesa. De repente, começou a rezar em voz baixa, passou uma fumaça de ervas ao redor do meu corpo e fez uns sinais com os dedos nas minhas costas e na minha barriga, como se estivesse desenhando algo no ar. Eu não entendia nada, mas ficava quieta, tentando interromper. Após isso, disse que via em mim uma grande possibilidade de ser mãe, mas que minha energia estava travada por alguma inquietação.
Entregou-me um saquinho de pano amarrado Com uma fita vermelha e recomendou colocar debaixo do travesseiro. Também me deu um frasquinho com um líquido amarelado e amargo que eu deveria tomar por sete dias antes de dormir. Paguei uma pequena quantia que ela pediu e me despedi, ainda confusa, mas estranhamente esperançosa. Do lado de fora encontrei Iara. Ela me convidou para tomar um suco em sua casa, que ficava perto de onde estávamos enquanto esperávamos nossos Respectivos transportes. Aceitei lá. Ela contou que a dona Raimunda tinha sido bem menos otimista com ela, que tinha dito que Iara precisaria
de mais de uma sessão, pois havia algo bloqueando seu ventre. algo que não se resolvia só com aquele primeiro ritual. Eu senti empatia, apesar de mal conhecer Iara, a dor dela era a mesma que a minha. A partir desse dia, eu e Iara nos aproximamos. Trocávamos mensagens quase todos os dias. Ela me perguntava como eu Estava reagindo ao remédio e eu perguntava se ela tinha voltado à casa da benzedeira. Ficamos amigas com uma rapidez que me surpreendeu. A maioria das minhas conhecidas já tinha filhos e eu sentia que não podia desabafar sobre a dificuldade de
engravidar sem ouvir conselhos vazios. Com Iara era diferente. Nós estávamos na mesma situação. Aquilo me confortava. Depois de quase dois meses, notei um atraso no meu ciclo. Fiz um teste de farmácia e Pela primeira vez vi aquele resultado positivo. Fiquei em choque. Mostrei para Sérgio que riu, chorou e me abraçou tudo ao mesmo tempo. Não sabíamos se seria algo firme ou se duraria pouco, mas a confirmação médica chegou. Eu estava grávida de pouco mais de quatro semanas. Quando contei a Iara, ela ficou em silêncio por uns segundos, então deu um sorriso forçado e disse que
eu merecia aquela bênção. Agradeci muito a ela pelo apoio, mas percebi que ela tinha ficado Um pouco abatida. Não a culpei, pois eu também ficaria assim se ela engravidasse e eu ainda não tivesse conseguido. Para amenizar, sugeri que continuássemos procurando soluções juntas, que eu acompanharia ela onde fosse. Ela agradeceu, mas mudou logo de assunto. Os dias foram passando. Eu sentia um misto de alegria e preocupação. Cada pontada na barriga me deixava apreensiva, com medo de perder o bebê. No povoado, algumas pessoas começaram a dizer que eu Deveria voltar à dona Raimunda para agradecer. Outros recomendavam
rezar, santo expedito, fazer mais um chá de canela, comprar medalhas de santos. O curioso é que Iara não comentava mais nada sobre a benzedeira ou sobre novos rituais para engravidar. Estava sempre esquiva. Uma noite, ela apareceu na minha casa com um presente. Era um pequeno amuleto feito de pano escuro, costurado, bem rente, como se houvesse algo dentro. Ela me disse que era um Protetor para a gravidez, que tinha ganhado de uma conhecida e agora queria me dar. É para afastar qualquer inveja ou mal olhado. Achei gentil, mas no fundo senti algo estranho ao segurar aquele
tecido. Tinha um cheiro que me lembrava mofo, mas não quis parecer ingrata. Sorri e agradeci, dizendo que o guardaria em uma gaveta. Mais tarde, naquela mesma noite, fiquei enjoada. De repente, corri para o banheiro. Sérgio achou que fosse normal. Afinal, enjoo na Gravidez é comum. Ainda assim, fiquei com uma sensação de mal-estar diferente. Passei mal por quase uma hora, mas adormeci logo depois. Acordei na madrugada com a impressão de que tinha ouvido algum barulho no quintal. Nem cheguei a levantar, apenas tentei recobrar o sono, mas o coração estava acelerado. No dia seguinte, enquanto varria a
casa, achei marcas pequenas no chão do quintal, como se alguém tivesse pisado na terra molhada. Não era uma Pegada de bicho conhecido. Tinha formato estranho, quase triangular. Mostrei para Sérgio que deu de ombros, dizendo que poderia ser um cachorro com uma pata deformada ou algo assim. Ainda assim, não consegui tirar aquilo da cabeça, pois as marcas pareciam exercer alguma influência sombria. Tapei as marcas com um pedaço de papelão e segui a vida. Nessa mesma semana, Iara me convidou para passar a tarde na casa dela. Falou que tinha uma surpresa. Quando cheguei, Ela me serviu um
caldo de legumes bem quente, dizendo que era bom para a gestante. A cada colherada sentia um amargor no fundo da garganta, algo que me incomodava. Ela ficou me observando comer. Na metade do prato, pedi licença para ir ao banheiro. Lá senti dores no estômago. Meu rosto suava frio. Ao voltar, Iara perguntou se eu estava bem. Não quis preocupá-la, mas a cara dela me deixou alerta. tinha um olhar fixo em mim, como se me analisasse. Eu disse que Preferia parar de comer. Ela não insistiu. Ficamos ali conversando sobre coisas aleatórias e a certa altura ela comentou:
"Às vezes imaginava como seria te ver sem essa obsessão pela maternidade." A frase soou Rud, mas ela logo se corrigiu, dizendo que era só uma maneira de falar. Antes que eu pudesse perguntar mais, ela mudou de assunto novamente. Quando cheguei em casa, a dor no estômago piorou. Tive febre durante a noite. Sérgio quis me levar a um posto De saúde, mas lá não descobriram nada específico. Me deram um remédio para Enjoo e recomendaram repouso. Uma enfermeira chegou a dizer que poderia ser o próprio estresse da gravidez. No dia seguinte, melhorei, mas fiquei um pouco desconfiada.
Porque aquele caldo estava tão estranho? Com o passar do tempo, Iara voltou a se tornar mais distante. Quando eu falava sobre o bebê, ela ficava calada, olhando para o chão. Uma vez comentei que eu tinha o Pressentimento de que seria uma menina. Ela soltou um riso sem humor e disse: "Às vezes a gente recebe o que não merece. Aquilo me atingiu como uma pedrada. Perguntei o que ela queria dizer com aquilo e ela apenas balançou a cabeça fugindo do assunto. No fundo, eu entendia o que estava acontecendo. Ela se sentia injustiçada, pois eu engravidei e
ela não. Ainda tentei oferecer ajuda financeira caso ela quisesse procurar uma clínica na cidade Maior, mas ela recusou, dizendo que não gostava de caridade. Apesar disso, eu queria manter a amizade. O tempo passava e a minha barriga crescia. Mas a sensação de insegurança também aumentava. Eu não conseguia mais dormir direito. Tinha pesadelos com sombras no meu quarto, com risadas abafadas em cantos escuros da casa. acordava sobressaltada, sem saber se estava sonhando ou não. Sérgio dizia que era normal sentir medos na gravidez, mas Algo em mim gritava que não era só isso. Em uma tarde qualquer,
Iara apareceu sem avisar, trazendo sacolas de frutas e verduras. Disse que queria preparar um almoço especial para mim, já que eu vivia reclamando que quase não tinha apetite. Vou fazer tudo com muito carinho, você vai ver. Achei a oferta estranha, dado o clima recente entre nós, mas aceitei. Fui tomar banho enquanto ela cozinhava. No meio do banho, senti um cheiro de queimado Invadindo o banheiro, algo que lembrava incenso forte. Saí depressa e avistei a casa tomada por uma fumaça esbranquiçada. Gritei o nome de Iara, mas não havia em lugar nenhum. Andei mais um pouco até
avistar sua silhueta na cozinha. Ela estava com um pano no rosto, tentando dispersar a fumaça. Me aproximei, a visão turva e caí. Tive apenas a impressão de ouvir minha respiração enfraquecer. Apaguei por completo. Quando despertei, estava Deitada na cama. Sérgio e Iara estavam lá me olhando com um misto de susto e alívio. Ele explicou que, segundo Iara, tinha acontecido apenas um pequeno incidente na panela, mas não houve fogo de verdade, só aquela fumaça. Meu marido disse que tentou me levar ao posto de saúde, mas não conseguiu o carro do patrão emprestado na hora. Iara jurou
que eu tinha desmaiado do nada. Negou qualquer anormalidade na fumaça. Os dois minimizaram a situação, mas eu sabia que Havia algo muito errado ali. Depois desse episódio, passei a ter sensações mais estranhas. Certa noite, acordei com a sensação de que alguém estava parado do lado de fora da janela do quarto. Não era ventania nem passo de animal. Parecia um roçar leve na parede num ritmo cadenciado. Chamei por Sérgio, mas ele dormia pesado. Levantei devagar e olhei pela fresta da janela, sem acender a luz, para não denunciar minha presença. Só avistei o quintal escuro. Não dava
para distinguir nada. Voltei a deitar, mas a cada vez que eu fechava os olhos, tinha a impressão de escutar um arranhar na madeira da janela, como se unhas passassem bem devagar ali. Aquela foi uma das piores noites da minha vida. No dia seguinte, relatei tudo a Sérgio, que achou que talvez fosse algum bicho. Mandou eu tentar ficar calma, pois o estresse poderia prejudicar a gravidez. Ainda assim, não consegui esquecer. Fui até o quintal pela manhã. Procurei Pegadas, marcas nas paredes, mas não encontrei nada, a não ser um clima pesado que eu não sabia explicar. Uma
parte de mim queria voltar à dona Raimunda, questionar se o ritual inicial poderia ter aberto alguma porta negativa, mas a outra parte estava assustada, pois não tinha certeza de que aquilo me ajudaria a lidar com os medos. Por volta do terceiro mês, comecei a sentir fortes enjoos e dores frequentes. Meus exames indicavam que o bebê ainda Estava se desenvolvendo, mas eu parecia mais fraca a cada dia. A médica do posto pediu que eu redobrasse os cuidados, bebesse mais água, evitasse desgastes. Sérgio assumiu mais tarefas na casa, mas não podia largar o trabalho. Eu vivia abatida
e às vezes sentia calafrios repentinos mesmo nos dias quentes. Em uma das consultas de pré-natal, a enfermeira que me atendeu perguntou se eu estava consumindo algum chá ou remédio caseiro sem orientação, pois Meus exames mostravam alterações estranhas. Neguei, embora tivesse feito uso do líquido amarelado que a dona Raimunda me dera tempos atrás, que, aliás, eu já tinha acabado. Ela recomendou precaução, pois qualquer substância poderia prejudicar o feto. Comecei a me sentir culpada, pensando se aquele ritual inicial tinha sido uma boa ideia. Certa tarde, ao arrumar meu guarda-roupa, reencontrei o amuleto de pano escuro que Iara
me dera. Estava Guardado numa gaveta. Eu o peguei nas mãos e senti uma espécie de vertigem, como se estivesse febril. Resolvi abri-lo para ver o que tinha lá dentro. Estava costurado com uma linha resistente, então usei uma tesourinha de bordar para desatar os pontos. O que encontrei me perturbou. Havia uma mistura de folhas secas, pedaços de algo que pareciam unhas ou ossinhos, além de um pano menor, tingido de um vermelho que não parecia tinta. Fiquei Horrorizada. Não sabia se era alguma simpatia do bem ou algo muito mais sinistro. Nesse mesmo dia, liguei para Iara, tentando
disfarçar meu nervosismo, mas ela não atendeu. Mandei mensagens sem resposta. Uma parte de mim pensava em jogar aquele saco no lixo, mas senti medo de agravar algo que eu não compreendia. Acabei embrulhando tudo num pano branco e guardando num canto alto do armário. Depois de quase uma semana Sem notícias, Iara surgiu em minha porta. Disse que estava passando por problemas pessoais. Parecia cansada, com olheiras profundas. Perguntei sobre o amuleto, contei que tinha aberto. Ela me olhou feio e retrucou. Você nunca deveria ter feito isso. Aquelas coisas não são para os olhos de quem não entende
o lado espiritual. Falei que não tinha sido por mal, mas acabei perguntando porque ela me entregou algo tão estranho. Ela Respondeu irritada: "Você não percebe que muita gente por aí deseja o que você tem? Minha intenção era só te proteger de olho gordo. A expressão dela era dura, quase agressiva. Resolvi me calar. Tinha medo de insistir e agravar a situação, pois algo me dizia que ela não estava bem. No fundo, eu também sentia raiva por ter recebido um objeto tão macabro sem entender sua natureza. Minhas dores na barriga se intensificaram. Passei a ter Sangramentos leves
que vinham e iam sem explicação clara. A médica do posto de saúde recomendou repouso absoluto. Sérgio tentou ficar em casa o máximo que pôde, mas tínhamos contas a pagar. Então ele saía para trabalhar, rezando para que nada de ruim acontecesse comigo. Certa tarde, sozinha em casa, comecei a sentir uma apontada intensa no baixo ventre. Tentei me levantar, mas a vista escureceu. Me encostei na parede, respirando fundo. Então ouvi um barulho No quintal. como se alguém tivesse chutado um balde. Só me veio a cabeça que talvez Iara tivesse aparecido de novo. Andei devagar até a porta
dos fundos e notei que o trinco estava solto. Abri. Não havia ninguém, mas a sensação de pânico tomou conta de mim. Voltei para dentro. Quando cheguei ao quarto, encontrei Iara ao lado da cama, mexendo em algo sobre o meu criado mudo. Ela se virou para mim com um susto, como se eu a tivesse flagrado. Perguntei o Que fazia ali. Ela disse que a porta estava aberta e que tinha entrado para ver se eu estava bem. Reparei que havia um pequeno frasco na mão dela, um líquido escuro. Antes que eu perguntasse, ela se aproximou e tentou
me fazer engolir a força. Lutei para resistir, mas me sentia muito fraca. Ela apertou minha barriga exatamente onde eu sentia dor e eu gritei pedindo que parasse. Não conseguia me defender direito. Tudo rodava na minha cabeça. E Ara me olhou com um ar desesperado e sussurrou: "Você não entende que esse filho poderia ter sido meu? É injusto. A última coisa que lembro foi a sensação de algo amargo escorrendo pela minha garganta e a dor alucinante no ventre. Depois desmaiei. Quando acordei, estava no hospital da cidade vizinha. Sérgio estava sentado ao lado da cama, segurando minha
mão. Assim que me viu acordar, seus olhos se encheram de lágrimas. Ele me contou que cheguei Desacordada, levada por um vizinho que escutou meus gritos e entrou na casa ao veriar a fugir. Os médicos não conseguiram salvar o bebê. Disseram que houve um sangramento grande. Não se sabia ao certo a causa, mas meu útero estava seriamente comprometido. Sérgio chegou a comentar o ocorrido às autoridades locais, porém nada avançou de imediato, já que não havia rastro de Iara em lugar algum. Eu Me recusei a acreditar no que ouvia. Chorei tanto que minhas forças se esgotaram. Sérgio
tentava me consolar, mas também estava destruído por dentro. A médica explicou que devido às lesões internas, seria muito improvável que eu engravidasse novamente. Parecia que todas as minhas esperanças e sonhos escorriam pelo ralo de uma só vez. Voltei para casa, mas não suportei ficar ali por muito tempo. Cada canto me lembrava meu curto período de felicidade Grávida e a tragédia que veio depois. A pedido de Sérgio, nos mudamos para outro lugar, próximo a uma rodovia que facilitava o trabalho dele. Alguns conhecidos do povoado disseram ter visto Iara fugir rumo a uma estrada secundária. Relataram até
ter procurado a polícia local, mas as buscas não tiveram resultado. Meses depois, alguém disse tê-la visto em uma região distante, aparentemente grávida. Meu corpo se recuperou pouco a pouco, mas Meu coração não. Eu vivia com medo de tudo. Dormia pouco, tremia ao menor barulho à noite. A fé que eu tinha na vida foi aos poucos se apagando. Sérgio tentava me animar falando de adoção, mas eu não conseguia sequer pensar nisso. Era como se a maternidade me causasse repulsa, de tanto que doía lembrar o que me foi tirado. Por vezes eu pensava em voltar à dona
Raimunda, exigir explicações sobre o que realmente podia ter acontecido, mas não adiantaria. Senti que aquele caminho só aumentaria meu sofrimento. Passei então a buscar ajuda numa igreja próxima de casa. Falava com um padre, mas sem contar toda a história. Só dizia que havia sido vítima de uma grande injustiça. Ele orava por mim, pedia que eu perdoasse quem me fez mal. Eu fingia concordar, mas no fundo não conseguia. Diante das minhas crises de medo, procurei uma outra benzedeira local que se dizia devota de santos e que ajudava a quebrar Inveja. Contei-lhe em linhas gerais o que
tinha acontecido. Ela fez uma oração forte, usou água com sal para banhar minhas mãos e rezou pedindo libertação. Orientou-me a tomar banhos de ervas por dias, rezar com fé e me afastar de qualquer lembrança dolorosa. Comecei esses rituais e, de fato, as sensações de pavor foram diminuindo. Já não tinha mais tantos pesadelos. Consegui voltar a trabalhar como costureira. recebendo algumas Encomendas de enxovais de bebê, o que no início me fazia chorar sozinha à noite, lembrando da minha perda. Algum tempo depois, recebi a visita de uma prima distante que mora no interior. Ela também tinha problemas
de fertilidade e veio me pedir conselhos, pois havia ouvido falar que eu já tinha passado por vários tratamentos. Perguntou se conhecia alguma benzedeira famosa. Hesitei em responder, mas acabei dizendo com todas as letras. que ela deveria Procurar ajuda médica confiável e tomar cuidado com soluções mágicas. Não entrei em detalhes, mas deixei claro que tive uma experiência trágica. Preferi poupá-la do relato completo. Aos poucos, fui percebendo que não adiantava nutrir ódio ou buscar vingança contra Iara. Ela havia sumido e ficar me alimentando das lembranças só me deixava mais doente por dentro. Decidi que precisava continuar, ainda
que com cicatrizes. Sérgio e eu fomos levando a Vida em nossa nova casa. Ele ainda guarda uma tristeza profunda por não ter conseguido me proteger naquele dia. Eu o consolo dizendo que não foi culpa dele. Nenhum de nós esperava que algo tão cruel pudesse acontecer, ainda mais vindo de quem considerávamos amiga. Hoje carrego uma dor que não posso apagar, mas tento transformar essa dor em alerta para outras mulheres que, como eu, sonham em ser mães e ficam vulneráveis a qualquer promessa de milagre. Participamos de um grupo de apoio onde me ofereci para conversar com quem
enfrenta lutos ou traumas parecidos. Quando sinto que as lembranças me sufocam, dedico meu tempo a costurar, a passar tempo com Sérgio ou a sentar-me diante de uma pequena imagem de santa que guardo na sala. Pode ser que eu nunca supere totalmente o que houve, mas aprendi que se não me esforçar para retomar meu caminho, ficarei presa para sempre na escuridão De um passado que não escolhi. Antes de irmos para o último relato, se ainda estiver por aqui, comente o horário que está assistindo. Gosto de saber quem assiste os relatos até o final. Bem, vamos continuar.
Meu nome é Emanuel e o tempo já me curvou um pouco as costas, me deixando com mais de 40 anos marcados pelo sol e pelo sal. Minha vida inteira foi moldada por este lugar, um canto de mundo que o progresso esqueceu, onde o rio Preguiçoso se entrega ao mar e se espalha num labirinto de raízes aéreas, lama escura e água salobra, que o povo chama de mangue. A casa onde moro, herança do meu pai, que também nasceu e morreu pescador por aqui, é de madeira simples, gasta pelo tempo, erguida sobre esteios fortes para driblar a
teimosia das marés mais cheias. Para chegar ao povoado mais próximo, uma vila de pescadores com uma igrejinha e umas poucas vendas são umas boas duas horas De caminhada pela trilha que serpenteia entre a restinga e o começo do manguezal, ou um pouco menos se a maré ajudar na canoa. Só vou lá quando a necessidade aperta. Vender o peixe da semana, comprar querosene para lamparina, sal, farinha, essas coisas que a natureza ao redor não me dá. Cresci, ouvindo o som dos caranguejos na lama e o assobio do vento nos galhos secos do mangue. Achei que meu
destino estava traçado como o do meu pai, viver E morrer aqui ao lado de uma companheira, vendo os filhos crescerem e aprenderem os segredos do rio e do mar. Por um tempo pensei que tinha encontrado essa paz, mas a vida feito maré traiçoeira tem um jeito de virar tudo de cabeça para baixo quando a gente menos espera. Conheci a Larissa numa festa de São Pedro lá no povoado. Ela não devia ter nem 20 anos completos. Eu já passava um pouco dos 30. Não era dali. tinha chegado com a família de não sei onde, Buscando um
rumo. Era miúda, mas tinha uma presença que chamava a atenção. O sorriso dela parecia capaz de iluminar a noite mais escura e tinha um jeito de se mover, um gingado natural que era quase uma dança. Falava pouco, voz macia, mas sustentava o olhar, o que me fez sentir visto de um jeito que nunca tinha sentido antes. Me encantei de um jeito bobo, rápido. Foi como fisgado por um anzol invisível. Começamos a nos encontrar sempre que eu subia ao Povoado. Era uma desculpa para ir mais vezes, mesmo sem ter muito peixe para vender. Sentávamos na mureta
perto da igreja. Ela me contava dos sonhos dela de ter uma casa arrumada, filhos correndo. Eu falava do rio, das marés, do meu canto sossegado. Não levou seis meses. Ela veio morar comigo. Mudou-se com uma trocha de roupa e muitos planos. A casa antes silenciosa e meio abandonada, cheirando a peixe e solidão, ganhou cor. Cheiro de comida boa no fogão à lenha e o som da risada dela ecoando na madeira. Fiz questão que ela não precisasse pegar no pesado. O trabalho no barco, limpar peixe, consertar rede, isso era coisa minha. Ela tinha mãos delicadas e
eu achava que ela merecia descanso depois de ter ajudado a criar os irmãos mais novos desde cedo. Eu dizia todo orgulhoso: "Enquanto eu tiver força para puxar essa rede, Larissa, não vai te faltar nada, nem a você, nem aos Nossos". e me esforcei para cumprir. Ajeitei a casa o melhor que pude. Passei cal nas paredes, fiz um canteiro de temperos nos fundos que ela adorava cuidar. Construí uma ponte melhor sobre o córrego que a maré enchia. Todo sábado, quando voltava do povoado, mesmo que a venda tivesse sido fraca, eu trazia um agrado, um pedaço de
tecido estampado para um vestido novo, um pote de doce de leite, um sabonete cheiroso daqueles da cidade. Às vezes ela nem Pedia, eu via uma coisa na venda, imaginava o sorriso dela e levava. Minha vida girava em torno dela. Logo vieram os filhos. Primeiro Enzo, um menino sapeca e curioso. Dois anos depois, a Sofia, mais quieta, observadora. Os dois tinham meus traços, mas a vivacidade nos olhos era toda da mãe. Cresciam soltos, pés descalços na lama na maré baixa, correndo atrás dos pequenos caranguejos guaiamuns, subindo nas árvores baixas da restinga. Eu chegava da pescaria Cansado,
mas ver os três ali na soleira da porta me esperando, fazia qualquer esforço valer a pena. Larissa era uma boa mãe na maior parte do tempo. Cuidava deles, dava banho, contava histórias. Mas não sei dizer exatamente quando. Talvez depois que a Sofia começou a andar e falar as primeiras palavras, algo começou a mudar sutilmente. Ela ficou mais calada, mais distante. Passava horas sentada na rede da varanda, olhando pro manguezal, pro Movimento lento da água nos canais, com um olhar vazio que não parecia enxergar nada ali. O sorriso fácil foi ficando raro. Pensei que fosse a
solidão do lugar, a falta de conversar com outras mulheres, a rotina sempre igual. Tentei compensar. Passei a ficar mais tempo em casa, diminuí as pescarias mais longas, levava eles mais vezes ao povoado nos fins de semana para ver a família dela, para passear na pracinha. Mas era como tentar encher um cântaro furado. A Alegria dela parecia vazar por algum lugar que eu não conseguia ver. Foi nesse tempo que a estranheza começou a dar sinais mais claros, como peixe morto boiando na maré, coisas pequenas que a gente tenta varrer para debaixo do tapete da rotina. Um
dia, voltando mais cedo por causa de uma chuva repentina, senti um cheiro forte de perfume doce dentro de casa. Um cheiro masculino, barato, que definitivamente não era meu e que brigava com o cheiro de marezia e Fumaça de lenha. Perguntei. Ela desconversou, disse que devia ser de algum produto de limpeza novo que a mãe dela tinha dado. Engoli outra vez. Achei uma bituca de cigarro de marca, daquelas que só vendem na venda mais cara do povoado, amassada perto do caminho que desce pro pequeno Cais, onde amarro a canoa. Eu não fumava aquilo. Larissa detestava cigarro.
Ela disse que devia ser de algum canoeiro que passou por ali. A desculpa era fraca, mas eu queria Acreditar. A cabeça da gente é teimosa. A gente se agarra à imagem que construiu, à paz que deseja. Mas os sinais continuavam como marisco se agarrando ao casco do barco. Ela começou a se arrumar mais para ir ao povoado. Passava mais tempo na casa da mãe. Voltava com presentes que eu não tinha dado, com histórias vagas sobre amigas que eu nunca tinha ouvido falar. O olhar dela às vezes tinha um brilho diferente, esquivo, e a distância entre
nós na rede À noite parecia aumentar a cada dia. Quem me deu o empurrão pro abismo da verdade, sem nem imaginar a força do tombo, foi o Gilmar, um sujeito bom, pai de família, que comprava meu peixe há anos lá no povoado. Um sábado de manhã, enquanto a gente separava a melhor tainha e acertava as contas na beira do Kais improvisado, ele me chamou num canto meio sem jeito, coçando a cabeça. O Emanuel, posso te falar uma coisa com respeito. Fala, Gilmar, que foi? É que Tem um rapaz novo trabalhando lá na venda do seu
Joaquim, um tal de Renato. Ele, bem, ele anda falando muito da tua mulher por aí, sabe como é boca de povoado, né? O povo aumenta, inventa, mas ele fala com uma certa intimidade, entende? Diz que ela é muito bonita, que conversa bem, que é diferente das moças daqui. Eu não queria te preocupar, mas achei melhor te avisar. Fica de olho aberto, meu amigo. Só isso. O mundo pareceu parar por um instante. O barulho Dos outros pescadores, as gaivotas gritando, tudo sumiu. Senti um frio subir pela espinha, apesar do sol forte na cabeça. Agradeci ao Gilmar
com a voz embargada. Peguei o dinheiro quase sem contar e voltei para casa remando devagar, o coração pesando como pedra de poita. As palavras dele ecoavam na minha cabeça. Intimidade diferente, fica de olho aberto. Cada remada parecia confirmar minhas piores suspeitas. Aquela noite foi a mais longa da minha vida. O Mang, que sempre foi meu companheiro silencioso, pareceu se tornar ameaçador. Cada estalo na lama, cada pio de coruja, cada sopro de vento nos galhos retorcidos, parecia um sussurro zombeteiro. Olhei para Larissa dormindo ao meu lado, tão serena na aparência, e senti um nó na garganta,
uma mistura de amor, raiva e uma tristeza imensa. No dia seguinte, inventei uma desculpa qualquer sobre Precisar de uma peça pro motor da canoa e fui ao povoado mais cedo que o normal. Não fui direto na venda. Fiquei de longe observando e lá estava ele, o tal Renato, moreno jeito esguio mais novo que eu, talvez uns 25 anos, arrumava uns sacos na frente da venda assobeiando. Era a mesma melodia que Larissa tinha começado a cantar olar em casa nos últimos tempos. Nossos olhares se cruzaram por um breve instante. Ele desviou rápido, quase culpado. Não Precisei
de mais nada. A certeza me atingiu como um raio. Não falei com ele, não fiz escândalo. Dei meia volta, entrei na canoa e voltei para casa, remando com força, a raiva me dando uma energia que eu não sabia que tinha, mas o estômago revirado em náusea. O que me corroía por dentro não era apenas a traição em si. A quebra da confiança era o lugar. Acontecia ali, debaixo do meu teto, na minha casa, no meu refúgio, no lugar que eu construí com o meu suor Para abrigar minha família. Enquanto eu estava na lida no mar,
buscando o sustento, ela trazia outro paraa nossa intimidade. Senti-me um idiota completo, o último a saber. Imaginei os coxichos no povoado, os olhares de pena ou de zombaria dos outros pescadores. A vergonha queimava mais que o sol do meio-dia. Como pude ser tão cego? A gente se acostuma com a presença, com a rotina e para de enxergar de verdade. Pensei em mil coisas, em largar tudo, Pegar as crianças e sumir, em confrontá-la ali mesmo na frente de todo mundo, em ir atrás do rapaz e resolver do jeito que se resolvia antigamente. Mas aí eu olhava
pro rostinho dos meus filhos, pra inocência deles no meio daquela sujeira toda e minhas mãos tremiam. A coragem virava água. Passei dias nesse inferno interior, fingindo que nada estava acontecendo, mas morrendo por dentro. Observava cada gesto dela, cada palavra, buscando Confirmação onde já não havia dúvida. Ela parecia sentir minha desconfiança. Ficou mais arisca, mais defensiva. O clima em casa ficou pesado, irrespirável. A confirmação final veio numa tarde quente e abafada, prenúncio de temporal. Eu tinha dito que ia passar a noite pescando mais longe, mas a inquietação não me deixou ir. Dei uma volta com a
canoa e voltei sorrateiro quando o sol já começava a baixar, pintando o céu de laranja e roxo. Deixei A canoa escondida num braço do Mang e vim a pé pela trilha dos fundos, a que quase ninguém usa. O silêncio era quase total, só o zumbido dos mosquitos e o som distante da água. As crianças brincavam perto da horta, alheias a tudo. Me aproximei da janela do nosso quarto, a que dava para os fundos, para o emaranhado do mangue. O coração martelava no peito, doía. Respirei fundo e olhei pela fresta da veneziana. E lá estava ela
rindo, conversando baixo, com A cabeça apoiada no ombro do Renato. Ele estava sentado na minha rede, a que eu mesmo tinha tecido. A cena me atingiu com a força de uma onda na cheia. Não senti raiva de quebrar tudo. Senti um vazio imenso, uma dorca, como se tivessem arrancado algo de dentro de mim. Não sei de onde tirei forças, mas entrei em casa, não pela porta da frente, mas pela cozinha nos fundos. Eles se assustaram. O rapaz pulou da rede, ajeitando a roupa pálido. Larissa Me encarou. Os olhos arregalados de surpresa depois endureceram em desafio.
Eu tremia dos pés à cabeça, mas minha voz saiu firme, baixa, carregada de uma dor que me consumia. Pega tuas coisas, Larissa, pega o que é teu e some da minha frente agora. O rapaz não esperou segunda ordem, saiu apressado pela porta da frente, quase tropeçando, sem olhar para trás. Larissa desatou a gritar. Me acusou de tudo, que eu era um marido ausente, um bruto Ignorante, que só pensava em trabalho, que ela se sentia sozinha e infeliz naquela fim de mundo, que a culpa era minha por ela ter procurado consolo em outro lugar, que eu
nunca a amei de verdade. Cuspiu palavras venenosas. tentando me ferir onde sabia que doía. Curioso como aquela infelicidade toda não a impedia de usar as roupas que eu comprava, de comer a comida que eu trazia, de viver sob o teto que eu mantinha. "Vai embora, Larissa! Só vai", Repeti, a voz embargada, mas firme. Ela começou a jogar as roupas dela de qualquer jeito numa trouxa de pano, chorando de raiva, me xingando sem parar. O barulho atraiu as crianças que entraram correndo da horta assustadas. Enzo, o mais velho, agarrou minha perna tremendo. Sofia começou a chorar
alto, chamando pela mãe. Larissa passou por eles como se fossem invisíveis, pegou a trouxa e foi em direção ao pequeno Cis. soltou a amarra de uma canoa velha que Ficava ali e começou a remar em direção ao povoado, contra a correnteza fraca da maré vazante. Fiquei parado na porta, assistindo a canoa diminuir até sumir na curva do rio. O silêncio que ficou depois foi ensurdecedor. Olhei para os meus filhos agarrados em mim, os rostinhos molhados de lágrimas e confusão. Me ajoelhei ali no chão de terra, batida da cozinha, abracei os dois com força e desabei.
Chorei pela traição, pela família Destruída, pela minha cegueira, pela solidão que tinha voltado com força total, mais amarga do que nunca. Os dias que se seguiram foram um pesadelo acordado. Tentar cuidar de duas crianças pequenas da casa, da pescaria, tudo ao mesmo tempo, com o coração em pedaços, era uma tarefa quase impossível. Minha tia Cida, irmã do meu pai, uma mulher de poucas palavras, mas de uma força imensa, veio assim que soube. Ela morava numa casinha mais perto do povoado, mas Não pensou duas vezes. Chegou com sua trouxinha, seus rosários e sua presença firme. Não
me perguntou detalhes, não me julgou, apenas assumiu o comando da cozinha, cuidou das crianças com um carinho silencioso, remendou minhas redes e minha alma aos poucos, com sua fé simples e sua presença constante. Rezava baixo pelos cantos antes de dormir, e o murmúrio suave de suas orações era a única coisa que trazia alguma paz àela casa carregada de Tristeza. Larissa, como era de se esperar, não ficou quieta. Espalhou sua versão dos fatos pelo povoado. Pintou-se de vítima, dizendo que eu era um monstro ciumento e possessivo que a tinha expulsado por um capricho, que eu era
violento. Eu que nunca levantei a mão para ela, apesar de tudo. Os pais dela, que nunca me engoliram direito por eu ser um simples pescador sem futuro, vieram até a beira do rio fazer escândalo. gritaram, me Ameaçaram, disseram que iam tirar as crianças de mim. Foi tia Cida quem os enfrentou na ponte de madeira que dava acesso à casa. Com sua calma assustadora, disse umas poucas e boas. Falou da vergonha que a filha deles tinha feito eu passar e mandou que fossem cuidar da vida deles e deixassem minha família em paz. Eles foram embora, resmungando,
mas não voltaram. As crianças sentiam uma falta imensa da mãe. Choravam à noite, perguntavam por Ela a todo momento. Enzo ficava emburrado pelos cantos. Sofia tinha pesadelos. Eu tentava explicar com a paciência que me restava que a mãe tinha ido morar longe, que não podia voltar agora. Cada pergunta era uma faca no meu peito. Tia Cida ajudava, distraía eles com histórias, com brincadeiras, mas a ausência de Larissa era um buraco na vida deles. E foi nesse clima de dor, de perda e de adaptação difícil que as coisas estranhas começaram a acontecer De verdade. Não foi
algo súbito como um raio. Foi lento, insidioso, como a humidade que mancha a parede aos poucos. Começou com sensações, um arrepio constante nas costas, mesmo nos dias mais quentes e abafados, um frio que parecia vir do chão da casa, principalmente à noite, um frio que gelava os ossos e não tinha explicação. Depois vieram os sons, pequenos ruídos no quarto que era de Larissa, como se gavetas estivessem sendo abertas e Fechadas, ou como se alguém remexesse nos poucos pertences dela que ficaram para trás. um lenço, um pente quebrado, coisas sem valor que ela não levou na
pressa. Eu ia verificar, coração na mão e não encontrava nada fora do lugar. Às vezes, quando estava sozinho na cozinha preparando a comida, ouvia passos leves no corredor de madeira, como se alguém andasse na ponta dos pés, mas estava sempre sozinho com as crianças, que geralmente brincavam lá Fora. Enzo foi o primeiro a falar algo concreto. Acordou no meio de uma noite suando frio e veio correndo pro meu quarto improvisado na sala. Pai, tem uma moça lá fora, perto do mangue, chamando a gente. Que moça, filho? Deve ser sonho. Volta a dormir. Não é sonho,
pai. Ela fica lá na beira da água, escondida nas raízes. Ela balança pra frente e para trás e chama baixinho. Dá medo. Sofia, mesmo sendo menor, começou a dizer a mesma coisa alguns dias depois. Descreviam uma figura feminina de cabelos compridos e escuros, sempre perto da água, com uma tristeza no olhar. Diziam que às vezes ela parecia chorar, um choro silencioso que fazia o corpo deles gelar. No início, descartei como saudade da mãe, imaginação fértil de criança assustada com a mudança brusca. Mandava rezar em um Pai Nosso com a tia Cida. Deixava a lamparina do
corredor acesa a noite toda, mesmo gastando mais querose. Mas então eu Comecei a ouvir numa noite sem lua, de um breu profundo que só o mangue conhece, acordei sobressaltado com um som que me gelou o sangue. Era um choro baixinho, agudo, sofrido. Inconfundivelmente o choro de um bebê recém-nascido. Vinha da direção do manguezal, não muito longe. Levantei devagar. o açoalho rangendo sob meus pés. Fui até a janela da sala que dava para a frente da casa, para a ponte e o rio. Forcei a vista na escuridão. Não Via absolutamente nada além das formas retorcidas das
árvores do mangue e o brilho escuro da água parada nos canais. Mas o choro continuava, um lamento fino, persistente, que parecia cortar a noite. Fechei a janela com as mãos trêmulas, tranquei a porta, senti o coração bater descompassado no peito. Voltei para a rede, mas o sono sumiu. O choro ficou ecoando na minha cabeça até os primeiros raios de sol pintarem o céu. Aquilo se repetiu outras noites, não todas, mas Com frequência suficiente para minar minha sanidade. Era sempre na calada da noite, sempre vindo do mangue. Eu andava pelos cantos, a cabeça baixa, os ombros
pesados. O trabalho no barco ficou mais difícil. Minha concentração falhava. Comecei a sentir dores no corpo que não eram só do esforço físico, pontadas nas costas, como agulhadas quentes, que vinham do nada e sumiam do nada. Dores de cabeça constantes, um cansaço que me derrubava, mesmo que eu não fizesse Quase nada o dia todo. Perdi peso. As olheiras se tornaram parte do meu rosto. Tia Cida, com sua sensibilidade aguçada, percebia tudo. Um dia, enquanto me servia um prato de pirão no almoço, ela pousou a mão no meu ombro e disse com a voz preocupada: "Emanuel,
meu filho, você não tá nada bem. E não é só tristeza, não? Essa casa parece que tem um peso nela, uma coisa ruim pairando no ar. Tem noite que eu mesma acordo com a sensação De ter mais gente aqui dentro. E esse frio que não larga a gente? Você precisa se benzer, menino. Precisa de ajuda. É só cansaço, tia. É muita coisa para minha cabeça. Não é só cansaço, Emanuel. Eu conheço tristeza e conheço coisa ruim. E aqui tem coisa ruim, ou pelo menos uma tristeza tão grande que virou assombração. Você tem que fazer alguma
coisa. Confesso que a ideia me assustava. Nunca fui de acreditar nessas coisas de benzedeira, de feitiço. Meu Pai era um homem prático. Só acreditava no trabalho das mãos e na força da maré. Mas o desespero estava me roendo por dentro. o medo pelas crianças, o meu próprio medo, a sensação de estar perdendo o controle da minha própria casa, da minha própria mente. E havia aqueles momentos estranhos, quase vergonhosos. Às vezes, do nada me vinha uma saudade lancinante da Larissa, uma vontade irracional de ir atrás dela no povoado, De pedir para ela voltar, de esquecer tudo.
A imagem dela sorrindo me vinha à mente e meu coração apertava. Logo em seguida, a raiva e a mágoa voltavam com força, e eu me sentia um fraco, um idiota por ainda pensar nela depois de tudo. E percebi que era justamente nesses dias quando essa confusão de sentimentos me atacava mais forte, que as coisas em casa pioravam. O choro do bebê ficava mais nítido, as crianças mais agitadas e medrosas, a sensação de Presença invisível mais forte. Tia Cida não desistiu da ideia. falou de novo com mais firmeza. Emanuel, escuta tua tia velha. Do outro lado
do rio, depois da ponte caída, mora uma senhora. Dona Zefa é antiga moradora, conhece tudo dessas plantas, dessas rezas de proteção. O povo daqui respeita ela. Dizem que ela sabe lidar com essas energias ruins, com encosto, com quebranto. Vai conversar com ela. O que você tem a perder? Pior do que tá não Fica. Eu hesitei por dias. A imagem do meu pai, cético e prático, me vinha à mente. Mas a imagem dos meus filhos assustados, do meu próprio reflexo no espelho, um homem definhando de angústia, falou mais alto. Numa manhã de céu nublado, deixei Enzo
e Sofia aos cuidados firmes da tia Cida e peguei a canoa. Remei em direção à ponte caída, um lugar que evitava por ser meio ermo. A correnteza parecia mais forte. O vento soprava contra. Senti um peso enorme no Peito, uma voz na minha cabeça dizendo para voltar que era tudo besteira, que eu estava ficando louco. Mas continuei remando, movido por um desespero que superava o ceticismo. A casa de dona Zefa era pequena, de taipa, quase escondida pela vegetação nativa. Um cheiro forte de mato e fumaça pairava no ar. Ela estava sentada na soleira da porta,
uma senhora muito idosa, a pele enrugada como casca de árvore, mas com olhos incrivelmente Vivos e penetrantes. Me olhou chegar sem surpresa alguma, como se soubesse quem eu era e o que me levava ali. Chega, meu filho, a peia dessa canoa e senta um pouco. A maré anda trazendo muita coisa amarga paraa tua margem. Sentei num banquinho baixo que ela me ofereceu e desatei a falar. Contei tudo desde o começo. A felicidade inicial com Larissa, a mudança dela, a traição dolorosa, a expulsão, a solidão, os Medos das crianças, a moça triste, o choro do bebê
no mangue, as dores no corpo, a angústia que me consumia, a saudade misturada com ódio. Falei sem parar, como se abrisse uma comporta de represa. Dona Zefa ouviu tudo em silêncio, pitando calmamente seu cachimbo de barro, soltando baforadas de fumaça com cheiro de ervas. O olhar dela nunca deixou o meu. Quando finalmente me calei exausto, ela ficou um tempo em silêncio, olhando para o manguezal que Se via ao longe. Então falou com uma voz calma, mas firme. Tem raiz de mágoa profunda fincada lá na tua casa, Emanuel. Coisa feita e deixada com raiva, com desejo
de te ver rastejando na lama da tristeza. Essa energia ruim, esse veneno de sentimento, abriu porta para coisa mais antiga. Esse mangue aqui guarda muita história, muita dor de gente que já se foi, de criança que não vingou. A moça triste que teus filhos vêm não é gente de agora, é sombra de um Tempo antigo, espírito sofredor que se achega onde tem brecha de dor e desespero. E esse choro de criança é lamento que ficou agarrado no vento eco de alguma tragédia esquecida que a energia ruim da tua casa despertou. A tua ex-mulher, na raiva
dela, deixou essa porta aberta. E você, meu filho, com tua dor, tua mágoa e essa saudade que te roi, tá alimentando essas sombras sem perceber. Elas se fortalecem na tua fraqueza. Não usou a palavra bruxaria, Nem feitiço. Falou de energia, de mágoa como raiz, de portas abertas, de espíritos antigos do lugar atraídos pela dor. Aquilo vindo daquela senhora com seus olhos sábios, pareceu terrivelmente real, mais do que qualquer explicação lógica que eu tentasse encontrar. Dona Zefa me levou para um quartinho nos fundos da casa, um lugar impregnado com o cheiro de folhas secas e terra
molhada. Lá, ela me deu um banho demorado com uma água escura, cheia de Ervas que picavam a pele e ao mesmo tempo pareciam limpar algo por dentro. Enquanto jogava a água com uma cuia sobre minha cabeça, ela rezava baixo, numa língua que eu não entendia, mas que soava antiga e poderosa. Depois me fez beber um chá escuro, amargo, com gosto forte de raiz e terra. Por fim, me deu um pequeno saquinho de pano grosso, amarrado com um cordão encerado. Dentro senti o toque de sementes, pedrinhas e talvez um dente de algum bicho. Carrega Isso sempre
contigo no bolso da calça. Não deixa ninguém tocar. É para fechar teu corpo, para te dar firmeza. E reza, Emanuel, reza do teu jeito, com fé no coração. Pede proteção paraa força maior que governa tudo isso. Limpa a tua casa. Queima casca de alho e folha de arruda nos cantos, abre as janelas, deixa o sol e o vento entrarem e levarem o que não presta. E o mais difícil, meu filho, tenta limpar teu coração dessa mágoa. Perdoar não é esquecer a ofensa, é Soltar a corrente que te prende ao passado e a dor. Deixa ir
o que não te serve mais, senão a sombra encontra sempre lugar para se agarrar. Voltei para casa remando devagar, sentindo um cansaço imenso, mas com uma fagulha de esperança no peito. Contei tudo para tia Cida, que ouviu com atenção e concordou com a cabeça. Nos dias seguintes, fizemos tudo que dona Zefa mandou. Defumamos a casa com as ervas indicadas, o cheiro forte Impregnando tudo. Abri todas as janelas, deixei o sol forte do meio-dia entrar e varrer as sombras. Tia Cida intensificou suas rezas, colocou um copo com água e sal grosso atrás da porta principal. Eu
carregava o patuá no bolso, sentindo seu peso como um lembrete constante. Não foi uma cura mágica instantânea, foi uma luta diária, tentar controlar os pensamentos de raiva e saudade, focar no presente, nos meus filhos, no trabalho, rezar, mesmo sem muito jeito, pedindo Força e proteção. Aos poucos, muito aos poucos, as coisas foram mudando. O choro do bebê ficou mais raro, mais distante, até sumir por completo. As crianças pararam de falar da moça triste, voltaram a dormir a noite toda nos seus catres. O frio estranho na casa diminuiu. O ar pareceu ficar mais leve, mais respirável.
Eu mesmo comecei a me sentir mais forte, menos oprimido. As dores no corpo foram sumindo, o sono melhorou. Um dia, meses depois, Gilmar Me trouxe notícias no povoado. Disse que Larissa estava morando de favor na casa de uma prima distante, numa outra vila de pescadores. O tal Renato tinha sumido no mapa assim que soube que ela estava esperando um filho dele. Deixou-a sozinha, sem nada. Segundo Gilmar, ela estava passando necessidade, com vergonha de pedir ajuda à família. mandou um recado por ele, um pedido tímido de algum dinheiro para comprar coisas pro bebê que ia chegar.
Senti um Turbilhão de coisas, raiva, pena, um certo gosto amargo de justiça feita e logo em seguida vergonha por sentir isso. Contei para a tia Cida, que me olhou com seus olhos sábios e cansados. A vida cobra seu preço, Emanuel, mas não se alegre com a desgraça alheia, que isso também atrai coisa ruim. Se teu coração mandar ajudar essa criança que não tem culpa de nada, ajuda. Mas não abre a porta da tua casa, nem da tua vida, para ela de novo. O que Passou, passou. A corrente que dona Zefa te ajudou a quebrar, não
deixa que ela se emende outra vez. Segui o conselho dela. Mandei um dinheiro pelo Gilmar, o suficiente para o básico. Fiz isso outras poucas vezes, quando chegava algum recado desesperado, não por amor, nem por culpa. Talvez por pena ou por saber que aquela criança seria irmã dos meus filhos. Mas nunca mais a vi, nunca respondi aos recados diretamente. Nunca deixei que Ela se aproximasse da minha casa, da minha margem do rio. A porta que se fechou naquele dia doloroso permaneceu fechada. Hoje a vida segue seu curso como a maré que vai e vem. Enzo já
é um rapazinho. Aprende rápido os segredos da pesca. Me ajuda no barco com orgulho. Sofia é a alegria da casa. Tagarela, esperta, muito apegada a tia Cida, que continua conosco, firme como uma raiz de mangue, nosso porto seguro. A casa ainda guarda as marcas do passado. As Lembranças dóem às vezes. O manguezal à nossa frente continua misterioso, com seus sons noturnos e suas sombras profundas. Numa noite muito quieta, se prestar muita atenção, ainda acho que escuto um eco longinco de lamento na viração, mas aprendi a não dar ouvidos, a focar na reza silenciosa que tia
Cida me ensinou. As cicatrizes da traição e do medo nunca somem por completo, ficam na alma como marcas de rede na pele. Mas aprendi que a gente pode viver com elas E que a força para seguir em frente vem da fé, do amor dos que ficam. do trabalho honesto e da paz que a gente luta para reconstruir dentro do peito. Tia Cida sempre diz que a maior proteção contra qualquer mal é um coração limpo e a consciência tranquila. E é isso que eu busco dia após dia aqui no meu canto, ouvindo o chamado do rio
e do mar, e agradecendo por ter sobrevivido à maré da mágoa. Ei pessoal, obrigado por ouvirem. Clique no sininho de notificações para ser alertado de todas as futuras narrações. Lanço vídeos novos todos os dias por aqui. Espero te ver nos próximos. Agora na tela, vou deixar outros dois bons vídeos que sei que irão gostar. Te vejo por lá.